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Mostrando postagens de 2012

feliz ano novo

A minha casa é cheia de lembranças. Mantém respirando uma porção de passado: a garrafa de cachaça comprada no restaurante feito de osso de baleia, uma foto minha banguela, xícaras que alguém ganhou num bingo, bolachas de cerveja furtadas de viagens, cafeteira com cicatriz, lanterna de barro, boia de navio, talheres de peixe que usávamos nos acampamentos. Casa de praia tem que ter história para contar porque as noites são mais falastronas. Acordo tentando escutar barulho de cigarras, uma vez alguém me disse que era indício de sol e calor. Depois tento escutar o barulho do mar dando bom dia. Onda que quebra na areia é beijo repetido. O mar é fiel ao seu contorno. Não abandona o hábito de esticar a espuma e recolher para repetir eternamente a carícia. E desses momentos guardados, cortados e retalhados é que a vida se faz. Como uma música é o conjunto de notas, como as estrelas desenham a constelação.
Todo ano que termina deixa costurado na vida mais um pouco da história.
O ano que chega …

simpatia para parar de chover

Só para seguir a tradição, chove. Nos primeiros dias das minhas férias na praia é sempre o que acontece. O primeiro dia geralmente tem um sol sedutor, um calor de matar, mar lindo. Depois chove. Eu gosto de chuva. Mesmo na praia, mesmo de férias. Mas também gosto de aproveitar o mar, a areia, gosto de caminhar, de tostar no sol e ficar enfarofada junto com o meu filho, usar chinelos em vez de galochas.
Por isso aprendi várias simpatias!
Sueli, que trabalha na minha casa desde a pedra fundamental, disse que se deve jogar um punhado de sabão em pó no telhado. Pedir para Santa Luzia limpar o tempo. Já fiz isso. Considerando o preço do sabão em pó, gostaria de saber se a santa poderia limpar o tempo com sabão em barra. Sem falar que no ano passado sofri um pequeno acidente Bem na horinha que fui jogar o sabão, bateu um vento que trouxe todo o pozinho azul direto para o meu rosto. Nunca tive olhos e boca mais brancos! Sem manchas desde a primeira lavagem.
A avó do meu amigo Felipe, Dona Sa…

fome

Conheço cheiros e gostos daquilo que eu amo. Identifico os contornos, sigo as linhas com os olhos para desenhar depois. Exploro meu amor em todos os cantos, elejo as curvas prediletas. Escolho as palavras que serão favoritas. Lábios, cílios, língua.
Agrada-me o gosto do sol, a lembrança do primeiro verão juntos. Há mais intimidade entre as peles nessa estação. A carícia acontece sem querer quando um braço encosta no outro ou as pernas atritam por baixo da mesa. Os dedos deslizam nas outras mãos, subindo os braços, passando os ombros contornando o corpo até que um ajuste simétrico aconteça no abraço. Então ele me diz que não sabe por onde começar.
Eu sinto fome desta indecisão. Eu sinto fome das horas que acordo e fico na cama para sentir o cheiro da nuca, o macio da pela, os laços dos pés. Eu sinto fome da toalha esquecida na hora do banho, das reclamações de exagero no café da manhã, de escutar o meu nome lá do outro lado da casa apenas para que eu responda “o quê”.
Agrada-me devorar …

chuva em san telmo

Prometi escrever de verdade sobre para onde vão os guarda-chuvas. Bom, na verdade nem tem muito mistério, a minha ideia é bem simples, quase óbvia. Guarda-chuva é uma coisa que todo mundo perde e ninguém acha. Grampo de cabelo é uma coisa que todo mundo acha o tempo inteiro, mesmo que não perca. Que nem clipes de papel. A minha teoria é que existe um tiozinho que passa recolhendo guarda-chuvas esquecidos pelo mundo, leva para uma fábrica secreta, transforma em clipes ou grampos, depois distribui por aí. Tudo se transforma. Fim. Agora que eu já expliquei para onde vão os guarda-chuvas – nunca mais usarei um grampo para prender a franja sem pensar nisso – vamos ao que interessa.
Não tenho muitas lembranças boas envolvendo guarda-chuva. Tenho sim envolvendo a falta dele. Eu gosto de chuva, já contei da mania que ela tem de chover em mim. Não reclamo, nem quando fico ensopada.
Quando chegamos a Buenos Aires, na viagem que fizemos em maio, fomos almoçar em um restaurante lindo de San Telmo…

