quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

tem uns "nós" na minha história


Sempre fui boa aluna em história – e isso não é uma ironia. História geral, história do Brasil, história da arte, do Direito, da Filosofia, adorava, tirava boas notas. Eu tive professores queridos. Em casa meus pais eram livros de história. Aprendi tudo sobre feudalismo na mesa do jantar com o meu pai. Decorei os atos institucionais com a minha mãe, ouvindo Chico Buarque nos finais de tarde de domingo (um dia ainda descubro por que professores de história amam marcar provas nas segundas-feiras). Aprendi nas aulas as revoluções e aprendi com as revoluções as linhas do tempo, aprendi com as linhas do tempo que eu não gosto de linhas do tempo. Achava uma retilínea chatice.


Primeiro que a tal reta nunca cabia direitinho no meu caderno. Segundo que anotar tudo tudinho em linha do tempo é um saco saquinho. Daí eu fazia setas, balões coloridos, legendas impossíveis de entender, puxava pra lá, pra cá em verde, azul, rosa e a linha do tempo era quase uma previsão do tempo, daquelas que a gente olha na tevê, muitas e muitas cores. A moça do tempo diz que vai chover, tá aqui, ó, isso azul é chuva, preferimos acreditar. Saímos de casa de galocha, sombrinha, capa e barco. Nenhuma nuvem aparece pra festa. Céu de brigadeiro como diz a minha vó. Na infância queria entender o que tinha a ver o céu com o doce. Quando tinha nuvem eu dizia que era céu de algodão doce. Minha linha do tempo de pensamentos deve ser um espiral. Pior deve ser a dos amores, um nó! Linha cruzada. Cortada. Mas nunca fiz gato. Amei em nome próprio, sempre.


Mesmo assim, na minha história, se linha do tempo tivesse, seria justo uma divisão. Estilo a.C., d.C., com algumas setas, balões, legendas e todo o blá blá blá que me faria sair de vestido e chinelinho no meio de um tufão. Ou nevasca. 


Já morri centenas de vezes, a maioria delas por pura desobediência. 


Acho que todo mundo tem uma idade de auto-rebeldia. Você conhece alguém e pensa: "não presta". Vai lá e beija, pensa: "não devia ter beijado". Guarda uns quero-mais-disso no bolso enquanto procura as chaves. Volta pra casa, deita na cama e pensa: "não presta". A fronha do travesseiro concorda suportando o peso da cabeça que voltou com mais pensamentos pesados do que tinha pela manhã. Acorda e pensa na pessoa, pausa para analisar o fundo vazio do pote de cereal. “Não posso me apaixonar, não por ele... Tanta gente legal no mundo”. Na hora do almoço, analisando o fundo do copo vazio desfigurando a toalha de mesa: "tarde demais." Os  talheres se olham calados, lamentam. 


Você nem percebeu, mas na mesa os pratos da paixão foram servidos antes dos seus. E ela repetiu, porque paixão sem gula não existe. Paixão sem pecado não existe. Peca-se por paixão, só pelo ofício da desculpa. O apaixonado tem sede de perdão. Seja pelo atraso, pelo sofrimento, por ter ligado quando não devia. Pede perdão com os olhos diante do espelho, incomoda de propósito mas faz de conta que é sem querer. A paixão permite esses desavisos. É desmedida, coitada. Meio doidinha. Teimosa.


Tem aquela fase que a gente vê passar na esquina a menor sombra de paixão e muda de calçada, faz a volta, vai pra casa. Tranca a porta, fecha a janela, apaga a luz e dorme embaixo da cama. Com um porrete. Tem a outra que a gente olha, pensa que pode ser paixão e se joga, se molha, depois pendura no varal, como bandeira pra todo mundo ver. Paixão e exibição. Nem rima tanto, só que é legal. Acho bonitinho quando os encantamentos são correspondidos. Mensagens de primavera que não chegam vivas no verão. Mas tudo bem, é como eu dizia, a gente morre, mas sobrevive. E agora algo por aqui – entre a consciência, anjo da guarda, diabinho ou meu estômago – pergunta em que fase eu estou. Sinceramente, não sei. É a parte da minha linha do tempo que está borrada. Sei que eu prefiro não evitar as paixões. Sei que eu prefiro arriscar.


