sábado, 26 de março de 2011

mudices

As nossas conversas são boas e as nossas mudices são melhores. Entendo que as nossas mudices são conversas sem palavras. Entendo que eu tenho conversado muito assim, mais ouvindo. É um hábito que tenho desde criança, absorvo a alma lendo os gestos, decifrando códigos, montando as palavras nas frases como um quebra cabeça de intenções. Por mais que eu fale, que eu goste de escrever, meu interesse é ouvir. Não desperdiço um bom estranho. Nem um conhecido. Alguns amigos me conhecem há tanto tempo que me confundo nas lembranças, nossas histórias fazem uma trama, apesar dos longos períodos distantes. Gosto de quando sentamos no sofá olhando pro mesmo nada da parede, depois recebo um agrado com o dedo indicador escorregando pelo meu nariz. É minha deixa pra sorrir sem mostrar os dentes, iniciando a pauta da noite. Aguardo pela análise detalhada, pelo de deboche que acaba, invariavelmente, em traçar um perfil psicológico da situação. Está feita a minha análise.



Nunca me zanguei por isso, a amizade é um fabuloso divã. Argumento contra, justifico as atitudes, fico bufando, bato os pés para acabar aceitando alguns baldes de água fria. É comum ouvir que não sei ser contrariada, pelas últimas três décadas, é o que eles mais têm feito.



Ando apreciando outros silêncios enquanto escuto músicas antigas. Rolling Stones, Kiss, Simon & Garfunkel, Beatles, Aerosmith, Queen, para situações novas, antigos conselhos.



Nada é tão inédito para jamais ter sido cantado.



Vigio o mudo relógio do celular, que não faz tic tac. Mudo, ao ponto de não acusar as mensagens que antes eu mal conseguia responder em ordem. Que aqui não se confunda o silêncio com o vazio, porque ele está cheio. As mudices são pintadas nas paredes com tinta neon.



No banco do meu carro as palavras ditas se empilham no banco do passageiro. São as minhas companheiras no sinal vermelho. Pausa. Mais uma vez eu me encontro sem mapa, ou melhor, me desencontro perdida. Aqui, sem bússola ou placa, sem informação do destino, confiro aquilo tudo que estava avisado antes sobre a estrada. Tudo se confirma. Inclusive a previsão do tempo.



Alguns rancores, alguns medos, muitas vírgulas. Temperamento difícil, exageros, extremos, euforias que precisam ser domadas. Uma vida diferente, com regras que eu nunca tive porque sempre caminhei na beira do barranco. A queda é tentadora, seduz minha curiosidade quem já caiu e escalou o penhasco pro lado de cá. É mesmo uma vida a ser levada no caminho que a luz indica. E eu disse sem falar: quero. E o que eu digo agora? Que já passei pelo sinal amarelo, pelo vermelho e agora espero que acenda a luz verde. Quero. Quero muito. Não deixei de querer. Quero a luz verde que vai me dizer “siga livre”.



Prefiro tudo isso sem mapas. Tão inúteis quanto os manuais de instruções. Ou explicar de onde viemos.



Ou explicar como. Há tantas verdades nos silêncios.



Parabéns Porto Alegre, cidade onde o sol sempre vai dormir mais bonito.
 
Amo Porto Alegre.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Miss You (Rolling Stones embalou uma arrumação de quarto da-que-las... muito sexy #NOT)


I've been holding out so long
I've been sleeping all alone
Lord I miss you
I've been hanging on the phone
I've been sleeping all alone
I want to kiss you

Oooh..

Well, I've been haunted in my sleep
You've been starring in my dreams
Lord I miss youI've been waiting in the hall
Been waiting on your call
When the phone rings
It's just some friends of mine that say,"Hey, what's the matter man?
We're gonna come around at twelve
With some Puerto Rican girls that are just dyin' to meet you.
We're gonna bring a case of wine
Hey, let's go mess and fool around
You know, like we used to"

Aaah...

Oh everybody waits so long
Oh baby why you wait so long
Won't you come on! Come on!

I've been walking in Central Park
Singing after dark
People think I'm crazy
I've been stumbling on my feet
Shuffling through the street
Asking people, "What's the matter with you boy?"

