sábado, 29 de outubro de 2011

faço laço melhor que rima

Descobri que a liberdade do sentimento é a melhor maneira de se preservar. Não é não amando que não se sofre. O não amor é o próprio sofrimento. O avesso do amor não é a raiva, não mora na traição e não está no ponto final de nenhum casal infeliz. Avesso de amor é apatia. O contrário do amor é não sentir falta da falta, não dobrar sorrisos para guardar no bolso e usar depois.




Meu coração não é pálido.



Misturo com os dedos as cores das tintas que vou usar em cada pulsação. Não sei guardar sentimento, pinto para depois pendurar por aí. Bem que eu gostaria de conseguir simular algumas reações. Tenho sobrancelhas faladeiras, precisam fofocar entre si quando algo acontece, fazem plissar a minha testa. Meus medos e amores ficam literalmente escritos na minha cara. Por economia de desculpas, confesso tudo.



Assumo tudo: amores diários, passageiros, platônicos, eternos, passageiros. No meu coração tudo tem lugar. É uma salada de frutas. Cada vez que preciso organizar, é uma tormenta. A faxina nunca é completa. Há o que vai para o baú de guardados. Uns tropeços, para a prateleira, outros para a caixinha de primeiros socorros. Tenho memória afetiva. Meu coração é estabanado, não sabe manter a ordem. E eu não levanto da cama se não for por paixão, então convivemos numa harmoniosa confusão.



Li que uma vez, numa exposição, Jim Dine disse que seus desenhos eram a sua poesia. Ele tem, sem dúvida, alma de poeta. Dine desenhou a representação do meu coração: muitas cores, confusão, harmonia, centenas de elementos. Uma colcha de retalhos que só faz sentido para quem costurou. Aceito que é assim, não pretendo entender, apenas espalhar o amor que sinto. Faço dos meus cabelos fronha. Faço do telefonema aconchego. Um carinho vira colo. Não desamparo meus afetos. Fico calada para ouvir a lágrima que precisa cair, reconheço os barulhos da casa onde moro. Deposito fidelidade nos barulhos da minha casa. Compartilho os lucros das folgas, dos passeios, das mesas de bar, das músicas que a noite trouxe.

A minha poesia é o amor. A minha poesia é esse jeito de viver.
Faço laço melhor que rima.



Se eu crio intimidade com os meus caminhos não é pela repetição do trajeto. É porque a minha poesia está em deixar um pouco de mim naquilo que me é querido. Tenho excesso de excesso, acabo derramando amor por aí, encho demais as vasilhas. Saio enrolando os cabelos no vento e esticando os cílios para aproximar o olhar.

Não aprendi a me medir, só sei me transbordar.

SOBRE A OBRA: Jim Dine tem obras cheias de possibilidades de interpretações. São verdadeiras poesias de cores. Ele tem muitos, muitos, muitos corações, de variados tamanhos, estampas, recheios. Eu gosto desse. PORÉM, vejo em qualquer coração dele algo ou algum momento em que reconheço o meu - também um pouco louco.
 
Acho que coração é isso mesmo. Já que não é de pedra, que seja de tela. Que seja de papel. Que seja de massinha de modelar. Que seja qualquer coisa que possa sempre se transformar.
 
Que seja janela por onde o amor possa entrar.
 


Sympathy



Goo Goo Dolls






Stranger than your sympathy


This is my apology


Take myself from the inside out


And all my fears have pushed you out






And I wish for things that I don't need


All I wanted


And what I chase won't set me free


It's all I wanted


And I get scared but I'm not crawling on my knees






Oh yeah everything's all wrong yeah


Everything's all wrong yeah


Where the hell did I think I was?