Outro dia alguém perguntou como faz pra não se apaixonar. Eu pergunto por que não se apaixonar? Porque tudo que envolve paixão é difícil? Viver também não é fácil. Difícil mesmo é fazer origami com a boca! O que eu sei é que temos medo do desconhecido e a paixão é imprevisível, mais do que o clima. É bem mais arriscado do que sair sem casaco num dia de frio. Uma gripe, um trauma. São riscos que corre quem confia. Se não na previsão do tempo, na possibilidade de que dê tudo certo. Às vezes dá, às vezes chove.


Um outro alguém me contou sobre a angústia de acompanhar uma paixão da sobrinha adolescente. Olha pro céu, olha o celular, olha pro mar, olha o celular, masca chicle, olha o celular, entre suspiros e bufadas pelos sofás da casa. Na tentativa de ajudar, ele deu um livro para que ela ocupasse a cabeça – pelo menos uma hora por dia, segundo as palavras do herói de sobrinhas. Ocupa a cabeça e o coração continua lá, tagarelando o nome dele. Passa no cinema da memória a mesma cena em todas as sessões, repetidamente todos os dias. Deixa. Adolescente é feito disso: acne, paixão, sofrimento, dilemas mortais, dúvidas cruéis, amores impossíveis, sonhos, planos, aparelho, esmalte colorido e preocupação com o vestibular. Também já passei por isso. Já desenrolei com bic muita fita do Metallica ouvindo NOTHING ELSE MATTERS até decorar cada segundo de que são feitos os quase sete minutos de música. Walkmans não eram confiáveis. Hoje em dia os recursos para trilha sonora são melhores. Até a tecnologia contribui para um banzo de paixão.


Sobrevivi. E sobrevivi aos muitos que vieram depois, aliás duvido que eu morra alguma vez de verdade (com atestado de óbito e tudo) por paixão. Bem ou mal resolvida, com cicatriz ou arranhão, vira tudo história.


E eu adoro história.
Já disse isso hoje?


P.S.: além de histórias, a gente sempre aprende novos palavrões. 
P.S.2: Deus salve o Band-Aid. 
P.S.3: Agradeço pela inspiração e pequeno furto de história à Paola Bárbara, ao Ico e um pouco quase nada ao Jóta Érre que me xinga por mensagem quando furto as aventuras dele sem dar os devidos créditos. 

Quem mandou não escrever... ho ho ho!


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Nothing Else Matters

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

Never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
All these words I don't just say
And nothing else matters

Trust I seek and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

Never cared for what they do
Never cared for what they know
But I know

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

Never cared for what they do
Never cared for what they know
But I know

I never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
All these words I don't just say
And nothing else matters

Trust I seek and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

Never cared for what they say
Never cared for games they play
Never cared for what they do
Never cared for what they know
And I know, yeah

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

domingo, 25 de dezembro de 2011

biscoitices

Dessas tantas ruas por onde passo, de todos os caminhos que não decoro, por tudo onde já me perdi, afirmo com certeza que nenhum rumo é plano ou reto. Há sempre uma curva, um degrau, uma pedra, um muro, uma árvore. Eu sou uma desinventora. E o que eu desinvento a mim pertence. O que não pertence, eu furto, ou roubo armada de flores, risada e cara de doida. O que é viver se não é praticar a insana alegria de mais um dia. Rotina não cansa.



Desmonto as horas em minutos e na hora de montar novamente sempre sobra um tempo que vira saudade, que vira bobagem, que vira suspiro, que vira só tempo perdido mesmo.



O que me aborrece é pensar que quase preciso pedir desculpa pela minha felicidade, como se a tristeza fosse servida junto com as refeições. Não tenho lentes cor de rosa para o mundo, nem sei brincar de contente, mas com tudo que já vem fora de encaixe, não preciso procurar o que mais pode ser alvo do meu descontentamento. Todos temos cicatrizes. Só procuro levar tudo de forma que eu esteja bem – inexplicavelmente – por dentro. Acredito na inocência tanto quanto na indecência.



Usaria meias que carimbassem no chão “sem” “sentido”, porque o que interessa mesmo é caminhar. Onde se vai, como se chega é consequencia. O destino é consequencia. Das escolhas? Talvez. Sinceramente, não interessa. Isso também não faria o menor sentido. Eu prefiro me dedicar ao que me faz bem. Prefiro as companhias agradáveis, os livros interessantes, os olhares que me invadem sem permissão, os beijos com segredos de envelopes.