lado errado

É sabido por toda a população mundial que eu tenho problema com comandos de direita e esquerda. Já inventei as maiores desculpas do mundo: não me ensinaram na escola, sou canhota, sou ambidestra, tanto faz, no meu mundo a direita é pra cá, o quê? Tudo. Meu namorado percebeu da primeira vez que dirigi com ele do lado. Adotou a tática de falar em inglês, turn left, turn right. Por algum motivo, funciona.
Chegamos na nossa rua em Nova Iorque pela Segunda Avenida. Pegamos um táxi no aeroporto porque estávamos com pressa. Milhas ou quilômetros demoram demais quando precisamos matar a saudade. Dividimos o banco de trás, os fones e os abraços. O apartamento ficava na Rua 84. Ou seja, chegamos pela esquerda do prédio. Porém, a vida em Nova Iorque abria as portas para nós pela direita.
Já explico.
Saindo do nosso prédio, dobrando à direita, a rua acabava no Central Park, passando pela Lexton, onde tem a estação do metrô na esquina da 86. Daí a gente ganhava a cidade. Eu sempre saía do prédio e…

mil anos

A insônia me rende longos períodos de silêncio. Finjo que estou dormindo. Tento convencer o sono a voltar. Não adianta. Acordei às três da manhã. Três horas e meia antes do horário que programei o despertador.
Depois de ter a certeza que não voltaria a dormir, revirei as gavetas da cabeça atrás de alguma coisa que ocupasse o pensamento. Bélgica. Foi nisso que eu pensei. Porque quero comer chocolate belga direto da fonte. Não direto do mercado. De preferência sentada na frente do Leão de Waterloo, depois de subir os duzentos e tantos degraus, teorizando sobre por que Napoleão perdeu a guerra. É uma coisa que eu queria fazer antes de morrer. Assim como também queria comer de novo as maçãs de Fraiburgo, em Santa Catarina. Direto do pé.
Por falar em pé, queria andar a pé por toda Paris. E queria usar chapéu. Fazer careta para todos os doces com manteiga. Também queria perder o medo de montar. Na verdade, não é medo, tenho um pouco de dó do bicho. Queria que o cavalo me convencesse que eu …

estequiometria

Prova de química. Nem barata, nem abismo, nem escuro, fantasma, zumbi, homem do saco ou ambrosia. Eu tenho medo de prova de química. É meu pior pesadelo. Ainda acordo apavorada no meio da noite porque não sei cálculo estequiométrico. Era o meu pânico na adolescência. Fazia-me pensar que se Lavoisier e Proust não tiveram uma péssima morte, mereciam ter. Lenta e dolorosa, como eram os meus domingos antes das provas. Aliás, deve haver uma explicação sobre por que as aulas de química sempre eram nos primeiros períodos de segunda-feira.

Cálculo estequiométrico foi a experiência mais próxima de tortura que eu já tive. No segundo grau uma adolescente tem um mundo para explorar. Vive a experiência de poder voltar para casa depois da meia-noite, de comer sorvete, chocolate e paçoca misturados sem contar as treze mil e quinhentas calorias que têm no pote. Uma adolescente de quinze anos descobre que moletom e tênis é traje adequado para qualquer ocasião, que meninos não são inimigos mortais, que…

escada

O impulso de viver traz junto o medo da morte. Nossas evoluções acontecem assim, através do desejo e do medo. São as duas faces da mesma moeda. Um desejo realizado, um medo de perder. Um medo concretizado, um desejo de salvação. Esta é a ideia freudiana do jogo de Eros e Tânatos, impulsos de vida e morte, que leva as pessoas à evolução, que seria uma espécie de subida de escada em busca de uma perfeição, geralmente atribuída a Deus.
Talvez essa ideia tenha sido gerada pela passagem bíblica do antigo testamento, onde Jacó sonha com uma escada ligando a terra e o céu. Lá em cima, Deus. Nos degraus, subindo e descendo, os anjos mensageiros. A escada se transforma, assim, em um canal direto entre o humano e o divino. Subir a escadaria, evoluir, desejar, vencer o medo, tudo para que o ser humano esteja mais perto de Deus.
Este ano, quando fui para Buenos Aires, fotografei várias janelas interessantes. Lindas. Sempre tive adoração, já comentei isso outras vezes. Tenho uma coleção bem gordin…

para onde vão os guarda-chuvas?

Ele sempre soube. Acredito em amores imediatos, acredito em quem ama antes mesmo de perceber que ama. Ele conta que sabia antes que eu soubesse. Na primeira vez que pôde, me apontou equívocos. Corrigiu a direção para onde apontava o meu nariz, me beijou sem permissão. Eu gostei. Concordou que ser livre é diferente de não ter alguém, mas que é escolher ao lado de quem estar. Então eu soube de verdade. 
Jura que já sabia do nosso destino quando me viu em uma foto. Eu juro que acredito. Às vezes ele é mago, vidente, adivinho.
Ele me disse que queria estar comigo. Eu sorri da cozinha até a sala, em todos os degraus da escada. Havia muita luz na noite. A chuva espiava pela janela, curiosa com os assuntos que ocupavam o sofá inteiro. A mão dele grampeou a minha. Nasceram hábitos ali. Ele me cheira ainda igual. Percorre do meu braço ao pescoço com fungadas e suspiros, murmurando palavras que eu nunca entendo o que são. Mas são de amor.
O amor não precisa falar claro, faz assim de propósito pa…