sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

roberto carlos com sucrilhos



Raica é uma gata sem raça que eu chamo carinhosamente de franga por causa da pelagem carijó. Foi abandonada em uma rodovia federal quando era tão pequena que mal sabia tomar leite no pires. Tinha mais pulgas do que pelos quando veio morar comigo. Foi amor imediato, sempre gostei de vira-latas, ainda mais com focinho cor de laranja. Ela tem lindos olhos verdes e o mesmo olhar de ressaca de Capitu, olhos de água. A Raica tem uma personalidade maravilhosa, adoro os deboches que ela faz. É praticante da arte do incômodo. Analisa os outros como quem separa feijões para o almoço.



É uma pequena usurpadora. Se eu descuido do meu vinho, ela toma. Levanto da cama, ela deita no travesseiro. O melhor lugar do sofá é o dela. Ela também tem o melhor lugar do inverno quando a lareira está acesa, lugar de destaque no presépio quando é natal, deita em cima do jornal quando estou lendo e morde meus lápis quando rabisco. Quando tem frio, se aquece no George Hagi – peludíssimo Himalaia blue point –, se fica com calor, morde as orelhas dele até que saia, deixando- a reinar soberana sobre a poltrona.



Gosto dela por ser uma incompreendida e não ligar. Nós duas somos curiosas, nós duas somos atrevidas. Ela é mais prudente, evita muros altos enquanto eu escalo nuvens. A Raica cai sempre em pé. Eu ostento uma coleção de cicatrizes no corpo e fora dele.



Se quer carinho, invade o colo. Se não quer, declara guerra a quem respira. Ataca sombras, cria monstros e faz tocaia no jardim. Uma bolinha de papel se transforma rápido em arqui-inimigo (que feia essa nova grafia!!!).



Raica odeia bagunça, detesta que falem alto ou soltem gargalhadas. Tem mania de organização. Quando Hagi, como bom macho, não enterra suas cacas na caixa de areia, ela vai lá e faz, fulmina ele com os olhos. Mostra sua ira com as orelhas pra trás.



Quando quer carne, mia languida. Quando quer leite, afaga a geladeira. Quando quer incomodar, persegue as pessoas pela casa, caminhando entre as pernas. Quando tem insônia, eu não durmo.



Castiga meus descuidos largando pelos nas minhas roupas escuras. É uma maneira que encontrou pra eu pensar nela enquanto estou longe.



É minha companheira de filmes, ouvinte de desamores, testemunha das minhas manias e sócia dos sorvetes nas madrugadas. Ela adora ouvir Chico Buarque, olhar a chuva e dormir no sol. Tem classe, anda como se estivesse na passarela. Lambe as patas com dedicação.



Ela e eu nos damos bem, muito bem. Eu a aperto, amasso, esmago, toco pra um lado, puxo para o outro e ela sempre está em volta de mim. Ela me faz confissões com suspiros. Eu a admiro. Gosto de tipos diferentes, que me dizem muito não apenas com palavras – ou miados.



Talvez o grande sucesso das relações seja encontrar o charme no comum, o prazer no feijão com arroz. E, junto, aceitar e compartilhar o incomum. Há muito que se descobrir.



Uma vez, com olhos de piscina, alguém me confessou que gostava de Roberto Carlos.



Tudo bem, eu como sucrilhos sem leite, fazendo um falso ar blasé nas manhãs de sábado.

 
Essa garota é papo firme, é papo firme, é papo firme
Ela é mesmo avançada e só dirige em disparada
Gosta de tudo que eu falo, gosta de gíria e muito embalo
Ela adora uma praia e só anda de mini-saia
Está por dentro de tudo e só namora se o cara é cabeludo
Essa garota é papo firme, papo firme
Se alguém diz que ela está errada ela dá bronca, fica zangada
Manda tudo pro inferno e diz que hoje isso é moderno

Roberto Carlos - É papo firme
(depois dessa, capaz de chover a semana inteira... eu vou dar o link pras reclamações se isso acontecer!)


***

1 - Não me faça perguntas que eu não quero responder!
2- Mas eu nunca sei o que tu queres responder...
1- Hoje não quero responder nada, quero só comer miojo e conversar.
2 - Conversar sem perguntas?
1 - Isso é uma pergunta!

***

2 - Noooossa, pra que tanta pimenta?
1 - A gente não combinou sem perguntas?
2 - Falei com o MIOJO! Não se meta!