Sometimes I want to say to myself
Sometimes I say

Oooh..
I won't miss you child

I guess I'm lying to myself
It's just you and no one else
Lord I won't miss you child 
You've been blotting out my mind
Fooling on my time
 No, I won't miss you, baby, yeah

Lord, I miss you child

Aaah...

Lord, I miss you child

Aaah...

Lord, I miss you child

Aaah...

sexta-feira, 18 de março de 2011

presente sem embrulho

E eu jurava que ia levar um pito daqueles. Fui previamente advertida por amigos terroristas “leva outra muda de roupa pro almoço ou toalha”. Fui crente da merecida mijada. Preparei todas as caras de piedade. Sem exageros. Entrei no restaurante como quem caminha na corda bamba e pior, do alto avistei o chão, sem rede protetora. Sentenciei a queda. Antevi um ponto ruivo estatelado: eu. E o que eu mais espero sem acreditar que possa acontecer, aconteceu, a surpresa.



O que eu tinha na minha frente era uma pessoa tão sincera quanto eu despejando informações que me deixavam sem a menor vontade de interromper. Limite-se a respirar, pensei, porque até isso podia parar naquela hora. Minha impressão é que o mundo em volta tinha desligado. Os garçons paralisados, as pessoas mudas, nem os talheres ousavam cair. A vontade era de saber mais. Eu sempre digo que as pessoas não têm manual de instruções e acho isso muito bom, mas isso não é motivo pra que não exista sinceridade. Fui apresentada a um cartão de visitas verbal, com tantas descrições de mágoas e cuidados quanto as que eu acumulei nos bolsos a vida inteira. Li nos olhos coisas lindas, coisas terríveis, algumas indiferenças. Olhos grandes e cílios longos. Amortecia dentro de mim cada vírgula daquela metralhadora de informações que ao fim podia muito bem concluir dizendo “pois bem, este sou eu”. Um raciocínio equilibrado não permite muitos clichês, apesar desse cair muito bem, não foi dito. Com certeza uma das pessoas mais ricas em informações e afinidades com quem eu já conversei sem frescuras, sem que se escondesse nada, sem que houvesse um pingo de sedução. Aliás, o recado era mais ou menos o que eu sempre tentava passar: sai daqui enquanto dá.



Havia alguém derramado na mesa.



Gosto tanto de fugir, tive vontade de ficar. A curiosidade me deixou estática. Quero saber o que vem depois, quero saber os porquês, os agoras, quero entender, criar teorias, analisar tudo com critérios, escrever e inventar histórias. Eu tive uma overdose de inspiração, incrível o tanto que alguém pode ser combustível e nem perceber. Incrível o tanto que alguém pode se conhecer e talvez nem imaginar o tamanho que tem.



No meio de perguntas, respostas, risos, guardanapos e manchas de shoyo na camisa, certezas que só se pode ter vivendo. Não sei de onde vem essa minha vontade de viver, essa sede por experimentar as intensidades. Uma vez disse que eu nunca aprendi a nadar no raso. Não quis dizer que eu não sei nadar no raso. Quis dizer que as minhas lições nunca começaram pelo que é mais fácil. Fui jogada sempre no olho do furacão. Se for pra aprender, comecemos pelo miolo. Se for pra cair, que seja de alguma nuvem.



As frustrações que temos com as pessoas sempre partem de ideias prévias. Alimentamos o que não existe, depositamos valores altos no banco imaginário das perspectivas. O que a gente nunca espera é que elas não vão ser concretas. Daí vem a dor. Aprendi que ficar nua diante do que se espera é a melhor armadura. Não há o que ser ferido.



Quando despejo na frente de alguém as pequenas noções que tenho de mim, desarmo algumas perspectivas. Abrevio as frustrações.



Hoje eu sei o que eu quero viver. E sei que é algo que eu nunca vivi. Existe um medo, mas mandei ele sentar num canto e pensar. Cansei de ocupar meus pensamentos com ele. Quero ficar bem aqui onde eu estou, no meio da mais nova ventania de sensações. Eu não vou deixar isso passar. Na verdade, na verdade, isso me dá fome. É tão novo, inacreditável e surpreendente que posso falar dias sem explicar nada.



