quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

gato de rua


Um gato, mesmo que tenha a mesma raça, nunca terá a personalidade igual a outro. Gatos têm as próprias manias, teorias e opiniões. Fazem desaforos em primeira pessoa do singular. Um gato é um ser divino. Dotado de toda a independência e doçura, tem olhos que abraçam o mundo. É preciso muita sensibilidade para conviver com gatos, muito respeito e dedicação. Eu sou fã declarada dos gatos de rua, os sem estirpe, com DNA de calçada, de miar nos muros.

Quando eu chego em casa o Tobias já está sentado na frente da porta, é meu vira-latas preto, bagaceiro até o último fio de bigode. Entro, deixo minhas bugigangas espelhadas (é assim que coloco minha vida pelo lar) e ele já está na escada. Fica sentado mudo no topo. Alguém que não conhece gatos pensaria que ele está me observando. Não. Gatos se comunicam pelos olhares mais do que pelos sons, pelo corpo flexível, mais do que pelos miados. Tobias me encara com os olhos de “vem”. Quer o que esperou o dia inteiro para ter: minha cama comigo. Não interessa a posição que eu deite, Tobias dá um jeito de se encaixar. Ele precisa do meu carinho para dormir, ronrona até ser atropelado pelo sono, quando suspira, abre um pouco a boca. Ele implica veladamente com a minha demora porque entre a hora que chego em casa e a hora que vou para a cama há uma infinidade de eventos. Mas ele espera. Não se importa em me acompanhar pela casa. Espera dentro do banheiro enquanto eu tomo banho. Diverte-se comigo. Faz as artes dele. Furta a janta, usurpa a torrada no café da manhã. Quando era menor, tirava a chupeta de dentro da boca do meu filho. Tobias é assim, especialista em se apropriar do que não lhe pertence.

Diferente da Raica, minha gata sem raça que tem cor de galinha carijó – por isso carinhosamente chamada de franga – que não se apropria de nada que não lhe pertence. Porque não há o que não seja seu. Pelo menos é o que ela pensa. Eu sou dela, meu travesseiro é dela, meu filho é dela e até Hagi, meu outro gato, é dela. Raica é uma doce rabugenta. Chega lânguida, ronronando, do focinho ao rabo se esfrega, seduz até ganhar um colo. Deu, se tu respira de um jeito que desagrada, ela coloca algumas unhas pra fora. E te olha como se carinho estivesse fazendo, chega a bater uma dúvida. Ela repreende sutilmente. Com ela por perto, só posso dar atenção para ela. Se abro um livro, ela cabeceia até uma das minhas mãos serem dela. Abro o jornal, ela deita em cima, abro a mala, ela entra dentro, puxo a cadeira, ela senta. E se eu descuido no meio da noite, ela me tasca um beijo de nariz molhado.

Amo gatos de rua. Um gato de rua não deixa de ser arisco nem depois de domesticado. É arisco pra entregar seu coração. Gato de rua quer a água recém servida, a almofada fofa, a comida nova e a areia do xixi limpinha. Quer ter suas manias preservadas. Se uma coisa não faz o gato de rua feliz, ele não procura outro dono. Ele ganha a rua. Ele volta pra boemia dos muros, das latas de lixo, de fugir de cachorro. Se fecham a porta, gato de rua mia no telhado. Um gato de rua sempre espera que você volte. É prova de amor.

Conviver com esses vira-latas é exercitar todos os dias a conquista. É ter jogo de cintura, ser flexível e cair em pé. Sim, você, não o gato. Isso ele sabe fazer.

Viver com um gato de rua é como manter um namoro. A cama sempre quentinha, a comida na mesa, respeito, conhecimento, flexibilidade para que ninguém ganhe novamente as latas de lixo, os muros e telhados. Exercício diário do cuidado. Gatos de rua não sabem viver tristes ou desgostosos. Os ronronados são honestos, os convites sinceros, cada gateada é uma declaração de amor verdadeiro. Um gato de rua não brinca de amar. Ele ama. Ama porque foi conquistado e isto basta. Mas um gato sem estirpe ama mais que tudo a si mesmo e sabe o quanto dói ter que lamber as próprias feridas, antes do estrago irreparável, prefere a rua.

Mas pode aceitar um convite pra voltar. 



Raica, a franga.

Tobias, o usurpador de torradas matinais. 

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Gatinha manhosa


Meu bem
Já não precisa
Falar comigo
Dengosa assim...

Briga, para depois
Ganhar mil carinhos de mim
Se eu aumento a voz
Você faz beicinho
E chora baixinho
E diz que a emoção
Dói seu coração...

Já, não acredito
Se você chora
Dizendo me amar
Eu sei que na verdade
Carinhos você quer ganhar...

Um dia gatinha manhosa
Eu prendo você
No meu coração
Quero ver você
Fazer manha então
Presa no meu coração
Quero ver você..



2 comentários:

BETO disse...

Qdo vc fica braba devia escrever a respeito. Vc é uma gata de rua, mesmo assim deve pensar em tudo que já conversamos p ronronar junto de quem vc ama. Bj

Carlos disse...

Depois deste texto, deve ter uma fila de Gatos aí na porta da tua casa?