sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

amor (d)esperto


Amor quando morre não tem velório. Vira fantasma ou é enterrado como indigente. Não fazem necropsia, os atestados de óbito são múltiplos, cada qual com a sua versão. Faz-se inventário das culpas, partilha das acusações. Amor morre quieto. Morre de sufoco. Morre de preguiça.

Critico as pessoas que compram relacionamentos nas prateleiras dos supermercados. Escolhendo embalagens, analisando rótulos e quantidade de carboidrato. Esquecem de verificar a validade. Isso é perecível.

Amor não é assim. Isso não é relacionamento. Não pra mim. Ou pelo menos não me serve. É pequeno demais. Aperta e eu não consigo respirar. Só respiro por paixão, só suspiro por paixão. Não coloco os pés pra fora da cama se não for por isso. Preciso de amor todos os dias e isso pede certos cuidados. Amar não é esperar que o amor se mantenha, é fazer com que ele aconteça. Serve para casais, amigos, famílias. O cultivo é em tempo integral.

Esperamos para amar e esperamos que o amor se mantenha pelo simples fato de ser amor. E ele é bem menos cor de rosa do que isso. Ele pode ser mais feio. Amar é verbo de atitude, exige inteligência para observar e não ser negligente. Não há espaço para a preguiça. O romance exige mudança conjunta. E não venha me dizer que jamais mudará. Quando vê já mudou. Sem querer, sem que peça. Se tudo muda por que não mudariam os relacionamentos? As pessoas jamais são as mesmas. As máscaras não caem, nós criamos calos na cara, ficam ali bem onde a gente apanhou. Diante do espelho, negamos. Maquiamos as marcas, mas não terminamos com elas. Uma hora elas voltam.

Amar é exercício.
Alongue.

Relacionamentos são menos complicados do que parecem. Amor e disposição enlaçam as mãos por cima da mesa da rotina. Café da manhã, almoço, janta. Cotidiano com criatividade. O amor quer o cuidado de ser beijado todos os dias, despedidas longas no portão, ainda que se volte em dez minutos. Só foi comprar pão? Sinta saudade. Volte e beije mais. Acaricie, fale, pinte, borde, dance. Mostre satisfação. Use as pequenas diferenças para descobrir o que é igual. Manter um amor requer inteligência.

Surpreenda os motivos.
Invente motivos.
Doe motivos, dê. Venda. Troque. Esqueça todos.
Tenha motivos para querer ficar.
Desenhe um novo caminho todos os dias para voltar.

Explore todos que te habitam, abra o leque das personalidades. Descubra todos os outros que moram no outro. Acompanhe. Se estiverem correndo enquanto você caminha, acompanhe com os olhos. Observar é engolir com os olhos. É digerir as impressões, saborear as necessidades. Não dá pra ter preguiça no amor. Pode ter preguiça num domingo, daqueles de não sair da cama nem para buscar o jornal, de fechar as cortinas e ignorar a existência de um mundo fora das quatro paredes. Fazer dia no quarto. E noite, com lua e estrela à vontade. Fazer de qualquer lugar o melhor lugar. Conversar amenidades. Encher uma banheira de assuntos que nunca se esvaziam. Sem espuma, com espumante. É apressar o relógio, contar dias. É brincadeira boba para mandar mensagens o dia inteiro. A diversão é testemunha. Brisa leve nos cabelos.

Amar é agradar para não pedir desculpas.

Rir junto, nada mais íntimo. 


 Não estou inteira. É de propósito, só que ao contrário. 




Here Comes The Sun

Here comes the sun
Here comes the sun
And I say
It's all right

Little darling
It's been a long cold lonely winter
Little darling
It feels like years since it's been here
Here comes the sun
Here comes the sun
And I say
It's all right

Little darling
The smiles returning to the faces
Little darling
It seems like years since it's been here
Here comes the sun
Here comes the sun
And I say
It's all right

Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...

Little darling
I feel that ice is slowly melting
Little darling
It seems like years since it's been clear
Here comes the sun
Here comes the sun
And I say
It's all right
Here comes the sun
Here comes the sun
It's all right
It's all right

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

livre pra ficar

Aprendi a costurar pelas mãos de pétalas da minha avó. Ela me ensinou que não se dá nó antes do início dos pontos e que não se usa linha de preguiçosa – aquela comprida. Ensinou que mais vale um bom arremate do que quinhentos nós.

