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joelho

Coisa bem feia é joelho. Não me afeiçoa a palavra, nem a parte do corpo, em que pese reconheça a importância. Tanto reconheço, que se eu jurar algo pelos meus joelhos, será verdade. Justifico: me falta a memória para lembrar quando a expressão surgiu, talvez, nos idos de 2010. Acho. Eu fui muito dramática em 2010.
Pode ser que, embalada por um café passado, quase frio e sem açúcar, não menos amargo que a pauta da conversa com um amigo, tenha surgido a dúvida sobre algum sentimento que profetizei.
“Jura" - ele deve ter perguntado. “Pelos meus joelhos, juro pelos meus joelhos!” - lembro de ter respondido.
Os joelhos são feios e úteis. São complicados e importantes. Entre o fêmur, a tíbia e a fíbula; colaterais, cruzados e meniscos. É como o amor. Entre o eu te amo, a entrega e a vida; medos, expectativas, preservação.
Por que as crianças estão sempre com os joelhos ralados? Porque são destemidas. Até que se abra o primeiro corte, que se faça a primeira cicatriz. Até que o pai advirta.E…
Postagens recentes

a fidelidade da tampa

Já falei sobre a minha cozinha? Digo MINHA e friso em caixa alta, com grifo MEU. Não me venha com “grifo nosso”, sempre escrevo as minhas barbaridades em nome próprio e sozinha, ainda que dentro de mim habitem muitas. Calma, antes de analisar a minha multiplicidade de personalidades, vamos falar do sentimento de posse. A cozinha é MINHA, não porque sou possessiva. Sou. Finjo que não – escrever é confessar. A cozinha é MINHA porque não é da casa.
É meu xodó. É a minha academia. É meu parque de diversões.
Nenhum garfo mora lá sem que eu tenha permitido. Escolhi cada porta e todas as medidas dos armários, improvisei uma horta, pendurei talheres grandes, escolhi os panos de prato. Amo a cafeteira e faço milagres na minha batedeira planetária.
Só eu cozinho.
Admito mão-de-obra aprendiz para bater um bolo ou untar uma forma. Empresto para que o marido e o filho usem na minha ausência apenas nos casos de emergência. Leia-se inanição.
Mentira.
Pizza congelada e miojo estão liberados. Qualque…

HOME OFFICE

Algumas tarefas domésticas são legais. Outras não. As que não são legais, vou empurrando com a barriga. Já tentei empurrar para o marido, que fez de conta que não era com ele. Varrer a casa, por exemplo, é chato! Sem falar que é difícil resistir à tentação de sair voando ou brincar de faroeste com o filho.
Arrumar a cama também é um saco. Pra que esticar lençol, colcha, edredom? Não vai durar nem vinte e quatro horas. Sem falar que eu gosto de cama estilo ninho de passarinho. Guardar roupa faço contra a vontade, só porque dei fim na cadeira que ficava no quarto. Lá pelas tantas as peças de roupa do armário eram em menor quantidade do que as que se empilhavam na pobre cadeira. Era o HD externo do closet.
Outras coisas são legais na vida de Maria! Espirrar vidrex por tudo e passar o pano. Vidro ou não vidro. Ok, de preferência, vidro. Dobrar as toalhas depois que saíram do sol, eu amo! Cuidar das plantas, arrumar as antiguidades da sala, inventar detalhes pro lavabo, disso eu gosto.
E e…

aprendi na cozinha

Das coisas que aprendi na cozinha – com e sem ajuda. Primeiro: prefiro não ter ajuda. Mas nem penso em dizer isso quando meu marido resolve abrir as tampas. Muito menos quando ele coloca uma mostarda vencida de origem desconhecida no meu molho. A cumplicidade não tem marca. E não sabe cozinhar. Confie no resultado.
Também aprendi que qualquer coisa feita no almoço pode ser transformada em janta das seguintes formas: acrescentando arroz, acrescentando massa ou acrescentando ovo. No último caso ainda se pode optar pela frigideira ou pelo forno. Da mesma maneira os casais que se aborrecem com a rotina podem ousar para requentar a relação. Acrescente mais carinho, acrescente cuidado. Proponha um banho em dupla, uma massagem nos pés ao acordar. Sirva um vinho às três da tarde de domingo, abra a janela e deixe a cidade entrar. Brindem quando os olhares se cruzarem.
Gelo. Comprar um sacão de gelo ocupa lugar demais. As forminhas são uma invenção genial. Porém, a tarefa que eu acho mais compl…

a noiva do vento

Peça para uma criança definir o vento. Eu apenas acreditava na existência real do ar quando ele virava vento. Quando era tomado de força, ganhava forma, movimento, atiçava a minha curiosidade. A observação do vento ainda atrai os pequenos. Na pracinha aqui perto havia uma menina sentada à sombra com a mãe. Olhava com atenção as folhas secas que trocavam de lugar no chão. Nem balanço, nem gangorra, a garota estava descobrindo o vento.
O vento tem intimidade com a paixão.
Oskar Kokoschka pintou A NOIVA DO VENTO com pinceladas desesperadas, cores nervosas, num quadro que emoldura a própria enxaqueca do abandono. Na obra, uma mulher adormecida sobre um corpo masculino, cujos olhos não passam de órbita vazia – tradução da ausência de vida. A mulher não o deixa, mesmo que ele já a tenha deixado. Mesmo que ele já esteja morto. A ausência de qualquer conotação sexual pela ausência de cores quentes (vermelho, laranja) e o excesso de tudo aquilo que pode faltar, que remete ao gelo e à solidão pe…