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murista


(da série dialoguinhos)




- Desce daí, guria.

- Não... quero ficar.

- Tenho medo que caia de cima desse muro e acabe se machucando.

- Já caí de nuvens mais altas que este muro. Sobrevivi. Eu sempre sobrevivo.

- O que você faz aí?

- Sabe quando a gente precisa observar alguma coisa por outro ângulo? Sabe quando é preciso ficar mais alta, parecer maior, tentar intimidar a dúvida? Sabe quando a gente precisa saber se entra ou se sai?

- Acho que sei.

- É o que eu estou fazendo aqui. Observando, pensando. Estou quieta como raramente fico. Ao mesmo tempo inquieta onde eu gosto de sossego. Não gosto de indecisão, não gosto de ter que subir neste muro, mas me colocaram antes num lugar que eu não gostei.

- Um lugar que não era teu?

- Eu pensei que fosse. Pelo menos pela manhã, eu pensei que fosse...

- Por que não é?

- Porque depois me pareceu o lugar errado. Não fui até lá seguindo a trilha do lugar errado, placa, sinalização, pedras amarelas, não me perdi por querer dessa vez. Cheguei errada no lugar certo. Só que o lugar era errado, eu acho... Ainda estou confusa, não sei explicar. Sensação de estar fazendo o que não devia.

- Eu acho que está tudo certo.

- Acha mesmo?

- Sim, se tu és a pessoa errada no lugar errado, então não está tudo certo?
- Ainda não sei, é mais complicado do que isso. Não sei mais se eu sou a pessoa errada.

- Tu sempre disseste que era o tipo certo de pessoa errada. Eu sempre concordei.

- E se em vez disso eu for o tipo errado de pessoa certa? Ou o tipo errado de pessoa errada? Não ri. Eu não vou descer até saber pra que lado eu vou.

- Quais as opções?

- Dentro ou fora do portão.

- O que pesa na tua decisão?

- Como eu me sinto, o que eu sinto, o que eu quero sentir e uma história que eu jamais vivi.

- Tu e as tuas histórias.

- Eu amo histórias. Tenho amado tanta coisa, com um tamanho tão desmedido que tudo se complica mais ainda. Admito que não sei o que pensar com muita certeza, sei menos ainda como agir, o que fazer. 

- Talvez fosse mais prudente agir com razão.

- E se a razão não estiver no mesmo sentido da minha felicidade?

- E quando tu te importaste com sentido?

- Quando importa o que eu sinto. 



Refrão de um bolero (Engenheiros)


Eu que falei nem pensar
Agora me arrependo roendo as unhas
Frágeis testemunhas
De um crime sem perdão
Mas eu falei nem pensar
Coração na mão
Como um refrão de um bolero
Eu fui sincero como não se pode ser
E um erro assim, tão vulgar
Nos persegue a noite inteira
E quando acaba a bebedeira
Ele consegue nos achar
Num bar,
Com um vinho barato
Um cigarro no cinzeiro
E uma cara embriagada
No espelho do banheiro
Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas
E o teu olhar sempre distante sempre me engana
Eu entro sempre na tua dança de cigana.
Eu que falei nem pensar
Agora me arrependo roendo as unhas
Frágeis testemunhas
De um crime sem perdão
Mas eu falei sem pensar
Coração na mão
Como o refrão de um bolero
Eu fui sincero
Eu fui sincero
Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas
E o teu olhar sempre me engana
É o fim do mundo todo dia da semana.


Comentários

Gui disse…
Tem uma bocuda me dando razão?
Aline disse…
Adoro ler você! Linda a foto, desce do muro, és uma mulher de valor. Beijos da Line!
Carlos disse…
Felicidade acima de tudo, Kukinha. Sempre!!!

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