Faço tudo que não pode: dou nó no início porque minhas linhas são fujonas, corto linha grande porque tenho preguiça da economia e meus arremates são cachos de nós. As costuras funcionam bem. Talvez, esteticamente falando, não sejam lindas como as da minha avó, porém, nunca me deixaram na mão. E também ninguém nunca pediu pra ver o avesso dos meus vestidos, a prega dos meus botões ou as minhas bainhas.

Sou moça prendada. Pero no mucho.

Ajusto do meu jeito porque me importa o resultado. A tragédia interna é meu estilo alternativo. Se todo avesso fosse perfeito, seria outro direito. Sem falar que a beleza ocultar um caos fica até poético. Claro, minha avó reprova todos os meus argumentos.

Descobri que tenho um jeitinho todo meu pra conseguir meus resultados. Eu tenho condutas que são próprias da minha personalidade e não posso impor isso a ninguém. Se os meus avessos não são perfeitos, posso aceitar avessos imperfeitos dos outros também. O meu jeito não pode servir de projeção para julgar o outro, não é certo ou errado. É só meu. Mas eu nem sempre percebo isso com a mesma facilidade que diminuo dois dedos do busto dos vestidos.

A fita métrica não mede atitudes.

Aprendi que as minhas hipóteses não podem ser impostas, mas que eu tenho o dever de agir de acordo com o que eu acredito. Descobri que atitudes nobres, ainda que tortas, me enchem de orgulho. Lá se vão mais alguns risquinhos na parede...

Assumi que eu quero arriscar. Não posso dizer que amo vento e prender os cabelos quando ele sopra.

Eu quero exatamente aquilo no que eu acredito, ainda que não exista, ainda que eu precise inventar. Há pessoas que preferem olhar a paisagem. Há pessoas que preferem entender por que existe aquela paisagem.

Eu sou do tipo que desenha a paisagem, que coloca a cor que falta, pinto com os dedos e limpo as mãos no vestido. A paisagem está em mim, ainda que não faça sentido, ainda que não tenha forma. Ainda que seja abstrato. Nada é mais abstrato que o amor.

Pensando sobre isso, fiquei feliz. Pensando sobre isso, fiquei tranquila. Eu quis em fugir e resolvi ficar. A minha alma fez troça dos soluços da sorte.

Liberdade é poder ficar.

Tem assuntos que parecem que só terão ponto final num sumiço. Não vou evaporar agora. Alguém abriu a porta e entrou. A presença não me incomoda, não quero mandar embora, também não quero sair. Somos cúmplices de noites não dormidas, das janelas abertas pra ver o céu mudar de cor, das espiadas por trás do muro e dos fingimentos nas calçadas.

Cúmplices da impaciência pela porta que não abre.

Quero ficar e dividir histórias, pasta de dente e o lado da cama que eu não uso. Ando gostando até das ameaças. Eu sou avalista de promessas.


(foto by Emmanuel Denaui - @edenaui)

Lembrei de uma passagem do Shakespeare, acho que em Otelo, em que ele diz mais ou menos assim: quem ri do ladrão, poderá roubá-lo. Quem chora é ladrão de si mesmo.

Tudo isso porque algumas situações exigem bom humo e atitude em vez de lamentos. No caminho tem um muro, há quem lamente.

 Eu pulo.


(I Wish I Knew How It Would Feel To Be) Free/One

Lighthouse Family

I wish I knew how it would feel to be free
I wish I could break all the chains holding me
I wish I could say all the things that I should say
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear

I wish I could share
All the love that's in my heart
Remove all the bars that keep us apart
And I wish you could know how it feels to be me
Then you'd see and agree that every man should be free

I wish I could be like a bird in the sky
How sweet it would be if I found I could fly
Well I'd soar to the sun and look down to the sea
And I'd sing 'cos I know how it feels to be free

I wish I knew how it feels to be free
I wish I could break all the chains holding me
And I wish I could say all the things that I wanna say

Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear

One love one blood
One life you've got to do what you should
One life with each other
Sisters, brothers

One life but we're not the same
We got to carry each other
Carry each other
Whoah Whoah Whoah Whoah Whoah ...

