sábado, 26 de fevereiro de 2011

areia no tênis

Uma vez, em vez de um beijo na boca, ganhei uma mordida no queixo. Estava tudo tão certinho, toda a cena perfeita, há meses o beijo era uma ameaça constante, uma certeza comparável à morte. Os amigos já comentavam, plantamos expectativas, despedimos a discrição sem aviso prévio. Não cochichávamos mais ou ficávamos afastados na multidão. Até as pedras das calçadas estavam na torcida. Nossos olhares não se cruzavam mais, eram tatuados um no outro.



Era outono, início de outono. Desses que já mandam as folhas caírem em chuva nas primeiras semanas. Um outono desses que fecha o verão, que autoriza a temperatura a baixar, a pele desbotar. Ainda trazíamos as mochilas do verão, o gosto da água do mar, a ardência nas narinas. Dentro do meu tênis, areia. A agenda voltava a ter lista de livros e horários de aulas, junto com anotações em código, letras de música e desenhos. Nunca fui uma adolescente típica. Eu sequer brigava com os pais para sair batendo portas e pés pela casa. Eu não insisti nas crises existenciais, mas já tinha em mim a mesma pressa que ainda conservo. Às vezes não sei se não pulei da infância para a vida adulta sem adolescer. Não fui rebelde como nunca porque sou rebelde como sempre.



As colegas da mesma idade beijavam uma pessoa numa noite e na outra já imaginavam número de filhos, nomes, onde iriam morar, sabiam inclusive os nomes dos futuros cães que correriam no gramado verde, tal qual ensinava o comercial de margarina. O que me entusiasmava não era o beijo, eu gostava mesmo da expectativa (pausa para eu ter certeza se estou mesmo falando de passado), gostava do intervalo de tempo entre o primeiro oi e o beijo. O que me encantava era o tempo gasto no flerte, a energia empregada nas espécies de convencimento. Algumas manhãs, eu acordava querendo, na noite, dormia repudiando. Outras manhãs, não queria ver a sombra, acabava a noite procurando alguma estrela cadente para pedir um encontro casual. Um esbarrão sem pretensões tem tanto charme. Alguns encontros marcados me lembram consulta com o dentista. Quase é possível me ver folhando alguma revista de fofoca na sala de espera. Na falta de assunto, comento o resumo da novela, sempre funciona.



Até chegar ao primeiro beijo, eu conduzia a situação relativamente bem. Eu dou defeito nas continuidades. Depois era um sem fim de desculpas furadas, fugas, correrias, sumiços, evaporações e qualquer outra coisa que implicasse em desintegrar a minha pessoa.



Com exceção de O Poderoso Chefão, O Senhor dos Anéis e Piratas do Caribe, não lembro agora de continuações que tenham caído nas minhas graças.



É sério, não funciono bem, preciso de empurrõezinhos, preciso que me instiguem, preciso que me segurem um pouco. Doses homeopáticas de insistência. Bom, talvez eu também precise ser amarrada ou que prendam uma daquelas bolas de chumbo no meu pé... Talvez, eu disse.



Passamos aquele verão inventando o que colocar entre o oi e o beijo. Houve uma noite que virou dia quando estávamos juntos. Sentados em um banco olhando o sol sair tímido do mar, os amigos sentados na areia. Parecíamos uniformizados: jeans, tênis e variações de camisetas brancas. Não era preciso mais que isso para compor o figurino da noite na beira da praia de Capão Novo. O vento naquela hora da manhã deixava o mar mais ondulado que os meus cabelos. Os primeiros vovozinhos já levavam os mascotes para a caminhada no calçadão. Ele estava sentado ao meu lado, passou o braço por cima dos meus ombros me puxando para perto, eu pude sentir o cheiro do perfume dele, mais do que em todos os abraços anteriores. Eu ri pra ele. Ele retribuiu e aproximou o rosto, eu virei o meu. Ele, como prêmio de consolação, cheirou meus cabelos. Alarme falso. Foi mais uma página antes do beijo que nunca aconteceu.



No início daquele outono, fomos caminhar na Usina do Gasômetro. A turma inteira se encontrava nos domingos para conversar e ver o sol se pôr. Foi a maneira que encontramos para não perdermos o contato durante o ano.



