terça-feira, 28 de junho de 2011

free hugs

Num dia de verão, com um grupo grande de amigos na praia, um deles levantou do nosso acampamento de areia e saiu caminhando pela areia. Foi andando por aquele limite onde a espuma cochicha com a areia. Voltou quase duas horas depois. Perguntei onde ele tinha ido, respondeu que foi caminhar para conversar com a vida. Encarei a resposta como poesia feita na hora. Frase de efeito sem querer. Depois, olhando melhor pra ele, achei que voltou melhor do que saiu. Fiquei curiosa pelo assunto entre a vida e ele. Queria saber se fez perguntas, se ela respondeu ou se os assuntos apenas fluiram sem pauta, lançados no ar, como as pipas ao vento daquelas tardes de verão.



Apoderei-me do ato.



Resolvi que também posso conversar com a vida. Apenas combinei de não exigir respostas. Nem poderia. Certas perguntas eu faço para que não sejam respondidas. Pergunto em voz alta para afirmar a dúvida. A interrogação tem entonação convicta.



Tenho dias de faladeira. Deixo a vida tonta de me ouvir. Mergulho em palavras que não acabam, a conversa é um monólogo. Outras vezes sou apenas ouvinte atenta. O vento ri embaralhando as folhas que as árvores permitem partir. Gosto de ficar olhando pro céu e procurar desenhos em nuvens. Quando é noite invento constelações e as dedico a quem amo, geralmente elas carregam as letras dos nomes, como pingentes de brilhante. Falo sobre o que eu quero, abro o coração, espalho amor, declaro mágoas, dou risadas.



O incrível é que fico mesmo melhor depois das conversas. Funciona como terapia. Mudo conceitos, observo, penso no que vi e debato. Parece loucura mas é uma das coisas mais sãs que se pode fazer.



Tenho a impressão que às vezes o mundo se esquece de temperar o dia. As pessoas existem no piloto automático. Fico incomodada porque adoro pimenta. E também gosto do doce e do azedo. Preciso de sabores variados. Conversar com a vida me ajuda nisso. Eu sinto que não sou completa e que talvez jamais seja porque não quero. Busco mais perguntas, prefiro inventar coisas. Prefiro que me ensinem outros hábitos, que me contem outras histórias. Cultivo virtudes, depois esqueço elas em alguma bolsa guardada no armário. As minhas imperfeições são de estimação. Mas negocio. Troco. Tudo é troca.



Eu me dou bem com a vida para que ela fique à vontade comigo. Para que plante no meu jardim a calmaria e a tempestade, que dêem as flores nas estações, para que eu as colha e carregue na lapela.


Nas nossas conversas, tem dias que a vida só pede um abraço. Eu dou e recebo. As conversas até podem se transformar em monólogos. Os abraços serão sempre diálogos.

Quero tudo novo de novo. Quero não sentir medo. Quero me entregar mais, me jogar mais, amar mais.Viajar até cansar. Quero sair pelo mundo. Quero fins de semana de praia. Aproveitar os amigos e abraçá-los mais. Quero ver mais filmes e comer mais pipoca, ler mais. Sair mais. Quero um trabalho novo. Quero não me atrasar tanto, nem me preocupar tanto. Quero morar sozinha, quero ter momentos de paz. Quero dançar mais. Comer mais brigadeiro de panela, acordar mais cedo e economizar mais. Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais. Pensar mais e pensar menos. Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. Quero ser feliz, quero sossego, quero outra tatuagem. Quero me olhar mais. Cortar mais os cabelos. Tomar mais sol e mais banho de chuva. Preciso me concentrar mais, delirar mais. Não quero esperar mais, quero fazer mais, suar mais, cantar mais e mais. Quero conhecer mais pessoas. Quero olhar para frente e só o necessário para trás. Quero olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa. Quero pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Quero mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Quero aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais. Quero menos “mas”. Quero não sentir tanta saudade. Quero mais e tudo o mais. E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha”.
 
Fernando Pessoa
 
O texto bem podia ser da série "isso explica muita coisa".
Mas muita coisa não tem feito o menor sentido pra explicar.
 
