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cinco quilômetros


- É que eu dou muita atenção pra essas coisas que a gente esquece por querer, ou finge que esquece.

 Fui justificando o olho aguado antes de ser perguntada. Continuei:

- Quer dizer, cada um deve fazer a sua parte, certo? Mas nem sempre a minha parte é só a minha parte. E nem sempre a minha parte é a parte que dá certo. Uma vez vi um modelo de saco feito com folha de jornal. Bom, a ideia pareceu mais ecologicamente correta do que usar sacos plásticos e na teoria, para lixo seco, a ideia pareceu digna. Um achado. Gastei todos os classificados de domingo tentando. Dobra pra lá, dobra pra cá. O que eu fiz foi lixo, lixo, lixo e mais lixo. Mas de um jeito ou outro, todo aquele jornal iria mesmo parar no lixo, certo? Então o que eu fiz? Perdi tempo e tempo não é reciclável.

Nesta hora dois pares de olhos estavam grudados em mim. Não sou acostumada a plateia nas minhas divagações. Intui que estava interessante a justificativa do meu estado calamitoso de alma. Tem dias que é assim, a alma fica emburrada. Prossegui:

- Não pensem que eu sou ruim de trabalhos manuais, não, eu sou boa nisso. Quer dizer, em desenho sou ótima, pintura, bordado, corte, costura e alguns origamis, mas não sei fazer o sapo, nem o cisne. Se eu tivesse que ser artesã de rua, não morreria de fome... Bom, na verdade, não tenho sentido muita fome. O que é estranho. Digo, fome de comida, porque de chocolate eu tenho. E tenho também de outras coisas que tenho devorado, que nem momentos, passeios, amor e uma pessoa. Ando devorando livros também. Mais do que o normal. E escrevendo muito também. Vivendo e escrevendo, porque é assim que eu transbordo. Isso me lembra Clarice Lispector. E lembra que ontem lembrei por que não sei fazer poesia, é porque sou chata pra poesia. Assim, tem gente chata pra caralho! Eu sou chata pra poesia! (ninguém riu) E por falar em lembrar, lembrei que eu comecei todo esse assunto falando das coisas que as pessoas esquecem por opção.

- Quer parar de correr?

- Não, tudo bem.

- Então continua, agora tem uma subida.

- Continuo. Sério, continuo com isso de me preocupar. Não uso estampas de animais porque acho que pode incentivar o uso de pele. Tenho dores físicas com desperdício de água. Dou bom dia pro sol, boa noite pra lua. Separo o lixo, faço doações, uso papel reciclado... acho que o ser humano anda se afastando muito da natureza. Acho que Nietzsche já falou disso em O Nascimento da Tragédia.

- Nietzsche?

- É... Ele fala de Dionísio e Apolo, das vontades e das ordens. Acho que é possível um ponto de harmonia. Acho que uma aversão ao caos em vez de uma aversão ao sofrimento. Nunca entendi por que não se pode sofrer. Hoje eu estou sofrendo. Sofrendo porque minha alma ficou emburrada, não dormi, ouvi coisa que não precisava, li o que não queria, encontrei um juiz de humor péssimo. Não tem sido um bom dia, não mesmo. Não começou bem, mas aqui está ótimo. Eu estava precisando desta corrida. Eu penso muito correndo e com vocês aqui, penso em voz alta. E por isso, enquanto eu esperava vocês para começar a correr, fiquei pensando, lembrando, pensando mais e acabei enchendo o olho de água. Mas para ver como as coisas acontecem, pela manhã veio parar na minha mão uma oração que dizia tudo que eu precisava e me confortou. Então eu penso que vale a pena não esquecer do que geralmente se esquece. Se é tudo energia e estamos conectados com a natureza, com as outras pessoas e com os sentimentos bons, as coisas boas acabam ficando à vontade pra chegar. Como esse papel velho e amassado veio para a minha mão. Então eu penso que não preciso revidar as atitudes ruins de pessoas más com mais atitudes ruins e más. Isso multiplica o que é ruim.

- Interessante. Quer parar de correr agora?

- Não... acho que consigo explicar, respirar e correr sem morrer.

- Certo, então, adiante.

- Bom, se eu posso sempre ter boas atitudes, boas maneiras, ser educada, cortês e boa, mesmo frente a uma atitude reprovável de alguém, não vou dar eco para o que é ruim. E ainda, agindo pelo bem, tendo o amor por objetivo, posso compartilhar e multiplicar isso. Então dou eco ao amor. Dou eco ao que é bom. Não me interessa a maldade com que o outro agiu. Eu agi bem. Quando eu conseguir dormir, dormirei bem. Eu não vou ser responsável pelos atos de outra pessoa, nem posso compelir pessoa alguma a agir bem. Mas eu posso quebrar essa corrente do mal. E isso é fácil. E é essa atitude boa que gera energia boa, que atrai coisas boas. Acredito que então essa é a minha parte e que qualquer reflexo que tiver é lucro!

- Olha, deu de correr! O assunto está ótimo, mas a corrida está de bom tamanho. Assim já posso saber como anda o coração!

- Meu coração segue um rebelde. Um judiado. Um doido! Um viciado por paixão, batendo forte por amor. Amando com sopro!

- A enfermeira vai tirar os eletrodos e amanhã o laudo do eletro de esforço estará pronto.

Uma seriedade tomou conta do doutor. Cardiologistas odeiam psiquiatria. O coração é um gráfico. Meu sopro não é poético, é inocente – sempre consta no laudo.

Não importa o amor, importa a minha arritmia.

Não se pode fazer de uma esteira um divã. 


PARÊNTESES: às vezes é preciso parar. Não contra o tempo, mas sim em favor de nós. Parar para seguir viagem. Parar para seguir sem rumo. Parar para entrar em uma cidade sem ter motivo, conhecer pessoas para quem jamais dissemos olá. Parar para ouvir. Parar para rir. Às vezes precisamos parar para encontrar pequenos tesouros. Uma casa enorme recheada de surpresas, uma chuva que é a própria surpresa, a diferença das cores nas folhas dos plátanos, as pedras irmãs irregulares da mesma rua. 

Parar porque se perdeu o fôlego dentro dos olhos que falaram mais que qualquer palavra. 

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 I wish I knew how it would feel to be free
I wish I could break all the chains holding me
I wish I could say all the things that I should say
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
I wish I could share
All the love that's in my heart
Remove all the bars that keep us apart
And I wish you could know how it feels to be me
Then you'd see and agree that every man should be free
I wish I could be like a bird in the sky
How sweet it would be if I found I could fly
Well I'd soar to the sun and look down to the sea
And I'd sing 'cos I know how it feels to be free
I wish I knew how it feels to be free
I wish I could break all the chains holding me
And I wish I could say all the things that I wanna say
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
One love one blood
One life you've got to do what you should
One life with each other
Sisters, brothers
One life but we're not the same
We got to carry each other
Carry each other
Whoah Whoah Whoah Whoah Whoah ...
I wish I knew how it would feel to be free
I wish I knew how it would feel to be free

Comentários

Carlos disse…
Tudo no Universo é Energia! Tudo o que é bom e o que é ruim também.
Fiquemos com as Boas, então...
Fiquemos com a Energia Kuky!!!
Leninha Ramos disse…
No meu caso tem SEMANAS que a alma fica emburrada. Ôooo! Céus, como eu preciso evoluir.

Viajo nos teus textos, é muita verdade escrita com um jeitinho KuKy de ser.
Beijos, coisa linda!

Leninha!
E.R. disse…
O que está embaixo da tua foto é uma poesia. Linda poesia, por sinal.

att.

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