quarta-feira, 9 de maio de 2012

love me tender







Passava muito das duas da manhã quando Elvis começou a cantar Kiss me quick, while we still have this feeling...”, eu estava sentada no sofá com a última taça de vinho na mão enquanto conversávamos sobre a vida, planos, futuros, passados e qualquer outra coisa que coubesse na sala. Falei do sofá? Relíquia de família, feito com pau-brasil, confortável e acolhedor. Sofá que abraça sem deixar de ser sério. Guardião das histórias da infância. Segredos abafados pela espuma das almofadas. E era lá que eu estava. 


Nós temos a mania de sentar longe para beber vinho e conversar. A conversa é boa, mas a sedução das entrelinhas é sempre melhor. Aos poucos criamos imãs. Meu namorado estava zanzando pela sala com o brinquedo novo, uma caixinha de som sem fio, nova diversão da casa. Tornou-se nosso bicho de estimação no final de semana, onde fomos ela foi. Conheceu todos os cômodos da casa como se visita fosse. Não dormiu quando dormimos, nem almoçou quando almoçamos. Tocava no modo aleatório. O DJ é o acaso.


Elvis seguiu firme, sem desafino “Tell me that tonight will last forever /Say that you will leave me never/ Kiss me quick because I love you so…”. Foi quando percebemos que estávamos nos olhando, encantados com a música. Paralíticos. Brincando de estátua sem que alguém tenha dado a ordem. Saltei em direção a ele, que imediatamente sacou meu corpo para a dança. Rosto colado como nas festas de garagem. Dois pra lá e dois pra cá - que eu sempre esqueço ou o um da esquerda, ou o dois da direita. Paciente e divertido, ele me leva até o fim da música no improviso dos passos. Nós ensaiamos tantas coisas, combinamos diversos programas e optamos pelo improviso. É o que sabemos fazer bem! Com as molinhas dos cabelos pulando, meu parceiro de dança resolveu que a trilha sonora noturna não seria mais aleatória. 


- Vamos deixar no Elvis. 


Concordei piscando os olhos num sinal que só ele entende. É uma piscada em código Morse. Imediatamente ele escolheu "Only You" e dançamos pela sala. “Only you, can make all this change in me/For it's true, you are my destiny...” ríamos baixinho pra não atrapalhar a música. Percebi que quando dançamos temos mãos inquietas. Ele desenha horizontes com neblinas que se espalham entre as minhas vértebras até a altura dos pulmões. Sinto arrepio e falta de ar. Afunda o rosto em afago no meu trapézio. Eu enrosco os dedos nos cabelos dele como se fossem carretéis. Cheiro as suíças e o final das sobrancelhas. 

E quando Elvis começa a cantar “And I Love you so” nós já estamos no quarto, janelas abertas. A lua é nosso holofote. Traje de gala é roupa íntima e camiseta. Acaba o vinho e a música com “All but love is dead / This is my belief”. Acaba esta dança. Acaba a noite. Às cinco da manhã o sol vem com preguiça. Manda os raios antes para acordar a cidade. A lua é exibida. Desafia a hora sem sumir do céu, teimosa. Divide o adeus da noite com cheiro de pão novo. 

O amor tem disso, o tempo passa só das paredes pra fora. A janela apresenta a realidade: está amanhecendo. A claridade deita nos lençóis antes de nós. A melhor festa da minha vida não teve beijo de despedida, teve beijo de bom dia e curvas de sorrisos horizontais. Noite não dormida sem sair de casa. Reunião dançante de dois convidados por acaso. Não temos modos nem pra isso. Na conchinha dos corpos não se ouvia o barulho do mar. Ouvia-se pedidos e promessas “Love me tender/Love me long / Take me to your heart /For it's there that I belong /And we'll never part...”









Eu acho que Elvis não morreu. É sério!





Noite não dormida dá olheiras (de alegria).

sexta-feira, 4 de maio de 2012

o fim da ousadia


Pintei as unhas de preto. Preto assim, não um preto só preto. Um preto meio prateado, sei lá, nem interessa. É um preto bem metido a besta. Até o nome de batismo é daqueles bestas, de mãe que quer ser arrojada no nome do filho. Achei que foi grande galhardia! Concluí sozinha no quarto “ acabei de cometer uma grande ousadia”. Não decidi ainda se eu gostei ou não disso, vou demorar dias para saber. Estranho por não ser o vermelho habitual, com as variações de tons dos alaranjados aos marrons duvidosos. Estão aqui, dez unhas das minhas lindas e macias mãos desse preto metido a besta.