Quando não tiver mais nada


Nem chão, nem escada

Escudo ou espada

O seu coração

Acordará!...



Quando estiver com tudo

Lã, cetim, veludo

Espada e escudo

Sua consciência

Adormecerá!...



E acordará no mesmo lugar

Do ar até o arterial

No mesmo lar

No mesmo quintal

Da alma ao corpo material...



Hare Krishna Hare Krishna

Krishna Krishna

Hare Hare

Hare Rama

Hare Rama

Rama Rama

Hare Hare



Quando não se têm mais nada

Não se perde nada

Escudo ou espada

Pode ser o que se for

Livre do temor...



Hare Krishna Hare Krishna

Krishna Krishna

Hare Hare

Hare Rama

Hare Rama

Rama Rama

Hare Hare



Quando se acabou com tudo

Espada e escudo

Forma e conteúdo

Já então agora dá

Para dar amor...



Amor dará e receberá

Do ar, pulmão

Da lágrima, sal

Amor dará e receberá

Da luz, visão

Do tempo espiral...



Amor dará e receberá

Do braço, mão

Da boca, vogal

Amor dará e receberá

Da morte

O seu dia natal...



Aaadeeeus Dooooor...(4x)



Hare Krishna Hare Krishna

Krishna Krishna

Hare Hare

Hare Rama

Hare Rama

Rama Rama

Hare Hare (6x)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

cuidado, ele me cuida

Tempo com o Eduardo nunca é gasto. É investimento. Não perco nada com ele. Ele soma e me multiplica em tudo. As tarefas exigem mais mãos. Alcanço o copo de água com uma, seguro ele no banco com outra, ainda mexo a comida na panela, pingo o detergente na esponja porque ele resolveu ajudar lavando a louça enquanto preparo a janta. Sem falar no fôlego, mal inspiro entre uma dúvida e outra. Os porquês que ele não tem vontade de saber, inventa, é especialista em descobrir assunto onde não há.

Nunca me ensinaram a ser mãe. Jamais me disseram o que eu devia ou não fazer com um filho. Mas aprendi com Eduardo que os pais devem fazer o favor de não atrapalhar. Além de dar educação e torná-lo consciente das responsabilidades.

Não posso sufocar meu filho com as minhas expectativas ou meus conceitos de certo e errado. Mas devo sempre ensinar que ele tem escolhas. Que as escolhas exigem responsabilidades. Não posso escolher por ele, os pais têm mania de achar que são onipresentes. Mesmo nas minhas ausências, ele vai precisar agir conforme os valores que eu o apresento. Isso tudo optando por ser feliz. Ou seja, a tarefa de um filho é tão complicada quanto a dos pais. Não há como ter certeza de que se está no caminho certo.

O que eu faço com o Eduardo é concentrar grande amor e atenção, para isso, observá-lo é fundamental. Gosto de sair com ele. Gosto quando ficamos sozinhos e podemos conversar. Uma criança de dois anos e dez meses tem maravilhas para dizer. Não posso atrapalhar o pequeno nas suas considerações, não posso atrapalhar na personalidade que ele tem.

Eduardo é uma criança fabulosa, decidido ao extremo. Tem claro o que quer e o que não quer, sabe do que gosta. É dotado de uma ironia que disfarça a inocência. Reconheço nele o mesmo jeito que eu viro os olhos quando o assunto me aborrece. O jeito de abrir a boca pra prestar atenção em alguma coisa interessante. A impaciência com filas e o péssimo humor com fome, a luta eterna contra o sono. Mas ele tem outras coisas que não sei de onde tira: o imediatismo e a inflexibiliadade. É um pequeno anarquista teimoso. Militante dos próprios caprichos.

Já falei outras vezes que ele é um bom observador. Agora ele começou a comentar o que observa: “aquele titio está triste”. As observações agora vêm com instigantes verbalizações:
- Os grilos são mais espertos que as lesmas?
- Por quê, filho?
- A lesma não fala.
- E o grilo fala?
- Sim.
- O que ele diz?
- Cri, cri, cri.