***

1 - Ok, pode me perguntar...
2 - Agora não quero.
1 - Mas eu passei a janta toda falando e tu mudo! Não aguento mais ouvir a minha voz... cansei do monólogo.
2 - Azar é teu, não é comigo que vai fazer um binólogo agora.

***

Quando amigos muito amigos ficam longe por mais de UM MÊS, é proibido proibir perguntas!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

romantismo botânico

Na casa antiga da minha avó, logo depois do muro baixinho, tinha um jardim de rosas. As roseiras eram maiores do que eu. Maiores que o muro. Quem passava pela calçada conseguia vê-las e, esticando a mão, tocá-las. Eu lembro que adorava ficar sentada na frente das roseiras, incomodando as formigas. As rosas floresciam gigantescas, em maioria, vermelhas, outras brancas . Havia apenas uma amarela, minha favorita. Elas recebiam quem entrava pelo portão antes de qualquer um da casa, eram educadas.

A minha casa também tem rosas no portão de entrada, como na casa velha da minha avó. Foi minha mãe quem as plantou. Eu queria gerânios, ela nem me deu ouvidos, plantou as mudas enfileiradas com a ajuda do meu pai. Um pelotão inteiro, perfilado e sentido. São mais sortidas do que as da minha avó, mas igualmente gigantescas. Quando uma resolve florescer, as demais ficam com ciúmes e chovem botões que depois desabrocham. Um dos pés conseguiu dar duas flores de cor diferente, nessas horas eu queria ter feito biologia pra conversar com as roseiras impondo autoridade, explicar que cada pé deve ter uma cor, pra não quebrar a harmonia da fachada. Mas elas insistem no carnaval. E não me dão a menor satisfação. As rosas não falam, já constatou Cartola! O que não quer dizer que suas pequenas rebeldias não sejam notadas... Por mim, adoradora de manias, rebeldias e porcarias, são.

Um dia desses, saindo de casa, percebi que as rosas vermelhas resolveram colocar as flores pra fora, todas de uma só vez. Havia umas cinco. Ou seis. Era um montão! Antes que alguém passasse pela rua e as carregasse, foram parar dentro de casa, num vaso de cristal cuidadosamente servido no aparador em frente à porta de entrada. Agora as rosas recebem as pessoas assim, de dentro de casa para não serem afanadas por estranhos.

Perdeu-se o romantismo.

Quando os símbolos são profanados, os significados já não têm mais a mesma importância. As rosas estão para o romantismo assim como a cruz está para o catolicismo. São objetos de adoração. Uma mulher que recebe rosas do amado, admira por dias as flores, até murcharem as pétalas e só restarem espinhos. Como um amor findo, as rosas se transformam em lembranças e espinhos. Se há uma briga, as rosas vão para o lixo, como se aquilo ofendesse a alma de quem as deu. É um símbolo. Exibir um buquê equivale a uma fotografia do casal em um final de semana apaixonado, porém, com galhos e folhas. Contar por que ganhou ou que ganhou sem motivo – o que é tido por muitos como indício de traição – é o mesmo que relatar o que se passa entre os lençóis. Há quem pense que rosa é afrodisíaco, deixa mais curto o corredor entre a sala e a cama.

Mas tudo isso virou bobagem, não se pode mais pedir que se escreva um poema. Já não se exige a ligação imotivada no meio da tarde pra dizer eu te amo. O bilhete na geladeira não é uma jura de amor eterno e sim uma lista de compras. Nada de dividir o saquinho de pipoca, saco é o que se procura pra encher de paciência. Um carinho sem razão antecede algum pedido absurdo ou uma confissão tenebrosa.

No meu jardim, terei gerânios. Não permitirei o fim do romantismo nas minhas dependências! E nunca conheci um usurpador de gerânios.

 
 
E feliz aniversário pra mim, que tenho mania de trança. Mas isso ficará prum próximo post!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

indicador rebelde

Eu dedilho o tampo das mesas do mindinho ao indicador quando estou com pressa. O dedão fica fixo, observando o trabalho em vão dos colegas, como se aquela agitação pudesse acelerar as pessoas ou o ponteiro do relógio. Não faço uma nem duas vezes, faço centenas. Mão esquerda ou mão direita e as duas juntas, quando os dois dedões - um de frente pro outro - se distraem conversando sobre o tempo. Não faço no sentido contrário, meu indicador não é um bom batuta, a mania perde o ritmo. Poucas coisas são tão ruins quanto manias descompassadas. Manter a ordem de uma mania, como a hierarquia discreta entre os dedos, cada um levantando, baixando ao seu tempo, tocando o tampo com pressões distintas, adequadas para o mesmo som exige aperfeiçoamento. Meus indicadores não possuem este dom da regência, não são obedientes, são traidores. Mais que isso, são desonestos.