Já fui mais prudente para viver, suficiente para descobrir que não é possível se poupar das curvas. Suficiente para descobrir que excesso de cuidado cega e a gente cai no precipício na fração de segundos que olha pelo retrovisor. Chega a ser cômico. Há quem prefira batizar isso de armadilha do destino. É mais fácil aceitar assim. Já disse que o destino não faz sentido algum? Tanto não faz sentido que a gente tenta planejar, moldar, ensinar educar e ele faz o que bem entende. Por isso não teimo mais com ele, mas também não aceito. Convivemos bem, ele tolera a minha praticidade, eu danço com os imprevistos. Depois ofereço um brinde para seduzir a esperança. Sou do tipo errado assumido.



Fui feita para ficar do lado de fora da caixa, tenho claustrofobia de formas editadas, de regras impostas, de papéis definidos. Eu mudo as minhas próprias teorias, desafio probabilidades e dou risada quando perco. E com isso tudo ainda tem quem pense que pode me explicar ou me atribuir complexos, justo a mim, tão simples. Foi-se o tempo em que eu tentava argumentar ou explicar. Agora economizo em tudo. Só observo, coisa que faço bem. Foi-se o tempo em que eu perdia meu tempo com isso.



Eu morro de liberdade. Eu morro de amor. Eu morro várias vezes. Fico bêbada de paixão pra dirigir um filme sem roteiro. Eu não resumo, seleciono. Mas também posso ser prolixa, que se dane. Gasto tinta pra colorir a paisagem que nem sempre é minha. Faço festa surpresa pra mim mesma e esqueço de me convidar.



Quem me vê passar assim, subindo os morros, escolhendo as curvas, tropeçando, colecionando cicatrizes e ainda pulando, não entende que não é fingimento. É porque assim são todos os caminhos, se for pra escolher entre passar por eles rindo ou chorando, vou rindo sempre que der. Não gosto de chorar, entope meu nariz. E prefiro guardar as lágrimas pra escorrerem quando eu não aguentar mais de rir, daqueles momentos em que o ar falta, que a barriga dói, que a boca dói. Dói e é bom. Isso não faz de mim menos humana. Isso não faz com que eu ganhe estrelinhas no boletim, nem que eu esteja certa ou errada. Nem acho que todos devem ser assim. Isso só faz de mim eu. Me julguem, me aceitem, só não me incomodem.



Eu continuo retornando as ligações apenas quando tenho vontade. Isto basta, sem drama.

 
 
- Eu já te saquei, mas não vou te cortar.
- Ponto!
- Calma, vamos deixar isso como uma vantagem.
- Assim nós vamos para o tie break...
- Vou torcer por isto.
- No meu time ou no seu?
 
 
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A Seta e o Alvo


Paulinho Moska



Eu falo de amor à vida,

Você de medo da morte.

Eu falo da força do acaso

E você de azar ou sorte.



Eu ando num labirinto

E você numa estrada em linha reta.

Te chamo pra festa,

Mas você só quer atingir sua meta.

Sua meta é a seta no alvo,

Mas o alvo, na certa, não te espera.



Eu olho pro infinito

E você de óculos escuros.

Eu digo: "Te amo!"

E você só acredita quando eu juro.



Eu lanço minha alma no espaço,

Você pisa os pés na terra.

Eu experimento o futuro

E você só lamenta não ser o que era.

E o que era?

Era a seta no alvo,

Mas o alvo, na certa, não te espera.



Eu grito por liberdade,

Você deixa a porta se fechar.

Eu quero saber a verdade

E você se preocupa em não se machucar.



Eu corro todos os riscos,

Você diz que não tem mais vontade.

Eu me ofereço inteiro

E você se satisfaz com metade.

É a meta de uma seta no alvo,

Mas o alvo, na certa não te espera!



Então me diz qual é a graça

De já saber o fim da estrada,

Quando se parte rumo ao nada?



Sempre a meta de uma seta no alvo,

Mas o alvo, na certa, não te espera.



Então me diz qual é a graça

De já saber o fim da estrada,

Quando se parte rumo ao nada?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

eu sou grande

Andar descalça na grama, sentar na calçada para contar as estrelas, cheirar a caixa nova de lápis de cor, essas são lembranças da minha infância que ainda pratico. Não posso dizer que as resgato porque nunca deixei de fazer. Fazia naquela época que o meu pai cortava a minha franja torta antes do banho. E precisava aquecer no bafo a tesourinha de cortar as unhas. Hoje dou conta da minha própria franja e de todas as minhas unhas. Crescemos nos detalhes.