Propaguei minha ousadia com orgulho, espalhei aos quatro ventos. Ou cinco. Bom, por todos os ventos, brisas ou ventanias. Recebi palavras de incentivo, elogio da mãe, sorriso amarelo do pai. Passei extra brilho para garantir a durabilidade. Que dure pelo menos tempo suficiente para eu decidir se gostei ou não. Ficaremos juntos até que o acetona nos separe. Mostrei até para os gatos!



Estava eu, aproveitando o auge da minha ousadia quando ligou o dono dos meus sorrisos.

- Amor, nem te conto, fiz uma ousadia!

- Fez? Conta!

- Pintei as unhas de preto, um preto não todo preto, mas um preto metido a besta, sabe?!

- Amorzinho, perto das tuas outras ousadias, pintar as unhas de preto não entra na categoria atrevimentos.



CHUÁÁÁÁÁ. Minha coragem em forma de esmalte foi alagada por um balde de água fria. Eu estava no dilúvio e pior, fora da arca. Olhei para as unhas. Ainda não decidi se gostei ou não da cor. Mas não cometi ousadia. A não se a de pintar as unhas sem saber e ter a co-ra-gem de sair na rua assim.



Pensando bem, ele tem razão. O moço das molinhas tem toda a razão. Eu sou bem mais audaciosa de unhas vermelhas. Juntos, pioramos, somos intrépidos da melhor espécie. Esses dias dançamos música lenta imaginária num show de rock. Acho que estava tocando um cover do Led Zeppelin. Não para nós.



Ousamos a felicidade de fazer o que temos vontade.



Quanto às unhas, bom, acabei de comprar esmalte branco. Farei bolinhas. Unhas petit Poá.



E ai do amorzinho se desdenhar da minha ousadia!

Kiss style!

All My Love

Should I fall out of love, my fire in the light?
To chase a feather in the wind
Within the glow that weaves a cloak of delight
There moves a thread that has no end

 
For many hours and days that passes ever soon
The tides have caused the flame to dim
At last the arm is straight, the hand to the loom
Is this to end or just begin?

 
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now

 
The cup is raised, the toast is made yet again
One voice is clear above the din
Proud Aryan one word, my will to sustain
For me, the cloth once more to spin

 
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now
All of my love, all of my love
Yeah all of my love to you child

 
Yours is the cloth, mine is the hand that sews time
His is the force that lies within
Ours is the fire, all the warmth we can find
He is a feather in the wind

 
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now

 
All of my love, oh love yes
All of my love to you now
All of my love, all of my love
All of my love, love

 
Sometimes, sometimes
Sometimes, sometimes
Hey, hey, hey, hey
Hey, hey, hey, hey

 
Oh yeah, it's all, all, all of my love
All of my love, all of my love to you now
All of my love, all of my love
All of my love, to, to you and you, and you and yeah

 
I get a bit lonely, just standing up
Just standing up
Just standing up lonely
Just I get a bit lonely

quarta-feira, 25 de abril de 2012

cinco quilômetros


- É que eu dou muita atenção pra essas coisas que a gente esquece por querer, ou finge que esquece.

 Fui justificando o olho aguado antes de ser perguntada. Continuei:

- Quer dizer, cada um deve fazer a sua parte, certo? Mas nem sempre a minha parte é só a minha parte. E nem sempre a minha parte é a parte que dá certo. Uma vez vi um modelo de saco feito com folha de jornal. Bom, a ideia pareceu mais ecologicamente correta do que usar sacos plásticos e na teoria, para lixo seco, a ideia pareceu digna. Um achado. Gastei todos os classificados de domingo tentando. Dobra pra lá, dobra pra cá. O que eu fiz foi lixo, lixo, lixo e mais lixo. Mas de um jeito ou outro, todo aquele jornal iria mesmo parar no lixo, certo? Então o que eu fiz? Perdi tempo e tempo não é reciclável.

