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antiquários de san telmo

Indelicada foi a natureza ao criar todas as cores sem me deixar uma para inventar. Não quero batizar uma que já existe ou produzir variações para cobrir paredes de uma sala ou as unhas das moças. Queria parir uma cor inédita aos olhos, dar um nome feliz e pintar tantos muros quanto eu conseguisse com o teu nome. E eu desenharia também. Desenharia peixes, estrelas, árvores, flores e nuvens, dessas que fingem que não vão chover. Nós dois sabíamos que iria chover naquela tarde depois do almoço. Entre sorrisos e taças de vinho, olhamos pela janela. Entre o gradil, o céu sem olho de sol. Mesmo assim corremos nas calçadas ao abrigo das marquises, felizes e únicos. As pombas nos olhavam curiosas.


A chuva não afogou nosso desejo. Entrávamos nas lojas de antiguidade. Somos aleatórios para aceitar convite de portas abertas. Soldadinhos de ferro que não conheceram os campos de batalha. Lustres de cristal que estiveram em outras salas. Corredores estufados por toda a espécie de velharia, nem os vendedores gozavam de poucos anos. Espelhos que nunca haviam refletido nós dois. Provavelmente jamais voltarão a nos ver. Sempre penso nas lembranças dos espelhos. Gostaria de saber o que viram, por onde andaram. Mas tenho vergonha de perguntar.



As pedras irregulares da rua fazem da caminhada dança, desafiando o salto do meu sapato.


Molhada, cabelos badernados, pingando, ofegante, sorridente, encarando olhos famintos, impacientes, perturbadores, que entre frases aveludadas, cheiros familiares e dedos entrelaçados, aperto o número quatro. O carpete conduz ao fim do corredor. A claridade invade em névoa através das janelas delatoras da cidade. Os prédios antigos abanam com as persianas descascadas,manchadas pela velhice. Sinais de fumaça são gravados nos filetes de madeira. O barulho de além dos telhados e as luzes foscas no horizonte do vidro informam sobre a outra pátria.


O céu imita o algodão. Eu o pintaria com a minha cor. Escreveria o teu nome e desenharia também. Peixes, estrelas, árvores, flores e nuvens que fingem não chover.


Umidade.


Um banho quente.


Um vinho.


Uma paz.


Momento de porcelana, bibelô da memória em algum antiquário de San Telmo.


(vinho Killka, grande escolha)

 






TRILHA SONORA, FRANK SINATRA, NADA MAIS DIGNO.


The Way You Look Tonight
(SINATRA)



Someday
When I'm awfully low
When the world is cold
I will feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight



Yes you're lovely
With your smile so warm
And your cheeks so soft
There is nothing for me but to love you
And the way you look tonight



With each word your tenderness grows
Tearing my fear apart
And that laugh
Wrinkles your nose
Touches my foolish heart



Lovely
Never ever change
Keep that breathless charm
Won't you please arrange it
Cause I love you
Just the way you look tonight



And that laugh
That wrinkles your nose
It touches my foolish heart



Lovely
Don't you ever change
Keep that breathless charm
Won't you please arrange it
Cause I love you
Just the way you look tonight



Hmm...
Hmm...
Just the way you look tonight


----

EU SEI QUE SEMANA PASSADA NÃO ESCREVI, MAS BUENOS AIRES FOI PALCO DE MUITA VIDA, TANGO, AMOR E NADA DE ESCRITOS. INSPIRAÇÃO E RENOVAÇÃ. COM VINHO TINTO.


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FRASE DA VIAGEM: cadê o mate?

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TESTE. Para saber se a pessoa está bêbada depois de três garrafas de vinho, tem que pedir pra repetir a seguinte frase: TRÊS TRIGUES TRISTRES.

(porque três tigres tristes é muito barbada!)

Comentários

Carlos disse…
Como assim, criar uma cor!?!?!
Tu já fez isso!
O teu Olho não é nem verde nem azul, é Kuky!

PS. essa louca Paixão ta te fazendo muito bem...
Anônimo disse…
Lindo texto, recheado de paixão. Estás belíssima como sempre. És uma musa, uma mulher sem precedentes, incomparável. Feliz é o homem que consegue habitar teu coração.
Abs.
BETO disse…
BOCÃO, ICO SE PUXOU NA FOTO! E O QUE É O TAMANHO DA BOCA DE GAMELA?HUAHUAHUA
BJ

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