A minha pressa é muito exata. As minhas manias são muito organizadas. São moças que estudaram em colégio de freira, com saia plissada e meias longas, do tipo que pouco se vê hoje em dia. Elas estão em mim, porém, são diferentes de mim.


Eu comporto um universo, mas não me comporto.


Meus indicadores apontam sempre o caminho oposto ao que a minha boca fala. Eu digo esquerda, eles apontam a direita. Ainda que o caminho correto seja pegando a direita e que eu não tenha a menor noção de direção – o que vale pra mim é dobra pra lá, dobra pra cá – os indicadores trapaceiam no desejo de me perder. E quando eu quero me encontrar, apontam – precisamente – a pessoa errada.


Apesar de tudo, eu sou uma boa causa, o que complica é que eu sou meio urgente.


Quero os gostos em tempo real. Quero as felicidades já, quero os risos sinceros, quero ouvir uns nãos de verdade. Não perco tempo com as jogadas ensaiadas, fazendo de conta, dizendo que não quando tem um sim luminoso piscando na minha testa. Eu não gosto de sentir nada abreviado, mas empilho sentimentos, sem muitas explicações. Atropelo sem maiores cerimônias. Se me desagradam as entradas nada discretas que eu faço, as saídas triunfais, nem comento. Mas não faço por mal... sempre tenho muita pressa em ir embora porque tenho urgência em saber se vou voltar. Minhas incógnitas fazem parte do meu show. Minhas ambiguidades, minhas indecisões, minhas certezas líquidas e decisões de porcelana, nada consegue ser perpétuo. O que eu combino pode ser descombinado e posso mudar a regra do jogo que eu inventei. O mundo é muito dinâmico pra eu ser estática. Eu tenho pressa. E tenho dedos traidores.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~


La ecsplicación soy djhô

(mi espanhol es fueda!!!!)


E quando eu disse nunca mais com o dedo – o mesmo desonesto – em riste, saindo pra qualquer lado, entrando no carro de qualquer jeito, ele deu risada, me pedindo pra baixar o vidro. Eu, ainda com o dedo em riste e uma fileira de xingamentos loucos pra saltarem da ponta da minha língua, baixei. Puxei o ar. Ele pegou meu indicador com a mão, encostou no meu nariz e disse:


- Tu não podes mais reclamar que os teus cabelos são rebeldes, tu inteira é rebelde.


Os xingamentos voltaram pro fundo da boca, engoli todos, um por um. No meu rosto, um sorriso se desenhou com giz, como aquele que as professoras do primário desenhavam no sol, no canto do quadro.


Foi o primeiro que ganhou esse sorriso.

E perderá tantos outros.


*****

Definitivamente, eu não funciono muito bem.
É divertido.


*****

Retrato de costas, tentando domar o indomável bêlo. Quando quero liso, ele enrola, quando quero ondas, ele escorre.



Sometimes (I Wish) - City and Colour

If I was a simple man,

Would we still walk hand in hand?

And if I suddenly went blind,

Would you still look in my eyes?

What happens when I grow old?

And all my stories have been told?

Will your heart still race for me?

Or will it march to a new beat?

If I was a simple man





If I was a simple man,

I'd own no home, I'd own no land

Would you still stand by my side?

And would our flame still burn so bright?





Sometimes I wonder why,

I'm so full of these endless rhymes

About the way I feel inside

I wish I could just get a ride





If I was a simple man

And I could make you understand

There'd be no reason to think twice

You'd be my sun; you'd be my light

If I was a simple man...

If I was a simple man...





Sometimes I wonder why

I'm so full of these endless rhymes

About the way I feel inside

I wish...

