quarta-feira, 27 de abril de 2011

errata

Oi. Vim desdizer. Só vim pra desdizer, essa é a grande verdade das próximas linhas. Isto não é uma crônica, é uma borracha. É um backspace, um ctrl + z, um delete, um eject. Entendam como bem quiserem, porque duvido mesmo que alguém se disponha a querer de fato entender. Supor é mais fácil. Prever é mais cômodo. E quer saber? Certo está quem faz isso.





Aquele medo que eu havia mandado sentar no canto está aqui na minha frente, rindo da minha cara, dizendo “eu te avisei”. Chutaria ele, mas não costumo fazer isso com quem tem razão. O medo é o grande vencedor, leva todos os prêmios. Leva todas as vidas. Abraça a todos. É o sentimento mais confortável, porque não se foge dele. O que não é bom, queremos longe e ninguém ou quase ninguém – faz isso com o medo. Pelo contrário, o medo é mantido pertinho. Sem enfrentamentos, sem discordar, nada se questiona. Medo é a perfeição da preguiça. Amar dá trabalho. Sentir medo, não. O amor é importante, porra. Vi isso pichado num muro. Parem. Não é.





Não mandem flores, não mostrem preocupação, não sintam saudade. Não retornem ligações, não mandem mensagens carinhosas, não sonhem com ninguém. Não cultive sorrisos, não abrace, não vele a beleza de um sono. Não explique suas teorias, não diga quem é, não seja intenso, não diga o que sente, o que prefere, do que gosta ou o que odeia. Tudo será suposto, não derrame você. Ninguém quer secar.





“APESAR DAS MUITAS CONVERSAS, POUCA COISA FORA DITA. O ESSENCIAL SEMPRE FICARÁ NO FUNDO, ESMAGADO PELA SUPERFICIALIDADE.” São palavras do Caio Fernando Abreu, estavam nas paredes do meu quarto pra que jamais esquecesse de tirar o essencial do fundo, jamais deixasse a superficialidade esmagar o meu essencial. Bobagem. O essencial que permaneça no fundo. A superficialidade é o que se quer. O essencial é um Hades. É um monstro de sete cabeças. Um cogumelo venenoso. Uma barata na cozinha.





Caio também disse que os dragões não conhecem o paraíso, é meu texto preferido. Eu, como bom dragão, jamais conhecerei. Sigo o destino de ter sempre razão em incinerar frases ditas por outros alguéns, de acordar diferente do normal, de fazer barulho demais, fazer muito alarde. Não vejo a banda passar porque eu sou a própria banda. Andar na ponta dos pés é um esporte que eu nunca soube praticar. Eu sou inquieta e faço bagunça. Sou desmedida. Não peço licença, não pedia desculpa.





Esqueçam tudo que eu já disse sobre sinceridade, sobre cansar de jogar, sobre não criar expectativas. Esqueçam tudo que eu falei sobre não ter TPM ou resolver traumas. Comprem TPM na farmácia, inventem grilos, preguem chifres na cabeças das galinhas, não expliquem, confundam. Sejam imorais, irreais, surreais e ainda assim sejam comedidos. Imponham limites, aliás, limitem o tempo. Cronometrem afeto. Meçam dedicação e, mais que isso, cobrem a conta. Amor que não cobra a conta não pode existir. É proibido gostar diferente. Peçam algo em troca, peçam tudo em troca, queiram tudo. Façam do relacionamento uma estatística. Façam do casal um negócio com lucros e dividendos sentimentais. E não admitam nada, pode ser crueldade. Falem pelo outro e não escutem.





O amor é tão simples que dificultar é obrigatório.



O amor é tão sem sentido que está na contramão.





Abusem do quase. Neguem a completude. Reneguem o carinho. Quem mais precisa dele não vai querer receber. É oferecer água a quem quer morrer de sede no deserto.





Carpinejar – a quem muito devo - escreveu na crônica FULMINANTE: "Sou do amor fulminante, como um enfarte. Perder a razão. Casar na hora, em dias, esquecer que não era possível, esquecer as dificuldades, esquecer os entraves e pormenores. Não dar tempo para criar problemas. Não dar tempo para ponderar com opiniões dos próximos. Não aceitar conselhos de ressaca, decidir ébrio e arrepender-se amando. Ultrapassar-se. [...] A aliança nem conheceu minha mão direita. Mal cumprimentou [...] Não me exibo, caso. Não faço futuro, caso logo pra fazer passado". A camisa do meu time tinha esse escudo. Virei a casaca. Devia ter algo na minha água, de novo o pó de abril.

Vou pro time do último, do fundo falso. Sim, há ironia nisso... Mas de que adianta o Universo conspirar a favor se podemos teimar contra?!