Stranger than your sympathy


I take these things so I don't feel


I'm killing myself from the inside out


Now my head's been filled with doubt






It's hard to lead the life you choose


All I wanted


When all your luck's run out on you


All I wanted


You can't see when all your dreams are coming true






Oh yeah it's easy to forget yeah


You choke on the regrets yeah


Who the hell did I think I was






Stranger than your sympathy


All these thoughts you stole from me


I'm not sure where I belong


Nowhere's home and I'm all wrong






And I wasn't all the things


I tried to make believe I was


And I wouldn't be the one to kneel


Before the dreams I wanted


And all the talk and all the lies


Were all the empty things disguised as me


Yeah stranger than your sympathy stranger than your sympathy

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

porta fechada

Afastem-se. Sejamos precavidos, mais sensato manter longe do que mexer com explosivo. Fiquem longe os doloridos, os reprimidos, os gemidos, os coloridos, os bons maridos, os frascos e os comprimidos. Pro lado de lá vai quem chora, quem funga, quem espirra, quem finge, quem come bala de canela, quem esquece de secar as orelhas depois do banho, quem vira o chinelo pra porta e quem toma café com leite. Por favor, respeite a linha amarela. Para trás da faixa de contenção os que prestam atenção, os que pedem a mão, os que pedem perdão e qualquer outra qualidade que rime com “ão” em pessoas que pisem no chão. Pro lado de cá os metafísicos cientistas malucos, agrimensores, filósofos, teóricos, incendiários, deturpados, tarados, maníacos e os que têm pé chato. Longe.



Mais longe ainda os suicidas, homicidas, herbicidas e inseticidas. Quero bastante distância dos que usam óculos, dos que usam camisa xadrez, dos que acordam depois das seis, dos que bebem água no bico, dos que abrem as janelas. Aqueles que gostam de basquete, assistem seriados, colocam frase em inglês no meio de uma conversa ou atendem o telefone com a mão direita, fora. Se atender com a mão esquerda, fora também.



Obedeçam à sinalização, parem. Chega, tu de gola engomada, sai pra lá moço que não amarrou os tênis, o que masca chiclé, o de boné, o de máscara do zorro. Sai pra lá ainda o ranzinza e aquele de terno cinza. Tchau para os escabelados, para os carecas, para os arrumados, para os de barba feita, para os que têm bigode, para os que jogaram futebol de botão, para os que cortam as unhas às terças, para os que nunca completaram um álbum da Copa. Toca violão? Se sim ou se não, rejeitado. Sai quem tem cão, quem caça com gato, quem pisa na grama, quem puxa a coberta e quem deixa sempre um pingo caindo na pia. Economia é questão de ecologia!

Você é mal amado? Um passo pro lado. Você já colou com tenaz? Um passo pra trás. Já viu um defunto? Vai junto.

Quem já fingiu gagueira, já pregou tira de chinelo, inventou dor de barriga pra matar aula e plantou bananeira, não se aproxime. Quem dá duas voltas na chave pra trancar a porta, quem dirige carro branco, quem odeia azeitona, quem gosta de Alfred – seja Marshall, Hitchcock ou o mordomo do Batman -, quem buzina pra avisar que chegou, quem adoça o chá com açúcar, quem aperta a mão antes dos três beijinhos, adeus, saiam de fininho!

Aos que nunca acamparam, aos piratas, corsários, marujos de todo o gênero, aos hipocondríacos, tatuados, mórmons, esgrimistas, patriotas, melódicos, românticos, macrobióticos, pigmeus, alienados, avarentos, sarados, pessimistas, velejadores, perfumados, aos que são de escorpião, meus cordiais adeus.



Não quero nenhum claustrofóbico por perto. Fiquem afastados os que sofrem de asma. Os que têm bronquite também.



Hoje acordei de portas fechadas.

Não estou pra ninguém!

Pérolas do MELHOR ALMOÇO DA SEMANA:

- Quando eu vou fazer as coisas bonitinhas, certinhas, como manda o figurino, daí é que entro pelo cano!
- Quando tu faz tudo errado também...
- É, mas pelo menos me divirto!

***

- Existe estado civil embananada?

***

- Não pode ficar dando luz pra cego.

***

- Queria mais sobremesa...
- Por que não pega?
- Porque acabou a que eu gostei... BUÁÁÁ!
- Que foi?!
- SEMPRE que eu gosto, acaba!!!!!!!!!!

(todos riram, menos eu)

***

- Então tá... bom rever os amigos e saber que tudo segue igual. Eu casado, ela nos dilemas e tu...
-Eu tô bem!!!
- Bem gordo!

(todos riram, menos o gordo)
 
***
 
- A suspeita é o veneno da amizade.
- Todosmorre!
 
***
 
- Sabia que a girafa é muda?
- Posso casar com uma?
 
***
 
- Vou comprar doce só de raiva.
- Só de gula.
- Só de gorda.
- Não... só de nozes!
 