Nesta hora dois pares de olhos estavam grudados em mim. Não sou acostumada a plateia nas minhas divagações. Intui que estava interessante a justificativa do meu estado calamitoso de alma. Tem dias que é assim, a alma fica emburrada. Prossegui:

- Não pensem que eu sou ruim de trabalhos manuais, não, eu sou boa nisso. Quer dizer, em desenho sou ótima, pintura, bordado, corte, costura e alguns origamis, mas não sei fazer o sapo, nem o cisne. Se eu tivesse que ser artesã de rua, não morreria de fome... Bom, na verdade, não tenho sentido muita fome. O que é estranho. Digo, fome de comida, porque de chocolate eu tenho. E tenho também de outras coisas que tenho devorado, que nem momentos, passeios, amor e uma pessoa. Ando devorando livros também. Mais do que o normal. E escrevendo muito também. Vivendo e escrevendo, porque é assim que eu transbordo. Isso me lembra Clarice Lispector. E lembra que ontem lembrei por que não sei fazer poesia, é porque sou chata pra poesia. Assim, tem gente chata pra caralho! Eu sou chata pra poesia! (ninguém riu) E por falar em lembrar, lembrei que eu comecei todo esse assunto falando das coisas que as pessoas esquecem por opção.

- Quer parar de correr?

- Não, tudo bem.

- Então continua, agora tem uma subida.

- Continuo. Sério, continuo com isso de me preocupar. Não uso estampas de animais porque acho que pode incentivar o uso de pele. Tenho dores físicas com desperdício de água. Dou bom dia pro sol, boa noite pra lua. Separo o lixo, faço doações, uso papel reciclado... acho que o ser humano anda se afastando muito da natureza. Acho que Nietzsche já falou disso em O Nascimento da Tragédia.

- Nietzsche?

- É... Ele fala de Dionísio e Apolo, das vontades e das ordens. Acho que é possível um ponto de harmonia. Acho que uma aversão ao caos em vez de uma aversão ao sofrimento. Nunca entendi por que não se pode sofrer. Hoje eu estou sofrendo. Sofrendo porque minha alma ficou emburrada, não dormi, ouvi coisa que não precisava, li o que não queria, encontrei um juiz de humor péssimo. Não tem sido um bom dia, não mesmo. Não começou bem, mas aqui está ótimo. Eu estava precisando desta corrida. Eu penso muito correndo e com vocês aqui, penso em voz alta. E por isso, enquanto eu esperava vocês para começar a correr, fiquei pensando, lembrando, pensando mais e acabei enchendo o olho de água. Mas para ver como as coisas acontecem, pela manhã veio parar na minha mão uma oração que dizia tudo que eu precisava e me confortou. Então eu penso que vale a pena não esquecer do que geralmente se esquece. Se é tudo energia e estamos conectados com a natureza, com as outras pessoas e com os sentimentos bons, as coisas boas acabam ficando à vontade pra chegar. Como esse papel velho e amassado veio para a minha mão. Então eu penso que não preciso revidar as atitudes ruins de pessoas más com mais atitudes ruins e más. Isso multiplica o que é ruim.

- Interessante. Quer parar de correr agora?

- Não... acho que consigo explicar, respirar e correr sem morrer.

- Certo, então, adiante.

- Bom, se eu posso sempre ter boas atitudes, boas maneiras, ser educada, cortês e boa, mesmo frente a uma atitude reprovável de alguém, não vou dar eco para o que é ruim. E ainda, agindo pelo bem, tendo o amor por objetivo, posso compartilhar e multiplicar isso. Então dou eco ao amor. Dou eco ao que é bom. Não me interessa a maldade com que o outro agiu. Eu agi bem. Quando eu conseguir dormir, dormirei bem. Eu não vou ser responsável pelos atos de outra pessoa, nem posso compelir pessoa alguma a agir bem. Mas eu posso quebrar essa corrente do mal. E isso é fácil. E é essa atitude boa que gera energia boa, que atrai coisas boas. Acredito que então essa é a minha parte e que qualquer reflexo que tiver é lucro!

- Olha, deu de correr! O assunto está ótimo, mas a corrida está de bom tamanho. Assim já posso saber como anda o coração!

- Meu coração segue um rebelde. Um judiado. Um doido! Um viciado por paixão, batendo forte por amor. Amando com sopro!

- A enfermeira vai tirar os eletrodos e amanhã o laudo do eletro de esforço estará pronto.

Uma seriedade tomou conta do doutor. Cardiologistas odeiam psiquiatria. O coração é um gráfico. Meu sopro não é poético, é inocente – sempre consta no laudo.

Não importa o amor, importa a minha arritmia.

Não se pode fazer de uma esteira um divã. 


PARÊNTESES: às vezes é preciso parar. Não contra o tempo, mas sim em favor de nós. Parar para seguir viagem. Parar para seguir sem rumo. Parar para entrar em uma cidade sem ter motivo, conhecer pessoas para quem jamais dissemos olá. Parar para ouvir. Parar para rir. Às vezes precisamos parar para encontrar pequenos tesouros. Uma casa enorme recheada de surpresas, uma chuva que é a própria surpresa, a diferença das cores nas folhas dos plátanos, as pedras irmãs irregulares da mesma rua. 