Mais do que aprender a dirigir, trabalhar, cuidar da casa, do dinheiro, do filho e da família, crescer é não abandonar a infância. Não se faz um muro entre as idades. Eu ainda brinco de adivinhar a cor do próximo carro nas viagens chatas. Ainda sento no chão e como com as mãos, faço farelo. Ainda imito peixe nos espelhos e vitrines das ruas, corro dentro de casa para buscar as coisas e caminho de costas para testar se esbarro em algum móvel. Sempre esbarro. A diferença é que antes as quinas miravam a minha cabeça, hoje as vítimas são as pernas.

Não pretendo deixar minha infância guardada num álbum de fotografias ou sentada em alguma prateleira. Ela vem comigo. Que isso não se confunda com infantilidade – mesmo com as situações que me permito. Apenas acredito que é possível não abandonar a criança. Não quero me deixar no orfanato do tempo, gosto de me ter vendo graça em brincadeira boba, comendo sorvete até explodir. Não sei ver bola sem chutar! Não sei ter pudor para abusar da inocência. Outro dia me peguei tentando usar os sapatos da minha mãe.

Trazer essa simplicidade infantil para a vida adulta me deixa mais tranquila. Nunca me desfiz da imaginação de criança, do gosto por arriscar, não abandonei minha teimosia, nem a mania de dar pulinhos e agitar as mãos quando fico extremamente feliz, ou olhar muito séria para alguma coisa que eu desejo que suma. Isso também vale quando quero que alguém suma. Nunca deu certo. Vou continuar tentando. Ok, me chamem de ridícula.

Talvez a gente não precise levar tão a sério o que tem pouca importância, talvez construir um castelo na areia seja mais interessante do que ler o jornal na beira da praia. Exércitos que nunca existiram tentando cruzar os muros que a água do mar vai levar depois. Troco fácil uma noite de festa por uma noite campeonato de vídeo game.

Ter crescido sem abandonar a infância tem muitas vantagens. A melhor delas é não ter hora pra dormir.

A brincadeira invade a noite, mas nem todo mundo percebe.

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ESTE TEXTO ERA PRA TER SIDO PUBLICADO NA SEMANA PASSADA. ANDEI VIVENTO DEMAIS E ME PASSEI... POR ISSO, PRA NÃO ENROLAR MAIS AINDA, VAI ASSIM, SEM MUSIQUINHA!
 
 
 
Às vezes nós temos a mesma idade.

domingo, 11 de dezembro de 2011

atestado de óbito

Vocês podem achar que eu ando escrevendo muito sobre fins nos últimos tempos. Justifico: tenho pensado muito sobre eles. Observado mais ainda! Escutei histórias, fui informada de fatos, juntei pecinhas. Acabei seduzida por finais. São muito interessantes. Se amar é verbo imprevisível, terminar é verbo definitivo. Isso de vai, volta, volta, vai, não vale. Estou atenta aos finais, à morte do amor, ao momento onde o “tudo aquilo”some. Amor pode evaporar, sabia? Amor não precisa esfriar pra acabar, pode ter fim no auge.





E tem mais – agora vou me confessar – ando estudando os fins porque estou bem ruim de começos. Isto é assunto para depois. Não quero desviar o foco do fim. Quero muito falar sobre os pontos finais. Quero saber por que acaba! Eu sei que tem um zilhão de porquês, que variam de vivente para vivente. Eu sei de uma porção de coisas sobre fim de amor. Mas, olhem só, há pouco tempo três histórias de óbito sentimental chegaram ao meu conhecimento.





Contarei porque sou língua de trapo:



1. Causa mortis: afogamento no leite.



Era uma vez um casal que estava se conhecendo. Ela queria ele, ele queria ela. Viviam para cima e para baixo: almocinho aqui, jantinha ali, passeio de mãos dadas na praça, barzinho com os amigos. Casal quando se conhece parece que precisa de testemunha. Ele amava ela, era correspondido. Tudo estava muito bem. Trocavam muitas mensagens pelo celular durante o dia. Telefonavam apenas para enriquecer a empresa de telefonia, pois não tinham lá muita coisa para dizer.



- Oi!



- Oi, lindo!



- Tem sol aí?



- Tem sim!



- Aqui também.



- Acredito, trabalhamos no mesmo prédio!