Sometimes...












































sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

letras e pedras

Assim como o meu filho, também carrego no meu porta-malas pedras e letras. Comentei que o Eduardo ganhou de natal um carro, desses de pedalar e que tem um bagageiro, não muito grande, mas cabe uma que outra coisinha. Perguntei o que ele carregava ali, a resposta foi uma das melhores: pedras e letras. Ele, com dois anos, já descobriu o que eu demorei algum tempo para saber. Não interessa a capacidade do porta-malas, reserve espaço suficiente para carregar as letras e as pedras.



São os itens mais importantes. As letras formam as palavras, não sempre para serem ditas, também para serem escutadas, digeridas, guardadas, escritas. Pelas palavras a gente se comunica, pede informação sobre o caminho, informa a si mesmo que se perdeu. As letras formam as tatuagens internas, compõem o pensamento, afinal, não se pensa abstrato, se pensa concreto. As palavras são projetadas na estrada, como as placas que guiarão o caminho de volta pra casa.



Uma letra dará a mão pra outra, costurando a mensagem que vai dentro na garrafa.



Os substantivos serão formados pelas letras e também os nomes que a boca sussurrará buscando diminuir a distância. Serão feitos carinhos ao pé do ouvido com elas. As palavras servirão de lição, porém, devem ser selecionadas. Devemos levar todas as letras, mas nem todas as palavras. Há aquelas que não devem ser ditas, porque precisam de lapidação.



As pedras contarão histórias. Juntaremos justo as que nos fizeram tropeçar. Guardaremos aquelas que nos provocaram quedas, que gravaram declarações na nossa pele em forma de cicatriz. As pedras serão atiradas quando necessário. Livrar-se das pedras dá uma sensação de leveza.



As pedras serão únicas em seu formato, cor e textura. São o concreto do desgosto, mas juntas, empilhadas, são o que nos elevam a um degrau superior. As pedras serão nossos antagonismos, nossos desesperos, as arrogâncias, as frustrações. Não as carregamos para serem remoídas ou relembradas, mas porque nos compõem. Precisamos das pedras para sermos autênticos. Gravamos em pedra aquilo levaremos com orgulho, pendurado no pescoço. Nossas melhores lembranças também são pedras, estão alojadas no muro da memória. Cobrirão alguns buracos, preenchendo vazios como se fossem forjadas para aquele espaço.



Hoje eu carrego letras e pedras para todos os lados, demorei para entender que sou feita delas. Eu demorei para aceitar. Ando carregando muito mais do que letras e pedras, ando confeccionando mais bagagem. Mas uma coisa não ocupa o lugar da outra.

 
 
***
 
Como se explica um determinado nível de intimidade e de se sentir - bem - à vontade com alguém que se tem pouco tempo de convívio? Ou melhor, "convívio".
 
***
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sweet Thing (Van Morrison)

And I will stroll the merry way

And jump the hedges first

And I will drink the clear

Clean water for to quench my thirst

And I shall watch the ferry-boats

And they'll get high

On a bluer ocean

Against tomorrow's sky

And I will never grow so old again

And I will walk and talk

In gardens all wet with rain

Oh sweet thing, sweet thing

My, my, my, my, my sweet thing

And I shall drive my chariot

Down your streets and cry

'Hey, it's me, I'm dynamite

And I don't know why'

And you shall take me strongly

In your arms again

And I will not remember

That I even felt the pain.

We shall walk and talk

In gardens all misty and wet with rain

And I will never, never, never

Grow so old again.



Oh sweet thing, sweet thing

My, my, my, my, my sweet thing

And I will raise my hand up

Into the night time sky

And count the stars

That's shining in your eye

Just to dig it all an' not to wonder

That's just fine

And I'll be satisfied

Not to read in between the lines

And I will walk and talk

In gardens all wet with rain

And I will never, ever, ever, ever

Grow so old again.

Oh sweet thing, sweet thing

Sugar-baby with your champagne eyes

And your saint-like smile...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

desejo

Há um desejo. As explicações poderiam nem começar por aqui. Eu poderia não explicar que o meu desejo é uma matrioshka. Vejo-me enfileirando as bonequinhas em ordem decrescente, nominando uma a uma com aquilo que compõe o meu desejo. Batizando o infinito de cada universo que faz parte do que eu quero.



