quinta-feira, 30 de setembro de 2010

bom humor matinal (tema de casa)

Eu passo longe de ser o tipo de pessoa que acorda feliz da vida. É impossível que alguém acorde feliz. Mais do que isso, é inconcebível acordar feliz. Eu durmo pouquíssimo. Para mim são suficientes de três a cinco horas contínuas de um sono de qualidade. Odeio dormir cedo e acho o sono da manhã o mais revigorante de todos e na noite estou no auge da minha capacidade produtiva, sou fiel às madrugadas. Gosto de dormir às cinco da manhã! O sono das cinco em diante é mais envolvente, é um sono doce, profundo, acolhedor.



Às cinco da manhã não há como dizer não pra minha cama. Ela me seduz. A cama me chama sem que eu pense em discutir, engulo todos os argumentos que ainda teria pra não deitar. Tenho quase certeza que há um pacto entre a minha cama e o relógio, do qual sou mera vítima, indefesa. Não ofereço resistência. Luto bravamente contra o sono até esse horário, quando me entrego. O lençol me envolve num abraço acolhedor que não encontrei ao longo do dia. Meus travesseiros exalam o perfume de sono que Hipnos trouxe da Grécia para mim. O quarto é o lugar mais confortável do planeta. Sinto-me no lugar certo, na hora exata. Está tudo perfeito para fechar os olhos, a parede verde, a cama de madeira escura, a pilha de roupa amontoada na cadeira, livros e rabiscos na mesa de cabeceira, as cortinas que eu quero trocar, mas não vou pensar nisso agora...



Quando eu durmo muito cedo, e isso é lá pelas duas horas da madrugada, não é raro que eu acorde um tempo depois com alguma ideia mirabolante que me faça catar um papel e um lápis, ou mandar e-mail ou – quando julgo a ideia muito boa e urgente – mandar uma mensagem para o celular de alguém. Ainda não cheguei ao estágio de ligar nas madrugadas, minha urgência se contém na boa educação. Eu disse “ainda”, o que quer dizer que essa atitude não seja definitiva. Sim, a maldita insônia. Daquelas de relembrar tudo que se fez, de pensar no que se vai fazer, de lembrar-se da letra de uma música qualquer. Tento voltar a dormir contando carneirinhos. Não dá certo. Tento dormir ficando quietinha, varrendo do pensamento qualquer coisa. O pensamento não consegue ficar vazio. Lá estou eu, vagando pela casa atrás de um gato que me faça companhia, uma leitura que me dê sono ou um filme tão chato que eu adormeça no sofá.



O mundo nunca entendeu meus horários.



Sempre fui compelida a dormir e acordar cedo. E mesmo quando desperto sozinha, não consigo acordar de bom humor.



Não acordo sorridente, pulando da cama e dando bom dia. Acordo ainda de olhos fechados, tentando montar um corpo em cima dos pés, grunhindo sons misteriosos do quarto até o banheiro, trajeto de aproximadamente doze passos onde, invariavelmente, minha canela vai esbarrar em alguma coisa.



Mas isso sou eu. O mundo, não contente em não ser adequado aos meus horários, ainda dá espaço para habitantes que acordam de bom humor. E as energias cósmicas do universo conspiraram para que três dessas pessoas morem na minha casa. A essas pessoas dou o nome de família. Mãe, pai e irmã, todos acordam felizes e sorridentes, enquanto tudo que eu quero é uma caneca de café suficientemente grande para que eu possa mergulhar dentro! Café preto, forte, puro, sem açúcar é a primeira certeza da manhã: estou viva. Deste momento em diante, vai passando gradualmente o ranço, em velocidades que variam. Mas passa.



Pessoas que acordam de bom humor do meu lado correm risco de levarem uma dentada pela manhã! E o bom humor matinal é insistente. A pessoa vê que tu estás com cara de poucos amigos, que já não respondeu à primeira tentativa de bom dia e ainda assim saltita da cama até a janela, arreganhando as cortinas, violentando as persianas até que elas cedam e deixem entrar a claridade que quase me faz cegar. Poxa, mal abri o olho no escuro, imagina assim!!! Inconcebível. Para acordar ao meu lado, espero no mínimo que a pessoa rosne até o café da manhã.