I wish I knew how it would feel to be free
I wish I knew how it would feel to be free


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

pingos


Não é a primeira vez que vou dizer isso: adoro chuva. Gosto quando chove em mim sem querer, quando me pega de surpresa, quando cai mais intensa no momento que estou mais desprotegida. É o tipo de carinho que se tem sem esperar. O cabelo molha, a roupa encharca, os pés fazem barulho pra caminhar, não interessa. A alma fica limpinha. A gota que escorre fria pela pele quente faz cócega suave. Preocupo-me pouco com o que vem depois, posso até mudar o rumo.

Chuva molha o pensamento, hidrata ideias, faz crescer. Canta barulho sem ensaio, pingos se conhecem ao cair, juntam-se no mesmo instante que se desfazem. Mais de um vira unidade. Todos juntos, umidade. São estranhos paralelos descendo juntos pelo vidro, como quem caminha na mesma rua sem se conhecer. E acabam juntos dividindo a mesma poça. Ou a mesma taça.

Chover é ousadia. Chover é ter liberdade para escolher quando se derramar. Às vezes, eu chovo dilúvios. Às vezes, eu apenas chuvisco. Há também dias que faço um sol insuportável. Se eu fico nublada, varro as nuvens, não sei ficar imóvel com indecisão. Mas varro as nuvens pra dentro de casa, esperando que chova. Ou chove, ou faz sol.

Assim como os pingos fazem a chuva, muitas vezes uma pluralidade de mim me faz inteira. Eu sou feita de mim mesma.

Existe em mim alguém que não se contenta, mas ri pelo desafio. Existe alguém que quer acelerar sem parar mesmo quando vê o muro na frente, mesmo que as placas mandem parar, mesmo que os radares de confusão apliquem as multas da desordem. Existe alguém que procura sem parar e alguém que se satisfaz com o que já encontrou. Alguém inquieta e tranquila. Existe uma medrosa e uma guerreira de um escudo em cada mão. Alguém que usa armadura, que mora no umbigo e ao mesmo tempo faz a cama na varanda. Que gosta de casa e vive por aí. Existe alguém que perde o rumo para poder voltar. Existe uma eu que não se entrega fácil e outra que confia de olhos fechados. Que deixa a janela aberta e duvida do amor. Eu juro para me trair. Trapaceio e aviso. Finjo verdades e invento o que falta com convicção. Eu corro para que não me alcancem. Eu corro querendo que me parem. Vou embora sem dar tchau. Fujo quando não tenho pra onde ir. Tenho medo de altura e vivo sentada nas nuvens. Quando vejo, já voei. Quando vejo, já caí. As minhas asas têm poeira.

Não confesso ao padre o que ouvem os travesseiros.

Ignoro as sensações de frio ou calor. Tanto faz. Arrepio de não frio, tão melhor. De aspereza delicada abraçando quadril. Horizonte humano em noite de lua. Rio, estrelas, cidade como testemunhas mudas. Poças espalhadas para serem saltadas de maneira aleatória.

Eu ando chovendo até a última gota. Transbordo, alago, inundo. Nunca coube muito bem em mim.

Às vezes, só a chuva mostra o real estrago da seca. 





eu sou o cavalo que não anda em "L". 