Ele está estabelecendo relações de comparação, por isso preciso cuidar dos exemplos que dou – minha grande preocupação. Sempre seremos parâmetros para os filhos, por mais que ele tenha a personalidade dele e eu não possa atrapalhar, minhas atitudes são importantes parâmetros de decisão.

Eu nem sempre estarei presente, mas meus traçados vão fazer parte dos limites dele. O superego vai se desenvolver com as noções de certo e errado baseadas nas observações e nas comparações. Como os grilos e as lesmas ou a identificação da tristeza por alguma razão, Eduardo vai julgar sem a minha presença. O superego vai sempre resgatar as linhas que já estão sendo traçadas, ele vai decidir quando elas podem ser ultrapassadas. Avaliará riscos, como faz agora quando decide abandonar a banheira e tomar banho no chuveirinho.  

Lya Luft disse que em matéria de filhos, devemos obedecer a sinalização das estradas de ferro: pare, observe, escute.

É assim que ajusto a sintonia com o Eduardo. Conversamos muito, empatamos em idade. Aprendo com ele os meus limites. Aprendo com ele a resgatar a educação que meus pais me deram. Nossos vínculos são estreitos, conversamos por olhares. Fazemos eco nos nossos valores para que se propaguem.

Ontem Eduardo deitou no meu colo, me fez um carinho no rosto e falou “eu te cuido”.

Já percebi. Ele cuida tudo.
Eu preciso me cuidar com isso.




Pérola do Fido: mamãe, tá escuro. Mas se eu não dormir fica claro?!


Crianças acreditam que podem mudar até o horário do sol nascer. Minha resposta: só fica claro depois de dormir. O sol não nasce quando as crianças estão olhando.

Ele resolveu dormir.
Ou ficou acordado escondido pelo simples prazer de testar o sol.


Aguardarei as futuras manifestações.


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All My Love (música que Fido tem amado!)

Should I fall out of love, my fire in the light?
To chase a feather in the wind
Within the glow that weaves a cloak of delight
There moves a thread that has no end

For many hours and days that passes ever soon
The tides have caused the flame to dim
At last the arm is straight, the hand to the loom
Is this to end or just begin?

All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now

The cup is raised, the toast is made yet again
One voice is clear above the din
Proud Aryan one word, my will to sustain
For me, the cloth once more to spin

All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now
All of my love, all of my love
Yeah all of my love to you child

Yours is the cloth, mine is the hand that sews time
His is the force that lies within
Ours is the fire, all the warmth we can find
He is a feather in the wind

All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now

All of my love, oh love yes
All of my love to you now
All of my love, all of my love
All of my love, love

Sometimes, sometimes
Sometimes, sometimes
Hey, hey, hey, hey
Hey, hey, hey, hey

Oh yeah, it's all, all, all of my love
All of my love, all of my love to you now
All of my love, all of my love
All of my love, to, to you and you, and you and yeah

I get a bit lonely, just standing up
Just standing up
Just standing up lonely
Just I get a bit lonely



sábado, 18 de junho de 2011

óculos para ver encrenca

Se eu tivesse que pedir algum conselho amoroso, jamais pediria pra mim. Opto com muita frequencia pelos riscos, por avançar os limites do que apenas parece ser. Prefiro testar, não sei, sou da opinião que é válido o que faz o coração bater ou parar. Mais parar do que bater. Aliás, sou a favor do que consegue parar tudo. Ponteiros do relógio paralíticos, pessoas brincando de estátua, paisagem pintada em escala de cinza, nada mais existe além de um número: dois. Olhando bem, um. Mas são dois. Dois, inteiros, completos, únicos no mundo que tiveram a insensata felicidade de se encontrar – ultimamente ando reparando na felicidade, ela é insensata, outra hora eu explico o porquê, preciso falar sobre conselhos e óculos.



Sem entrar em detalhes sobre os personagens da história, peço licença a toda a literatura de qualidade para iniciar o relato da forma mais clichê que consigo: Noite dessas um amigo me procurou. Queria conselho amoroso. Estava sentado em um muro, pra lá namoro, pra cá, a solteirice. O que ele queria? Namorar. Por que não namorava? Porque acreditava que a pretendente era, nas palavras dele, encrenca. Não conversamos um suspiro sobre os motivos dela ser ou não encrenca. O que meu amigo queria não era bem um conselho. Queria me usar de óculos.



