quinta-feira, 1 de março de 2012

fidelidade


Fidelidade não é o tipo de coisa que se atesta com cartão. Abdiquei de uma série de promessas de fidelidade que não passaram de caso de um almoço e nada mais. Ou um livro e nada mais. Até um perfume para a amiga secreta e nada mais. Onde eu entro para comprar, a vendedora me canta, me encanta e me leva. Pronto, saio do estabelecimento com mais um cartão de fidelidade. Acabo sendo bígama de farmácia, trígama de loja de produtos orgânicos e pêntama de livrarias. A minha fidelidade ganha carimbo e acertos de desconto registrados no meu CPF. Com anos de devoção à mesma farmácia conseguirei ganhar um batom – que eu nem uso. Chega. Coloquei fim ao recheio obeso da minha carteira.


Sinto-me até menos constrangida. Há duas semanas atrás entrei em uma livraria, escolhi o livro que eu queria. Quando fui pagar, abri a carteira e dei de cara com o cartão de fidelidade da concorrente. Fui pega em flagrante. Fiquei sem jeito, tentei desviar o olhar, mas o pedacinho retangular de plástico me encarava com reprovação. Argumentar que na outra não tinha aquele exemplar, que Guy de Maupassant não se encontra em qualquer esquina seria inútil. Até mais ofensivo.


Fidelidade se conquista no detalhe.


Na minha infância, quando eu ia pra Tapes, era fiel à mesma pedra. Era onde eu gostava de sentar pra observar a lagoa. Era onde eu brincava com meu caniço sem anzol, sem isca, sem pretensão de pegar um peixe.


Podem me achar de esquisita, mas tinha tanto afeto por aquela pedra que há meses atrás, voltando ao recanto da minha infância, fui procurá-la entre as outras. Sentei nela por alguns instantes. Antes, sobrava pedra, naquela hora sobrou eu. Era uma boa pedra. Não balançava como as outras, nem tinha limo. Ganhou a minha fidelidade no detalhe. Bruta, porém gentil. Sempre me fez carinhosa companhia.


Fidelidade é dedicação de mão dupla. Não é pra ser pedida, não depende de vigilância. A devoção é opcional. É decidida e praticada por quem quer. É espontânea, Seneca já dizia que acreditar na própria fidelidade faz com que seja fiel. Eu concordo. Acredito que esta decisão dependa de prestar atenção nos detalhes, perceber que se tem o que se gosta. É muito mais devoção do que amor. É encontrar o que te prende e querer ficar ali. Isto pra mim é liberdade.


Selecionar a pedra aparentemente bruta. Dedicar atenção ao favorito, retribuir o carinho. Os detalhes conquistam a minha fidelidade, o riso que não cansa de brotar, as semelhanças descobertas, a criatividade para fazer as coisas mais simples. Surpreender um olhar de admiração quando se está apenas apagando a luz, arrumar o meu travesseiro antes de dormir, um abraço de surpresa, ser chamada de louquinha, um cheiro disfarçado no ombro, gostar de Cure, Police, ligar pra ouvir a voz, colocar um pouco de mim dentro de cada hora do dia. É o que me conquista. Sou fiel observadora do jeito como se ajeita no banco do carro pra falar algo surpreendente ou me convencer de alguma ideia tosca que vai se dissolver no próximo cruzamento. Sou fiel à franja que não se ajeita em dia de chuva e serve de desculpa pra eu amassar mais de três vezes as molinhas. Às saudades desdobradas em números. É por isso que eu fico. É por tantos outros motivos que ele – igualmente detalhista – também quer ficar.


Ele é detalhista até nas sutilezas. Repara nas delicadezas entre as brutalidades e os meus atropelos. Escolheria fácil uma pedra favorita. Notei quando entramos num boteco, mas boteco mesmo, no sentido chinelo da palavra, para tomar uma cachacinha. A certa altura da noite, com conversas em zigue-zague, qualquer motivo é motivo. Qualquer proposta vem seguida de um “vamos”. Boteco enfumaçado, com mesinha de sinuca, tiozinhos desdentados numa quase esquina de Porto Alegre.