Riam juntos dessas bobagens que só os apaixonados acham graça. Um dia ele pediu que ela arrumasse a mala para o final de semana. Iriam viajar juntos! Dormir juntos pela primeira vez! Não que nunca tivessem transado. Isso já. Mas nunca dormiram, acordaram, conviveram por vinte e quatro horas seguidas. Ele mandou lavar o carro, recomendou que aspirassem bem por dentro. Ela comprou sutiã novo, calcinha nova, pijaminha novo COM RENDAS (grifei). Foi ao salão, fez as unhas, escova, depilação. Se tivesse tempo, faria massagem. Se tivesse mais tempo, curso de striper.





Na hora marcada, subiram a Serra. Hospedaram-se no Hotel que ficava na Avenida Central, quarto com banheira, cortinas brancas esvoaçantes, lençol com cheiro de alfazema. Jantaram no melhor restaurante, beberam vinho, compraram chocolates e tiveram uma noite de amor da-que-las.



Na manhã seguinte, café servido na sacada do hotel, os dois trocam sorrisos. Um de frente para o outro, cada um com sua xícara de café. O dele era puro, o dela era com leite. No meio dos planos sobre como ocupariam o resto do dia, ela pega uma rosquinha com seus dedos finos acabados em lustroso esmalte, ele observa com atenção, ela mergulha o anel de maisena no leite e chupa.





Morreu o amor. Afogou-se no leite.





2. Causa mortis: acidente do trabalho.





Eles se conheceram num bar. O assunto era interessante. Trocaram o bar por um motel. Ela apressou-se em ir embora:





- Amanhã vou mais cedo para o serviço.





Ele relatou a noite com empolgação para os amigos. Falou bem dela. Ligou no dia seguinte. Ligou também no outro. Ligou no terceiro e convidou para jantar. Foi agradável, ela tinha um bom humor. Ele gostava do jeito que ela enrolava a ponta do cabelo antes de prender. Empalava os fios com um palito de madeira. Quando estavam indo embora ele a convidou para conhecer o apartamento, ali pertinho. Ela respondeu que preferia deixar para a próxima:





- Levei serviço para acabar em casa.



- Pena... podemos combinar um cinema na sexta?



- Claro, vou direto do serviço. Me liga!





Ele não ligou.



Ela ligou.



Ele não atendeu.





- Cara, é a Márcia, não vai atender?



- Não...



- Mas você pareceu ter gostado um monte dela.



- Gostei, mas ela tem muito serviço.



- Que bom, né. A mulher trabalha, não é uma desocupada que vai passar o dia pensando bobagem enquanto não começa a novela.



- Não é isso... ela sempre tem “serviço” e não “trabalho”.





Morreu o amor. Acidente de trabalho.





3. Causa mortis: atropelamento





Fazia um tempão que ela olhava ele. Cuidava até pelo elevador panorâmico. Almoçavam no mesmo restaurante nas terças e nas quintas, dia que ela tinha curso. Ela já havia cogitado derrubar alguma coisa nele para iniciar uma conversa. Ele correspondia aos olhares, mas nunca fazia nada. Nunca falava com ela. Cogitou também pedir ao garçom para entregar um guardanapo com o telefone dela, foi desencorajada pelas amigas:





- Assim é coisa de oferecida!



- Mais um pouco eu peço pro garçom me levar lá, de bandeja!



- Daí nem é oferecida, é dada!





Foi convidada para um bingo beneficente. Resolveu ir porque não tinha mais nada para fazer. Não que no bingo tivesse... mas pelo menos a cerveja estava gelada e talvez ela tenha tomado um ou dois goles a mais do que deveria. Ficar bêbada em bingo beneficente é um episódio inusitado. Mais inusitado que isso só dar ré com o carro na hora de ir embora e atropelar um ciclista.





Apavorada, foi prestar socorro e era ele, o objeto de seu desejo. E ela procurando na bolsa a pastilha de mel que usava para a tosse, querendo disfarçar o cheiro de cerveja. Por sorte ele não se machucou, arranhou um pouco o braço. Conversaram, ele percebeu o teor alcoólico da pessoa e se prontificou a dirigir o carro dela até em casa. A bicicleta atropelada foi no porta-malas semi-aberto. Conversaram mais e mais e mais e na hora de se despedir, ela o beijou. Ele retribuiu. Era óbvio que ela sempre foi uma mulher de atitude, bêbada, mais ainda. Entrou em casa e ligou para as amigas para contar que foi ao bingo mas fez um belíssimo strike!





No dia seguinte recebeu flores do moço, em casa.



No outro dia, recebeu o próprio moço, dizendo que estava passando ali por perto...





