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rotina


 Fiquei surpresa na primeira vez que percebi os olhos me seguindo pelo quarto logo de manhã. Justo ele que detesta acordar cedo. Estava me observando enquanto eu me vestia, apressada, atrasada como sempre. Tenho esperança que nesses dias o trânsito possa entender que tive bons motivos para perder quinze minutinhos a mais nos lençóis e assim, gentilmente fluir. Nunca entende. Jamais flui. As tranqueiras são as penitências da minha luxúria, da minha preguiça e de qualquer outro pecado que aconteça no espaço de tempo que separa o toque do despertador do momento que eu levanto de verdade da cama. Enrolar os caracóis pela manhã é quase proibido durante a semana. O que é injusto, porque antes do desjejum já sinto saudade.

Mas eu falava da maneira como ele me olhava, ainda coberto até o queixo, aquele brilho molhado de bom dia entre as pálpebras. Mudo. Em dúvida sobre a própria existência. Mergulhado no travesseiro. Eu ainda com o cabelo amarrotado. Ele seguia colando as pupilas em cada botão que eu fechava na minha camisa.

Existem homens que sabem abrir fecho éclair usando uma só das mãos. Anos de treino, erros e acertos nas tentativas. Prática amestrada. Um homem digno de admiração coloca toda a atenção matinal – de improviso e surpresa – em mim, não nua, mas me vestindo. Fotografa o trajeto das minhas mãos, dos meus braços quando dou um nó no cabelo, camuflando a baderna das minhas mechas ruivas rebeldes. Admiro isso porque me deixa sem jeito logo cedo. Não é uma vergonha, nem uma timidez. Nada disso. É só uma ausência momentânea de resposta. Falta de jeito mesmo.


Admiro a naturalidade com que ele faz isso. Nenhuma palavra. Efeito cativante. Meu amor não acorda de bom humor, mas já amanhece meu.

A mudez dele me instiga. Impossível sair sem visitar de novo a cama, sem ceder mais um carinho nos cachos, cheirar a suíça, a curva da sobrancelha. Ensaio sorriso entre olhares de prece. Transformo as cobertas em pacote em volta dele. Despeço-me quinze vezes com voz manhosa de pedir fruta. Eu ganho fungadas pelos ombros, cílios esticados uns para os outros como as copas das árvores que dão as mãos.  Elas namoram imóveis nas calçadas. Agradecem ao vento pelos toques que ele providencia.

Saio na ponta dos pés mesmo sabendo que ele já acordou. Não quero assustar o sono que ficou escondido para voltar quando eu encostar a porta do quarto. Assim o dia lá fora me abraça. E antes das dez eu já tenho saudade. E quando eu penso nele, ele liga. E mil serão os assuntos nas mais diversas mensagens ao longo do dia.

À noite nós vamos dividir a lua, ele vai inventar histórias sem sentido para me fazer rir, eu vou contar o que fiz, que venci o jogo que ele me apresentou, eu vou dizer que estou linda e piscar rápido os olhos, faremos planos pra daqui a pouco sabendo que daqui a pouco é para nós sinônimo de improviso. Eu vou falar sobre as palavras que eu gosto da pronúncia e repetir "pistache". Ele vai me beliscar com malícia. Vai me chamar por algum apelido de circunstância. Vai apertar os ossinhos do meu quadril antes de me abraçar.

 Dividiremos a conta da saudade, a vontade de estar perto, vamos trocar confissões, trocar de roupa, trocar de casa, tricotar amenidades e ficaremos convencidos de que nada melhor na vida do que esse agora. E os próximos “agoras”. Ele vai protestar contra o chocolate. Eu vou protestar contra a hora de dormir. Vamos comer chocolate e dormir. 

Nossas objeções só servem para exercitar a resistência. Têm a validade de minutos. Não, de segundos. Na verdade, tanto faz. Vamos trapacear com o tempo. Contei que já almoçamos às cinco da tarde?

 Descobriremos que o amor é brega. Mais brega do que roupinha de botijão de gás. E vamos rir, não pela graça da comparação.

Vamos rir porque não conseguimos servir alegria pela metade, sempre deixamos transbordar os sorrisos. 


(e vamos choramingar ouvindo música sertaneja!!!!)



Amar não é pecado - Luan Santana 

(vocês juravam que nunca iriam ver isso por aqui, né? Eu também, podia jurar. Até ontem.)






Eu não sei, de onde vem
Essa força que me leva pra você
Eu só sei que faz bem
Mas confesso que no fundo eu duvidei
Tive medo, e em segredo
Guardei o sentimento e me sufoquei
Mas agora, é a hora
Eu vou gritar pra todo mundo de uma vez

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Eu não sei de, onde vem
Essa força que me leva pra você
Eu só sei, que faz bem
Mas confesso que no fundo eu duvidei
Tive medo, e em segredo
Guardei o sentimento e me sufoquei
Mas agora, é a hora
Eu vou gritar pra todo mundo de uma vez

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Ohh

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Comentários

Monique disse…
Teus textos tem vida própria!
Carlos disse…
Kuky, sua Querida! Troca a comparação, de "roupinha de botijão" pra "Luan Santana" hehehe.
Highlander...
Anônimo disse…
Sempre linda. Eu me inspiro em ti para várias situações da minha vida.
Beijos, Maya.
Jessica Menezes' disse…
É, belíssima, não deu pra acompanhar tua música dessa vez! =P
Mas, li com Marcelo Camelo cantando 'Acostumar' no meu ouvidinho, e ó..
Tá cada dia mais gostoso vir aqui :}
Gui disse…
Bocuda, lindo texto. Saudade.

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