Meu desejo é novo, a ponto de me deixar confusa. É um querer duvidoso. Tenho certeza dele, mas não tenho certeza de como, quanto. Eu não sei mensurar as consequencias, os riscos, mal sei da onde veio. Ainda não avaliei o tamanho da queda porque ainda não tirei os pés do chão. Ele me exige isso, leveza para flutuar. Vem me tirando o sono, fatiando minhas madrugadas, transformando meu travesseiro em pedra e, ao mesmo tempo, ocupando lugares no meu dia, espalhando migalhas na minha trilha, forjando encontros, simulando diálogos.



Posso sentir o atrito de cetim na ponta dos dedos, virando renda perto do rosto. É um desejo corajoso de surpresa. Não posso dizer que gosto, porém sinto medo, isso seria muito clichê. Posso dizer que não conheço e me encanta; que jamais provei e sei que quero me embriagar dose por dose. Eu sei o que foi que me seduziu, eu sei qual foi o imã que me atraiu, conheço o porquê de ter vindo parar na frente dessa vontade. O meu desejo é abstrato, desregrado, displicente, sem compromisso ou hora marcada. Essa vontade que eu sinto não tem o menor respeito por mim. Sequer foi capaz de perguntar se eu estava pronta. Fez entrada triunfal na minha vida, atropelou o meu sossego, não satisfeita, zombou do meu espanto. Resta-me manter a calma.



O meu desejo tem riso, tem aventura, tem sedução. Hoje quase foi embora, segurei pelo pé. Fazia horas que não me aparecia um bom desejo. Eu andava muito querendo desejar, faltava começar. O nome desse desejo é paixão. O que vier depois, eu invento na hora. A minha vida é feita de improviso. Não escrevi certo por linhas tortas, minha folha nunca teve pauta. O que eu tenho é no máximo uma margem: de erro.


+++

Fido ganhou um carro com porta-malas. Perguntei o que ele carregava, ele respondeu "pedras e letras". Eu amei a resposta, no meu também tem isso... e mais um pouco.
+++

Te querer



Viver mais pra ser exato


Te seguir


E poder chegar


Onde tudo é só meu


Te encontrar


Dar a cara pro teu beijo


Correr atrás de ti


Feito cigano, cigano, cigano


Me jogar sem medir






Viajar


Entre pernas e delícias


Conhecer pra notícias dar


Devassar sua vida


Resistir


Ao que pode o pensamento


Saber chegar no seu melhor


Momento, momento, momento


Pra ficar e ficar






Juntos, dentro, horas


Tudo ali às claras


Deixar crescer


Até romper


A manhã


Como o mar está sereno


Olha lá


As gaivotas já


Vão deixar suas ilhas


Veja o sol


É demais essa cidade!


A gente vai ter


Um dia de calor...

(Cigano - Djavan)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

suporrinhações

Aos que insistem em supor qualquer coisa a meu respeito, não mais pedirei que não o façam. Façam. Concedem-me o grande prazer de contraditar bobagens, ainda que mentalmente. E me fazem o favor de abastecer a minha inquietude com as certezas que eu não quero ter. No momento em que tudo fizer sentido, perderei eu o sentido de ser. Prefiro organizar não quem sou, mas o que sinto. Prefiro me fazer companhia e discutir conceitos próprios a agradar opiniões alheias. Nasci do avesso, me conservo assim. Nasci com fome, olhos grandes, atentos e um nariz que aponta pra frente, ainda não mudei isso.



Quando me apontam chamando de egoísta, acho graça. Eu sou umbiguista, é bem diferente! Minhas abdicações são sigilosas, não preciso pintar um muro com a lista das minhas concessões. Prefiro pintar os muros com as marcas das minha mãos, sujas em alguma poça, molhada em alguma água, mergulhada em alguma cor. As minhas digitais têm muitas histórias. Invento fatos, desinvento pessoas, reformo e reconstruo com meu tempero qualquer coisa que eu precise chamar de verdade. Os tropeços enriquecem a viagem.



Os meus porquês não são respondidos fora de mim, são construídos aqui com zelo, como castelos de areia. São estruturados, mutáveis, moldáveis. As minhas indecisões são crocantes, os meus medos são terríveis. As minhas razões não têm compromisso nem comigo. Eu não posso dizer que aprendi a observar as relações por ângulos diferentes, eu nunca soube aprender a ser diferente. Só sei ser eu. O problema é que eu sou tão vasta e infinita que as minhas possibilidades atravessam qualquer conceito ou rótulo que possam querer me dar. Nem todo mundo consegue medir o meu tamanho. Ao me supor, criam teorias: pra minha solidão, pro meu humor, pros meus excessos, para as minhas compulsões. Querem saber por que eu não gosto de leite, por que eu durmo pouco, por que eu faço cara de espanto e faço graça quando ninguém vê. Algumas coisas são só por charme, puro capricho. Mas são minhas, muito minhas, preservo tanto quanto meus segredos mais impublicáveis. Sou certa dos meus erros. Ando vivendo demais pra mim. No meu copo cabe sempre mais um gole de qualquer coisa que me faça cócegas nas alegrias. Não consigo beber a tristeza por vontade própria, nem imagino onde guardei a garrafa.