Quando eu estava na escola, estudava pela manhã. Meu pai nos acordava às seis e meia, mas ele já estava desde as seis fazendo barulhos, perambulando pela casa. Eu sou capaz de jurar que os barulhos eram propositais. Ele sempre disse que não. Pontualmente às seis e meia, ele violava o meu quarto, impiedosamente acendendo a luz e me chamando pelo apelido no mesmo tom de voz. Todas as manhãs, da primeira série ao terceiro ano do segundo grau, o mesmo tom de voz. E se eu puxasse o travesseiro pra cima do rosto ou tentasse uma espreguiçada, ele vinha me fazer cócegas. Nisso, minha irmã mais nova, que dormia no mesmo quarto que eu, já estava em pé, se vestindo e cantando. Muitas foram as manhãs que ela e meu pai faziam um dueto. Em poucos minutos a minha mãe estaria sorridente no quarto, dando bom dia e solicitamente se oferecendo para escolher a minha roupa, porque sabia exatamente quantos graus iria fazer, a hora que iria chover e eu sempre estava com menos roupa do que deveria. Na mesa do café, uma torrada de queijo com um sorriso recortado já me esperava no prato. Eu a empurrava com a ponta dos dedos, queria apenas café. Depois fazia um pão com manteiga que eu adorava ir comendo até a escola, enfarelando o carro, os cadernos, o uniforme e os cabelos da minha irmã. Nessa hora meu humor já estava mais ameno.



Bom humor matinal é estranho.



As pessoas que acordam de bom humor são estranhas. As probabilidades dessas pessoas se decepcionarem e ficarem frustradas são muito maiores. Alguém que acorda de bom humor espera que o resto do dia seja bom. Espera por coisas boas, por momentos gratificantes, por aumentar ou pelo menos manter alta essa taxa de alegria. É fato! Acredito que acordar de bom humor possa até levar à depressão, tamanha decepção que pode haver por não acontecer nada verdadeiramente bom ao longo do dia.



Quem acorda de bom humor já acorda com expectativa. E com expectativa positiva, querendo mais, querendo melhor. Qualquer problema que acontecer vai ganhar proporções superlativas, vai impedir de sair aquele sorriso que habitou o rosto há pouco tempo. Na verdade, quem acorda de bom humor é acomodado, espera que os acontecimentos mundanos possam dar conta de manter o bom humor. Enquanto um mal humorado matinal se move em direção à esperança de sorrir no seu dia. Descobre no trivial algo que dê motivos para cessar a rabugice, como numa caneca de café.



Uma pessoa bem humorada ao acordar pela manhã não sabe descrever de onde vem seu bom humor, não sabe por que está rindo. Acorda bem por mania de acordar alegre, imotivadamente. Então terá, no passar das horas, motivos pra ver a alegria indo embora, a menos que suas expectativas se confirmem, a menos que haja um evento magistral, descomunal ou pelo menos bacana, capaz de manter e, quem sabe, melhorar esse humor. Essa pessoa se questiona pouco sobre o que fazer em prol da manutenção dessa alegria, aceita o que as horas lhe trarão.



Um rabugento matinal não aceita, ele procura se reconciliar com o dia, mesmo que vá acontecer antes de dormir. Ele vai buscar algo que nem ele imagina o que possa ser, ele quer o motivo pra sorrir. Por isso não quero ao meu lado alguém que acorde pulando da cama e me dando bom dia, iluminando o quarto. Quero alguém que não se acomode que procure, como eu, os bons motivos ao longo da vida.








Raica, a gata-galinha-carijó, vulgo Franga.
Criatura que acorda de mau humor master!
AMO.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

estudo antropológico (I)

Podem me crucificar pelo que vou dizer agora, mas um homem de verdade precisa ter seu futebol semanal. Ou coisa que seja equivalente. E digo mais: pelo menos semanal. Se for mais de uma vez, beleza. Se for um dia de futebol, outro do tênis, mais um de pôquer e outro de paintball, que bom! Se tiver churrasco depois do futebol, melhor ainda. Um atleta precisa repor líquidos, cerveja é válida. Um atleta precisa comer proteínas, ainda que oriundas de uma bela costela pingando gordura em cima do carvão em brasa. Hmmm, até eu fiquei com água na boca!

