terça-feira, 12 de junho de 2012

namorado


Um namorado não é o cara que leva ao cinema. É o cara que conta os filmes que marcaram a vida, reproduzindo as cenas, as falas, contando do gato que fala, do moço que amava a moça que casou com outro e fim. Não é o cara que pega na mão apenas pra passear na rua, mas pra conduzir até o sofá, pra fazer um carinho, pra levar pra cama. É o homem que não se contenta com a mão, pega o pé, pega no pé, implica com meus modos pouco românticos e essa maneira descomportada de ser que eu preciso educar sem perder o charme.

Um namorado não é aquele que faz três tipos de risoto, é o que faz arroz de saquinho para acompanhar qualquer coisa que eu inventar na cozinha. É o homem que elogia o almoço que eu levei dez minutos para preparar, que ajeita os talheres, busca a água e os guardanapos. É quem sabe que eu gosto da minha taça com apenas dois dedinhos de vinho e não cheia, que eu tenho mania de água, de doce e odeio abacaxi. Um namorado não é o cara que abre a porta do carro pra mim, mas dirige na cidade porque sabe que eu não gosto e me deixa dirigir na estrada porque sabe que eu amo.

Um namorado não é aquela pessoa que me diz eu te amo quando estamos juntos. É o que diz, manda mensagem, escreve nas folhas dos livros, nos bilhetes e mostra. Mostra quando me olha colocando a roupa pela manhã, quando me fala “olha, tu é ruiva!” como se fosse novidade, que me canta música brega mentindo que é de sua própria autoria, que canta se essa rua fosse minha quando se perde numa cidade desconhecida. É o homem que combina de ir para a praia e gosta quando acabamos na serra. Ele me dá flor sem ter motivo. Ou porque qualquer vontade é motivo. Acredita nas minhas teorias e me combate com as dele. É o que perde no dominó, que rouba sem querer, que me pede pra dizer que sei que ele me ama e que me pede pra dizer “fica”quando ameaça ir embora da própria casa. É o homem que educa o meu filho e me faz dormir. É quem me diz que nem sabe por onde começar. Ele ri do meu jeito, pede que eu repita palavras e não perde a piada.

Um namorado não é o homem que leva aos restaurantes mais finos. É o homem que come pastel e toma vinho numa mesinha de plástico com a mesma alegria que tem em qualquer lugar do mundo. É o cara que dança na sala, no quarto, na cozinha. Que me espera atrás da porta para eu nem precisar tocar a campainha. Que tenta sempre carregar as minhas tralhas para me ouvir dizendo que consigo fazer tudo sozinha e três minutos depois pedir ajuda para arrumar a franja. Me faz chorar com letra de música sertaneja. Deixa Cartola rouco. Começa a noite om o mesmo jazz. Declara-se com Lulu Santos, Paralamas e The Cure. É o homem que me empresta um pijama!

Meu namorado não é o homem que escolhe perfumes franceses, mas decora e adora cada um dos meus cheiros. É o cara que morre espirrando e ainda assim ama meus gatos. Meu namorado é um homem cordial e educado, que trata bem as pessoas, reza comigo antes das refeições, admira a natureza e pede licença.

O meu namorado é a pessoa que eu jamais pedi. É o homem que eu nunca quis amar, porque nunca conheci. Não é o ideal porque nunca idealizei. O meu namorado é o homem que me ama apesar de mim. É o homem que eu amo com tudo. É a pessoa pra quem eu conto segredos, confesso pecados, assumo defeitos e faço promessas. O meu namorado é o melhor porque é meu e isso basta.

É quem afoga meu aborrecimento matinal num banho colorido de banheira.  





Deixa acontecer



Ah, não tente explicar
Nem se desculpar
Nem tente esconder
Se vem do coração
Não tem jeito, não
Deixa acontecer

O amor é essa força incontida
Desarruma a cama e a vida
Nos fere, maltrata e seduz
É feito uma estrela cadente
Que risca o caminho da gente
Nos enche de força e de luz

Vai debochar da dor
Sem nenhum pudor
Nem medo qualquer
Ah, sendo por amor
Seja como for
E o que Deus quiser





TRILHA SONORA:


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