 

Esqueçam de tudo que eu lembrei. Voltem a enterrar tudo que eu desenterrei. Cubram as verdades, fechem as janelas, pintem as paredes de cor escura. Não dancem sem música, não andem saltitando pelo corredor, não cantem pra desafinar, muito menos inventem a letra, nem palavras. Não entendam, não respeitem, invadam, violem, explodam. Não confiem em mim! Eu sou apenas uma ex investidora da bolsa de valores pessoais. Meus valores faliram e eu não percebi. Sou ultrapassada e antiquada. Engordem o baú de guardados. Essa é a fórmula. Não sentem nas nuvens, isso é importante. Desacreditem. Duvidem. Façam a prova real.





Tudo bem, não é tudo que se vê por aí? Não é o certo? O comum? Falei alguma novidade?



Desliguem os livros, leiam a TV.





Vou na adega buscar uma garrafa de sono. E mapas, bússolas, GPS e manuais de instrução. Há regras onde a gente nem sonha. E é aí que eu me perco. Melhor, eu me perdia.



Lirismo demais me dá insônia.  



Isto aqui é apenas literatura. Sem entrelinhas.



(Não perguntem se isso foi um texto impulsivo, não sejam óbvios. Ou melhor, sejam sim. Hoje eu perdi qualquer critério. )


***  Agradecimento especial ao Gu e ao Felipe, sempre presentes com a sinceridade mais afiada que qualquer navalha.


*** Agradecimento mais que especial ao Carpinejar, pela dedicatória com eco. Vou voltar pro time, mas só na primavera. O outono é um bom velório.

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E por ter citado dois mestres da literatura no texto, a trilha sonora vai com dois mestres também.

Al Lado Del Camino


Fito Páez

Me gusta estar a un lado del camino

fumando el humo mientras todo pasa

me gusta abrir los ojos y estar vivo

tener que vérmelas con la resaca

entonces navegar se hace preciso

en barcos que se estrellen en la nada

vivir atormentado de sentido

creo que ésta, sí, es la parte mas pesada



en tiempos donde nadie escucha a nadie

en tiempos donde todos contra todos

en tiempos egístas y mezquinos

en tiempos donde siempre estamos solos

habrá que declararse incompetente

en todas las materias de mercado

habrá que declararse un inocente

o habrá que ser abyecto y desalmado

yo ya no pertenezco a ningún istmo

me considero vivo y enterrado

yo puse las canciones en tu walkman

el tiempo a mi me puso en otro lado

tendré que hacer lo que es y no debido

tendré que hacer el bien y hacer el daño

no olvides que el perdón es lo divino

y errar a veces suele ser humano



no es bueno hacerse de enemigos

que no estén a la altura del conflicto

que piensan que hacen una guerra

y se hacen pis encima como chicos

que rondan por siniestros ministerios

haciendo la parodia del artista

que todo lo que brilla en este mundo

tan sólo les da caspa y les da envidia

yo era un pibe triste y encantado

de Beatles, caña Legui y maravillas

los libros, las canciones y los pianos

el cine, las traiciones, los enigmas

mi padre, la cerveza, las pastillas los misterios el whiskymalo

los óleos, el amor, los escenarios

el hambre, el frío, el crimen, el dinero y mis 10 tías

me hicieron este hombre enreverado



si alguna vez me cruzas por la calle

regálame tu beso y no te aflijas

si ves que estoy pensando en otra cosa

no es nada malo, es que pasó una brisa

la brisa de la muerte enamorada

que ronda como un ángel asesino

mas no te asustes siempre se me pasa

es solo la intuición de mi destino



me gusta estar a un lado del camino

fumando el humo mientras todo pasa

me gusta regresarme del olvido

para acordarme en sueños de mi casa

del chico que jugaba a la pelota

del 49585

nadie nos prometió un jardín de rosas

hablamos del peligro de estar vivo

no vine a divertir a tu familia

mientras el mundo se cae a pedazos

me gusta estar al lado del camino

me gusta sentirte a mi lado

me gusta estar al lado del camino

dormirte cada noche entre mis brazos

al lado del camino

al lado del camino

al lado del camino

es mas entretenido y mas barato

al lado del camino

al lado del camino

 
 