Parar porque se perdeu o fôlego dentro dos olhos que falaram mais que qualquer palavra. 

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 I wish I knew how it would feel to be free
I wish I could break all the chains holding me
I wish I could say all the things that I should say
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
I wish I could share
All the love that's in my heart
Remove all the bars that keep us apart
And I wish you could know how it feels to be me
Then you'd see and agree that every man should be free
I wish I could be like a bird in the sky
How sweet it would be if I found I could fly
Well I'd soar to the sun and look down to the sea
And I'd sing 'cos I know how it feels to be free
I wish I knew how it feels to be free
I wish I could break all the chains holding me
And I wish I could say all the things that I wanna say
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
One love one blood
One life you've got to do what you should
One life with each other
Sisters, brothers
One life but we're not the same
We got to carry each other
Carry each other
Whoah Whoah Whoah Whoah Whoah ...
I wish I knew how it would feel to be free
I wish I knew how it would feel to be free

sexta-feira, 20 de abril de 2012

fugiremos

Fugiremos. Culpados e condenados pela nossa sorte. Sorte de termos encontrado um ao outro. Sorte de conhecermos os limites e acenarmos para eles, lá de longe, de onde já ultrapassamos. Arrume a mala. Minha mochila já está pronta. Fugiremos loucos pelos cantos do mundo, interessados apenas na nossa alegria, semeando no caminho as risadas. Procurando nos olhos um do outro os caminhos, andando com os dedos nas curvas do meu quadril, me puxando pra esperar porque eu vivo correndo. Fugiremos porque tu me ensinas a parar às vezes, a respirar entre meus atropelos e os beijos sôfregos, entre murmuros e afagos. Entre a compressão dos meus dedos na tua mão.

Fugiremos. Aboliremos daqui os olhos curiosos, os que julgam, os que querem saber de nós. Viveremos na nossa pequena fuga sem planos a vida que decidirmos. Não haverá hora para nada. Não levaremos as acusações, os incômodos, as pessoas chatas e desprovidas de respeito. Abandonaremos os maus olhares, as más línguas, todo o mal. Subiremos no altar da nossa cama para pular no colchão. Faremos dos poucos metros quadrados nosso palácio. Relembraremos nossas histórias.

Fugiremos. Levando junto a nossa vontade de estar perto, nossos rumos e planos prontos para serem desfeitos. Sairemos para a praia, acabaremos na serra. Sairemos para a serra, acabaremos na praia. Pés na areia, pés nas nuvens, pés em qualquer lugar.

Nós dois não criamos raízes, temos asas para voar e voltar sempre ao mesmo pouso. Pousamos um no outro. Moramos em nós.

 Fugiremos condenados à felicidade. Fugiremos pelo prazer de não ficar em nada que nos traga infelicidade.

Fugiremos com a nossa indecência, permitindo um ser do outro, abrigados nas certezas, mastigando as dúvidas. Desejaremos as doçuras do bom dia às quatro da tarde. Dormiremos contando as estrelas. Fugiremos com a nossa audácia.

Pra onde quer que aponte o nosso nariz, por qualquer lugar que seja a nossa trilha, pra onde for a nossa fuga, jamais fugiremos do que levamos dentro. É amor.

Juntos, tudo.

Quando dois perdidos se encontram, melhor história.


Eu que amo vida cigana, encontrei um cigano tão lépido quanto eu.


Vamos fugir!
Deste lugar
Baby!
Vamos fugir
Tô cansado de esperar
Que você me carregue...
Vamos fugir!
Pr'outro lugar
Baby!
Vamos fugir
Pr'onde quer que você vá
Que você me carregue...
Pois diga que irá
Irajá, Irajá
Prá onde eu só veja você
Você veja a mim só
Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer...
Guaporé, Guaporé
Qualquer outro lugar ao sol
Outro lugar ao sul
Céu azul, Céu azul
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao seu corpo nu...
Vamos fugir!
Pr'outro lugar
Baby!
Vamos fugir
Pr'onde haja um tobogã
Onde a gente escorregue...
Vamos fugir!
Deste lugar
Baby!
Vamos fugir
Tô cansado de esperar
Que você me carregue...
Pois diga que irá
Irajá, Irajá
Prá onde eu só veja você
Você veja a mim só
Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer...
Guaporé, Guaporé
Qualquer outro lugar ao sol
Outro lugar ao sul
Céu azul, Céu azul
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao teu corpo nu...
Vamos fugir!
Pr'outro lugar
Baby!
Vamos fugir
Pr'onde haja um tobogã
Onde a gente escorregue...
Tô cansado de esperar
Que você me carregue
Todo dia de manhã
Flores que a gente regue...
Uma banda de maçã
Outra banda de reggae...
Todo dia de manhã
Flores que a gente regue...
oooo ... ooo ..
Uma banda de maçã
Outra banda de reggae...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