Na hora de ir embora, depois de alugar o bolso dele com a minha chave, meus chicletes, depois de termos dividido os fones do walkman – tocava Lulu Santos – fui abraçada de novo daquele jeito. Ele tinha os olhos de paisagem, dessas que podemos pintar, mas nunca descrever inteiramente. Olhos que permitem apenas sinopses. Qualquer coisa que eu disser sobre aquela perfeição emoldurada por cílios longos será apenas o resumo. Eu esperava pelo beijo, ele segurou firme meu rosto e mordeu meu queixo: tchau.



Não havia a magia do sol nascendo, não havia o vento ondulando o mar mais do que meus esvoaçantes cabelos. Mas era o meu tempo.



O tempo dele foi lá. E o que sobrou foi só a areia dentro do tênis.



Bem feito pra mim.



Às vezes, mais importante do que respeitar o próprio tempo é saber reconhecer o tempo do outro. A entrega exige um pouco de interpretação. É uma invasão de privacidade necessária. Esse tempo não se conta em tic tac. O que ficou foi a sensação de um livro de boas histórias sem final.



Descobri que isso me causa maior descontentamento do que as continuidades.




Ainda hoje não sei se prefiro areia no tênis ou pedras no caminho...
E olha que faz tempo que já desadolsci.

****

****





Eu gosto tanto de você

Que até prefiro esconder

Deixo assim ficar

Subentendido



Como uma idéia que existe na cabeça

E não tem a menor obrigação de acontecer



Eu acho tão bonito isso

De ser abstrato baby

A beleza é mesmo tão fugaz



É uma idéia que existe na cabeça

E não tem a menor pretensão de acontecer



Pode até parecer fraqueza

Pois que seja fraqueza então,

A alegria que me dá

Isso vai sem eu dizer



Se amanhã não for nada disso

Caberá só a mim esquecer

O que eu ganho, o que eu perco

Ninguém precisa saber



Eu gosto tanto de você

Que até prefiro esconder

Deixo assim ficar

Subentendido



Como uma idéia que existe na cabeça

E não tem a menor obrigação de acontecer



Pode até parecer fraqueza

Pois que seja fraqueza então,

A alegria que me dá

Isso vai sem eu dizer



Se amanhã não for nada disso

Caberá só a mim esquecer

E eu vou sobreviver...

O que eu ganho, o que eu perco

Ninguém precisa saber

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

faz-se mundo

Procura-se alguém disposto a fazer mundo. Porque das pessoas que fazem tempestades em copo d’água, eu já estou farta. Por favor, apaguem esse holofote, desliguem a fumaça, mandem embora a platéia. Não quero esse picadeiro por aqui. Pelo menos não pra falar de amor. Não para sentir paixão.



Andei aprendendo que sentimento é confissão e que não se gosta sem antes ajoelhar para assinar na linha pontilhada a autoria de pelo menos um crime. Que por mais que alguma sedução seja necessária, a cara lavada das manhãs de domingo é o que faz um par seguir. Não é o amor cru, não é o ciúme ou a falta dele, não é o bilhete de eu te amo postado embaixo do travesseiro ou as rosas mandadas sem motivos, não é o romantismo, nem as noites de sexo ou os jantares à luz de velas, beijos de cinema, despedidas de novela no portão de casa. Isso alimenta, é o que engorda. E não é a não entrega o que preserva ou protege ninguém de chorar na companhia dos azulejos do banheiro. A gente toma paulada na cabeça e é proibido que isso justifique o desamor, a inércia de gostar, o vazio de sentimento. Os dias precisam de cor. Amigos são as melhores coisas do planeta, família é indispensável, trabalho é prioridade, mas o sentido da engrenagem vai pro lado certo com o coração quentinho. Mesmo que seja um coração saltitante, conjugar o verbo que o faz bater é uma necessidade física, talvez biológica, que a química tenta explicar.

 Ninguém se salva de ser surpreendido por um abraço com encaixe perfeito, mãos macias promovendo carícias impossíveis de serem dispensadas. Um sorriso racha no meio da nossa cara e a gente nem se dá conta.

- Qual a graça?

- Estou rindo?

- Sim, está.

Fazer mundo é complicado. Precisa de investimento, precisa ficar descalço dos costumes e nem sempre a pisada é confortável. E por que abrir mão da liberdade para abrigar na vida um estranho? Carpinejar já disse que liberdade na vida é ter um amor pra se prender. Eu concordo. Nunca fui tão livre quanto nas horas em que amei. Isso só se sabe quando se experimenta, por isso, independente de todas as batidas de cara contra o muro, eu acredito no amor. Sem vergonha alguma. Sem preonceito algum, amores de todos os tamanhos, cores, com todas as peculiaridades.