Um homem precisa se reunir com seu clã. Eles precisam gastar energia física e mental em conjunto. Precisam correr, precisam disputar a bola, urrar a cada gol feito – sem dancinhas, por favor. Depois eles precisam comentar cada lance, de preferência durante o churrasco, relembrar o drible, aquela bola no meio das pernas, o chute no travessão. Debocham de quem perdeu como se fossem renegados das cruzadas e minutos depois servem um copo de cerveja bem gelada. Isso é másculo! Aos menos interessados na vida esportiva, vale ser maçom, participar da confraria do charuto, clube do livro, maratonistas do xadrez. Vale. Importa é que os machos encontrem um nicho seu, um habitat natural e ali, entre os outros de mesma espécie e gênero, desenvolvam seus instintos selvagens, de sobrevivência, do que mais precisarem. Depois eles  voltam pra casa. E voltam aos braços da sua amada.

Eles funcionam assim.

Em casa lavarão a louça, carregarão as compras, esticarão o lençol amarrotado da cama, massagearão os nossos pés e – o mais importante – aprenderão a respeitar o nosso tão necessário momento de solidão. Necessário e delicioso. Poderemos ler o nosso livro, assistir comédia romântica, tomar um vinho com as amigas, ficar horas pendurada no telefone com a mãe ou simplesmente, poderemos decidir ter apenas a nossa própria companhia. Não é uma troca. É um fato antropológico. SIM! Esta é a minha teoria (mais uma!!!!), desenvolvida e criada por mim, tendo por base as minhas próprias observações nem sempre confiáveis. Ah, esqueci de comentar, apenas ir na academia não vale.

Um homem que tem seu espaço junto com os seus semelhantes sabe que a mulher tem os seus também. E sabe que lá, naquele espaço, é que deve ter seus ataques de macho. Não em casa, onde deve ser gentil. Um homem entende as coisas vendo, fazendo, participando, depois precisa dos comentários, como nos churrascos. Eu, com meu feeling mulherzinha, pergunto se está tudo bem, quero desenvolver o assunto. "Tu fez gol?" Há motivo para os jogos de futebol ter um narrador e um comentarista. Eu, particularmente, dispenso o comentarista, acho que o pobre está ali chovendo no molhado, me diz o que eu já vi, o que o tira-teima já mostrou e ainda insiste em alguma piadinha sem graça. O homem gosta, discute com a TV. Xinga o rádio, troca de estação.

 

É assim que aprendem, é assim que buscam afirmação das suas opiniões. Viu? É um estudo antropológico. Por isso sou contra vetar o cara das suas práticas esportivas, ainda que sejam praticadas de segunda a segunda. Sempre vou ter o que fazer, sempre invento algo, preciso disso. Não gosto que tenham ciúmes da minha solidão, dos tempos longos e vários que eu preciso e gosto de passar comigo. E o melhor é que eu posso ainda ser a minha narradora, comentarista e trocar a minha estação! Adoro!!!

 
Viva quem sabe ficar junto separado e separado junto. Manter a individualidade é o segredo!
 
 
---------
(melhor cantada de tooodas, o cara que pede tudo, como quem não quer nada...)
 
 
My Yard
Jamie Cullum


So hail a taxi cab and come around here


And i will meet you right outside.


I got some dvds and a couple of beers,


If you want to,


We can stay up all night.


It's nothing fancy, just a little couch and me


And conversation for your mind.


So let's explore all the possibilities


Of the things that we both talked about last time.






Chorus:


Take a trip to my yard


Don't you know the grass is greener on the other side?


Take a trip to my yard


Don't you know the love that you've been dreaming of is mine?






I'll be your neighbour at the other end of town


And the benefits you soon will find.


So let's enjoy the fact that we're on our own


And we will answer to nobody else this time.


Tonight might be nothing but the moon and me


Any time that we take the script and flip it baby


Take a trip to my yard






Chorus:


Take a trip to my yard


Don't you know the grass is greener on the otherside?


Take a trip to my yard


Don't you know the love that you've been dreaming of is mine?





sexta-feira, 17 de setembro de 2010

letras minúsculas e páginas em branco

Não, não quero ser única pra alguém. Não como a maioria das pessoas quer. Não quero ser o único amor, não quero ser a única a construir história. Não quero alguém sem história. Não quero alguém sem passado. Não quero alguém que seja uma página em branco, em primeiro lugar porque não acredito que nesta altura do campeonato isso exista. Negar o passado já seria um início mentiroso. Não quero alguém descobrindo em mim do que gosta e do que não gosta. E eu não vou negar nada do que já vivi e senti.

