sábado, 16 de julho de 2011

dra. bebezinha

Eu quis muito uma irmã. Queria mais que tudo. Não dei sossego aos meus pais até ver a barriga crescer. Esperei aflita a confirmação: é menina. Pronto, a barriga da minha mãe passou a ser minha caixinha de música, grudava o ouvido esperando que a minha irmãzinha fizesse algum barulho. Ela chutava muito. Escolhi o nome: Renata – homenagem tricolor prontamente bem recebida pelo meu pai.



Renata já nasceu linda. Foi linda enquanto criança, linda adolescente – o que é raro – e segue linda. É de admirar cada traçado perfeito, é harmônica, suave e exuberante. É a minha princesa. Se eu pudesse escolher alguém no mundo pra ser minha irmãzinha, escolheria ela. Claro que já brigamos, já discutimos, mas jamais passamos um dia sem nos falar. Jamais passamos um dia sem nos amar. E ser amada por ela é uma das melhores coisas que pode acontecer.



Minha mana é minha parceira, amiga, filha, mãe, irmã mais velha, irmã mais nova. É a alegria do meu café na cozinha, quando desfiamos fofocas com a geladeira. Renata é o fio da meada. Intensa, teimosa, dramática, chorona. Lembro da quantidade de coleguinhas maus que ameacei de morte lenta e cruel no pátio da escola. Lembro dos segredos confessados quando dividíamos o quarto. E das brigas pelas roupas comunitárias. Aliás, bagunço até hoje o armário dela de propósito, mesmo que não faça empréstimo de nada. Resgato a infância pela desordem.




A Renata os mesmos pais que eu, ama nossos avós, ama meu filho como se fosse dela. Ainda assim, é meu eterno bebezinho. Faço todas as vontades, cubro de mimos. Muito já acobertei, mas não tanto quanto fui acobertada. Testemunha dos meus pileques de verão. Testemunha dos meus desamores, xingamentos, revoadas. Quando penso que chego com uma mania nova, ela já foi apresentada. Declaro uma paixão, ela marca na folhinha o prazo de validade. Juro que vou ficar em casa, ela lembra de deixar a chava na janela. Quero falar bobagem, ligo pra ela. Quero falar sério, ligo pra ela. Não quero falar, ela me liga. Quando não me entende, não me condena.



É sutil pra me repreender.



Ninguém manda em mim tanto quanto ela. Parece um general.



Sempre tive orgulho da minha bebezinha, pelo caráter, pelo coração, pela alegria de fazer o que gosta. Ama receber as amigas, ama o noivo, ama organizar o natal, ama assistir jogo aos domingos e ama a família reunida. Somos uma boa equipe.



Dia dezesseis de julho de dois mil e onze será o dia mais importante do ano. Aguardado e planejado há tempos. Formatura de medicina. Renata é médica desde que se entende por gente. Não dessas que olha para o paciente como uma fração de probleminhas. Nunca foi assim. Renata quer debulhar a pessoa. É médica que vê o paciente como pessoa, quer saber dele inteiro. Desossa. Sabe criança que desmonta o brinquedo pra ver como funciona? É ela. A preocupação é global. A pessoa chega com conjuntivite e ela vai além do olho. Manda embora com a receita do colírio, lembranças pra mãe e descobre o nome do cachorro.



Ela é meu orgulho por essa sensibilidade e pela dedicação. Quantas vezes abracei e sequei o choro do medo da prova? Quantas vezes acordei às 4 da manhã com ela estudando na sala? Quantas festas da turma invadi? E amigas que furtei e adotei? E as irmãs dela que se tornaram minhas? Quantos litros de café compartilhamos, ela pro estudo, eu pro vício. Sofri junto as expectativas das notas, as confusões de turma, de grupos. Fui cobaia, fui paciente. Fui enrolada em velpeau de verão e de inverno! Fui testada em todos os pontos de fibromialgia:



- Ai!

- Dói?

- Claro, olha como tu me aperta!

- E aqui?