E nem romântica eu sou.

Desagrada-me quem faz de um fio novelo. Costumo amarrar meus fios, costurar com eles, unir, dou aquele laço no dedo pra lembrar. Gosto de quem me dá linha, mais ainda de quem me dá corda. Gosto quando tudo parece combinar e nada parece ter sentido. Eu gostava de estar fazendo a coisa errada e jamais querer saber se haveria acerto. Tenho saudade de pequenos gestos, como ajeitar minha franja que insiste em cair nos meus olhos... E quando tudo se afoga em um copo d’água, somos forçados a deixar os dias pra trás. Voltaremos a sorrir.

- Qual cor tu vais pintar?



- Laranja.


- Por quê?


- Bolei uma nova decoração.


- O que aconteceu? Brigou? Amor novo? Amor velho?


- Nada, só quis reformar o quaro...


- Tu sempre fazes isso quando acontece tem alguma mudança...


- Juro, nada não... a não ser...


- O quê???


- Prometi que não vou mais fugir.


- E agora???


- Agora corro trinta minutos na esteira...


- Não sei o que te dizer...


- Preciso correr mais?


- Não, decidir se isso é treino ou válvula de escape.




 

Life it seems so cruel

can?t believe that I lose

all my face and my cool

and my faith and my cool



life it seems so strange

can?t believe we behave

just like adam and eve

just like liars and thieves



(chorus)

And I found it hard to find

A day got left behind

I would trade it for a smile

Can one day change your life

Can one change your life



Life it seems so cold

Can?t believe we get old

hope I die before I

get ugly and old



life it seems so strange

can?t believe we behave

just like adam and eve

just like liars and thieves



(chorus)

And I found it hard to find

A day got left behind

I would trade it for a smile

Can one day change your life

Can one day change



love it comes only once

when its right

throw the first punch



La La La La La La

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

final alternativo

Da série dialoguinhos.

****

- Isso é um fora?



- Não era pra ser.


- Mas o que acontece agora? Tu sai pela porta, pega a bolsa, o lenço e vai embora.


- É...


- Mesmo assim não é um fora?


- Se me deixares sair sem explicar todos os porquês que tu queres perguntar, não vai ser um fora. Vai ser um tchau.


- Se tu não vais voltar, vai ser um adeus.


- Olha, chama do jeito que mais te agrada, eu prefiro só sair pela porta.


- E depois?


- Depois o quê?


- O que acontece?


- O mesmo de sempre... a noite vira dia, o dia vira noite, que vai virar dia de novo...


- Jamais vou te entender.


- Jamais vou me explicar.


- Ainda assim, eu gosto do teu jeito.


- Ótimo. Sem mágoas?


- Não.


- Certo, com mágoas, então.


- Ainda não sei, vou descobrir amanhã, quando acordar.


- Muito bem.


- Para onde tu vais agora.


- Para o elevador.


- E depois?


- Para baixo. É onde fica a portaria, não?


- Sim, mas do jeito que tu és, não me surpreenderia ir até o terraço e sair voando.


- Hmmm... vou pensar sobre isso para uma próxima vez! Te cuida, certo?


- Olha só... vou deixar a porta aberta.


- Pra quê?


- Para uma próxima vez.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

porta dos desesperados

Viver é um verbo dinâmico. E a vida é uma boa desculpa. Para aquilo que não se explica, a vida, ponto. Explicado está. Ainda assim, raros são os que vivem, porque isso implica em escolhas, mais do que é confortável. Viver ultrapassa abrir o olho pela manhã e enfrentar um dia. Não se resume a ter nascido para existir no intervalo até a morte. Isso é banal. Isso é fácil. Qualquer um faz.



Acredito que a cada dois passos surgem diversas portas na frente do meu nariz. É um corredor sem fim de portas de todos os tamanhos, de diversas cores, algumas entreabertas, outras com fechaduras, cadeados, maçanetas douradas, trancas de madeira. Eu me preocupo com as que têm olho mágico, porque não consigo ver o lado de lá antes de empurrar e ouvir ranger as dobradiças. Apenas a porta me vê, estuda as minhas possibilidades, analisa a minha surpresa. A única vantagem que tenho é a escolha. A porta não pode me escolher, mas me conhece. Eu, sobre ela, apenas suponho.