Insistem em colocar interrogações nas minhas molduras, eu, que sou pura exclamação, apesar de amar as reticências. Não sigo trilhas, não tenho mapa, não uso relógio. Pra achar a lua, é só olhar pra cima. Prefiro descomplicar, fazer do meu jeito. Quando dá errado, fogo! Alguma coisa vai nascer... Se não nascer, valeu ter feito fumaça. Eu não me prendo, não tenho amarras, mas crio vínculos. Eu sei amar como ninguém sabe. Eu sei olhar o que quase ninguém vê. E pra quem diz que eu não sei o que eu quero, lamento. Eu sei. É simples e raro. Por que eu não digo? Ninguém me pede com jeitinho.



Continuem supondo. Ainda tenho que voar muito por aí.




Ask - the smiths


Shyness is nice, and

Shyness can stop you

From doing all the things in life

You'd like to





Shyness is nice, and

Shyness can stop you

From doing all the things in life

You'd like to



So, if there's something you'd like to tryIf there's something you'd like to try

Ask me - I won't say "no" - how could I?





Coyness is nice, and

Coyness can stop you

From setting all the things in life

You'd like to



So, if there's something you'd like to tryIf there's something you'd like to try

Ask me - I won't say "no" - how could I?





Spending warm summer days indoors

Writing frightening verses

To a buck-toothed girl in Luxembourg





Ask me, ask me, ask me

Ask me, ask me, ask me





Because if it's not Love

Then it's the bomb, the bomb, the bomb

The bomb, the bomb, the bomb, the bomb

That will bring us together





Nature is a language - can't you read?

Nature is a language - can't you read?





So ask me, ask me, ask me

Ask me, ask me, ask me

sábado, 1 de janeiro de 2011

pinguim mais bonito da festa


Tenho grande dificuldade em duas coisas: ser silenciosa e ser pontual.



Nos casamentos sempre rezo pra noiva se atrasar pelo menos quinze minutinhos, porque é o tempo que o maldito relógio costuma manter de vantagem contra mim. Chego esbaforida na igreja, subindo uma série infinita de degraus, segurando o vestido longo com uma mão, decote e bolsa com o outro. Certamente o coque de tranças deve ter pendido para algum lado, o de baixo, imagino. No meu rosto já têm mais fios do que os que foram propositalmente deixados soltos. Abro a porta central da igreja, todos que já estão sentados olham pra trás. Não, eu não sou a noiva e pra minha sorte, ela ainda não chegou. A cerimonialista avisa-me que a entrada dos convidados é a lateral. Tudo bem, no próximo casamento, sem entradas triunfais. Neste, já é tarde. Aliás, bem tarde, nada da noiva. Consegui lugar em uma das últimas fileiras, ao lado de um senhor de bigode que usava um perfume de cheiro cítrico muito forte. Tentei desviar o nariz da rota do cheiro e a cauda do vestido da rota dos pés dele.



O vestido era da minha irmã, era longo, cinza escuro, de cetim, com rendas e pedrarias no busto, decote generoso, costas de fora e uma cauda. O caimento era justíssimo até a altura do joelho, depois abria e eu, delicada como sou, caminhava me sentindo um pinguim de salto alto. Olhei em volta, eu era o pinguim mais bonito do casamento – com exceção da noiva, mas ela ainda não estava na igreja. Em casamentos a noiva deve sempre ser a mais bonita. Quase uma hora de atraso e meu estômago já ensaiava os primeiros roncos. Tenho fome a cada duas horas, fazia uma vida que eu não via comida pela frente.