Bouleverd of broken dreams - GREEN DAY




I walk a lonely road
The only one that I have ever known
Don't know where it goes
But it's home to me and I walk alone
I walk this empty street
On the Boulevard of broken dreams
Where the city sleeps
And I'm the only one and I walk alone
I walk alone
I walk alone
I walk alone
I walk a...
My shadow's the only one that walks beside me
My shallow heart's the only thing that's beating
Sometimes I wish someone out there will find me
'til then I walk alone
Ahh Ahh Ahh Ahhh
Ahh Ahh Ahh Ahhh...
I'm walking down the line
That divides me somewhere in my mind
On the borderline of the edge
And where I walk alone
Read between the lines of what's
Fucked up and everything's all right
Check my vital signs to know I'm still alive
And I walk alone
I walk alone
I walk alone
I walk alone
I walk a...
My shadow's the only one that walks beside me
My shallow heart's the only thing that's beating
Sometimes I wish someone out there will find me
'Til then I'll walk alone
Ah-Ah Ah-Ah Ah-Ah Ahhh
Ah-Ah Ah-Ah I walk alone, I walk a...
I walk this empty street
On the Boulevard of broken dreams
When the city sleeps
And I'm the only one and I walk a..
My shadow's the only one that walks beside me
My shallow heart's the only thing that's beating
Sometimes I wish someone out there will find me
'til then I walk alone!



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

oral b


Coleciono desastres. É sério. Eu sou um desastre pra um montão de coisas: dançar junto, fazer pudim, empinar pipa, acender lareira e fazer surpresa. Eu entrego a surpresa antes do tempo. Não sei conter a minha expectativa, apresso os resultados. Dizem que o apressado come cru, pois eu sou tão apressada que sirvo cru pro outro comer. Não sei comprar presente antes e esperar pra dar. Preciso esconder o pacote. Esconder de mim, claro. Dou bandeira. Pergunto se prefere verde ou azul, sendo que eu já comprei verde mesmo. Fico medindo a pessoa pra ver se vai servir. Não sei brincar de quente e frio, já vou apontando logo: aqui é a Sibéria, pra lá é o Caribe.

Há anos minha irmã organizava as festas surpresa de aniversário pra mim. Cabia a mim exercitar a paciência, enrolando as horas pra chegar em casa a tempo de fingir que não sabia de nada, vendo os balões e o bolo. Hoje ela organiza a própria festa e eu a surpreendo invadindo. A data dos nossos aniversários tem diferença de uma semana, ela faz dia 18, eu dia 25 de janeiro. É um jeito de economizar os parentes. Já que estão ali, aceito parabéns – e presentes – antes de completar mais uma primavera. Aliás, nunca entendi por que dizem isso. Mais uma primavera. Janeiro é verão, bem verão. Completo mais uma de todas as estações.

Além da minha irmã, quem gosta de me fazer surpresas é o destino. Sim, acredito em destino, mas não esse que está escrito e assim será. Não. Acredito em ação e reação, num universo cheio de energias que vão confabulando para construir tudo que acontece. A gente ajuda. E também atrapalha. Cada um tem na ponta do nariz o condão de direcionar pra onde vai. O que vem depois é reação da escolha. Inclusive as coincidências.

Coincidências são improvisos do destino. Umas brincadeiras de última hora, uns desaforos interessantes, sei lá. Mas olha que interessante, são justamente as coincidências que aproximam as pessoas. Por exemplo, Abrahan Lincoln e John Kennedy.  Os dois foram assassinados, o primeiro na sala Ford do Teatro Kennedy. O segundo num carro Ford, modelo Lincoln. Mais que isso, uma semana antes da morte, Lincoln estava em Monroe, Maryland. Kennedy, uma semana antes da morte estava em Monroe, Marilyn (não preciso explicar, né?). Essas são as curiosidades que eu lembro, mas eram várias que aproximam os dois.

Por muitas felizes coincidências, pessoas cruzam o nosso caminho. Por um momentinho ou por uma eternidade, dividem o mesmo destino. Pensar nisso dá um nó na lógica, mas ao mesmo tempo coloca umas pecinhas no quebra-cabeça que é estar vivo. As coincidências exigem atenção, são detalhes. 


O destino não deixa bilhete na geladeira. Ele deixa vai escrever na sopa de letrinhas. Ou você está atento, ou come o recado.

Então acontecem as surpresas.

Os quartos são separados por pedras irregulares, pra cá da rua, par. Pra lá da rua, ímpar. Aliás, par ou ímpar? “O meu gato e o teu cachorro fizeram parte da mesma novela”. Já foram no mesmo show. Já dividiram o mesmo mar, a mesma areia, a mesma lua, o mesmo muro, uma garrafa de vinho tinto e quem sabe alguns amigos.