Justamente o que me intriga são essas incertezas. Não tenho medo das possibilidades, por não as conhecer. Tenho curiosidade. E quando me perguntam “afinal, o que tu procura?” Eu apenas posso fazer escolhas. Dizer o que eu não procuro, o que eu não quero, do que eu não gosto é fácil. Tão fácil quanto existir nesse intervalo entre nascer e morrer. Ninguém se conhece tanto para ter certezas do que quer. A gente vive mesmo é de dúvida. Quando o mundo me planta interrogações, eu respondo com perguntas. Eu sei exatamente o que eu não sou. De resto, sou vaga desconfiança, com uma série de lembranças, pimenta, TNT, melodias e cobertura de chocolate. Pouco importa o sentido que isso faz. Em realidade, o caos faz bem mais sentido. As contradições são mais ricas de possibilidades.



Quem segue firme numa reta abrevia o mundo.



Quem não torce o pé, não cai em buraco, não topa em pedra alguma, não sabe rir porque jamais chorou. Não confio em quem não verte decepção pelos olhos. Aliás, não confio em quem não vaza de saudade, de amor de felicidade. Não sentir nada também não tem sentido.



Cada porta aberta é um convite irrecusável. A passagem é obrigatória. As outras são renunciadas e somem, mais adiante, mais portas, mais caminho, mais labirinto, trilhas, morros e montanhas. Tenho dias de montanha, quando fé alguma me move. Tenho dias de pluma, quando qualquer brisa me leva. Vou do fácil ao impossível em questão de segundos.



Mas e quando a porta aberta é um erro?



Lamento, impossível voltar atrás e escolher uma nova porta. Elas não estarão mais lá, não aquelas. Novas portas surgirão sempre à frente, sem que isso seja, necessariamente uma evolução. Elas fitarão um novo alguém pelo olho mágico. Então o que impede de retroceder?



A experiência.



São essas as gotinhas que enchem o copo inteiro da vida. Quando a gente aprende que elas não precisam ter sentido, em vez disso, precisam ser sentidas, a gente deixa de existir. Aí sim, é vida. Disso tudo o que fica é a falta de pudor pra amar com liberdade.




dialoguinho de amigos & vinho (sexta produtiva sem passar do portão!)


A: Preciso que tu me cedas um vinho.



B: De novo? Eu vou contigo no super!


A: Preciso que tu me cedas um vinho e companhia.


B: Ah, não, tirei a noite pra ficar comigo. Não te quero me atrapalhado.


A: Nem que eu já tivesse bebido a garrafa inteira conseguiria atrapalhar teus pensamentos...


B: Não?!


A: Não, sou praticamente teu alterego.


B: hahaha não é, se fosse, brigaríamos muito.


A: Nós sempre brigamos muito, só que nunca é sério...


B: É?! Então desperdiçamos brigas à toa???


A: Sim... vamos tomar esse francês?


B: Não. Muito caro pra beber contigo.


A: Poxa, sou teu alterego e estou até de camisa!


B: Ok... mas eu abro!






****






A: Acho que devemos pedir uma pizza.


B: Acho que devemos ouvir Queen.


A: Pode ser Beatles?


B: Pode ser torrada?






****






A: Quanto custou esse vinho?


B: Uns setenta reais.


A: Que caro pra combinar com torrada!


B: Não tenha regras, aprecie os prazeres.


A: Olha quem falando, a rainha dos princípios, meios e fins...


B: Ah, mas eu não tenho regras, não muitas.


A: Você é desregrada, isso é diferente. Até as tuas regras são desregradas.


B: É sim... ai, fazia tempo que a gente não sentava pra conversar. Precisamos fazer isso mais vezes, eu gosto do jeito que tu me entende.


A: Não te entendo, te aceito, assim... filosoficamente falando.


B: Assim, filosoficamente falando, vai te catar!






****


A: Sabe de uma coisa? Você deveria repensar a tua meta de não casar.


B: Não tenho meta de não casar... De onde tu tiraste isso?


A: Vou reformular, você devia pensar em casar!


B: Por que isso agora?


A: Porque você é fiel.


B: Casamento não vive só de fidelidade!


A: Não estou falando só de fidelidade homem e mulher, de não trair o marido. Você é fiel nas convicções. Mesmo que mude de hora em hora, fundamenta, defende como se fosse um filho. Bate o pé por elas, não muda a alma de casa quando ama. Aceita que a tua alma seja a casa do outro.


B: Não é verdade, não gosto de intromissões na minha vida. Tu já estás invadindo a noite que reservei pra ler e escrever... Hoje era pra estar no meu umbigo, sozinha. Oh, Deus, estou me traindo contigo!!! A que ponto cheguei?!