Para as questões que já sabemos as respostas, óculos. É a prova real da certeza, melhor de três, escolha por maioria de votos. Ao perguntar o que o outro acha, já sabemos o que é. Precisamos da concordância, do aval. Fazemos empréstimos dos argumentos. É como pegar livro na biblioteca.



O fato da pretendente em questão ser encrenca, já estava diagnosticado. Sabemos o que as coisas são por seus contornos. Identificamos o cheiro, onde estão, o que fazem, que cor têm. Sabemos o que é ainda que não seja perfeitamente nítido. Sabemos o que é quando a certeza do equívoco é menor do que a certeza da certeza. Mas a gente tem astigmatismo da verdade, enxergamos fora de foco e distorcido o que já sabemos que é. Usamos o outro como óculos. São nossas lentes tóricas. Nossos óculos permitirão a concordância com o que narramos, não a certeza, essa já existia.



Quanto ao fato de ser encrenca, não justifica descartar a pessoa. Boas encrencas rendem boas histórias. Passados não podem condenar futuros quando o assunto é relacionamento***. Há riscos. E eu acho os riscos muito tentadores... Talvez desafiar a razão seja a melhor pedida. Talvez desequilibrar a balança pro outro lado possa valer a pena. Eu sei que ninguém mais quer brincar de namorar. Sei que ninguém mais quer levar a vida amorosa como quem empina pipa, conforme sopra o vento. Somos todos conscientes disso, não?!



Mas o que se perde? Umas noites de sono, umas fronhas de travesseiro, umas garrafas de vinho. Ouvir “eu te avisei”de alguém que tenha avisado vai fazer eco no ouvido tanto tempo quanto doerá a queda. Mais uma cicatriz, mais um band-aid emocional. Mais porquês sem resposta. Isso se houver a queda. Só cai quem sobe e só sobe quem quer arriscar. Arrisca quem está vivo. Respirar já é arriscado.



Ainda não encontrei amores enlatados, com indicação de consumo e quantidade de calorias. Se for light, então, nem quero! O amor é improvável. Partindo daqui, qualquer risco está justificado. A próxima jogada é exercitar a sinceridade. Assuma o medo, ele existe e é seu. Mas não deixe que ele cochiche no ouvido o que deve fazer. O medo é prático e patético. Amigo perfeito da preguiça.



Estamos tão mergulhados na ideia de encontrar a pessoa certa que não percebemos que nem nós somos a pessoa certa. Existe a relação certa, com alegrias, tristezas, frustrações e desmedidos amores inclusos no pacote. O encontro certo. Toda a encrenca tem direito ao amor! Às vezes tudo que uma boa encrenca quer é alguém disposto a fazer confusão junto. Alguém disposto a errar junto, pra depois rir junto e aprender junto. Alguém disposto a estar junto, esta é a grande raridade. É monótono estar sempre certo. É triste estar certo separado.



Um voto a favor da encrenca.

Foto fora de foco, mas sou eu! Nem precisa de óculos...

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Encrenca é calar o coração.

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Quando nasci veio um anjo safado



O chato do querubim


E decretou que eu estava predestinado


A ser errado assim


Já de saída a minha estrada entortou


Mas vou até o fim


"inda" garoto deixei de ir à escola


Cassaram meu boletim


Não sou ladrão , eu não sou bom de bola


Nem posso ouvir clarim


Um bom futuro é o que jamais me esperou


Mas vou até o fim


Eu bem que tenho ensaiado um progresso


Virei cantor de festim


Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso


Em quixeramobim


Não sei como o maracatu começou


Mas vou até o fim


Por conta de umas questões paralelas


Quebraram meu bandolim


Não querem mais ouvir as minhas mazelas


E a minha voz chinfrim


Criei barriga, a minha mula empacou


Mas vou até o fim


Não tem cigarro acabou minha renda


Deu praga no meu capim


Minha mulher fugiu com o dono da venda


O que será de mim ?


Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou


Mas vou até o fim


Como já disse era um anjo safado


O chato dum querubim


Que decretou que eu estava predestinado


A ser todo ruim


Já de saída a minha estrada entortou


Mas vou até o fim



















segunda-feira, 13 de junho de 2011

amiga saudade

AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
 aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade



Saudade é o tipo de coisa que não se tem como fugir. A gente tranca a porta, ela pula a janela. A gente fecha a janela, ela atravessa a parede ou entra pela chaminé. Presença ilustre de festa que não foi convidada. Saudade é sentimento que acontece. É o que enche a taça do vinho que acabou.



Saudade é difícil de definir, complicada de explicar. É o tipo de coisa que cada um sente do seu jeito, não se pode condenar. Discordo quando leio que a saudade está relacionada com melancolia, nostalgia e solidão, apesar de haver uma explicação para isso. A palavra é derivada do latim, solidate, soledade, solidão, junto com derivados da saúde. Por isso é difícil traduzir saudade sem relacionar com falta, ausência ou solidão.



A saudade pode ser produto de uma tristeza. Pode ser o fim de uma fantasia. Mas não é necessariamente melancólica ou nostálgica. A nostalgia é uma lembrança do que se viveu, um sentimento bom que faz reviver o que passou. Os cheiros nostálgicos da minha infância quase me fazem esquecer como se fala. E pra mim, melancolia é algo tão triste, mas tão triste, que preciso escolher a dedo o dia pra sentir. Preciso ter certeza de dedicar um dia inteirinho para reviver as mágoas. É permitido o choro de soluços, a maratona de lágrimas desgovernadas. Se na saudade a tristeza é optativa, na melancolia é obrigatória. É requisito!



Minha saudade não é falta, é presença. É ocupar o pensamento com o outro. Relembrar os diálogos, fechar o olho pra sentir o cheiro, passar a pele no vento para imitar o atrito da respiração. Minha saudade vai atrás do que pode me deixar mais próxima, procura ler a distância, ver paisagens que atiçam a imaginação. Faz-me esticar os dedos no nada para desenhar um riso. E rir junto. A saudade não me deixa sozinha, me faz próxima.



Se a distância é física, a saudade é a proximidade da alma. Faz banquete para o desejo. Conta os dias na folhinha.



A minha saudade é excesso. Daqueles intensos que pratico com religiosidade. É criar intimidade com as lembranças, valorizar os minutos que os ponteiros do relógio não marcaram, é multiplicá-los por mil. A saudade é o que deixa mais gostoso dividir a mesma taça por pura economia de louça. É o que torna familiar o esboço de um olhar. É o prato servido antes da expectativa.



Não há angústia ou mágoa nessa saudade. Não quero matar a minha saudade, quero ter sempre que houver distância. Quero ser capaz de sentir. Depois quero guardá-la para mais tarde. Requentar, acrescentar novas lembranças, dar outro gosto. Minha saudade é feliz porque não me traz solidão. Ela paralisa os momentos para que eu possa assistir novamente todas as cenas, como se meu filme favorito fosse. Minha saudade é querer por perto os pedaços de mim que espalhei sem querer por aí. Remonta os sentidos que eu não faço. Sou permissiva com ela, em troca, ela não é perversa comigo.



Fiz amizade com a saudade. Assim ela não me dói, me consola.


Sábio Rubem Alves quando disse que “a saudade não deseja ir para a frente. Ela deseja voltar.”



É o meu desejo: que volte.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte da Saudade - Kleiton e Kledir


Esse quarto é bem pequeno


Prá te suportar


Muito amor, muito veneno


Prá pouco lugar


O teu corpo é uma serpente


A me provocar


E teu beijo, a aguardente


A me embriagar...






Essa boca muito louca


Pode me matar


Se isso é coisa do demônio


Eu quero pecar


Fecha a luz, apaga a porta


Vem me carinhar


Diz aí prá minha tia


Que eu fui viajar...






Diz que fui


Prá Nova Iorque


Ou prá Bagdá


E que isso não é hora


De telefonar


Eu já sei que qualquer dia


Tudo vai dançar


Mas a fonte da saudade


Nem o tempo vai secar...