Samba do Grande Amor


Chico Buarque

Composição : Chico Buarque de Hollanda

Tinha cá pra mim

Que agora sim

Eu vivia enfim

O grande amor

Mentira

Me atirei assim

De trampolim

Fui até o fim um amador

Passava um verão

A água e pão

Dava o meu quinhão

Pro grande amor

Mentira

Eu botava a mão

No fogo então

Com meu coração de fiador



Hoje eu tenho apenas

Uma pedra no meu peito

Exijo respeito

Não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor

Mentira



Fui muito fiel

Comprei anel

Botei no papel

O grande amor

Mentira

Reservei hotel

Sarapatel

E lua de mel

Em Salvador

Fui rezar na Sé

Pra São José

Que eu levava fé

No grande amor

Mentira

Fiz promessa até

Pra Oxumaré

De subir a pé o Redentor



Hoje eu tenho apenas

Uma pedra no meu peito

Exijo respeito

Não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor

Mentira




sábado, 23 de abril de 2011

o genérico da ritalina

Já confessei minha inquietude várias vezes. Já disse que raramente sossego, que estou sempre mexendo em alguma coisa, pinicando alguém, atormentando um gato. Adoro passear pela casa desalinhando algum quadro, trocando fotografias de lugar. Adoro transplantar a vegetação. Se estou quieta ou estou lendo ou morri. Aconselho verificar. Mesmo dormindo, minhas ideias estão acontecendo. Percebo isso quando eu acordo, parece que não descansei, mas pensei sobre muitos assuntos. Minha mente é inquieta. Meu cérebro não respeita ordem, organização, hierarquia. Leio três livros por mês, às vezes mais. Nunca primeiro um depois o outro. Sempre tudo ao mesmo tempo. Estou concentrada numa coisa, outra vem e invade, emendo as duas, pronto. Prejudiquei o soneto. Falo sobre coisas grandes enquanto penso em pequenices e vice-versa. Inicio na lista do supermercado. Termino na previsão do tempo. Sendo que passei pelo horóscopo no meio dos assuntos. Durante um café alguém me disse “tu és uma usina”, referindo-se a essa minha falta de foco. Odeio reuniões. Não consigo ficar concentrada numa coisa só. Faço reuniões de corpo presente e mente oscilante. Vem, olha, vai. Repete. Gasto calorias nessas caminhadas de ideias.



Não gosto quando dizem que eu tenho TDA. Prefiro que me encarem como uma pessoa plurifuncional de pensamento difuso. Só isso.



Outro dia perguntaram-me se eu tratava meu TDA. Nunca fui diagnosticada porque nunca fui ao médico para saber se tenho TDA. Mas creio que sim. Meu pai tem, minha irmã tem, minha mãe – provavelmente – tem, logo, por que eu não teria? Sofreria pela exclusão familiar. Poderiam me pedir teste de paternidade. Primeiro que não sou parecida com ninguém. Ainda por cima vir sem TDA?! Praticamente um sinal de nascença. Uma marca registrada do meu clã.



Então tenho TDA, tudo leva a crer. Porém, acredito que sou muito disciplinada. Muito mesmo. Quando digo que sou estudiosa, não me levam a sério, mas é verdade. A meditação me ajudou muito nisso. Aprendi que preciso de um momento do dia para parar e respirar. Suspirar. Preciso observar. É a folga dos meus atropelos. A usina é carregada de combustível. Varro pra dentro quase tudo que vejo. Limpo a casa, mas encho a cabeça de quinquilharia. Um dia pode servir pra alguma coisa. Um dia posso fazer um brechó!



O resultado oscila entre a perfeição e a tragédia. Não que a tragédia não possa ser perfeita, mas é dona de uma perfeição retorcida, de difícil compreensão. Olha o que são as tragédias gregas, a complexidade. As minúcias, os detalhes. Não se pode deixar passar nada. Coisa que uma pessoa com TDA só consegue com muita disciplina. Aconselho a meditação para todos que conheço. Um momento dedicado à observação, ao pensamento livre. Um encontro com energias superiores. É quase uma oração rezada de fora pra dentro. Acho que Deus fica mais satisfeito comigo quando medito do que quando eu declaradamente rezo. Mas meditação nem sempre se faz num quarto escuro, abusando da solidão.



Esta semana sentei no cordão da calçada e fiquei observando as árvores no outono. Elas se despedem das folhas, as atiram no chão como se fossem beijos de gratidão. É o jeito que as árvores têm de agradecer ao chão por cuidar das suas raízes, permitir que elas ali se estabeleçam e se alimentem. É um ciclo interessante. Porque as árvores ficam nuas no outono e muito vestidas na primavera. Daí elas estão mostrando que a natureza sabe o que faz. Nós também perdemos as folhas nos nossos outonos. Velamos o que não temos mais. Elaboramos nosso luto como quem passa por um inverno rigoroso e depois temos a primavera. É da nossa natureza florescer. É da nossa natureza que venham as flores depois dos períodos de frio. Deus sabe o que faz. Alinhava tudo, faz de todos os eventos a colcha de retalhos da existência. Por isso as nossas atitudes exigem cuidado, haverá repercussão. Em algum lugar, em algum momento, causa e efeito. Estamos unidos.



