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meu general





O amor não tem título de eleitor. Nunca passou perto de uma urna. Não escolhe candidatos, não faz prévia, não interessam campanhas. Amor não tem presidente, vereador ou deputado, o que não quer dizer que não pratique corrupção. O amor não é democrático!


O amor é anarquia.


É forma desgovernada de sentir, baderna dos desejos inominados. São as roupas espalhadas pelo chão, as taças pela casa, o jornal escabelado, é a falta de horário para almoçar, jantar e dormir. E a deliciosa inconveniência de mandar mensagens provocantes no meio da tarde, com ameaças sensuais para a noite (quem nunca, não é mesmo?). Os apaixonados são avalanches soterrando as regras da etiqueta. O amor não obedece lei, nem a da gravidade. Os amantes flutuam, os pés saem do chão, as borboletas se mudam para a barriga, o arrepio é independente do frio.


Amar é ser livre pra ficar. É roubar no jogo, extrapolar no vinho, ousar, morrer de rir e viver depois. É se prender porque tem vontade. Ficar porque quer. Não dar motivo, não ter razão. O amor é anarquista desde sempre. Ignora as placas de pare. Deixa vazia a cadeira do governante para encher a cama. Anarquistas dizem que é tudo nosso. Nosso amor, nosso carro, nossas escovas de dentes, nossa saudade. Amor é coletivo em dupla.


Mas ando desconfiada. Meu amor tem um casaco de general. Muito embora tenha docemente me emprestado numa noite portenha de frio, com todas as medalhas e honras, suspeito que queira proclamar uma ditadura. Ele contabiliza mortos de guerra. Eu mostro as cicatrizes. Atiro beijos fatais quando ele senta do outro lado do sofá. Ele planeja um golpe de Estado, quer tomar o poder, criar um ato institucional e usar a censura. Não, nada de decotes ou vestido.


Um dia desses fui embora e ele me pediu um beijo. Respondi:


- Claro, meu amor, jamais te negaria um beijo de despedia.
- Beijo de despedida não, isso é proibido. É beijo de até logo.


Fui censurada. Nada de acenos com lenços brancos ou adeus romântico. Sem melancolia nos lábios. Sem dramas de mentirinha. Censura! Beijo de até logo não tem o glamour do beijo de despedida, mas tem a garantia da volta.


Eu, na minha anarquia amorosa, sou agora presa política. Presa nele. E na ditadura aboliram o habeas-corpus.


Obrigada, Costa e Silva!








Alegria, AlegriaCaetano Veloso


Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...

Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...




Comentários

Carmen disse…
Parabéns,belo texto!

Adorei.
Carlos disse…
Por que não??? Por que não???
dentovida disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Diogo disse…
belíssimo texto!
censurado!

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