sexta-feira, 30 de março de 2012

uma insônia para dois

Acordar no meio da noite é uma aventura. Eu sou do tipo que faz festa antes de dormir. Mudo o lugar das cadeiras, deixo abertas as portas dos armários, jogo as almofadas pelo chão como se minas terrestres fossem. Sem falar nas trincheiras de objetos que separam minhas mãos do liga-desliga do abajur: canecas de chá, taças de vinho, dúzias de papéis de rascunho, canetas, lápis, grafites, carvão, vasta cartela de cores em giz de cera. Chamo isso de caos criativo produzindo universo em nome próprio, vulgo baderna.

Isso não é hereditário, meu pai é capaz de achar a cor da camisa no escuro, de tão organizado.

Impossível tentar acender qualquer luz. Ir ao banheiro no meio da noite é uma aventura. Eu acordo, mas mal abro o olho. Saio da cama pisando em sei lá o quê. Desvio de um vulto que parece ser a escrivaninha, driblo um gato, deixo pedaços das canelas em mais alguma coisa. Volto para a cama como voltavam os farrapos das batalhas. A maior batalha ainda está por vir: voltar a dormir. O corpo demora a entender que eu preciso me movimentar, o cérebro já acha que posso participar de uma maratona de matemática, de um concurso soletrando, ou pior, lembrar o nome de todos os gases nobres da tabela periódica – só sei de cor hélio, neônio, argônio e xenônio.

Voltar a dormir me deixava tensa. Fazia pressão comigo mesma, chamava o sono de volta, tentava forçar a aproximação como quem oferece um pires de leite a um gato arisco. Em vão. “Preciso dormir, preciso dormir, preciso dormir”. Esse pensamento dava licença ao repasse mental da agenda, pessoas com quem eu precisava falar, assuntos, tempo, lista do supermercado. Pronto. O sono fugiu. Por isso me enrolo pra dormir, meu sono tem prazo curto de validade. Eu não durmo, sou vencida. Não deito, sou derrubada.

Mesmo assim ainda corro o risco da insônia pedir cantinho na minha cama. Agora tracei estrategia. De olhos fechados, do mesmo modo que uso os sentidos para sobreviver aos vinte e três passos que me separam do banheiro, exercito os sentidos. Analiso a escuridão do lado de dentro das pálpebras. Noite sem estrelas. Ouço com cuidado a minha respiração, respeitando as pausas do pulmão enchendo e soltando o ar. Concentro no movimento do tórax. Seguro mais o ar. Depois solto com paciência. Exercito o tato passando os dedos nas texturas diferentes da cama, travesseiro, cobertor, cabelos, ponta das unhas. Procuro cheirinhos que dão saudade e conforto, ocupando um pouco da ausência. Neste momento, geralmente, o sono me abraça. Adormeço.

Porém, toda a tática de guerra, por melhor que seja pensada, está sujeita à falha. Fui boicotada no momento em que adormecia, pelas duas e quarenta da madrugada, na hora do cheirinho, que deu saudade, que me fez pensar em alguém com quem imediatamente sonhei, estiquei a mão e encontrei o vazio do lado direito da cama. Usei o tato para tatear o telefone, abri os olhos para escrever a mensagem: sonhei que eu estava te beijando. Ouvi a campainha imediata da resposta: “amor, saudades, também estou sem sono.” Imediatamente, repliquei com a história de dormir que ele mais adora: era uma vez a formiguinha que estava com os pés presos na neve...

Nova mensagem “adoro essa história. Vou dormir, boa noite.” Minha primeira conclusão foi que a história da formiguinha dá sono antes que o primeiro parágrafo termine – o que explica por que meu avô dormia quando me contava.

Pensando um pouco melhor, não, não é isso. Concluí que amar é ser acordado por uma mensagem inesperada no meio da noite e ser tão doce a ponto de inventar uma falta de sono. É acolher a insônia que não é sua para confortar. Corresponder o sonho com atenção e carinho.

Por isso anda tão fácil sonhar acordada.





Frejat - SOBRE NÓS DOIS E O RESTO DO MUNDO

Seu olhar me acompanha
Do outro lado da rua
Um sorriso, discreto
E hoje a noite é minha...
Seu andar folgado me chama
Da morte ela morre de medo
E já disse que me ama
Mas tem que ser em segredo...
Sobre nós dois
Ninguém vai saber de tudo
Parece uma partida
Contra o resto do mundo...
O resto do mundo...
O resto do mundo...
Ela vibra como criança
Vestida, prá mim, está nua
Dormindo é quase uma santa
Nasceu sorrindo prá lua...
Seu andar folgado me chama
Da morte ela morre de medo
E já disse que me ama
Mas tem que ser em segredo...
Sobre nós dois
Ninguém vai saber de tudo
Parece uma partida
Contra o resto do mundo...
O resto do mundo
Uh! uh! uh!
O resto do mundo...
Eu até sonhei com isso
As coisas mais loucas
Com ela eu arrisco
Com ela eu arrisco...
Sobre nós dois
Uh! uh! uh!
Sobre nós dois
E o resto do mundo...

3 comentários:

Carlos disse...

Sua Querida...

Anônimo disse...

Estava com saudade de ler as tuas lindas histórias! Pensa o amor de maneira diferente.
Um beijo, Mari.

Anônimo disse...

EXISTE UM JEITO DE NÃO SER COMPLETAMENTE APAIXONADO POR TI?