(como não tinha, comprei quindim e doce de amendoím!)
 
 
***
 
- E se estragar a amizade?
- Tu conserta!
- Ou chama o Pereirão.
 
***
 
UM BRINDE PRA QUEM INVENTOU A AMIZADE!
 
 
 
 
TRILHA SONORA
 
Solidão é lava



Que cobre tudo


Amargura em minha boca


Sorri seus dentes de chumbo...






Solidão, palavra


Cavada no coração


Resignado e mudo


No compasso da desilusão...






Viu!


Desilusão, desilusão


Danço eu, dança você


Na dança da solidão...






Camélia ficou viúva,


Joana se apaixonou,


Maria tentou a morte,


Por causa do seu amor...






Meu pai sempre me dizia:


Meu filho tome cuidado,


Quando eu penso no futuro,


Não esqueço o meu passado


Oh!...






Desilusão, desilusão


Danço eu, dança você


Na dança da solidão


Viu!


Desilusão, desilusão


Danço eu, dança você


Na dança da solidão...






Quando vem a madrugada


Meu pensamento vagueia


Corro os dedos na viola


Contemplando a lua cheia...






Apesar de tudo existe


Uma fonte de água pura


Quem beber daquela água


Não terá mais amargura


Oh!...






Desilusão, desilusão


Danço eu, dança você


Na dança da solidão


Viu!


Desilusão, desilusão


Danço eu, dança você


Na dança da solidão...






Danço eu, dança você


Na dança da solidão...






Desilusão! Oh! Oh! Oh!..

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

pólen do riso

Costumo me abandonar às vezes, apenas para não me esgotar. Não uso até o fim todas de mim. Vivo e morro muitas vezes, até num mesmo dia. Posso cansar de tudo, jamais suportaria meu próprio tédio. Por falar em tédio, este é um senhor de quem esqueci o cartão de visitas no fundo de alguma gaveta. Dificilmente lembro-me de vivê-lo. Tenho muito riso para dar.



Eu me agrado fácil. Hoje ri porque uma flor pousou no meu ombro enquanto eu revirava a bolsa atrás da chave do carro. Uma florzinha branca, dessas sem vaidade, que já nascem com a beleza que precisam. Veio e se sentou, como um papagaio. Encarei com dúvida até me convencer do que era. Ela me encarou com pólen.



Olhei em volta para procurar a mãe da flor, a árvore mora quase na outra esquina. Com a ajuda do vento e um pouco de sorte, unimos nossos destinos. Deus existe nesses momentos. Não é na súplica, na raiva ou na devoção, Deus existe em tudo que nos toca. Sorrir é simples e divino. Às vezes tudo que a outra pessoa precisa é de um sorriso. É mais contagiante que bocejar. Ao sorrir emprestamos alegria aos olhos, que por alguma ligação que a fisiologia não explica – ou explica e eu não sei – leva para o coração. A sensação é de conforto. É a minha carta na manga para espalhar amor.



Vivo muitas em mim, criando intimidade. Ser estranha à própria vida seria egoísmo. Permito-me repetir. Permito a reinvenção e as reformas. Isso multiplica as minhas chances de felicidade. Fico perdida em mim mais pelas surpresas da procura do que pela redenção do encontro. Não nasci para ser sempre a mesma. Não acredito em caminho de linha reta. Qualquer olhar perdido me seduz, vira farol.



Evito me explicar demais, eu sei que os meus porquês confundem. Apenas sou. Oferecer a mão, ceder um sorriso para alguém ou o ombro para uma flor é questão de sensibilidade, não de explicação. É espalhar o meu pólen no dia alheio. É multiplicar a minha vida em outras vidas.

Dia Especial


Cidadão Quem



Se alguém

Já lhe deu a mão

E não pediu mais nada em troca

Pense bem, pois é um dia especial

Eu sei

Que não é sempre

Que a gente encontra alguém

Que faça bem

E nos leve desse temporal

O amor é maior que tudo

Do que todos até a dor

Se vai

Quando o olhar é natural

Sonhei que as pessoas eram boas

Em um mundo de amor

Acordei nesse mundo marginal



Mas te vejo e sinto

O brilho desse olhar

Que me acalma

Me traz força pra encarar tudo

Mas te vejo e sinto

O brilho desse olhar

Que me acalma

Me traz força pra encarar tudo

O amor é maior que tudo

Do que todos, até a dor

Se vai quando o olhar é natural

Sonhei que as pessoas eram boas

Em um mundo de amor

E acordei, na terceira Guerra Mundial.