O momento foi gratificante, o sol estava indo deitar atrás das nuvens. As cores e as texturas do céu eram pintadas em aquarela. Parar, respirar, olhar pra dentro, olhar pra fora. Deus não nos deixa recado na geladeira, porque o que Ele diz não se lê só com os olhos. Precisamos disciplinar nossas vidas, mas precisamos mais disciplinar nosso espírito.



Ter a mente inquieta pode ser uma dádiva.

Mas um espírito inquieto é preocupante.

Para mim a paz de espírito é o genérico da ritalina.



Vai uns engenheiros aí?!


Pra que tanta inteligência?



Pra que tanta emoção?


Qualquer coisa em excesso faz sucesso meu irmão


Quanta gente com certeza


Tanta gente sem noção


Em excesso até o fracasso faz sucesso por aí


E eu tenho fé na força do silêncio


Se as cores vão berrando no sol ensurdecedor


Fecho os olhos… Outro mundo


Vou morar no interior


Transbordou a mesa ao lado


Um tsunami arrasador


Fecho os olhos… Outro mundo


Vou morar no interior


E eu tenho fé na força do silêncio


A fé que me faz


Aceitar o tempo


Muito além dos jornais


E assim mergulhar no escuro


Pular o muro


Pra onda passar


Vi um punk na farmácia atrás de protetor solar


Baile funk no plenário


Ambulância quer passar


Futebol, mesa-redonda, exorcista, camelô


A onda agora é outra onda


Um tsunami arrasador


E eu tenho fé na força do silêncio


A fé que me faz


Aceitar o tempo


Muito além dos jornais


E assim mergulhar no escuro


Pular o muro


Pra onda passar

terça-feira, 19 de abril de 2011

porta aberta

Por vezes fico assombrada com as palavras que brotam de mim. Entre o signo e o significado, creio sem dúvidas no que sinto. Mesmo que seja anônimo. Exploro, questiono. Por vezes descubro algo mais além. Por vezes me contento com a dúvida não respondida, não pela comodidade, mas pela alegria de guardar segredos que eu mesma desconheço. Não conseguir me decifrar não faz de mim fraca, porque sei me aceitar inclusive nas  fraquezas.


Conto amores nos dedos. Conto fatos inventados nos dias que passaram por mim nas poucas vezes que estive parada. Derramo observações sobre posturas, gestos e falas, analiso entrelinhas e mensagens subliminares. Verifico a pele traduzindo histórias. Quando o rosto esboça o riso, já desenho o delírio. Quando a pupila turva em água, sou expectativa. Para a mão que procura a minha, saudações.


Já enterrei alguns amores de faz de conta, adverti para que não me levassem a sério. O cenário era a única coisa real, o amor era travestido, máscara, fantasia, estava acobertado pela luz, como as sombras impressas pelas mãos de uma criança nas paredes do quarto antes de dormir.


Chorar por amor é uma declaração sincera. Um choro honesto não dura mais de dez minutos, a preparação da angústia dura mais, o luto se arrasta por caminhos de volta ou descoberta. Elaborar perdas exige mais do que apenas chorar. Desconstruir-se, desintegrar-se, ver escorrer pela mão feito água a convicção que foi plantada. Criar um nada, colocá-lo no bolso e seguir viagem exige cara de pau, coragem de admitir que se falhou sem saber o porquê, mas sem desistir de saber. Segui passos que não eram meus, fiz o retorno na primeira curva. Iludi sem mentir. Não subi montanhas ou pulei de precipícios. Conservei pudores, aboli escravos de outros patrões, instiguei motins, coloquei lenha na fogueira, me mantendo imune. Fiz revoltas desarmadas. Fiz consciente coisa errada. O tempo me fez perder o jeito, mas não a crença. Mesmo inabitado, o peito continha oxigênio. É o que o fogo precisa para queimar.


Alguém riscou o palito porque deve ter medo de escuro.


No colégio me disseram que eu tinha plantada a semente da insensatez. Agradeço a Deus por ela ter brotado, por dar frutos de todos os sabores. Já provei dos mais doces aos mais amargos, todos maduros. Tenho dó dos normais, dos que jamais foram tomados por impulsos, dos que não dizem o que pensam, dos que camuflam o que sentem. Me despertam compaixão as pessoas tom pastel. Nunca consigo deixar uma tela em branco, uma folha por riscar, um lápis virgem. Não acredito em gente sem história, em quem não ri e depois chora e torna a rir. Considero agradáveis as minhas manias, mesmo quando me irritam. Gosto do que me provoca. Preciso de inspiração. Quem me instiga me seduz. Faço juras para a eternidade que abraça a minha vida. Grito palavras onde faz eco. Sou precipitada em dizer o que penso, em dizer o que sinto, atropelo protocolos, não faço mistérios por pura impaciência, tudo para erguer a bandeira da sinceridade. Aprendi que isso faz colorir contornos. Enquanto vejo as pessoas murando o coração, cercando o que sentem, escondendo seus valores, guardando com cães raivosos o patrimônio das suas paixões, eu abro mais uma mais uma janela. Penduro roupa na varanda para sinalizar a habitação. O gramado sugere um convite de cama nas tardes frias e com sol. Meu escafandro está vazio. Minha casa está cheia.