- Aiê! Óbvio que dói... Ta se aproveitando pra me maltratar.

- Shhhh, quieta. E aqui?

- AAAAI!

- Dói?



Adorei e detestei professores, participei dos casos de alguns pacientes sempre com a mesma sugestão: “Mana, dá rivotril, Tavares disse que cura tudo.” E por falar em Tavares, é dele a frase “Ah, essas irmãs Heine... como são inexplicáveis”. Somos mesmo. E somos irmãs.



Meus pais subirão ao palco para passarem às mãos da Renata o diploma. As mesmas mãozinhas que pintaram o treco de chaves que ainda está pendurado na parede da cozinha. As mesmas mãozinhas que fazem cócegas no Duca, que me beliscam, que cutucam o Vinícius. E ela vai continuar sempre sendo a minha bebezinha, a minha irmãzinha.



Minha irmã, a médica.

Live And Let Die


Paul McCartney

Composição: Paul McCartney / Linda McCartney

When you were young and your heart was an open book

You used to say live and let live

(You know you did, you know you did, you know you did)

But if this ever-changing world in which we live in

Makes you give in and cry



Say live and let die

(Live and let die)

Live and let die

(Live and let die)



What does it matter to you?

When you got a job to do

You got to do it well

You got to give the other fellow hell



You used to say live and let live

(You know you did, you know you did, you know you did)

But if this ever-changing world in which we live in

Makes you give in and cry



Say live and let die

(Live and let die)

Live and let die

(Live and let die)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

amor



(segundo texto da série)

Desculpem, mas é mentira. Se alguém disse que o amor vai bater na sua porta, é mentira. Irão bater cobradores, carteiros entregadores, jornaleiros, pedintes, vendedores, panfleteiros, visitantes, andarilhos, perdidos, desocupados, catequistas. O amor não. Ele não bate na porta, quando a encontra fechada, ele pula a janela. Mas o amor é raro e esquece do começar. Ele acontece. Sem que ninguém saiba dizer quando ou definir por que, o amor apenas existe. E quem ama não precisa entender, nem vai. Amará e pronto.



Quem muito quer explicar perderá o tempo de amar. E vai gastar latim à toa, o amor fala a língua dos loucos.



O amor não é procurar a metade da laranja ou a tampa da panela. Não é encontrar na carta de vinhos o que mais combina com o prato principal. É temperar junto. Amor não vem pronto, mas pode ser instantâneo, inexplicável, fatal. Amor não tem motivo, ignora os porquês e não vem quando a gente chama.



Ando discordando de um montão de gente em matéria de amor. Um amigo citou Goethe “o verdadeiro amor é aquele que permanece sempre, se a ele damos tudo ou se lhe recusamos tudo”. Torci o nariz pra ele. Penso diferente, o verdadeiro amor não precisa permanecer independente de tudo. O amor é faminto, é fogueira que precisa de lenha. Pode ter muitas mortes, como nós temos, pode ir e vir centenas de vezes, pode ficar porque quer ou porque não lhe deixam partir. O amor é imprevisível, mas não é submisso. É decidido. Amor verdadeiro é o que tem jogo de cintura, que sabe ser camaleão, que muda, transforma, não implora, pede com os olhos. Lê o braile da pele. Também não concordo com Leonardo da Vinci dizendo “o amor é filho da compreensão, o amor é tanto mais veemente, quanto mais a compreensão é exata”. O amor passa longe da compreensão. O amor não nasce dela e nem de ninguém, porque nao nasce.



Podemos saber o dia do primeiro beijo, o dia que começou o namoro, o dia do casamento. Nunca saberemos o dia que começou o amor, quando ele aconteceu. O amor esquece de começar. Ele acontece. Ele surge. Amor não tem marco, amor marca. Não se define porque amor é todo o resto.