Mas na noite que dividiram o mesmo travesseiro, enrolando os cachos entre fronhas e lençóis, a maior surpresa foi descobrir que usam a mesma escova de dente.

A dela, rosa. A dele, verde. 











Eis um típico aniversário invadido por mim. Sou usurpadora de parabéns.








Não tem música. Tem Drummond.

Reverência ao destino


Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

não resolvido


Eu disse que não vou. Instantes depois, já estou voltando. Pratico boicotes contra as minhas resoluções, pratico auto-desobediência. Tentei elaborar uma série de promessas de ano novo. Tudo que eu consegui foi encontrar motivos pra não cumprir nenhuma. E antes da meia-noite. Antes do brinde que acompanha desejos ao pé do ouvido entre abraços fraternos. As estrelas não testemunharam porque a noite era nublada. Tentei pendurar no nada as minhas decisões e o nada, com a umidade da noite, borrou a letra imaginária da minha lista inexistente.

Sou do tipo das inresoluções. Em vez de resolver errar menos. Resolvo escolher o erro. Errar bem feito. Mas não vou fazer. Sou desgovernada o suficiente para atropelar até mesmo a escolha dos meus equívocos. Então, que eu possa ao menos reconhecê-los. Que me sirvam de lição.

Um dos meus maiores problemas é que sempre fiz o tema de casa. Podia até ser relapsa no comportamento. Tema de casa, independente da quantidade, estava sempre feito. Sigo assim, com os estudos, com as análises, pensando até sair fumacinha. Minha resolução de ano novo foi deixar que eu me surpreenda com o improviso. Em vez de detalhar o perfil e traçar comportamentos, aceitar que posso ter que mudar de ideia. Acho que não vai dar. É geralmente nessas situações que eu corro sem rumo. Atravesso continentes sem dar tchau, trocando o lugar da saudade.

Queria dormir mais, dormir melhor. Sinceramente, acho que não preciso. É mais um desejo para agradar alegrias alheias. Ficariam felizes de me ver mais sonolenta, aproveitando a noite na cama, dormindo. Em vez disso ando batendo os pés por aí, enroscando as mechas desalinhadas da minha franja em armação de óculos, letras, aspas, outras franjas, notas musicais, sinceridade, sentimentos e girassóis. Não preciso dormir. Sonho acordada. Dormir bem requer muito chá. Eu gosto mais de café.

Prometi ser mais empenhada em procurar os sentidos das minhas escolhas. Percebi que isso não faria o menor sentido. Desisti porque sentido é passado de verbo sentir. E este eu quero conjugar sempre na primeira pessoa do singular: eu sinto (muito).

Há uma resolução que talvez mereça meu empenho em ser cumprida: continuar sem nenhuma tatuagem na pele. Cicatrizes, sardas, arranhões, manchas são bem recebidas. Essas historinhas meio sem querer que ficam gravadas sem permissão. Às vezes somem. Minhas canelas abrigam hematomas como se fossem caixeiros viajantes, são hospedarias movimentadas. Culpa da minha agitação – com uma pitada de babaquice. Sem tatuagens, não quero expor o íntimo além da nudez. E realmente, não saberia o que tatuar. Sempre tive muitas ideias pra tatuagem. Ficavam ultrapassadas antes que escolhesse o tatuador: borboleta, dragão, frases, apelido, letra de música, estrelas, gatos, infinito, passarinhos. A mais sensata talvez tenha sido uma simples palavra: vento. Com a minha própria letra. Mas explicar o porquê já seria ficar nua além da nudez. Quem sabe outra hora.

Resolvi não ter resoluções. Vou apenas descumprindo. 


o vento e eu, história de amor. 
Devoção.