Chega de negar, é hora de assumir. Aqui, nesta vida, já se amou e desamou, já foram contabilizados erros e acertos, já se foi feliz ao lado de outra pessoa. É tempo de dizer sim pro que ficou pra trás, é de lá, daquelas experiências que vem o que somos hoje. Tudo que passei até aqui me fez ter opiniões, saber do que eu gosto, o que eu tolero, o que eu repudio. Detestaria ter ao meu lado um ser vazio, esperando pra ser preenchido exclusivamente por mim. Quero trocar, quero que me contem histórias, quero desbravar as pessoas.

O interessante é desbravar alguém como um território novo. Eu gosto de observar a arquitetura das pessoas, as formas, descobrir por onde entra a luz, no que faz sombra, aqui é quente, ali é frio. Quero saber por que a tua parede é pintada de amarelo. Me conta de onde veio esse tapete. Quero conviver com gente que já sangrou, que teve feridas, que sabe onde aperta o sapato, porque eu também sou assim. Quero poder falar de onde sai o meu sorriso, o que faz ter sol no meu dia e, lamento, mas isso vem do meu passado. É o que eu já vivi que me personaliza e assim sim, eu sou única, tendo sido tantas. Eu sou muitas guardadas em mim.

Contraditório?!

Não, versátil. Somos seres adaptáveis. Precisamos mudar sem ter medo das mudanças. Se vamos mudar juntos ou separados, já é outro problema. Eu não sou uma página em branco, sou sempre uma nova história, pronta pra ser reescrita. Pra quem implica com meus textos que têm sempre títulos em letras minúsculas, é por isso. Letras maiúsculas representam inícios, estão nos começos das frases. Meus títulos em minúsculas são sempre as continuações de mim e de tudo que represento, os começos estão ao longo do texto, como estão ao longo da vida.

Não gosto de ser sufocada. Gosto mesmo é quando me roubam o ar. A melhor maneira de fazer isso é me surpreender. Eu me surpreendo com quem tem história, com quem sabe explicar alguns porquês e com quem convive bem com os porquês que não sabe de onde vieram. Gosto de tentar desvendar. Gosto de escrever histórias únicas a quatro mãos. E não tenho a menor vergonha de colocar nelas mais um título com letra minúscula.


Who Says


Who says I can’t get stoned?
Turn off the lights and the telephone
Me and my house alone
Who says I can’t get stoned?


Who says I can’t be free?
From all of the things that I used to be
Re-write my history
Who says I can’t be free?


It’s been a long night in New York City
It’s been a long night in Baton Rouge
I don’t remember you looking any better
But then again I dont remember you


Who says I cant get stoned?
Call up a girl that I used to know
Fake love for an hour or so
Who says I cant get stoned?


Who says I cant take time?
Meet all the girls on the county line
Wait on fate to send a sign
Who says I cant take time?


It’s been a long night in New York City
It’s been a long night in Austin too
I dont remember you looking any better
But then again I dont remember you


Who says I cant get stoned?
Plan a trip to Japan alone
Doesn’t matter if I even go
Who says I can’t get stoned?


It's been a long night in New York City
It's been a long time since 20 too
I dont remember you looking any better
But then again I dont remember, I dont remember you
 
******** Se John Mayer não fosse tão galinha, seria um bom partido. Parece que esse é o mal que atinge os bons moços de hoje em dia.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

tema de casa 1

Este foi o tema de casa da primeira aula do Carpinejar na Perestroika. Escolher alguém do quadro AS MENINAS do Velazquez, escrever como se a pessoa fosse. Lá vai:



mão na maçaneta

Admiro pessoas que sabem ser discretas. O jeito de vestir, o tom de voz pra falar, os gestos milimetricamente calculados pra não derrubar nada, admiro, porque queria ter esse talento da discrição. Queria saber andar na ponta dos pés e não fazer barulho, mas quando eu tento chegar e sair sem ser notada, acabo deixando pegadas dos meus pés sujos na tapeçaria. É como uma pichação em banheiro de beira de estrada: eu estive aqui. Tenho problemas com a hora da chegada e mais ainda com a hora da saída, pode ser por isso que eu dificilmente digo tchau. Despeço-me de mil maneiras, abraços, sorrisos, piadinhas, sumiços estratégicos, saída à francesa, rapel do oitavo andar. Quanto mais eu tento me esconder, mais eu sou notada. E eu juro que é sem querer. Eu sou o homem da porta. Ao fundo, porém, no meio da tela. O único ponto de iluminado, impossível não ser notado.

Ninguém pode dizer com certeza se estou indo embora ou chegando, mas todos sabem que eu estou ali. É o próprio retrato da indiscrição. Não faço parte da família real, não trabalho na corte, sequer estou pintando ou refletida no espelho, apenas estou deixando quem vê em dúvida.