O meu amor não é tranquilo. Posso discordar do Cazuza? Não quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. Amor tranquilo não é sorte, é azar. Não amo para não fazer barulho, não amo para ficar tranquila e não incomodar. Amo para incomodar e muito, mais que o normal. Amo para deixar furtarem meu sono, meu chão, minha comida, minhas palavras. Amo para justificar a intranquilidade do coração. Amo pela vontade de ser insatisfeita, pelo desejo de descobertas infinitas. Amar é conhecer alguém tão bem que sempre se possa perguntar algo. A resposta é o de menos. Amor não é resposta. Amor é aposta. É proposta.



Amo quando uso da mesma dedicação para eticar a toalha da mesa e os cílios. A toalha é o lençol das conversar. Os cílios são os convites para um abraço. Pisco como abano de leque. Amar é seduzir os segundos. É dedicação e cuidado. Amar é plantar a intimidade no canto da boca, regar com beijos para que brotem em sorrisos. Rir junto é tão íntimo quanto se despir.



Amo quando ajeito a gola da camisa e repito os avisos de sempre. Recomendo cuidado. Amo o descuido, a porta aberta, a música esvaziando o copo de vinho. Amo quando abro os olhos como cortina. Amo quando conseguem me parar, quando roubam as palavras de dentro da minha boca. Quando suspiro. Quando fecho o olho para uma cena invadir a mente.



Amo o beijo antes de acontecer. A espera na janela. Amo os nãos, as tentativas de me parar, a inteligência em respeitar os pequenos desaforos, se atirar no sofá para rir da rotina no fim do dia.



Amor é surpresa. É forte e inusitado. Amor é decorar os passos do umbigo até a nuca. É jurar em falso, mandar embora, abrir a porta e esperar que volte. Amor é o que vem depois. É o que se diz sem querer.



Amar é carregar nos bolsos a intranquilidade.

Amar é fazer pintura com o dedo. Contornar o rosto para lembrar, esquecer e lembrar de novo. Amar é não ficar, é ir e vir diversas vezes por caminhos diferentes. A fidelidade do amor está no destino.



O amor carrega uma etiqueta: inflamável, manuseie sem cuidado. E assim, posto que é chama... Não discordo do poetinha, que seja eterno enquanto dure.

Juro que eu não estou blefando!
 
Romance



Chico Buarque


Te seqüestrei


Vou te reter pra sempre


Na minha idéia


No teu lugar, talvez


Fique alguma tonta, uma dublê


Uma mulher alheia






Na minha idéia


Vives plenamente


És a pessoa


Com todas as canções


Os momentos bons e as horas más


Que a memória coa






Nas horas à toa


Às vezes ando a cismar






Serei eu mesmo


Este cantor confuso


Que te rodeia


Ou estarei feliz


Sendo eternamente o que já fui


Dentro da tua idéia



























sábado, 2 de julho de 2011

paixão

(primeiro texto da série*)



As paixões são como ventanias
que enfunam as velas dos navios.
 Algumas vezes os submergem, mas
sem elas não se pode navegar.
 (Voltaire)





Uma patrola desgovernada, esta sou eu apaixonada. Por favor, não façam essa cara de horror. Todo o apaixonado é qualquer coisa desgovernada. Eu apenas assumo a falta de direção, de rumo, de jeito de medida, a falta de mim, a falta do outro. Assumo todos os excessos, uso os sapatos dos superlativos. As intensidades vêm morar em mim. Minutos viram horas, o telefone que não toca causa dramática asfixia. Morro lentamente ao descer a escadaria imaginando que preciso ir embora. Lamento a distância de passos. Sou mais atenta nos instantes dele, desatenta do resto, criativa no mundo. Crio legendas para o silêncio que me constrange. Agito os olhos.



Qualquer música lembra o contorno do corpo fazendo sombra no teto do quarto. Lembra a luz que entrava pela janela porque a noite era de lua cheia quando falamos por telefone. Revivo o que não aconteceu. Acredito em telepatia, sinastria, mandinga, simpatia, cartomancia. Acredito em qualquer coisa que não explique.