Foram caminhar pela rua. Mais uns beijos e chegou a fome. Ela fez a janta em casa, ele conheceu a gata, visitou os parentes nos retratos da parede, disse que era parecida com a mãe. Ela lavou a louça, ele secou. Sentaram no sofá, assistiram um filme. Ele falou sobre casamento, filhos e sobre férias. Ela quis sumir. Achou melhor dar sumiço nele, inventou uma dor de barriga e para que ele fosse embora.





Morreu o amor. Foi atropelado por ele.





Amor é coisa que dá trabalho, cada um carrega um gatilho do fim. A falta de tolerância é muito cômoda. Pontuar um desagrado e usar como tiro fatal. Por que não rir das pequenas coisas? Por que não conversar sobre as diferenças. O fim é fácil. O fim tem sido o caminho óbvio. Amor já nasce para morrer e nunca é de morte natural.





Amor sozinho não se mantém. É preciso muita disposição, doses de tolerância e uma pequena mágica chamada romance. Eu, que morro o tempo todo, cansei de matar.

(ando tão de saco cheio de assinar esses atestados de óbito...)

 
 
 
Causa Mortis


Engenheiros do Hawaii



dia após dia, cada vez mais fria

você matou sua mãe pra estudar anatomia

ano após ano, seu sorriso insano

você matou seu pai com veneno no cinzano



você matou o presidente norte-americano

você era democrata, ele, republicano

você matou sua avó ouvindo mano-a-mano

matou seu avô-não me diz que foi engano

!não! não vou ficar aqui

pra alimentar seu bisturí

!não! você não me seduz

com seu jeitinho cão andaluz



você matou sua tia, morte por asfixia

matou seu tio com tiro de fuzil

matou sua irmã com veneno na maçã

com tiros de canhão, matou seu irmão



você matou todo mundo (era esse seu plano)

matou sua sede (bebendo sangue humano)

matou a charada (vai resolver o plano)

matou muita aula (vai repetir o ano)

!não! não vou ficar aqui

pra alimentar seu bisturi

!não! você não me seduz

com seu jeitinho cão andaluz

domingo, 4 de dezembro de 2011

baixa dosagem

- Moça, isso tem em comprimido ou é só xarope?



- Depende da dosagem.


- É baixa...


- Vou verificar no sistema, só um momento... Hmmm...


- Que foi?


- Quantas vezes por dia a senhora precisa tomar?


- Uma vez, à noite.


- À noite pode provocar insônia.


- Mas é a orientação da receita, não?


- Sim, mas tomar ciúmes à noite, mesmo com baixa dosagem pode causar insônia, gastrite e DR.


- Entendi. E tem em comprimido?


- Não, só em xarope. A senhora pode escolher o sabor. Temos ciúmes em diversos sabores!


- Sei lá, me vê qualquer um...


- Temos futebol com os amigos, chopp depois do trabalho, amigas, futebol...


- Sério, qualquer um.


- Quem receitou isso para a senhora?


- Meu namorado. Ele disse que é impossível namoro sem ciúmes.


- A senhora vai ter que pedir pra ele trocar a receita.


- Por quê?


- Porque esta receita é branca, que é para fazer as pazes. Para ciúmes tem que ser receita roxa.


- Roxa?!


- Sim, senhora, roxa de ciúmes.


- Moça, não quero mais levar isso, não...


- Não?!


- Não. Quero uma caixa de pé na bunda, bem grande, pro meu namorado tomar!


- Este pode levar sem receita, senhora.

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(ciúmes não veio no combo!)

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Acreditem, era uma discussão seríssima sobre ciúmes!

domingo, 27 de novembro de 2011

endereço

Nada do que eu disse foi o que eu quis dizer. Deixei de fazer o que eu queria. Parece que a vida nos desafia a provar que existimos. O fato de não conseguir dizer não significa que eu não quero. Você me tira de mim. Fico procurando nas minhas cartas de desculpas os porquês que eu preciso. Nenhuma diz. Nenhum coringa. Sem cartas nas mangas. Sem cartas na mesa. O jogo é de memória.




Muita coisa mudou. Eu me mudei. Precisei me mudar de Vila Vazia. Ocupo muito espaço, ocupo mais que o próprio corpo, gasto sempre mais do que tenho. Sou perdulária de ideias. Não economizo destinos. Além da alma cigana, tenho gosto pelo dramático. Vou mambembe da honestidade da minha caneca de café preto de todas as manhãs aos delírios e inventos das canecas de chá à noite. O líquido reflete realidade e sonho, sem açúcar. Ida e volta no portão de embarque dos pensamentos. Levo a bagagem nos bolsos. Histórias na pele. Saudades nos olhos.



