sábado, 10 de março de 2012

isto não é um texto






Abro a janela do carro só quando viajo. Dentro da cidade é ar condicionado e vidros fechados. A estrada quase implora pelo vidro aberto, entra o vento que escabela ideias, faz nós no pensamento, traz o cheiro que identifica o lugar. Jogo pelo trajeto algumas sementes de expectativas, dessas que a gente nunca sabe se vão se transformar num pé de decepção ou de alegria até que surjam os primeiros frutos. Às vezes a gente precisa olhar o conjunto pra entender o significado do todo. Em certas situações a fração não é fiel ao conjunto. É filha desgarrada. 

Trazer isso para a consciência é um exercício gestaltico. A percepção é questão de observação, mas também de experiência, de conhecimento, de leitura dos olhos, entrelinhas da situação. O que se vive não é fato isolado, é ação e reação por tudo, troca de energias, engrenagem da harmonia. 

René Magritte – artista plástico que acaba com a minha teoria que todos morrem loucos quando vão morar em Paris – é mestre em traduzir isso na sua obra. Admiro ele pela ironia, admiro mais ainda pela forma como ele exige que a obra seja vista. Não há como apenas apreciar um quadro de Magritte, é preciso envolvimento, interpretação. Se ele nos apresenta a imagem, em troca nos toma um pouco da consciência. 

Magritte pintou um cachimbo (La trahison des images, 1926), escreveu embaixo “Ceci n'est pas une pipe”, quer dizer, “Isto não é um cachimbo”. É impossível olhar sem se perguntar “como não?”, até que se perceba que não, realmente aquilo não é um cachimbo. Tente fumar. É a representação de um cachimbo. Aqui é onde mora a genialidade do artista. A interpretação levada a ser um todo, a observação do signo e do significado. O que se esvazia de sentido perde a sua condição. Ele é genial ao retratar o fora do padrão formado por normalidades. A imagem é a lupa da situação. É a lente de aumento da realidade. 

Em Golconda (1953), Magritte pinta uma chuva de homens. Muitos homens caindo do céu, uma multidão. Todos vestindo roupas pretas, chapéu coco e com expressão séria. Como se cair do céu fosse coisa de se fazer todos os dias. E mais, ao fundo, um prédio onde todas as janelas estão fechadas, como quando chove e não queremos que molhe o vidro – como eu quando ando no meu carro dentro da cidade, ignorando o resto do mundo. Não há nenhuma pessoa na janela observando com admiração ou espanto a chuva de pessoas. É o legítimo retrato da indiferença. É a indagação de por que a indiferença à multidão, ao coletivo, ao diferente que nem é tão diferente assim. 

A obra de Magritte é rica demais. Abre a mente para uma série de integrações possíveis baseadas nos símbolos e significados particulares. Ao perceber a obra como um todo, acabamos por fazer parte desse todo. 

Agora vou fazer de conta que sou Magritte: isto não é uma análise de arte. Isto é uma análise de vida. Observar como os fragmentos compõem nosso todo, trazer para dentro das relações o comum do incomum. Usar a criatividade para que a rotina não borre as tintas dos sorrisos. Sou crédula na eternidade do amor. É possível. Mas amar é prática constante. Só se ama quando esse fragmento pode se integrar ao todo. Só é viável o amor com disposição. Amor acontece sem querer e morre por qualquer coisinha. 

Cuidar de um amor é diferente de amar. 

Quem ama inventa, usa a criatividade, transforma as normalidades em particularidades. Vive histórias para lembrar. Amar é aproveitar a versatilidade da realidade. É atender o tênis como se fosse um telefone no restaurante, puxando o cadarço pra fingir de antena e ainda passar “é pra você”. É dizer que foi engano. 

Amor é quando a banheira de hidromassagem se transforma em sofá da sala, com assuntos de fim do dia no fim de noite. É quando o lençol da cama vira a toalha de mesa de bar, onde é servida a filosofia barata, a teoria absurda, as gargalhadas de tirar o ar de dois bêbados de alegria. É informar as condições das ondas do saquê quando bate o vento. É transformar a cama em palco e o edredom em capa. Mandar piada boba por mensagem. Não visto mais camisola pra dormir, visto bonder para colar.

É fazer da mesa de jantar altar de juras eternas de amor...

Eu já casei umas trinta vezes, só esse mês. E com o mesmo homem! Hashis, vinhos, camarões, jogos americanos, guardanapos são testemunhas, casamos sempre antes de pedir a conta. 

Não vou estranhar se nos jogarem arroz na saída dos bares.





Não esqueçam que isto não é um cachimbo.

Olha que cara de normalidade eles têm. "Eu vou ali comprar cigarro, cair do céu e já volto"






É que tudo começou colocando ovo no muro.
Deu certo.
Ainda dá. 


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Um Pro Outro - Lulu Santos


Foi bom te ver de novo aqui



A gente tinha mesmo tanta razão pra seguir

Fora o som dessa guitarra, a voz sempre rouca e o coração na mão

Surpresa certa te encontrar 

A tua onda pega bem mesmo em qualquer lugar

Até na esquina do pecado o que for da vida não nos deterá

Nós somos feitos um pro outro, pode crer, por isso é que eu estou aqui
E não há lógica que faça desandar, o que o acaso decidir

Tanta certeza no olhar, tamanha pressa de chegar a nenhum lugar

Só pra ter a sensação de que a vida passa assim como um tufão

Nós somos feitos um pro outro, pode crer, por isso é que eu estou aqui

E não há lógica que faça desandar, o que o acaso decidir









3 comentários:

Carlos disse...

Kukynha, tu já considerou a possibilidade da Magistratura? Tuas sentenças seriam verdadeiras obras-primas...
É muito bom te ver Feliz!!!

Flavia disse...

Impressiona a sensibilidade que tens para escrever e adequar à tua vida, narrando os acontecimentos. Parabéns por seres esta mulher linda, sensível e da paz.

Com carinho, Flá.

BETO disse...

TU É SÓ A MELHOR MELHOR DO MUNDO EM SER A MELHOR DO MUNDO.

http://www.youtube.com/watch?v=xF2OFkO2nns

LEMBRA? É TU!