Quando a tristeza bate na minha porta, a trato como hóspede. Dou abrigo, trato bem, para que parta tão bem quanto chegou. A tristeza precisa de conforto porque o lugar que deixará vago será ocupado por outro sentimento. Levará uma boa impressão, voltará mais amena das próximas vezes. Partirá sem rancor.


Não deixará saudade. Mas a saudade irá surgir. E o inédito vai surgir. Agora eu entendo o que ninguém me explicou. Carregar o meu nada exigiu paciência e fé. Foi involuntário voltar a sentir, foi involuntário gostar. Não que eu não quisesse, mas não procurava. Não esperava. Acontece que a tristeza, ao sair, esqueceu a porta aberta.


Já haviam me alertado que o amor é assim, invade a casa sem pedir licença, não toca a campainha, chega sem avisar.


Fique à vontade, a casa é sua.

 
Si es amor



La sabiduria llega cuando no nos sirve para nada
no se puede evitar
y todo lo que pasa conviene
son las reglas del destino, son las reglas del amar
y todo lo que pasa conviene
son las reglas del destino, son las reglas del amar


cuando vos querias un abrazo
yo queria emborracharme con los flacos en el bar
cuando yo queria la rutina, vos decias quiero aire, necesito libertad
cuando vos querias la rutina, yo decia quiero aire, necesito libertad


pero al fin si es amor, cruzará huracanes y tormentas
pero al fin si es amor, beberemos solo su belleza


al otro dia como el ave fenix me levanto con el pie derecho
y rio sin razon
llevo una locura caprichosa, caprichosa las canciones, me abren su gran corazon
la musica es mi chica caprichosa que cuando no toco el piano me manda al infierno (adoro essa parte!)


pero al fin si es amor, cruzará huracanes y tormentas
pero al fin si es amor, beberemos solo su belleza


y si es amor, comeremos en la misma mesa
y si es amor, lo que nunca compartimos, las vidas que no vivimos juntos
dos miradas que esquivamos, las mentiras que dañaron
nada nos importara, nada nos importara, nada nos importara
si es amor



































domingo, 17 de abril de 2011

heidegger não me cai bem

(da série dialoguinhos)


- Era uma vez eu. E ele. Na verdade, eram muitas vezes, uma porção de eu e um montão deles. Não que eu fosse muitas todas de uma só vez, ainda que eu tenha quase certeza de ter múltiplas personalidades, muitos medos de desenvolver patologias, de ser dominada por uma de mim que não é exatamente quem eu sou e jamais voltar a ser eu mesma. Enfim... uma frota de eu, uma frota de eles. Os tempos eram outros, outros princípios, outras visões sobre tudo, outras opiniões, maturidade, objetivos, responsabilidades e vida. Porém, todas essas que eu fui, não eram apenas filhas das situações que eram muitas vezes. Era uma vez cada uma das situações, onde – sim – influenciavam na eu, mas além disso, tinha um pouco de eu dentro de mim. Entendeu?



- Não.



- Bom, vou mais adiante. Era eu, mas não a eu de agora. Todas eu que fui foram inéditas. Surgidas dos imprevistos que a vida impõe. Cada uma uma particularidade e ainda um núcleo fundamental, imutável. Nesse núcleo, as demais partículas se agregavam, conforme cada um deles. Bom, os príncipes sempre eram sapos e os sapos, bom, os sapos se mantinham convictos em serem sapos mesmo. Daí houve uma sucessão de finais infelizes, sem cenas dos próximos capítulos. Também nessas vezes não se faziam continuidades. Nem sequencias ou remakes. Dor, sofrimento, escuridão confusão. Entendeu?



- Ainda não.



- Tu já vai entender. Assim... ao mesmo tempo que hoje eu sou a mesma daquela vez e de todas as outras vezes, hoje eu sou mais uma outra, só que não vinda de todas as minhas eu que já se foram. O que eu quero dizer é que hoje eu sou exclusiva, jamais impressa, inédita na totalidade, mas que em vez de ter agregado no meu núcleo fundamental quilo que vinha de mim, zerei tudo. Não sou inédita por agregar um pouco de tudo que já se foi, porque já se foi mesmo. Eu sou nova porque sumi. Aos poucos venho surgindo. Tem sido bom porque eu nem acreditava mais que pudesse me montar, ainda mais tendo como base o nada, um completo vazio. Entendeu?



