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bilhetes


Aposentei as cartas de amor por invalidez, faz tempo. Nem sei se alguma vez elas trabalharam de fato. Já escrevi, confesso, mas nunca enviei. Faz parte do meu show, dos amores platônicos que dão certo.


Cartas de amor não combinam comigo, não sei escrever tanto que não possa me contradizer antes de colar o envelope. Exigem muito assunto de um mesmo tema, pra uma mesma pessoa. Declarações de amor exausto, poema, citação, corações e borrifada de perfume. É quase obra de engenheiro, arquiteto e decorador. Carta de amor tem estética, fiapo de papel não vale. O garrancho é refeito até virar caligrafia. Sentimento orquestrado, prefiro os desregrados, de improviso. Gosto do amor que vem sem explicação, do recado de momento. Sou adepta do imediatismo sincero dos bilhetes.


Eu considero os bilhetes de amor papéis mais dignos. Umas frases, poucos pontos. Multiplicam a naturalidade do gostar, evoluem, crescem e maturam por dia. Num bilhete eu gosto, no outro declaro paixão, no outro amor eterno. Parece-me que esses soluços de papel são mais dignos. Combinam mais. Saem da caneta pro papel quase sem querer.


Gosto dos bilhetes porque são e-mails analógicos. São urgentes, têm prioridade de leitura. Aceitam guardanapo com mancha de vinho, papel riscado no verso, nota fiscal. Colam na geladeira, acampam dentro da fronha do travesseiro, são amarrados na taça do vinho “beba-me sem moderação”. Um bilhete é tão perigoso quanto eu de unhas vermelhas. Ameaçador.


Não sobra papel pra mentir, enrolar ou seduzir. É o próprio charme, a própria sedução na celulose. É a etiqueta do momento. São as instruções da noite. São o carinho do dia, o agradecimento pela felicidade do final de semana, pelo riso que sol encontrou atirado na areia. A letra tem a personalidade da hora, separadas, juntas, garrafais. É livre. Aprecio essa liberdade.


Meus bilhetes – quase – sempre foram entregues. Os que não foram lidos, foram rasgados. Prescreveram porque têm prazos contados em instantes. Passa o instante, passa o tempo, passa a temperatura do vinho gelado.


Rasgar os bilhetes não deu trabalho. Trabalho pode dar se eu precisar rasgar o que estava escrito neles – há uma diferença entre o tempo do papel e o infinito do conteúdo que a física não explica, mas a química e a biologia podem tentar. Lixo seco. Muito seco, como ficou o copo de suco que saiu do armário apenas para passear pela bandeja.


Nem deu trabalho amassar os guardanapos amarelos escritos “bom dia”.


O que deu trabalho foi apagar o batom vermelho do espelho do banheiro: “tu ficas bem mais bonito do meu lado.”


Ficou feio.
(o espelho)


Ganhei da Zá uma caixinha com papéis de recadinhos. Os papéis tão lindinhos ficam ali eufóricos, esperando pra sair. Daí aproveitei pra guardar em caixinhas mais coisas. Igualmente eufóricas. 








VAMBORA - (Adriana Calcanhoto)

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas...



(irmãozinho)

http://www.youtube.com/watch?v=pTRxq-2jrik









Comentários

Keila disse…
Texto leve que diz tudo.
Foto linda!
Adoro Tavares cantando essa música.
Z. disse…
Tu tens razão... Bilhetes de amor retratam a realidade do momento... Pensando bem, nunca escrevi cartas de amor! Tô rindo mto da lembrança da música que realmente pensaste em botar... E amei ser mencionada no post... Eu e o presente que te dei de niver... Bjsss
Anônimo disse…
Texto escrito com veludo. Estás na maturidade da escrita, bem como da vida. Transformas em doces palavras de uma leve história a ferida aberta.
Carinho, F.
Muito legal o seu texto, parabéns escreve muito bem. Até me fez lembrar da époa que escrevia cartas de amor, he,hehehe....
Carlos disse…
Kukynha, o verão te faz muito bem!!!

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