Se eu estou chegando, é porque me deram um bom motivo. A minha curiosidade é o melhor deles, justifica boa parte das minhas intromissões. E chegar sem ser notada não é minha especialidade, por mais silêncio que eu tente fazer. Eu queria mesmo ser mais discreta, desde que isso não me exigisse usar tons pastéis. Não fico bem!

Se eu tivesse que escolher entre a chegada e a partida, escolheria a última. Já chego com a mão na maçaneta pra sair. Costumo fazer isso na vida das pessoas, inicio as minhas relações antevendo o fim. Prevejo qual doença terá a minha relação, de que vai morrer e mais ou menos quando vou assinar o atestado de óbito. A Mãe Dinah não me levaria um vintém. Sinto saudade de voltar pro meu porto porque nunca o depositei no outro. Mas pode ser que algo me faça ficar, como o homem da porta ficou.

Eu estou sempre precisando disso, que me façam ficar. Não pedindo. Preciso ser instigada e sem dizer o que eu quero. Preciso que me intriguem, que agucem em mim a curiosidade de descobrir o que vem daqui a pouco. Deixo em dúvida quem quer me fazer ficar. Não digo o que eu quero, eu nem sei o que eu quero. Passar da porta para o lado de dentro exige muita dedicação e paciência da outra parte. Sou compulsiva por saídas. Preciso de motivos constantes pra não ir embora. O lado de fora sempre me chama pelo apelido, tamanha nossa intimidade, lá eu não preciso ser discreta.
 
Talvez eu tenha claustrofobia e nem saiba. Se eu não tiver, vou pensar com carinho em mentir que tenho, preciso de desculpas pra quando me indagam sobre por que eu estou saindo. Na verdade, a questão não é esta. É por que eu não estou ficando.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

desbotou

- Fui dar uma respirada??? Mas essa respirada durou 5 anos!!! Não foram 5 minutos, tu não sumiu por 5 dias. Tu ficou 5 anos longe de mim! ANOS, A N O S!

Ele repetia enfaticamente enquanto ela permanecia imóvel sobre o capacho da porta de entrada. Olhos fixos nele, em todo o movimento e argumentação que se resumia à mesma frase. Repetia incansavelmente. Olhou pra baixo por alguns segundos e percebeu que o primeiro ladrilho do lado de dentro do apartamento ainda estava desnivelado, o que oferecia uma certa dificuldade em abrir e fecha a porta nos dias de umidade mais acentuada. Muitas vezes voltou da faculdade tarde da noite e teve que xingar o ladrilho, a porta, a fechadura e todas as chaves que carregava no chaveiro e nunca acertava de primeira qual abria a porta. Eles foram morar juntos no final do primeiro ano de namoro. Elisabeth não achou precipitado.

Olhou de novo pra ele e arrumou a franja que caía nos olhos, tinha dedos longos, unhas curtas pintadas de vermelho. Esperou que ele dissesse mais alguma coisa. Miguel permaneceu calado. O único barulho era o inflar ofegante dos pulmões, colocava o ar pra fora pelas narinas não menos furiosas que ele.

Elisabeth mascava chiclete. Era a rima favorita.

Permaneciam os dois imóveis no corredor do primeiro andar daquele prédio antigo. Atraíram a curiosidade de Gorete, vizinha do segundo andar que descia pelas escadas e se deparou com a cena.

- Oi Miguel, oi Betinha!

Parecia que não havia cinco anos de intervalo entre hoje e o último dia que Elisabeth habitou o charmoso apartamento. O cheiro de alho frito que vinha do apartamento de Gorete era o mesmo. Pela porta ainda via as plantas que ela levou uma a uma, a mesa antiga que comprou numa lojinha de beira de estrada, a coleção de cachaças e um abajour horrendo que ela tentou quebrar de todas as maneiras. Herança em vida da vó do Miguel. Feio. Torto. Com poeira secular que nunca saiu, encardido nos côncavos da haste.

- Eu disse CINCO ANOS. De dúvidas, de teorias, de milhões de porquês, de coisas que eu não sei, dona Elisabeth e tu me aparece aqui, com essa cara deslavada!

- Deslavada? – escapou.

- Sim, como se tivesse ido buscar pão. Acabou comigo, não me deu a menor explicação, pelo menos nenhuma explicação plausível e agora volta com essa cara deslavada.