Paixão não tem explicação. Esconde os porquês no bolso da camisa. Pesam no peito, mas não queremos saber deles. O coração já está tão descompassado que o peso das dúvidas é só mais um. Há um provérbio que diz que quem pensa não casa. Pois quem explica não se apaixona. A paixão debocha da racionalidade. Ri da lógica. Divide as contas com resto, com troco. Quem se apaixona casa. Eu caso na hora. Caso de caso impensado. Vou lá e caso, com a mesma certeza de quem pede refrigerante light. Com a mesma coragem de quem vai ao boteco e bebe leite.



A paixão dá golpe de estado para decretar a anarquia.



Não existe paixão pensada. É admitido o beijo de surpresa, aquele que se aproveita da pausa para o suspiro. É quando se faz castelo de areia movediça e se caminha em algodão doce. É ter cara de besta. A paixão faz repetir o nome da pessoa em voz alta quando se está sozinha, faz fechar os olhos para visitar as palavras que já foram ditas, procurar as vírgulas que não foram ouvidas.



É irônica como atear fogo no quartel dos bombeiros. Desmedida. Insistente. Inconveniente. Inesperada porém bem-vinda. É saltar antes de verificar o equipamento de segurança.



Eu, apaixonada não tenho garantia. Peça-me o infinito, eu trago embrulhado em papel celofane, com laço de fita mimosa. Peça-me um mundo que eu invento. O impossível? Eu mando fazer. Eu faço chover, eu danço na chuva, corro nua. Eu preciso de abraços de camisa de força porque paixão é o nome curto da insanidade. É escrever o nome de seis letras no espelho embaçado do banheiro. É ter soluço porque desaprendeu a respiração. É ser afoito, precipitado. É talhar perfeição. É urgente.



Paixão é o atraso antes da hora marcada.



Eu sou perigosa quando me apaixono. Sou terrorista. Sequestro estrelas. Penduro sorrisos no lugar de quadros nas paredes. Faço tsunami em banheira e tempestade em colher de sopa. A minha paixão é sócia do clube do caos e praticante de felicidade explícita. Louca e dócil.



Apaixonada, eu faço carnaval em julho. E não explico a fantasia.

Osama Bin Kuky


* HISTORINHA RAPIDINHA: conversando com o querido amigo Adalberto Bueno, prometi fazer um post sobre o amor, porque discordei de uma citação de Goethe que ele postou no facebook. Eu disse que Goethe deveria continuar entendendo de rua enquanto eu seguia entendendo de amor (eu sei que eu não entendo, mas quem entende? quem quer entender? quem precisa?).  A ideia do amor se desdobrou em três, iniciando pela paixão e terminando só Deus sabe onde. Falei terminando? Não, não... que seja eterno. Pelo menos enquanto dure...
 
Ah, só uma OBS., a série deveria se chamar "um blábláblá sobre iêiêiê romântico", mas o Adalberto Querido Bueno achou péssimo. Aceito sugestões.
 
Grata.
 
Música, maestro.
 
Paixão


Kleiton e Kledir

Amo tua voz e tua cor

E teu jeito de fazer amor

Revirando os olhos e o tapete

Suspirando em falsete

Coisas que eu nem sei contar...



Ser feliz é tudo que se quer

Ah! Esse maldito fecheclair

De repente

A gente rasga a roupa

E uma febre muito louca

Faz o corpo arrepiar...



Depois do terceiro

Ou quarto copo

Tudo que vier eu topo

Tudo que vier, vem bem

Quando bebo perco o juízo

Não me responsabilizo

Nem por mim

Nem por ninguém...



Não quero ficar na tua vida

Como uma paixão mal resolvida

Dessas que a gente tem ciúme

E se encharca de perfume

Faz que tenta se matar...



Vou ficar até o fim do dia

Decorando tua geografia

E essa aventura

Em carne e osso

Deixa marcas no pescoço

Faz a gente levitar...



Tens um não sei que

De paraíso

E o corpo mais preciso

Que o mais lindo dos mortais

Tens uma beleza infinita

E a boca mais bonita

Que a minha já tocou...

E esta é pra Dedé!
E pra Zabeti!