****






B: No fim das contas, tua situação ficou como.


A: Na mesma. Uma merda. E você, como está?


B: Igual.


A: Então somos dois na merda! Hahaha


B: Eu não disse isso!!!






****






A: E aí...


B: O quê?


A: Qual o plano de fuga?


B: Não há.


A: Já vi esse filme.


B: Então vamos trocar de canal.


A: Filosoficamente falando?


B: Sim.
_+_+_+_+_+_+_+_

Vinho francês + Camus + Carla Bruni...

On me dit que nos vies ne valent pas grand chose



Elles passent en un instant comme fanent les roses

On me dit que le temps qui glisse est un salaud

Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux



Pourtant quelqu'un m'a dit

Que tu m'aimais encore

C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore

Serais ce possible alors



On dit que le destin se moque bien de nous

Qu'il ne nous donne rien et qu'il nous promet tout

Parait qu'le bonheur est à portée de main

Alors on tend la main et on se retrouve fou



Pourtant quelqu'un m'a dit

Que tu m'aimais encore

C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore

Serais ce possible alors



Mais qui est ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais

Je ne me souviens plus c'était tard dans la nuit

J'entend encore la voix, mais je ne vois plus les traits

Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit



Tu vois quelqu'un m'a dit

Que tu m'aimais encore, me l'a t'on vraiment dit

Que tu m'aimais encore, serais ce possible alors



On me dit que nos vies ne valent pas grand chose

Elles passent en un instant comme fanent les roses

On me dit que le temps qui glisse est un salaud

Que de nos tristesses il s'en fait des manteaux



Pourtant quelqu'un m'a dit

Que tu m'aimais encore

C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore

Serais ce possible alors



sábado, 5 de fevereiro de 2011

tecle o que você quiser

Quando ligo pra alguém que não me atende, geralmente mando mensagem depois. Se não é urgente, espero retorno. Nunca deixo mensagem na secretária. Detesto deixar a minha voz gravada. A ideia de um recado meu viver aprisionado em alguma caixa postal de celular me dá claustrofobia vocal. O que eu falo é pra ser levado pelos ares, diferente do que escrevo, o que me faz pensar que eu deveria ter mais cuidado com o que escrevo do que com aquilo que eu falo. Mas não tenho. Ultimamente não ando tendo cuidado com nada. Os descuidos têm invadido meus dias, eu nem me importo, tropeço.



Não gosto das secretárias eletrônicas de celular. Odeio apertar um para ouvir, dois para não ouvir, três para apagar, quatro para saber de onde veio, cinco para saber pra onde vai, seis para chamar a sua mãe, sete para repetir tudo. Ignoro a cartinha com sorriso no canto superior direito do visor.



Dezessete mensagens.



Foi questão de vida ou morte, precisei acessar o serviço. Quase ameaçada, entre a cruz e a espada, sucumbi ao asterisco-sei-lá-o-quê. Aperta aqui, aperta ali e não tem como ouvir só o último recado. Ai, ai, as belezas dos pequenos sacrifícios. Uma vez ouvi uma mulher dizer para o marido na fila da padaria: “eu sempre perco a minha novela para fazer a tua janta!”. Colocar uma televisão na cozinha, nem pensar! Seria o fim da reclamação, o fim do sacrifício, o fim da vítima, porém, sem morte. Muito indigno. Aproveitar para envenenar o marido dia após dia, também não? Jantar romântico diariamente, nem pensar? Escrever um livro de receitas práticas, muito práticas mesmo, para não perder a novela, jamais? E greve de janta? E todos os dias pão com ovo?



Acho que as pessoas têm pouca criatividade doméstica. Os relacionamentos adoecem disso. A rotina definitivamente não é a culpada.



As mensagens acumuladas de um mês são surpreendentes. Amigos bêbados, pai, mãe, avó, gerente do banco, amigo sóbrio e um engano. E a observação mais interessante fica por conta das três mensagens da mesma pessoa que enviou aquela última que eu precisava ouvir. Não foram gravadas no mesmo dia, tiveram tempos e acontecimentos distintos. Preocupantes.