Dane-se. Meu estômago é o único órgão do meu corpo capaz de mandar no cérebro. Antes que alguém pergunte pelo coração, ele vai bem, obrigada. Só deixou de ser um órgão, há horas. Levantei, fui saindo da igreja pela porta lateral, me esquivando da moça que puxou as orelhas na chegada, catando as chaves do carro dentro da bolsa. Precisava comer. Descendo a escadaria gigantesca, carregando bolsa, segurando o rabo do vestido, decote, chave, soprando os fios que caíam na minha cara, esbarrei com alguém que comentou:



- Ué, não bastasse fugir dos teus casamentos, agora também foge dos casamentos dos outros?



Era Guilherme, sempre agradável. Com laser nos olhos, respondi que ia buscar meu batom no carro. Somos amigos há quase vinte anos, Gui, eu, o noivo, Daniel e mais outros. Duvido que alguma vez tenham me visto de batom. Nunca usei, não está nos meus planos usar, mesmo assim o atrasado Guilherme não contestou.



Levei meu estômago até o drive thru mais próximo. A fome estava morta. A próxima a morrer deveria ser eu, porque tinha uma mancha de cheddar do tamanho de uma bola de gude no vestido. Na minha família nunca houve caso de homicidas, mas a tendência existe. A minha irmã não pensaria meia vez antes de torcer o meu pescoço por causa da mancha. Desci do carro, fui até o banheiro do lado de dentro da lanchonete e agora eu tinha uma poça de água no tecido, entre a coxa e a bacia, do tamanho de uma bola de tênis. Mentira, do tamanho de uma bola de boliche. Voltei pro casamento, que deve ter sido mais rápido do que a demora da noiva, vi os noivos saindo, a chuva de arroz. Adoro a parte do arroz. Nunca entendi muito bem por que jogar arroz. Uma vez alguém me disse que era pra desejar fartura. Outro alguém já me falou que pros chineses é uma simbologia do desejo de fertilidade. Bom, eu acho bonito, gosto de ver a noiva com arroz no cabelo. Sério.



Todo mundo se organiza pra sair atrás do carro dos noivos rumo à festa e eu junto, fazendo de conta que já estava ali. Guilherme passa por mim, faz sinal pra baixar o vidro.



- Tu sabes onde é?

- Não, mas vamos seguindo...

- Olha só, tem gergelim no teu nariz.



Oh, Deus, indícios da materialidade do meu crime de fugir do casamento do amigo para satisfazer a minha gula. Na festa, fiz de conta que comi, fingi que não estava nos meus dias de maior apetite. Mal sabem que minutos atrás eu estava atracada com sanduíches e batatas fritas. Aliás, a mancha no vestido era mais aparente ainda depois de seca, eu caminhava com a bolsa na frente pra disfarçar. Na hora de tirar foto com os noivos, segurei o arranjo da mesa na minha frente. Literalmente, me escondi atrás da moita. A sobremesa eu comi, ataquei também a mesa de doces e fui dançar, deixando enfileirados em cima da toalha branca os copinhos de mousse de limão pra mais tarde.



Eu sou um pára-raios de gente esquisita. As figuras mais estranhas da festa grudam em mim. Eu no grupinho dos meus velhos amigos de guerra, vem um baixinho, de cabelo crespo até os ombros, narigudo, fanho, bêbado dançando de maneira constrangedora. Eu, que quis ser simpática, danço um pouco, viro as costas e vou pra mais perto dos meus amigos. O fanho feinho vem atrás, querendo conversar coisas que eu não entendia, perguntando se eu era filha de sei lá quem. Não, não sou. E insistia que eu era. Ora bolas, a menos que eu tenha sido enganada nos meus trinta – e quase um – anos de vida, sei bem quem são meus pais! Lá ia eu, cobrindo a mancha com a bolsa, segurando minha cauda, o decote e soprando os fios de cabelo buscar proteção de algum amigo. O ruim de ter amigos há tanto tempo, é que eles já me enxergam como um outro cara. Não raro me chamam de “meu”. Quando virei as costas pela milésima vez pro toquinho de amarrar bode, não é que ele passa a mão na minha bunda! Ato contínuo, minha bolsa foi parar na cara dele. Eu, furiosa, fui parar na mesa. Braços cruzados, ensaiando um beiço, com um vinco de ira entre as sobrancelhas, resolvi interagir.