Wind Of Change

I follow the Moskva
Down to Gorky Park
Listening to the wind of change
An August summer night
Soldiers passing by
Listening to the wind of change


The world is closing in
Did you ever think?
That we could be so close, like brothers
The future's in the air
I can feel it everywhere
Blowing with the wind of change


Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away (Dream away)
In the wind of change


Walking down the street
Distant memories
Are buried in the past forever


I follow the Moskva
Down to Gorky Park
Listening to the wind of change


Take (take) me to the magic of the moment
On a glory (glory) night
Where the children of tomorrow share their dreams (Share their dreams)
With you and me (You and me)


Take (take) me to the magic of the moment
On a glory (glory) night
Where the children of tomorrow dream away (Dream away)
In the wind of change (Wind of change)


The wind of change blows straight
Into the face of time
Like a storm wind that will ring
The freedom bell for peace of mind
Let your balalaika sing
What my guitar wants to say


Take (take) me to the magic of the moment
On a glory (glory) night
Where the children of tomorrow share their dreams (Share their dreams)
With you and me (You and me)


Take (take) me to the magic of the moment
On a glory (glory) night
Where the children of tomorrow dream away (Dream away)
In the wind of change (Wind of change)




terça-feira, 3 de janeiro de 2012

quase poema de primeira pessoa


Olhos alagados em que o brilho mergulha sempre, imerso, tão dentro que é difícil saber o porquê de morar lá. Apenas mora. Fez da pálpebra cabana do riso, brilho branco, noite e dia, hora espalha na íris, hora derrama na retina. Entre ondas de vento que saem dos cílios e suspiros, peito cheio. As malas do coração estão sempre prontas, não para mudar de casa, mas para voltar pra onde quer que seja. Um peito aberto não é um peito vazio.

Passam pela nuca fios, sensos, metal, dedos, tateando com as pontas teclados que não existem mas fazem música até encontrarem as costelas justas na pele. Costuradas ali sem folga, uma a uma desenhando a sombra que as velas fazem dançar na parede. A barriga abriga trilhas, segredos, borboletas, umbigo, monstros e castelos com dragões. Desses que incomodam, acordam cedo, fazem fumaça de cetim em lençol de nevoeiro no inverno. E sentem cócegas. Esses bichos que não se pode precisar sequer a cor. Dragões são desiguais aos pares. Não encontram posição no sofá.

Já os monstros são mais dados à contemplação. Encaram o horizonte invés de atropelar. Deixam o sol plissar os cantos externos dos olhos quando se põe.

Os monstros às vezes passam uma temporada nos lugares mais altos. Habitam acima dos ombros, carregam tormentas nas mãos. Tormentas não são prisioneiras. Ficam livres porque os temporais são necessários. Tanto quanto brisas ou garoas. Não costumo combater os monstros. Nem sou favorável ao extermínio. Vou revelar um segredo: sem monstros os sonhos não existem. O que apavora aduba desejo e desejo é o combustível do sonho. Monstros desenham bem, têm as patas delicadas para os traços finos – porém firmes – que os sonhos exigem.

Da liberdade sou gaivota, prendo nas garras a areia molhada da beira da praia. Pelas pernas, amêndoa. Onde avança o silêncio, recuo em mudo vôo. As asas são folhas que abraçam quem amo como vento solto, sem rumo, passageiro. Isento das cadeias ou correntes para ondular o mar e meus cabelos da cor do fogo e do sol que dá adeus todas as tardes para invadir as janelas pela manhã, tatuando no assoalho esculturas de sombras.

O sol que sai deixa lembretes nas estrelas.

Habita aqui uma harmonia concedida por Deus. Frases feitas, notas de música para munir escudos de solidão. Corro com desculpas, as mesmas que não peço. Fujo por mania. Desafio o fôlego. Os tornozelos doem mais a cada torção. Esqueço mapas e horários, não peço instrução. Todos os oráculos são lacônicos, assim nada estará condenado ao certo.

Só pode ter certeza quem conhece a dúvida. Há dúvida que é a única certeza. Eu vivo e carrego uma coleção de "quases" nas costas.





Bliss (muse)

Everything about you is how I'd wanna be
Your freedom comes naturally
Everything about you resonates happiness
Now I won't settle for less

Give me
All the peace and joy in your mind

Everything about you pains my envying
Your soul can't hate anything
Everything about you is so easy to love
They're watching you from above

Give me
All the peace and joy in your mind
I want the peace and joy in your mind
Give me the peace and joy in your mind

Everything about you resonates happiness
Now i won't settle for less

Give me
All the peace and joy in your mind
I want the peace and joy in your mind
Give me the peace and joy in your mind