segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

a guitarra e os cegos (ou doidos)


Hoje choveu. Não uma chuva avisada, daquelas que passa o dia dizendo que uma hora vai cair e cai. O céu era azul, tinha brisa, que virou calorão. Colchas de nuvens amarrotaram o céu, deixando um cinza grosso e confuso aguar em pingos. Foi assim que choveu. Chuva sem sentido, sem pensar e sem querer. Uma chuva que se aproveitou do descuido, sorrateira e brincalhona. Caiu um montão de água. Os vidros da sacada pareciam cachoeiras. Lagos caseiros se formaram entre os vasos do jardim, as plantas dançavam com as gotas pesadas, mas estavam agradecidas. Gosto de chuva de qualquer jeito.

Choveu de improviso. Parecia uma paixão improvável. Isso que vem quando a gente nem pensa. Isso que abusa do normal, que atiça mais sentidos. Dessas que obriga a ver além dos olhos. Quando o que a gente interpreta precisa ir além do que se vê tão cru. É aquilo que a gente estaciona na frente, encara e dá uma inclinada na cabeça tentando compreender.

É se inclinar sobre o próprio eixo, buscando algo além do que o espelho pode refletir. É o que fez o Velho Guitarrista Cego, de Picasso. Pintada na fase azul, onde ele retratava solidão, exclusão, marginalização, a obra usa de pouca variação de cor, ironia do artista, ou não, o guitarrista é cego. Tanto faz ser dotado de muitas ou poucas cores. A pintura mostra um homem velho e magro, sentado de maneira esquisita, torta e desconfortável. Cego, trocando música por trocados. Um dom por moedas? Um dom por sobrevivência. Talvez algo que ele aprendeu sozinho, tirar música de cordas. Talvez a única herança de um pai com quem pouco conviveu.


(Vieux guitariste aveugle)

Quando vi essa pintura pela primeira vez fiquei intrigada com a posição da cabeça do velho. Por que inclinar assim para tocar, se quem toca não precisa ver o instrumento? E mesmo que quisesse ver algo, não poderia, ele é cego. Talvez ele seja menos cego do que muitos de nós somos. Talvez o que os olhos lhe negam seja suprido por outros sentidos. Inclinar-se sobre si não é uma atitude destinada a se contemplar, mas sim a se fechar. “Não se pode criar nada sem solidão” disse Picasso. Há quem diga que essa inclinação é uma auto-referência do artista, buscando em si inspiração. Eu penso outra coisa.

Penso que o homem feio, velho, magro, torto, cego, azul, rasgado, incômodo tem a perfeição nas mãos. A guitarra é a única coisa perfeita do quadro. É a única forma retratada como é, sem ser engolida pelos tons de azul do homem e do fundo. Sem a deformação da doença, do sofrimento, da fraqueza. O instrumento perfeito, certo, garante que ainda que não haja som, que ainda que o homem seja cego, é possível emitir a melodia mais agradável que possa existir.

O velho não se inclina pra ver. Se inclina pra contemplar a perfeição que vai além do olho. A guitarra é o centro. Fora do azul, do maltrapilho, do magro. A guitarra é a moldura, só que ao contrário. Está no centro, primeiro plano. O homem feio, maltratado e cego manuseia com cuidado e devoção.

Às veze vem parar no nosso colo uma coisa tão perfeita que nossos defeitos não conseguem estragar. Faz música, apesar de nós. Quebra com a feiúra da situação, com os tropeços dos inícios tortos. É uma paixão fora do azul. É a possibilidade de viver um amor, com todas as cordas, notas, acordes, dedilhados pelas mãos calejadas de escrever outras histórias.

E nós, como nossos defeitos, inclinamos sobre ela para contemplar. Nós, cegos por tantas coisas, usamos mais sentidos do que a visão. Nós sentimos.

Não interessa por que temos nas mãos a coisa mais perfeita que poderia acontecer. Ela está ali e a gente sabe tocar, mais que isso, estamos indo bem. Como nunca estivemos antes.

Sentir os dedos escorregando entre as cordas e ouvir o som que faz é consequencia de reconhecer e aproveitar a experiência única. Uns amores são assim, vêm mais bonitos do que o cenário. Seria injusto não tocar, render-se à triste palheta limitada de cores. Somos cegos pra fora? Vamos colorir para dentro. Deixar o coração quente, preservar o que tem para dar.

Acho que esta é a nossa música.
Acho que esta é a nossa chance.

Sejamos cegos, sejamos loucos. O amor precisa de um pouco de insanidade. 






Hoje choveu pra lavar um pouco da razão.


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Love Song - the cure
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am home again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am whole again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am young again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am fun again
However far away
I will always love you
However long I stay
I will always love you
Whatever words I say
I will always love you
I will always love you
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am free again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am clean again
However far away
I will always love you
However long I stay
I will always love you
Whatever words I say
I will always love you
I will always love you


7 comentários:

Juliane disse...

Eu demorei 3 semanas pra ler todos os seus textos, e não me arrependo de nenhuma hora gasta com eles. Você é demais Kuky.

Amanda disse...

CARALHOOO, de onde você tira isso??? MESTRA! IDOLA! Linda, inteligente e querida. Adorei te conhecer pessoalmente.

Amanda (negrinha)

Anônimo disse...

Kuky, admiro as tuas ideias, visão de amor, da vida. O que me torna não apenas um fã, sou também um torcedor apaixonado da vida que levas. És linda e a tua beleza consegue ser insignificante perto da tua essência.
Abraço, M.

Anônimo disse...

Cito, ipsis litteris, a Juliane, "devorei" o Blog! Tu escreves com a alma!
Bjo :)

Jo (GO)

Fabi disse...

Posso tirar nuvem de lágrimas do repertório? :)

Carlos disse...

Caraca Kukynha!
Dei uma olhada nos comentários...Essa tua cabecinha iluminada já ta arrastando um séquito de Fãs apaixonados!!!
LOVIÚ!!!

BETO disse...

AGORA VAI. VAI? VAI! SÓ VAI! :)