Era tudo que ele queria. Uma mísera palavra dela para que continuasse discursando, bufando, explanando e contando o tanto que sofreu por não entender por que ela partiu, o tanto que é um coitadinho. Elisabeth detestava esse lado dramático. Preferia que ele xingasse por alguns minutos, pelo menos a convidasse pra entrar. Mas não, ele estava ali, como muitas vezes ficou falando horas sobre o telefone dela permanentemente desligado, sobre os perigos de andar sozinha à noite, sobre a amiga que usava micro saia, sobre as bebedeiras, sobre os hábitos alimentares, excesso de doce, excesso de velocidade, excesso disso, daquilo e mais outras implicâncias que ele tinha. Sempre entrou por um ouvido e saiu por outro. Enquanto ele falava quase sem respirar, ela repassava mentalmente a seleção de jogadores do Brasil da Copa de 1970, com reservas e tudo: “Felix, Ado, Leão, goleiros. Carlos Alberto, Zé Maria, Everaldo e Marco Antôni, laterais...”. Um amigo disse que fazia isso pra retardar a hora do orgasmo. Ela usava pra não perder a paciência.

Antes que pudesse chegar ao meio-campo, Miguel encerrou o falatório. Lá estavam eles parados, silentes. Ele de braços cruzados. Elisabeth, encostada na parede, passando a ponta dos dedos na barra da camisa. “ Vou agarrar ele agora, dou um beijo, entro em casa, acabo o assunto e voltamos a namorar. Vivemos felizes para sempre.” Para sempre. Isso fez eco dentro da cabeça. Lembrou que eram um casal perfeito, se ele resolvia que iam viajar, ela arrumava as mochilas, espalhava potinhos de comida para o gato, fechava o apartamento, mas sempre esquecia aberta a janela do banheiro. Ele voltava e fechava. Ela fazia bolo aos domingos, ele jogava futebol nas segundas. Quarta-feira era dia do cinema. Ela detestava o jeito que ele apertava a pasta de dente, ele detestava arrumar a cama, mas ela se negava. Elisabeth fez Miguel pintar a parede da sala oito vezes até acertar o tom de verde que ela havia imaginado. Ele fazia massagem nela, ela caía de preguiça de fazer cafuné! Ele gostava de ver fitas de vídeo, ela preferia ler. Ele não lavava a louça, ela comprou uma máquina. Até um certo dia que ela se formou e ele resolveu que deveriam casar. O apartamento ficou pequeno, as roupas apertavam, faltava ar. Ela foi embora.

- Tu pode me explicar por que resolveu voltar agora? Pode me explicar por que foi embora? Por que ficou 5 anos longe e volta dizendo que foi dar uma respirada???

Elisabeth foi viver nesses 5 anos o que ainda não havia vivido, pra poder criar raízes, ficar com ele pra sempre enquanto dure. Foi respirar mesmo. Um ar diferente antes de se entregar ao ser feliz para sempre. Mas Miguel não entendeu quando ela disse que foi respirar e voltou. E se ela tentasse explicar de novo, não entenderia. Agora ela estava pronta. Tinha feito de tudo. Tinha na memória a vida que precisava ter pra dali pra frente não sentir falta. Não teria saudade do que não fez. Agora sim, Elisabeth era mulher pra casar.

- Elisabeth, me diz alguma coisa...
- O verde ainda não é este, acho que poderia ser um pouco mais escuro. Ou desbotou.

Virou as costas e foi embora.
Sempre foi uma incompreendida.

Adianta se eu disser que é puuura literatura?!
 
 
Dreaming With a Broken Heart
 
When you're dreaming with a broken heart


The waking up is the hardest part

You roll out of bed and down on your knees

and for a moment you can hardly breathe

Wondering was she really here

Is she standing in my room?

No, she's not

cause she's gone, gone, gone, gone, gone.
When you're dreaming with a broken heart

The giving up is the hardest part

She takes you in with her crying eyes

then all at once you have to say goodbye

wondering could you stay my love

will you wake up by my side?

No, she can't

cause she's gone, gone, gone, gone, gone.

Do I have to fall asleep with roses in my hand?

Do I have to fall asleep with roses in my hand?

Do I have to fall asleep with roses in my hand?

Do I have to fall asleep with roses in my, roses in my hands?

Would you get them if I did?

No, you won't

Cause you're gone, gone, gone, gone, gone.

When you're dreaming with a broken heart

the waking up is the hardest part.