Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Janeiro, 2012

amor (d)esperto

Amor quando morre não tem velório. Vira fantasma ou é enterrado como indigente. Não fazem necropsia, os atestados de óbito são múltiplos, cada qual com a sua versão. Faz-se inventário das culpas, partilha das acusações. Amor morre quieto. Morre de sufoco. Morre de preguiça.
Critico as pessoas que compram relacionamentos nas prateleiras dos supermercados. Escolhendo embalagens, analisando rótulos e quantidade de carboidrato. Esquecem de verificar a validade. Isso é perecível.
Amor não é assim. Isso não é relacionamento. Não pra mim. Ou pelo menos não me serve. É pequeno demais. Aperta e eu não consigo respirar. Só respiro por paixão, só suspiro por paixão. Não coloco os pés pra fora da cama se não for por isso. Preciso de amor todos os dias e isso pede certos cuidados. Amar não é esperar que o amor se mantenha, é fazer com que ele aconteça. Serve para casais, amigos, famílias. O cultivo é em tempo integral.
Esperamos para amar e esperamos que o amor se mantenha pelo simples fato de ser…

livre pra ficar

Aprendi a costurar pelas mãos de pétalas da minha avó. Ela me ensinou que não se dá nó antes do início dos pontos e que não se usa linha de preguiçosa – aquela comprida. Ensinou que mais vale um bom arremate do que quinhentos nós.
Faço tudo que não pode: dou nó no início porque minhas linhas são fujonas, corto linha grande porque tenho preguiça da economia e meus arremates são cachos de nós. As costuras funcionam bem. Talvez, esteticamente falando, não sejam lindas como as da minha avó, porém, nunca me deixaram na mão. E também ninguém nunca pediu pra ver o avesso dos meus vestidos, a prega dos meus botões ou as minhas bainhas.
Sou moça prendada. Pero no mucho.
Ajusto do meu jeito porque me importa o resultado. A tragédia interna é meu estilo alternativo. Se todo avesso fosse perfeito, seria outro direito. Sem falar que a beleza ocultar um caos fica até poético. Claro, minha avó reprova todos os meus argumentos.
Descobri que tenho um jeitinho todo meu pra conseguir meus resultados. Eu …

pingos

Não é a primeira vez que vou dizer isso: adoro chuva. Gosto quando chove em mim sem querer, quando me pega de surpresa, quando cai mais intensa no momento que estou mais desprotegida. É o tipo de carinho que se tem sem esperar. O cabelo molha, a roupa encharca, os pés fazem barulho pra caminhar, não interessa. A alma fica limpinha. A gota que escorre fria pela pele quente faz cócega suave. Preocupo-me pouco com o que vem depois, posso até mudar o rumo.
Chuva molha o pensamento, hidrata ideias, faz crescer. Canta barulho sem ensaio, pingos se conhecem ao cair, juntam-se no mesmo instante que se desfazem. Mais de um vira unidade. Todos juntos, umidade. São estranhos paralelos descendo juntos pelo vidro, como quem caminha na mesma rua sem se conhecer. E acabam juntos dividindo a mesma poça. Ou a mesma taça.
Chover é ousadia. Chover é ter liberdade para escolher quando se derramar. Às vezes, eu chovo dilúvios. Às vezes, eu apenas chuvisco. Há também dias que faço um sol insuportável. Se e…

oral b

Coleciono desastres. É sério. Eu sou um desastre pra um montão de coisas: dançar junto, fazer pudim, empinar pipa, acender lareira e fazer surpresa. Eu entrego a surpresa antes do tempo. Não sei conter a minha expectativa, apresso os resultados. Dizem que o apressado come cru, pois eu sou tão apressada que sirvo cru pro outro comer. Não sei comprar presente antes e esperar pra dar. Preciso esconder o pacote. Esconder de mim, claro. Dou bandeira. Pergunto se prefere verde ou azul, sendo que eu já comprei verde mesmo. Fico medindo a pessoa pra ver se vai servir. Não sei brincar de quente e frio, já vou apontando logo: aqui é a Sibéria, pra lá é o Caribe.
Há anos minha irmã organizava as festas surpresa de aniversário pra mim. Cabia a mim exercitar a paciência, enrolando as horas pra chegar em casa a tempo de fingir que não sabia de nada, vendo os balões e o bolo. Hoje ela organiza a própria festa e eu a surpreendo invadindo. A data dos nossos aniversários tem diferença de uma semana, el…

não resolvido

Eu disse que não vou. Instantes depois, já estou voltando. Pratico boicotes contra as minhas resoluções, pratico auto-desobediência. Tentei elaborar uma série de promessas de ano novo. Tudo que eu consegui foi encontrar motivos pra não cumprir nenhuma. E antes da meia-noite. Antes do brinde que acompanha desejos ao pé do ouvido entre abraços fraternos. As estrelas não testemunharam porque a noite era nublada. Tentei pendurar no nada as minhas decisões e o nada, com a umidade da noite, borrou a letra imaginária da minha lista inexistente.
Sou do tipo das inresoluções. Em vez de resolver errar menos. Resolvo escolher o erro. Errar bem feito. Mas não vou fazer. Sou desgovernada o suficiente para atropelar até mesmo a escolha dos meus equívocos. Então, que eu possa ao menos reconhecê-los. Que me sirvam de lição.
Um dos meus maiores problemas é que sempre fiz o tema de casa. Podia até ser relapsa no comportamento. Tema de casa, independente da quantidade, estava sempre feito. Sigo assim, c…

quase poema de primeira pessoa

Olhos alagados em que o brilho mergulha sempre, imerso, tão dentro que é difícil saber o porquê de morar lá. Apenas mora. Fez da pálpebra cabana do riso, brilho branco, noite e dia, hora espalha na íris, hora derrama na retina. Entre ondas de vento que saem dos cílios e suspiros, peito cheio. As malas do coração estão sempre prontas, não para mudar de casa, mas para voltar pra onde quer que seja. Um peito aberto não é um peito vazio.
Passam pela nuca fios, sensos, metal, dedos, tateando com as pontas teclados que não existem mas fazem música até encontrarem as costelas justas na pele. Costuradas ali sem folga, uma a uma desenhando a sombra que as velas fazem dançar na parede. A barriga abriga trilhas, segredos, borboletas, umbigo, monstros e castelos com dragões. Desses que incomodam, acordam cedo, fazem fumaça de cetim em lençol de nevoeiro no inverno. E sentem cócegas. Esses bichos que não se pode precisar sequer a cor. Dragões são desiguais aos pares. Não encontram posição no sofá.