Eu me mudei porque estava ocupada demais, cheia de mim por todos os cantos. Transbordada de mim mesma nos espelhos que mudam a forma apenas pra confundir.



Fugi de Vila Vazia. Dobrei a esquina, entrei na Rua Sem Sentido. Na contramão.



Hoje é um tempo em que vivo mais do que jamais pensei. Hoje, ver você faz visitar a casa que morei e não é minha. Lembrei de quando eu estava aprendendo a caminhar. Esbarro na mobília fora do lugar, entro mais uma vez no brilho do teu olho confuso.



Eu sempre procuro as tuas pupilas.



Abro as janelas no teu sorriso. Espero a música entrar e tem a tua voz, familiar, acolhedora, como os lençóis que saem do varal para a cama. Eu não seguro a tua mão, mas nossas risadas se abraçam. Somos quase estáticos tentando repreender nossas inconsequencias. Medimos os passos e abreviamos a distância com o piscando os olhos. Eu não pude saber antes. É amor? Foi amor? E agora? É tarde? Um dia saberemos?



Nós nunca nos perguntamos.

Queremos nos responder o tempo inteiro.



Talvez você pense que é tarde. Pois eu digo que nós não usamos relógio. Perdemos a hora. Inventamos o nosso tempo.



Faço questão de ser apresentada aos meus erros para reconhecer os acertos se eles aparecerem. Estranhos acertos. Mas em matéria de nós dois, tudo é estranho. Tudo é diferente. Jamais seremos iguais aos outros. Somos lacunas abertas por onde o sangue deve passar. Somos difíceis de completar. Ainda quero escrever no teu braço, te emprestar o meu bolso, contrariar as tuas teorias e te fazer de bobo. Em troca você me dá saudade. Pior castigo.



Às vezes eu canso de ser o tipo certo de pessoa errada. Às vezes eu posso ser parada. Eu quero fixar residência. Quero morar Em Ti.

 
SOMETIMES - CITY AND COLOUR
 
 
If I was a simple man,



Would we still walk hand in hand?


And if I suddenly went blind,


Would you still look in my eyes?


What happens when I grow old?


And all my stories have been told?


Will your heart still race for me?


Or will it march to a new beat?


If I was a simple man






If I was a simple man,


I'd own no home, I'd own no land


Would you still stand by my side?


And would our flame still burn so bright?






Sometimes I wonder why,


I'm so full of these endless rhymes


About the way I feel inside


I wish I could just get a ride






If I was a simple man


And I could make you understand


There'd be no reason to think twice


You'd be my sun; you'd be my light


If I was a simple man...


If I was a simple man...






Sometimes I wonder why


I'm so full of these endless rhymes


About the way I feel inside


I wish...


Sometimes...

domingo, 20 de novembro de 2011

stomachion das relações

Ele irá acusá-la. Ela irá rebater. Ou vice-versa. A briga acontecerá, será inevitável. Romances esbarram em placas de pare erguidas pelas particularidades das pessoas. Esquecemos que no relacionamento não somos um, continuamos dois. Quando lembramos, ditamos que sempre fomos assim e que nada mudará: ele me conheceu exatamente deste jeito.



Está errado.



A maioria dos solteiros – aqui falo tanto em homens quanto em mulheres – desalmados, egoístas e promíscuos que eu conheço se transformam em seres agradáveis, doces e fiéis quando amam. Amor exige disposição. O amor requer muito do que jamais nos foi dito. Você irá mudar, talvez nem perceba. Mudará sem evitar. Por isso ao acabar o relacionamento é comum que o outro diga que agora caiu a máscara. Calma, alto lá. Somos seres em constante mudança, unimos a nós o nosso meio. Por isso prefiro sempre evitar as brigas.



É comum que o casal pense que poderá ficar junto sem ser diferente, mas sempre um pede que o outro se transforme. Ela comprará a camisa rosa que ficará esquecida atrás da última pilha de roupa. Ele a presenteará com o perfume doce que dá náusea só de ver a silhueta do vidro.



Evito brigas por questão de economia de energia. Tudo tende a se acertar com conversas sinceras. Ou na praticidade dos beijos. Particularmente, apelo para o bom humor.



- Já recolhi quatro canecas de café espalhadas pela casa. Sem falar nos livros! Não tem como usar a cama, nem o sofá ou a mesa da sala! Por que tu não estudas num canto só da casa? E por que não usa uma caneca só para todos os cafés do dia?