duas caras


Não conjugo mais o verbo amar em outro tempo que não o presente. Amar: verbo presente. Presente como nunca foi, olhando pra trás percebo. Viver é verbo dinâmico. Onde estamos daqui a pouco já foi. E o que resta é o futuro conjugado no agora. É o que somos. Seguramos as chaves das portas do futuro, faremos as nossas escolhas, observando o que foi, olhando para o que queremos.

Na mitologia romana, Jano era uma divindade de dois rostos, um olhava para trás, outro para frente. Passado e futuro, as duas faces do presente. Jano era o porteiro celestial. Carregava numa mão um báculo, na outra a chave que abria ou fechava todas as portas. O mês de janeiro é uma homenagem ao seu nome, o mês que abre o ano. Mas Jano também era dotado de grande indecisão, um rosto jamais viu o outro, restritos sempre ao mesmo visual. O que foi e o que virá se encontram no agora. Duas faces viradas para lados opostos, indeciso entre a expectativa do futuro e a insegurança da vivência passada. Não podemos negar o passado. Também seria injusto – e covarde demais – repelir o que se espera do futuro por aquilo que vivemos. Expectativas, riscos, frio na barriga, isso vale muito, vale quedas, decepções.




Jano aparece na maioria das vezes representado apenas pela cabeça. O que é muito lógico, porque são onde as decisões são tomadas. Existem muitas faces duplas de Jano cunhadas em esculturas, moedas, esfinges. Muitos desenhos também. Acho interessante que sempre a face do futuro é mais sorridente que a do passado. O futuro sempre parece melhor, tem traços mais harmônicos. A face do passado me dá a impressão de ter os olhos maiores, independente de qual artista fez ou do tipo de obra. Acho que os olhos são mais necessários para não deixar escapar nada do que passou. Os olhos que observam são dotados de tanta importância quando os demais sentidos.

O futuro exige certa surpresa para chegar.

Paul Klee, artista plástico, poeta, músico, apaixonado – tudo isso oficialmente – e maluco – isso não é oficial – abusava de cores escuras para desenhar seu humor. Suas crenças pessoais viravam tintas, muitas interações coloridas infantis, sarcásticas e irônicas. Milhares de interpretações cabem nas obras. Bom, mas onde Jano entra nessa história? Paul Klee tem uma tela chamada FISH MAGIC, onde há, além de peixes, uma mistura de outros elementos entre plantas, relógios, janelas e claridades, sombras. O quadro é daqueles de entrar dentro. No canto inferior esquerdo, Klee desenhou uma pessoa com duas caras. A que olha pra traz, com aquela boca séria. Sisudo. Circunspecto. Acredito que seja a representação de Jano. O rosto que olha pra frente é mais bonito. A boca avermelhada lembra um coração, a mão deste lado é estendida para cima, aberta, esperando que venha algo. A mão quer pegar o que vier.



Mas Klee foi bem esperto, o seu Jano tem duas faces, porém, elas dividem um dos olhos. O olhar do presente. Klee promoveu o encontro entre todos os tempos pelos olhos. Um olho no passado, um olho no presente e um olho no futuro. O Jano está pronto para receber o que vier.

Amorzinho, nessas noites de esticar a madrugada no sofá, me disse que cada vez que o assunto é o passado a minha boca diminui. Confio certa seriedade ao passado. Minha cara com olhar sengo petrifica o ar. Economizo riso. Ele se ajeita sentado, como sempre faz pra falar sério, sacode os caracóis e me diz esfregando os dedos que pode até pressupor uma irritação. Não. Explico. Tudo que foi, foi sério. Tudo que virá, será bem recebido. O agora, estamos fazendo. Daqui aos próximos passos é o caminho que me interessa. É por onde vamos seguir viagem levando no bolso promessas e vontades.

Conjugo o verbo amar no presente. Porque o futuro é um agora com uma pitada de daqui a pouco. 





Só ele acha que uma boca desse tamanho fica pequena! Humpf!!! 
;-)

Hoje sem trilha sonora. Ando vivendo muitas notas musicais, maestro!