- Tu andaste lendo metafísica de novo?



- Talvez um pouquinho de Heidegger, eu nem gosto muito dele. Gosto mesmo das teorias sistêmicas!



- Tudo bem, mas onde tu queres chegar?



- Ah, esquece. Resumidamente, todas as incertezas assinaram a lista de presença, o que me leva a crer que há incontáveis variáveis, muitas possibilidades, uma vastidão de escolhas e oportunidades. Estou feliz por viver. E empolgada com tudo. Adorando preencher o nada.



- Às vezes tu falas entre aspas.



Há dias em que eu passo longe de qualquer coisa que lembre casinha.
Mesmo nesses dias, eu adoro brincar de casinha...
 
 
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Gerânio - Marisa Monte (já disse que eu adoro gerânio)
 
 
Ela que descobriu o mundo



E sabe vê-lo do ângulo mais bonito


Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes


Sente e vive intensamente






Aprende e continua aprendiz


Ensina muito e reboca os maiores amigos


Faz dança, cozinha, se balança na rede


E adormece em frente à bela vista






Despreocupa-se e pensa no essencial


Dorme e acorda






Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana


Fala inglês e canta em inglês


Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus


E lava os cabelos com shampoos diferentes






Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa


E corre quando quer


Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano


E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga






Tem computador e rede, rede para dois


Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão


Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs


Vai ao teatro, mas prefere cinema






Sabe espantar o tédio


Cortar cabelo e nadar no mar


Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda


Estou com saudades e penso tanto em você






Despreocupa-se e pensa no essencial


Dorme e acorda

terça-feira, 12 de abril de 2011

não pratico outono

É assim mesmo que acontece. Acordo, abro a janela, como sempre faço, sinto a primeira luz do dia, respiro o ar da primeira brisa que invade o quarto como se tivesse passado a noite inteira do lado de fora da persiana, esperando por este momento. Depois disso eu afasto as cortinas, achando que entra mais luz, mais ar, mais claridade. Ainda estou descalça, com a cara amarrotada e o cabelo em pé.



Dou bom dia ao dia, que seja bom, que seja doce, como Caio Fernando Abreu me ensinou a fazer. Paquero o céu, querendo que ele me diga se pretende chover ou se devo me preparar para uma queda de temperatura. Por aqui, outono e primavera levam a sério o emprego de meia-estação. É fim de calor com início de frio. Pela manhã casaquinho, pela tarde água gelada, à noite edredom. Com muita sorte, meias listradas. Com mais sorte ainda, meu lado esquerdo ocupado.



Convivo bem com esse meio-termo das estações. No outono espero ansiosa pelo inverno. Gosto de bater queixo, fungar, ficar com a ponta do nariz gelado, aquecer a mão na caneca de chá, torrar a bunda na lareira, inventar desculpa pra ficar mais na cama, comer pinhão, usar edredom como se fosse casaco para perambular pela casa com minha coleção de pantufas divertidas. A gula e a preguiça são pecados praticados com afinco. Gosto mais do extremo frio do inverno do que da mornice previsível do outono, apesar de achar que tudo é mais lírico no outono.



Bom, dizia eu que, em regra, os dias começam iguais. Prometo sempre aproveitar cada momento, fazer da minha rotina algo diferente. Ser segura, cativar, praticar gentilezas, observar, sorrir estão na minha lista de afazeres diários. Não sou do tipo que pensa na felicidade como uma reação adversa. Na minha bula ela é o efeito esperado das atitudes que procuro ter. Alguns pequenos descasos que o destino pode cometer são bem vistos. São as possibilidades que não se concretizam. Variam de tombos à cicatrizes, torcidas de pé, fraturas expostas. Aprendi a não chorar meu leite derramado. Aprendi que o que fica atrás de mim, serve de ensinamento, não de regra ou julgamento. Aprendi a pensar no que eu quero e no que eu gosto como algo possível.



Uma vez, Carlos Drummond de Andrade perguntou “entre a dor e o nada, o que você escolhe?”, dor sairia da minha boca quase que por um reflexo medular. Não sentir nada é o fim da vida. As ausências completas me aborrecem. Prefiro sentir, ainda que seja dor. Mais que isso, prefiro admitir essa dor.



Ando com essa mania de ser inverno. Ou ser verão.