A mesa estava bem agradável. Os pais e a irmã da noiva haviam se sentado lá. Deviam estar entrevistando os amigos do noivo para terem certeza de que a filha não fez uma boa escolha. Enquanto eu tentava esconder a mancha do vestido, meus amigos lembravam, na frente da família, de uma vez que ri e saiu suco pelo meu nariz, de quando caí de um cavalo porque não sabia montar, quando juntamos tocávamos limões podres nos ônibus e depois saíamos correndo. É... uma mancha no vestido não é nada perto de várias manchas no passado. Quando eu pensava que nada mais podia piorar, lembraram que eu tinha namorado o noivo. Por favor, eu ainda tinha dente de leite quando isso aconteceu e desconhecia beijo na boca. O noivo era mais alto que eu – hoje, passei léguas da altura dele. Sorri e disse que ia fumar um cigarro na rua – eu não fumo. A noiva nunca foi muito minha fã, a família me encarou preparando a fogueira, convocando os demais convidados para fazer churrasco de uma bruxa: eu.



Catei uns doces da mesa, fui para a varanda do salão de festas. Sentei no chão, olhando pro nada. Meu amigo e noivo e ex-namorado, o Trigo, sentou-se do meu lado, com a mão no meu ombro.



- Alguém não está tendo uma boa noite.

- Bom... eu te avisei pra não casar, agora, não reclama.

- Gracinha. Estou falando de ti.

- Ai, Trigo, eu estou tendo uma boa noite. Ela é que não está tendo uma boa eu.

- Bobagem, mostra pra ela quem manda.



Peito estufado, voltei pra festa, pra pista, pra música, para os amigos. Voltou o fanho a me infernizar. Do alto dos meus cento e setenta e três centímetros de altura, coloquei as mãos na cintura e disparei antes que ele tentasse abrir a boca:



- Olha aqui, queridinho, eu não coleciono tampinhas, pega esse teu meio metro de pessoa e some do meu campo de visão antes que eu te prenda em algum armário!



Grosserias não são o meu forte, mas funcionou. Mandei o chato de volta pra Lilliput.



Na nossa mesa a família da noiva havia dado lugar para algumas moças para quem meus amigos faziam a corte. Sentei em uma das cadeiras, tirei os sapatos, estiquei o pé por cima de um deles e comecei a lembrar das (des)aventuras amorosas de cada um. Espantei as raparigas. Fomos dançar com o noivo, ainda que a família me olhasse com cara de reprovação. Dane-se. E àquela hora, dane-se a mancha do meu vestido também. Mesmo com mais fios soltos caindo nos meus olhos, eu ainda era o pinguim mais bonito do casamento. Com exceção da noiva – já disse! Foi uma belíssima festa. Felicidades aos noivos!



Cheguei em casa, lá pelas quatro da manhã, não achei minha chave. A campainha não funciona, meu celular não tinha bateria e buzinar estava fora de cogitação. Solução: arremesso de sapatos na janela da irmã mais nova. O primeiro sapato foi parar no telhado. O segundo bateu na janela, bem no alvo, eu dancei chá-chá-chá na calçada pra comemorar. Minha irmã não acordou. Voltei pro carro, improvisei uma cama. Meu pai madruga, em breve serei salva. Se eu tivesse que fazer de novo, faria tudo igual, adorei a noite.



Deitada no banco do carro, olhando o céu por uma das janelas, as estrelas pareciam ter escrito o meu nome. E aquilo me valeu a noite. Um pouco de tormenta não torna menos doce a recompensa.



Dei à noite uma boa eu.


Amanhã, talvez

Esse vendaval faça algum sentido

Dá pra se dizer

Qualquer coisa sobre todo mundo



Por hoje é só

Vou deixar passar a ventania

Talvez amanhã

Vento, vela e velocidade



Mar azul, céu azul sem nuvens

Logo ali depois da curva

Ali, logo ali,

Ali depois da curva



Amanhã talvez

Esse temporal saia do caminho

Dá pra escrever

O papel aceita toda qualquer coisa



Por hoje é só

Vou deixar passar a tempestade

Talvez amanhã

Água pura e toda verdade



Mar azul, céu azul sem nuvens

Logo ali depois da curva

Ali, logo ali,

Ali depois da curva



Ali, logo ali,

Ali depois da curva

Ali, logo ali

Eu vi, eu vim, venci a curva




(POUCA VOGAL - DEPOIS DA CURVA)
 
 
P.S.: Eu tenho a melhor irmã do MUNDO.
P.S.2: Eu sou fera no joguinho do avião!!!
 
Feliz 2011.