Durante a vida toda tive um goleiro eficiente para segurar as bolas. Hoje ele tem mãos de areia. Eu entreguei o jogo porque não quero jogar, não quero ganhar, não quero perder. Só quero a emoção. Entrei em campo pra me molhar. E quem quiser aprender pelo raso... Bom, sugiro outro esporte. A paixão não é campo de várzea.


O que eu sei é que o tempo cronológico não consegue guardar certezas. Talvez seja um encontro de almas, talvez tenha mesmo alguma coisa muito estranha nisso tudo. Mas eu não prometo eternidades para as dúvidas. As incertezas não me incomodam mais do que as verdades absolutas. Eu sou uma inconformada com o desperdício de felicidade. O que eu prometo é que não vou errar de propósito. Pensei seriamente em pedir desculpas aos habitantes do planeta pelas minhas injustificáveis ausências, mas acho que o certo seria pedir licença pra ir viver um pouco mais.

Rolam boatos que pelos lados do Menino Deus andam fazendo mundo.

 
*****
 

E no tradicional almoço entre amigos da sexta-feira, soou bem estranho conjugar o verbo apaixonar em primeira pessoa. E confirmar: estou.

Nossa mesa barulhenta fez silêncio até alguém perguntar, timidamente mexendo o gelo dentro do copo:



- Irremediavelmente?

- Sim. Aliás, se tiver remédio, eu não tomo. Vou morrer disso.

- Vai é viver disso!

- Já estou...

- Cara, na boa, a próxima vez que uma guria me pedir um cafuné, eu vou puxar os cabelos dela! Olha o que acontece...



E serviram as risadas em prato de sopa!


How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone

(esta é só a legenda da foto!!!! Calma.)

A trilha sonora é KEANE, Atlantic (muito me faz feliz esta música)

I hope all my days
Will be lit by your faceI hope all the years
Will hold tight our promises



I don't wanna be old and sleep alone
An empty house is not a homeI don't wanna be old and feel afraid


I don't wanna be old and sleep alone
An empty house is not a home
I don't wanna be old and feel afraid


And if I need anything at all


I need a place
That's hidden in the deep
Where lonely angels sing you to your sleep
The modern world is broken


I need a place
Where I can make my bed
A lover's lap whereI can lay my head
Cos now the room is spinning
The day's beginning






domingo, 13 de março de 2011

desculpa

“Amar é jamais ter que pedir perdão”. Já repeti essa frase dezenas de vezes, ouvi algumas boas centenas. Conheci ainda pequena as palavras eternizadas no filme Love Story, foram proferidas pela atriz Ali MacGraw. Obviamente, na época, não fez muito sentido, mas, carregada de lirismo, me encantou. Eu achava mais que bonita, era parte de um universo que eu não dominava: amar e pedir perdão. Nas minhas infantis concepções de amor, perfeita. Nas minhas vagas concepções de perdão, adequada. Adaptava na justificativa de algumas travessuras.



Descobri que John Lennon contrapôs a frase dizendo que “amar é pedir desculpas de quinze em quinze minutos”. Não sei o que meu beatle favorito, Ringo, diria sobre isso. Eu digo que me parece mais apropriado pedir desculpas ao que se gosta e muito mais a quem se gosta. Talvez digno seja pedir desculpas por gostar.



Hoje vou além de John, discordo de cada letra do filme Love Story. Pedir perdão é o que se faz antes de tudo. Pedir perdão é o que se faz durante tudo. Justificamos deslizes com gestos para camuflar o pedido de desculpas. “Oi, tele-entrega de sorvete?” Talvez o certo seja pedir desculpas antes mesmo de dar bom dia, antes dos apertos de mãos e de qualquer primeiro apressado beijo. Reconhecer que se vai errar, que é possível deixar, em algum momento, concepções e teorias prévias tomarem o lugar do que, em realidade, se vê. Nem sempre ouço a minha percepção, na verdade, confio tanto nela que morro de medo de ser traída. O que me faz ser infiel a ela. Algumas realidades são invisíveis aos olhos apenas porque não é do nosso costume ver. A surpresa com o que é bom e inusitado embaralha a visão.