Aboli minha meia-estação. Não pratico mais o outono. Falo logo o que deve ser dito, abuso da sinceridade ainda que o mundo não esteja acostumado com pessoas que não tenham filtro entre o que se sente e o que se fala. Quem eu matei pra isso? Gostaria de dizer que foi o medo. Mas ele ainda está vivinho, porém mudo, obediente. Mais disciplinado do que eu jamais fui. Parei de beber – não convictamente meu vinho sagrado das noites insones – e aprendi a tomar algo divino: coragem.



Resolvi arriscar porque desfiz cada camada do que houve um dia. Desintegrei concepções e ilusões que havia adotado por anos e nem minhas eram. A sinceridade gritante me condena se eu tento omitir. E palavras tão simples como “eu te amo” já não travam mais a minha língua. O desconhecido não me inibe. Os riscos não me assustam. Cá estou eu, sentada em cima de uma nuvem, sem pára-quedas.

Posso cair o maior tombo da minha vida. A ruína pode ser o próximo passo.



Mas acredito que aprendi a voar.



Melhor do que isso. Acredito que existe alguém aprendendo a voar junto. Um praticante convicto do próximo passo, sem pressa, vivendo um dia de cada vez – e ele é bom nisso! – empenhado em chegar cada vez mais perto, ir cada vez mais além. Percebo isso por toda a vastidão do oceano de palavras, fé, dúvidas, aflições, sentimentos e carinhos que têm inundado esse fragmento que chamamos de vida. Percebo isso quando vejo que os espaços entre os sorrisos são menores, que o afeto tem sido bem alimentado. Gosto disso porque tem um laço, não um nó. Gosto disso porque envolve verdade e compreensão.



Gosto disso porque depois do mergulho em todo esse mar, ainda sobram suspiros salgados espalhados pelo chão da cozinha.

Há tempos atrás me disseram que aquilo que vemos deve ir além dos olhos. Seja um filme, uma pintura, uma gravura, um livro. Ver de verdade é interpretar. Ouso dizer que se aplica também aos gestos. Ainda que o interlocutor desconheça ou não nomine o que faz, faz. Faz bem e me faz bem.
 
 
 
E pra quem tem dúvidas no caminho, o que importa é caminhar.
 
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O que tem tocado na vitrola:
 
Simple Words - Ultra Orange & Emmanuelle


What am I supposed to do


when we're side by side


and the silence speaks


for 2


is it me or is it you?


oh tonight we need


to start something new






simple words like 'I love you'


it feels so hard to tell the truth


and you look away


too afraid to hear


what you're about to say






how far can you go


how long can you wait


before you speak


from your heart






and the case keeps on and on


and the mystery is never solved


if I'm not the one you search


if you're stuck inside a dead end world






simple words like 'I love you'


it feels so hard to tell the truth


and you look away


too afraid to hear


what you're about to say






how far can you go


how long can you wait


before you speak


from your heart





















terça-feira, 5 de abril de 2011

desarmada e perigosa

Não sou do tempo das cartas de amor. Sou no máximo do tempo de bilhetes em guardanapos. Eu gosto dos recados curtos de amor. Compenso a economia de palavras nos gestos. Isso não me leva a comprar cartões com dizeres ou me utilizar do que alguém já disse, não. Uso as minhas palavras originais de fábrica, ainda que encontre nas citações alheias e nas canções muito do que eu quero dizer. Escolhi viver o amor, viver a paixão. Escolhi das declarações ditas nos olhares, impressas nos gestos ou declaradas de improviso, daquelas em que as palavras se conhecem e casam na hora. Minhas declarações são um sem-fim de sem-tempo. São quase impensadas, quando não são de fato!



Tenho vivido mais, ando mais crente. Falo aqui tanto de Deus, quanto dos destinos e das energias que podem aproximar as pessoas. Tenho vivido o que acredito. Tenho encontrado o escambo de informações, filosofias, palavras, carinhos, peculiaridades que me absorvem como faria um buraco negro. Tem sido interessante me entregar às mesmas coisas que sempre me fizeram correr léguas sem olhar pra trás. Não tem como negar a série de incríveis começos que estão acontecendo, a atração de tudo como se houvesse imã, o encaixe desenhado por dedicados arquitetos. Ando me dedicado como nunca, por vontade minha. Fiz até tema de casa, não ganhei estrelinha no caderno, ganhei o melhor beijo e um sorriso.



E quando fico sozinha, concentrada em algum afazer, ele invade minha mente. Peço licença, ele não sai. Em seguida vem a lembrança do abraço de um braço só, a manha pra ganhar agrado, o emburramento de tédio no sofá, o rosto bonito dormindo, iluminado pelo azul da televisão. Eu gosto da respiração forte no meu ouvido durante o abraço e dos gestos mais carinhosos, como ajeitar meu travesseiro ou servir água no copo quando ele toma no bico. Tão bonitinho que nem confessei que sempre tomei água no bico...