Há quem diga – e esse quem tem nome, sobrenome, endereço e apelido – que eu me preocupo com coisas vagas que eu mesma invento. Prefiro eu fazer pequenos boicotes e colher preocupações vazias do que ser atropelada por dúvidas terceirizadas. Por outro lado, preocupações que deveriam ser verdadeiras e tirarem o meu precioso sono acabam sendo motivo de piadas. Li em algum lugar que humor obscuro pode ser culpa de vírus e bactérias. Posso parar de dizer “é que eu sou de aquário”. Vou trocar por “a culpa é dos meus bichinhos e acho que isso pega.”



Voltando ao trio de mensagens. A primeira, logo quando nos conhecemos, por conflito de compromissos, não conseguimos nos encontrar como havíamos combinado. “Oi (um oi bem tímido), me liga quando puderes. Agora já estou livre. Se quiseres podemos almoçar (era 4 da tarde!) ou tomar um café. Beijo.” Recado dado na ponta dos pés. Foi, praticamente, o recado de uma bailarina, tamanha delicadeza e cuidado empregados nas palavras e no convite.



O segundo recado já foi mais íntimo, depois de uma dessas noites em que as garrafas vão surgindo em cima da mesa, os copos vão alternando muito rapidamente entre cheios e vazios. “Oi, só quero saber se já chegou em casa e está tudo bem.” A voz era de quem ia dormir com o pé no chão pra cama não girar. Só possuímos preocupações por quem já nutrimos certa dose de intimidade. Eu sempre alinhavo essa preocupação com curiosidade em saber se fui mesmo pra casa. Eu moro a mais ou menos cento e cinquenta quilômetros da praia, muitas vezes já errei o caminho e acabei vendo o sol nascer na frente do mar. Como era uma terça-feira, perto das duas da madrugada, acredito mesmo na hipótese do zelo.



A terceira mensagem que me fez escutar todas as dezesseis anteriores. “Oi, tudo. Olha só, eu sei que combinamos lá pelas 9:30, mas está passando um filme muito bom que começa às 19:30, então não sei se às 9:30 vou estar pronto, porque vou no cinema. Mas me liga. Ah, se eu não atender é porque ainda estou no cinema. Bom, qualquer coisa, me liga depois. Beijos.” Nota da autora – eu mesma! – a pessoa já nem se prepara psicologicamente para me ver. Mata a família e vai ao cinema. Melhor, vai ao cinema e depois mata a família! Foi-se o tempo em que um jantar romântico exigia concentração.



Dona moça dos recados do meu celular, para intimidade, teclo o quê?



Vou cancelar o serviço de secretária eletrônica com a operadora. Não quero mais descobrir o tanto que as minhas relações modificam pelas mensagens que eu recebo. O único perigo será chegar em casa algum dia e encontrar o cidadão de cueca no meu sofá, zapeando o controle remoto da televisão bem na hora da novela. Daí, eu vou ser amiga da mulher da padaria – mentira.







(Parênteses: já que o blog é MEU, posso inventar, modificar, omitir, furtar, fuzilar, esquecer de propósito, adicionar, dramatizar e todos os outros verbos que impliquem em, resumidamente, fazer o que eu bem entender, inclusive mentir!)



Tudo em nome da literatura!

 
Já expliquei que a foto em preto e branco é um desesperado apelo à credibilidade?


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Sympathy - GOO GOO DOLLS (música que não tem saído do repeat)



Stranger than your sympathy
This is my apology
Take myself from the inside out
And all my fears have pushed you out


And I wish for things that I don't need
All I wanted
And what I chase won't set me freeIt's all I wanted
And I get scared but I'm not crawling on my knees


Oh yeah everything's all wrong yeah
Everything's all wrong yeah
Where the hell did I think I was?


Stranger than your sympathy
I take these things so I don't feelI'm killing myself from the inside out
Now my head's been filled with doubt


It's hard to lead the life you choose
All I wantedWhen all your luck's run out on you
All I wanted
You can't see when all your dreams are coming true


Oh yeah it's easy to forget yeah
You choke on the regrets yeah
Who the hell did I think I was


Stranger than your sympathy
All these thoughts you stole from me
I'm not sure where I belong
Nowhere's home and I'm all wrong


And I wasn't all the things
I tried to make believe I was
And I wouldn't be the one to kneel
Before the dreams I wanted
And all the talk and all the lies
Were all the empty things disguised as me
Yeah stranger than your sympathy stranger than your sympathy
 
 
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TOP MENSAGEM:
 
- Lembra o que tu tinha me dito sobre a Fulana? Tu tinha toda a razão.
(essa eu deixei salva, gosto de ter razão até na caixa de entrada. Um dia será útil)