Considero uma grande virtude pedir desculpas, não por achar que engrandece caráter, mas porque não estamos acostumados a reconhecer os próprios erros a tempo de não serem definitivos. Faz mais bem a quem pede. Ando em um momento em que não me permito mais errar de propósito, mas ainda me permito errar. E, por ironia, esse excesso de cuidado aliado à falta de prática do zelo, me leva ao equívoco. Parar, respirar e olhar para fora, depois para dentro é um dos melhores conselhos que um amigo já me deu. Verbalmente fácil, ativamente amplo.



Francisco Bosco disse que os conceitos são superpalavras, palavras elevadas a uma alta potência, conquistada por extrema condensação de significados. Pra mim, o perdão é um desses conceitos. Concederia milhares de explicações aos pedidos de desculpa, nenhuma delas traduziria com perfeição o significado do ato. Aliás, as possibilidades do ato são várias. Não existe amor sem perdão, sem desculpas prévias, pedidas com ou sem palavras. Já pedi desculpas com sorrisos. Já pedi desculpas com singelos convites. Já pedi desculpas com carinho. Todas as vezes, desculpas com ressentimentos. Não o ressentimento de Nietzsche, nada de negação de valores. Mas ressentimento por ter sido traída pelos zelos que insisto em ter, ainda que os meus anjos e demônios sejam unânimes em dizer “se joga”, perdi o instinto suicida em algum dos muros da vida. O ressentimento é por não ver aquilo que eu acredito quando me foi dado em mãos pelo acaso.



- Não olha pra baixo, só pula.

- E se eu cair.

- Tu cais hoje, amanhã, tu voa.

- Cansei de cair...

- Então por que não tenta voar direto? Não pensa na queda, só vai...

Acredito que eu devo aprender a me desculpar mais e melhor. Pelas vezes que eu perco a mão no tempero, pelas obviedades que eu deixo me assombrarem, por dúvidas imotivadas. Neste momento eu sou Sócrates e a minha mão treme para tomar cicuta.



O pedido de perdão é por não ter agido filosoficamente de acordo.



Apenas por curiosidade, já li que a cicuta foi apenas uma desculpa para a morte de Sócrates. O verdadeiro algoz foi a ignorância. Espero jamais ter que pedir desculpas por não saber, mas sempre poder reconhecer que não sei.







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DA SÉRIE DIALOGUINHOS:



- Nesse momento, não sei o que te dizer.

- Não diz nada, pra piorar vou passar um mês sem chocolate.

- Dieta?

- Não, promessa.

- Melhor assim, vai te obrigar a encarar as coisas com o coração e não com a boca.

- Heeey, injusto! Não diga isso...

- Tu tens a boca grande, é indício de pessoa gulosa, já conversamos sobre isso!

- Sim! Minha gulodice é pela vida.

- Então, relaxa, saboreia. A vida parece melhor que chocolate.

- Tem sido tão doce quanto... Olha só, se eu tivesse um objeto na mão agora, ele seria uma meia sem elástico?

- hahahaha não sei, não é pra mim que tu deve perguntar isso. Olha pra dentro.

- Vou pensar depois, então...

- Sabe o que eu vejo na tua mão agora?

- O quê?

- Retrato pra Iaiá.



(e depois disso, Los Hermanos ficaram roucos)

Given To Fly



He could have tuned in, tuned in, but he tuned outa bad time, nothing could save himAlone in a corridor, waiting, locked outhe got up out of there, ran for hundreds of milesHe made it to the oceanhad a smoke in a treeThe wind rose up, set him down on his kneeWave came crashing like a fist to the jaw,Delivered him wings, "Hey, look at me now..."Arms wide open with the sea as his floorOh, Power, oh...


He's flying! Woah!Whole! Woah! Oh...


Floated back down 'cause he wanted to sharehis key to the locks on the chains he saw everywhereBut first he was stripped, and then he was stabbedby faceless men, well... He still stands.And he still gives his love, he just gives it awaythe love he recieves is the love that is savedAnd sometimes is seen a strange spot in the skya human being that was given to fly


Flying! Woah...Whole! Flying! Woah...Flying Woah...Oh Woah...
 