- Lindo, sabia que a cadeira elétrica foi inventada por um dentista?



Ele me lançou olhar de medusa. Virei pedra enquanto ele carregava meus livros e canecas para lugar incerto. Percebi que não estávamos na mesma trilha, não havia disposição por parte dele para transformar um relacionamento sério em um relacionamento divertido. Eu gostava de cultura inútil, ele da casa arrumada em época de prova. Sem falar que ele me deu o trabalho de ter que espalhar pela casa todas as canecas e livros novamente. Na faculdade a decoração do caos inspirava meu bom desempenho!



Evitar a briga é uma brincadeira de quebra-cabeça. Temos muitas peças, precisamos montar uma figura. Não precisa ser a figura correta, a figura que servir, serviu. É uma questão matemática, onde muitas possibilidades são possíveis, o trabalho é encontrar as peças, as palavras certas, as atitudes corretas. É uma questão de física e de matemática, Arquimedes já estudou. Precisamos observar, tanto quanto ele observou o volume de água da banheira para criar a lei do empuxo. Singelas constatações que o levaram a sair gritando EURECA pela rua, nu – dizem os fofoqueiros da época.



Talvez num primeiro momento Arquimedes não pareça ter a menos intimidade com o amor. Mas tem. Foi ele quem inventou o parafuso hidráulico. Nunca fui numa festa da porca e o parafuso, mas considero uma das ideias mais geniais. Homens com parafuso, mulheres com porca, o objetivo é encontrar o seu par. Penso na quantidade de abordagens incríveis, na troca de parafusos, porcas puritanas se negando a experimentar o parafuso. Quem acha seu par nesta festa deve acender uma vela para Arquimedes.



Para evitar brigas, precisamos usar um stomachion das relações. Este foi o quebra-cabeça estudado por Arquimedes, um quadrado dividido em quatorze peças geométricas que podem tanto voltar a ser quadrado, depois de embaralhadas, quanto se transformar em qualquer figura a partir de diversas montagens. Arquimedes gastou muito tempo brincando para tentar determinar um número de soluções possíveis. Foi mais fácil chegar ao valor do “PI”. Como às vezes é tão difícil agradar.



É necessário ter muitas peças para formar uma unidade. A resposta adequada depende de observação e habilidade. Não funcionou um, passemos ao próximo. As possibilidades são muitas. Evitar briga não é uma questão de preguiça, dá trabalho.



Outro dia ele reclamou dos meus atrasos:

- Marcamos às oito, uma hora de atraso! Não vai dar tempo de jantar antes do cinema.

- Podemos comer depois!

- Eu estou com fome agora...

- Compraremos sacos gigantescos de pipoca, com muita manteiga, de nadar dentro!

- Não gosto de pipoca.

Quando falham argumentos, apelo para força bruta. Pulei em cima dele prensando contra a parede, beijei e sorri:

- Quer saber? Pra que cinema se a gente pode fazer o nosso filme? Pra que janta quando a gente pode pedir uma pizza? Pra que se preocupar com horário se podemos inventar nosso próprio tempo?



Ele sorriu de volta e me abraçou. Consegui. Evitar brigas é encontrar a cumplicidade das peças: ela e ele.



Quando conseguir, vale gritar EURECA pela rua.

Mas certifique-se de estar vestido.



O Vento


Los Hermanos



Posso ouvir o vento passar,

assistir à onda bater,

mas o estrago que faz

a vida é curta pra ver...

Eu pensei..

Que quando eu morrer

vou acordar para o tempo

e para o tempo parar:

Um século, um mês,

três vidas e mais

um passo pra trás?

Por que será?

... Vou pensar.



- Como pode alguém sonhar

o que é impossível saber?

- Não te dizer o que eu penso

já é pensar em dizer

e isso, eu vi,

o vento leva!

- Não sei mais

sinto que é como sonhar

que o esforço pra lembrar

é a vontade de esquecer...

E isso por que?

Diz mais!

Uh... Se a gente já não sabe mais

rir um do outro meu bem então

o que resta é chorar e talvez,

se tem que durar,

vem renascido o amor

bento de lágrimas.

Um século, três,

se as vidas atrás

são parte de nós.

E como será?

O vento vai dizer

lento o que virá,

e se chover demais,

a gente vai saber,

claro de um trovão,

se alguém depois

sorrir em paz.

Só de encontrar... Ah!!!