Essa boca muito louca


Pode me matar


Se isso é coisa do demônio


Eu quero pecar


Fecha a luz, apaga a porta


Vem me carinhar


Diz aí prá minha tia


Que eu fui viajar...






Diz que fui


Prá Nova Iorque


Ou prá Bagdá


E que isso não é hora


De telefonar


Eu já sei que qualquer dia


Tudo vai dançar


Mas a fonte da saudade


Nem o tempo vai secar...

domingo, 12 de junho de 2011

simpatia no dia dos namorados

Eu adoro o dia dos namorados. Verdade. Posso não gostar das vitrines com overdose de coração, das floriculturas com balões que atropelam as pessoas nas calçadas, das propagandas bestas com diálogos previsíveis, das promoções de motéis, de restaurantes, de ferragens, de petshops. Mas gosto de toda a função do dia doze de junho. Eu entro no clima, fico mais romântica, me pego procurando rimas de primário pra dar bom dia. Atendo o telefone com voz melosa, cada frase soa a miado de gato esperando a tigela de leite. Acaricio os móveis da casa como quem faz cafuné no cabelo do namorado – e isso quando estou verificando se há pó na mobília. Canto Djavan tomando banho.



Hoje pela manhã a manteiga do pão carimbou a beirada do prato com uma mancha que parecia um coração. Mostrei para a diarista:



- Olha!

- Arram, manteiga. Passou demais, vazou do pão.

- Não, olha bem, é um coração.

- Queres um guardanapo?



Eu juro pelos meus botões que era um coração de manteiga, uma declaração de amor do meu café da manhã. Uma singela demonstração de afeto gravada na louça fria. Comi meu pão com manteiga e tomei meu café preto sorrindo pelo agrado matinal. Foi tão galanteador quanto receber flores.



O dia dos namorados não depende de ter um namorado. É puro estado de espírito. Por isso não entendo as rivalidades entre solteiros e não solteiros. Não sou apreciadora das brincadeirinhas, das comparações, das infinitas enumerações de vantagens e desvantagens. Os prós e os contras não são combatentes. Para ter namorado, aconselha-se sentimento, porque namorar um chato apenas para ter alguém deve ser muito triste. Ao passo que não ter quem se ama deve igualmente fazer um solteiro ser infeliz.



Por isso optei por me embriagar do sentimento do dia dos namorados. Assovio para os pássaros, suspiro pelos cantos e vejo flores em você. Vejo flores em todo mundo. Em qualquer coisa. Passo vinte e quatro horas caída de amor! Faço toda a preparação nos dias anteriores, decoro Neruda, transformo Vinícius de Moraes em rei, compro roupa nova, escolho perfume. Distribuo sorrisos como quem dá as cartas em jogo de pôquer.



Já disse que o amor é jogo de cartas marcadas?



Dia dos namorados é assim, muito mais uma questão de estado de espírito do que de companhia. É paixão literal generalizada. É se dar ao trabalho de preparar o figurino para que o dia abra as cortinas de acordo com seu nome de batismo. É recitar Shakespeare para as nuvens: “Duvida da luz dos astros. De que o sol tenha calor. Duvida até da verdade. Mas confia em meu amor.” É brindar de taça cheia, com alguém ou com a própria sombra. O amor não tem calendário. O amor acontece todos os dias. Independe de companhia.



Solteira ou não, namoro sempre com a felicidade. Por isso desejo, para os namorados e não namorados, muita felicidade e muito amor, lembrando as palavras de Clarice Lispector: “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”



Feliz dia dos Namorados!

É, só eu sei



Quanto amor eu guardei


Sem saber que era só prá você






É, só tinha de ser com você


Havia de ser prá você


Senão era mais uma dor


Senão não seria o amor


Aquele que a gente não vê


O amor que chegou para dar


O que ninguém deu pra você






É, você que é feita de azul


Me deixa morar nesse azul


Me deixa encontrar minha paz


Você que é bonita demais


Se ao menos pudesse saber






Que eu sempre fui só de você


Você sempre foi só de mim






Que eu sempre fui só de você


Você sempre foi só de mim