 
 
(mas confesso que estava ouvindo soldier of love só por causa do tchá tchá tchá do final)

segunda-feira, 7 de março de 2011

rede de carnaval

O céu passou a tarde inteira em um azul escancarado. Não teve vergonha de abolir as nuvens, não deixou que surgissem riscas brancas de giz por nenhum grau do horizonte. Desenhou o infinito em tons de luminosidade até chegar a noite. Eu, como boa gulosa de felicidade, aproveitei o clima para ver no rosto de uns amores sorrisos. Fiz da rede um universo modesto, onde eu pudesse brincar de Deus, determinando as espreguiçadas e os cochilos entre as viradas de páginas do livro. Busquei com a ponta dos dedos os embalos dos impulsos na parede. Analisei meu pé descalço há quase doze horas.



Agora à noite, a lua é miúda, discreta entre umas porções de estrelas, organizadas em pequenos grupos, que me parecem tão íntimas. Quase me chamam pelo apelido. Fofocam sobre mim, trocam confidências sobre os pedidos que eu faço, sobre as coisas que eu conto. Apenas não duvidam porque testemunham. Acabei de passar o céu em revista. O pelotão de estrelas também não permitiu as nuvens. Sim, fui procurar por elas porque estou com saudade de dormir com chuva. Adoro chuva, mesmo na praia. Adoro praia, mesmo com chuva, mesmo no inverno, mesmo qualquer coisa, mesmo. Assim como gosto de tanta coisa sem explicação, gostei muito do dia de hoje, ainda que a chuva não venha regar a minha horta de sonhos.



Aliás desfiz o jardim de sonhos, transformei numa horta! Pode não ser poético, pode não ser romântico, mas prefiro que os sonhos me alimentem. Um jardim de sonhos é muito estético e pouco útil. Minha horta de sonhos exige tanto cuidado e adubo quanto um jardim, com a vantagem de permitir a colheita.



Hoje ouvi histórias da minha infância. Sobre as minhas teorias precoces e filosofias. Ouvi que sempre fui muito boa em respostas, o que me surpreendeu, porque sempre achei que eu fosse muito boa com as perguntas. Fui uma criança de olhos curiosos, daquelas que observam o território, eu estudava as pessoas, usava conscientemente do meu charme infantil pra conseguir pequenos agrados. Eu testava os limites, ainda que advertida pela minha mãe, que por vezes perseguia meus passos com olhos de Medusa, numa clara intenção de me transformar em pedra. Uma vez pedra, ficaria quieta. Minha mãe sempre incentivou minhas leituras, meus pensamentos e crises de liberdade, sempre foi amante das minhas expressões, mas era contra as agitações e minhas perguntas carregadas de ironia, geralmente dirigidas a quem não devia.



E da minha rede-universo, as certezas das coisas que eu não gosto, injustificáveis ou não. Pessoas que foram, momentos que passaram, dias que deixaram saudades. Alguma coisa andou quebrando por mãos que não são minhas. Eu não colo mais nada, quebrou, vai fora. Insisto em cuidados que não dependem só de mim. Quando as variáveis são pessoas, a equação tem resultado inexato e prova real impossível. A quantidade de resultados é imprevisível.



Viver é imprevisível.



Queria ordenar ao tempo: à noite, chuva. Não choveu. E eu nem posso transformar a desobediência metereológica em pedra.



Pensando bem, o que fez falta de verdade, foi não ter um gato por perto.

 
 
E Humberto me dá razão, mais uma vez...
 
 
 
Seria mais fácil fazer como todo mundo faz.



O caminho mais curto, produto que rende mais.


Seria mais fácil fazer como todo mundo faz.


Um tiro certeiro, modelo que vende mais.






Mas nós dançamos no silêncio,


choramos no carnaval.


Não vemos graça nas gracinhas da TV,


morremos de rir no horário eleitoral.






Seria mais fácil fazer como todo mundo faz,


sem sair do sofá, deixar a Ferrari pra trás.


Seria mais fácil, como todo mundo faz.


O milésimo gol sentado na mesa de um bar.






Mas nós vibramos em outra frequência,


sabemos que não é bem assim.


Se fosse fácil achar o caminho das pedras,


tantas pedras no caminho não seria ruim