Mas te vejo e sinto

O brilho desse olhar

Que me acalma

Me traz força pra encarar tudo

Mas te vejo e sinto

O brilho desse olhar

Que me acalma

Me traz força pra encarar tudo...



Mas te vejo e sinto

O brilho desse olhar

Que me acalma

Me traz força pra encarar tudo

Mas te vejo e sinto

O brilho desse olhar

Que me acalma

Me traz força pra encarar tudo!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

um medo de dar medo

(mais um da série contículos)



Chamava-se Francisca. Não uma Francisca Chica, essa não tinha alcunha. Francisca e ponto, gostava do nome. Era alta suficiente para alcançar suas coisas ficando na ponta dos pés, mas gostava de usar mochinhos. Falava muito, pelos cotovelos, pelos dedos. Quando parecia silenciar, falava com os olhos, os cílios faziam mímica, as pálpebras tagarelavam. Mesmo muda ela era ensurdecedora. Perguntava coisas estranhas. Contava a vida  



Numa tarde, sentada num banco, soprava plumas de um dente de leão que apareceu antes do tempo. Enquanto os pés inquietos pinicavam o chão, passou espirrando um Gustavo de muitos apelidos. Tantos apelidos quanto alergias. A primavera é uma estação linda e impiedosa.



- Olha, ficou careca! – Francisca mostrou a semente desplumada.



Gustavo riu sem mostrar os dentes, fungou um cheiro sério.



- Calma, a primavera já vai acabar. Se bem que o início do verão também pode ser um problema pra ti. Sabia que essas sementes com pluminha só aparecem no verão? Esta veio antes do tempo!



Ele permaneceu imóvel e calado observando, tempo suficiente para que ela notasse que ele amarrava os tênis com tope, usava as meias simetricamente na mesma altura das canelas e o cabelo bem escovado.



- É a primeira vez que te vejo por aqui.

- Não saio muito de casa. Tu sempre vens aqui?

- Todos os dias! Aqui é a continuação do quintal da minha casa... porém, com mais pássaros.



Francisca tentou ajeitar a trança feita pela manhã. O cabelo não veria pente pelo resto do dia. As meias estavam desengonçadas, os tênis amarelados. Os cadarços receberam tope uma vez só na vida. Jamais serão desfeitos ou feitos. Francisca não perde tempo com pequenezas. Prefere dar laço nas pessoas.



Francisca olhou de novo. Se o amor acontece em algum momento, foi naquele. Ela percebeu que ele tinha o brilho da lua nos olhos. Ele era concentrado em timidez.



Nas outras vezes que conversavam, ela percebeu que ele tentava aprisionar o riso. Quando a gargalhada fugia, tentava capturá-la de volta. Ele gostava dela, guardava isso como se pecado fosse. Ela sabia e fingia que não.



Numa das tagarelices dela, durante os encontros casuais, ele falou que ela era um problema. Francisca não se ofendeu. Na verdade, não entendeu muito bem, teve preguiça de perguntar, ele também não falaria. Ele tremia, ela percebia. Gustavo, todo engomadinho, morria de medo de qualquer coisa, inclusive de chegar muito perto de Francisca. Ela tinha medo de dar (mais) medo nele. Assim, nenhum dos dois fazia nada, o que não era o normal da elétrica Francisca, com suas faíscas desordenadas.



Ele nunca a convidou pra dividir um sorvete.



Ela fez uma casa na árvore.



Quando ele passava, ela, do alto repetia para se convencer:



- Melhor bem te ver com os bem-te-vis.

Nunca foi fácil ter seis anos.

Minha amiga Zabeti disse que minha mãe podia me levar pro PLAY. hahahaha
I looooove you, Fox!

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Apenas para reiterar que eu sou muito favorável às causas das pessoas-problemas! Voto para que todo mundo tenha na vida uma encrenca das boas. Tanto que óóó http://louheine.blogspot.com/2011/06/oculos-para-ver-encrenca.html


Sem mais!

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Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo, que medo


É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo tanto


E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo


É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo tanto


Eu já nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando em cada riso teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira


Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo tanto