Pedimos uma cachaça no balcão – que era uma janelinha improvisada – mas não escolhemos qual. “Só não muito doce”. O tio (boteco não tem barman) colocou um copo intimidador, com muitas marcas de digitais na nossa frente, despejou um dedo de uma coisa preta que eu jurava que era shoyu. Cúmplices como gatunos, trocamos olhares enquanto o tio completava o copo com Velho Barreiro. Ele, Romeu, tomou os primeiros goles. Empurrou o veneno pro meu lado. Também bebi pra não fazer desfeita, como boa Julieta. Nessa hora todos os bêbados presentes estavam na expectativa de secarmos o copo. E eu na expectativa que vagasse a mesa de sinuca.


Pagamos dois reais pela cachaça, não sem antes perguntar de que se tratava aquele líquido preto do início. O tio respondeu orgulhoso, empunhando a garrafa enquanto levantava as sobrancelhas tão cabeludas que escondiam os olhos: é tipo uma olina.


Cachaça de essência de vida bebida, saímos do boteco, íntimos dos demais bêbado, dando tchau e ganhando sorrisos banguelas, porém, acolhedores. “Agora vamos ver o que tem pra beber no outro bar, o da esquina!” 

Fui repreendida:

- Não, nunca! Jamais, só bebo cachaça no bar grenal!
- Como assim?
- Sou fiel, amor. Reparou que tinha uma foto do tio com o neto na geladeira?


É disso que eu estou falando, sentimento. Fidelidade se conquista no detalhe. 






Em uma das paredes do bar tinha um papel colado com a seguinte frase: 

QUANDO O MEDO BATER À PORTA DE SUA MENTE, DEIXE QUE A FÉ EM DEUS E EM TODAS AS COISAS BOAS A ABRA. 

(Rita Andrioli)


Acho que essa sensibilidade do tio também ganhou minha fidelidade. 
Mais que a cachaça. 



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Fidelity - Regina Spektor



I never loved nobody fully
Always one foot on the ground
And by protecting my heart truly
I got lost
In the sounds

I hear in my mind
All these voices
I hear in my mind
All these words
I hear in my mind
All this music
And it breaks my heart
And it breaks my heart
And it breaks my ha-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-aart
And it breaks my ha-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-aart

Suppose I never ever met you
Suppose we never fell in love
Suppose I never ever let you
Kiss me so sweet
And so so-o-o-o-oft

Suppose I never ever saw you
Suppose you never ever called
Suppose I kept on singing love songs
Just to break
My own fall
Just to break my fa-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-aall
Just to break my fa-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-aall
Just to break my fa-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-aall
Break my fall
Break my fall

All my friends say
That of course it's
Gonna get beh'uh
Gonna get beh'uh
Beh'uh, beh'uh, beh'uh, beh'uh
Behtur, bettur, betterrrr, ohhh...

I never loved nobody fully
Always one foot on the ground
And by protecting my heart truly
I got lost
In the sounds

I hear in my mind
All these voices
I hear in my mind
All these words
I hear in my mind
All this music
And it breaks my heart
And it breaks my heart
I hear in my mind
All of these voices
I hear in my mind
All of these words
I hear in my mind
All of this music
And it breaks my heart
And it breaks my heart
It breaks my ha-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-aar
t


4 comentários:

Carlos disse...

Sua Cachaceira Linda...
Belo Texto!
Em meus conceitos(?!) Fidelidade=Liberdade=Parceria=Liberdade=Cumplicidade...
Tudo xuntoereunido!

Foto com Cara de Apaixonada...

Maya disse...

Linda! Linda! Que texto alegre.
beijinhos

BETO disse...

BOCÃO, ALÉM DE TUDO ELE É PARCEIRO DE CACHAÇA? MAIS UM PARA MIMAR VC E JAMAIS DIZER NÃO. FRASE TRI USADA POR NÓS EM 2006: IIIII, FUDEU, CARLO!
BJ

diogo disse...

é como diz o alemão: puro sentimento! belo texto!