Esse negócio de gente com alma grande me fascina. Alma que não cabe no corpo, com tanta energia acumulada que se sente preso. Ele me disse que gostava de desenhar. Dei uma caixa com tudo que tinha direito, inclusive papel, pra quando o lado de dentro precisasse fugir. Dizia isso, mais ou menos, no manual de instruções – tão resumido quanto meus bilhetes de amor – que ele leu! E riu. Eu me amarro no jeito obstinado que ele tem, nas convicções, nos empenhos pra me convencer de qualquer coisa. Gosto do jeito que o pensamento dele vai ali e já volta. Volta sempre com uma outra observação.



Uma vez disse que ele me inspirava ao mesmo tempo que me instigava. Verdade.



Umas vezes ele age como se não fizesse ideia do tamanho que tem, do quão rico é.



Parece que ele me seduz sem querer. Eu me pego rindo sozinha, até durante o banho. “Eu sou uma ridícula” é o que vem logo depois do meu próprio flagrante de devaneio. Tem como não rir da maneira como ele me fala as coisas? De me chamar de dentuça como se fosse elogio? De colocar apelidos leguminosos na minha ruivice? Ou do ego que inflou tanto na sala que quase me deixou sem ar? E as manias? Nossa, e o tanto que eu gosto das manias? Já falei das rabugices? Dos vincos que ele borda entre as sobrancelhas quando vai falar de coisa séria? Já disse que interpretamos tantas coisas iguais, que ele também curte AC/DC, lê jornal, tem uma gata e é de virgem?



Ando quase uma terrorista. Esbarro em mais coisas por metro quadrado. Eu, apaixonada, sou quase uma tragédia ambiental. Respondo coisas desconexas para perguntas simples:



- Açúcar ou adoçante?

- Quarta-feira, de preferência na parte da tarde... (ops)

- Os relatórios estão assinados?

- Prefiro verde.



Se me pedem para abrir a janela, volto com um copo de água. Preciso ligar para alguém, pego o celular e verifico se tem mensagem. Não. Ligar pra quem, mesmo? Quase dei banho na cadela usando carpex, vidrex, errorex. Ando perigosa. Escovei os dentes duas vezes antes de dormir.




Desconfigurada, porém, felizinha!

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Acho engraçado que eu nunca fiz uma poesia na vida, sequer tentei rimar amor, dor e flor numa mísera frase adolescente. Mesmo assim, por deboche ou descaso, sempre acham que escrevo poesia. Eu sou filósofa, ora bolas. E pior, filósofa de araque, dessas que explora o que desconhece, tecendo teorias absurdas, mirabolantes, com muito mais perguntas que respostas. Pego o que serve, engarrafo, coloco na geladeira pra depois. Pego o que não serve, varro para baixo do tapete e espero que volte. Espero que sirva. Espero. Esperar nunca é pontual. Filosofia barata é assim também, nunca é pontual, junta um monte de tudos, de nadas e pronto.


Tenho alma de filósofa por opção – ou falta delas. Tenho alma de poeta por maioria de votos.

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(ouvi taaaaaaanto Elisa, que a música do post tinha que ser dela!)


Ti Vorrei Sollevare - Elisa



Mi hai lasciato senza parole
Come una primavera
E questo è un raggio di luce
Un pensiero che si riempe di te
E l'attimo in cui il sole
Diventa dorato
E il cuore si fa leggero
Come l'aria prima che il tempo
Ci porti via
Ci porti via
Da qui


Ti vorrei sollevare
Ti vorrei consolare
Mi hai detto ti ho visto cambiare
Tu non stai più a sentire
Per un momento avrei voluto
Che fosse vero anche soltanto un po'
Perchè ti ho sentito entrare
Ma volevo sparire
E invece ti ho visto mirare
Invece ti ho visto sparare
A quell'anima
Che hai detto che non ho


Ti vorrei sollevare
Ti vorrei consolare
Ti vorrei sollevare
Ti vorrei ritrovare
Vorrei viaggiare su ali di carta con te
Sapere inventare
Sentire il vento che soffia
E non nasconderci se ci fa spostare
Quando persi sotto tante stelle
Ci chiediamo cosa siamo venuti a fare
Cos'è l'amore
Stringiamoci più forte ancora
Teniamoci vicino al cuore


Ti vorrei sollevare
Ti vorrei consolare
E viaggiare su ali di carta con te
Sapere inventare
Sentire il vento che soffia
E non nasconderci se ci fa spostare
Quando persi sotto tante stelle
Ci chiediamo cosa siamo venuti a fare
Cos'è l'amoreStringiamoci più forte ancora
Teniamoci vicino al cuore