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pré-saudade: parte III


Todo o casal tem pequenos rituais de intimidades. Coisinha nossa, que pra quem vê de fora não faz o menor sentido. É um tipo de piada interna, os dois se olham e entendem. Sabem do que estão rindo, sabem o que significa a virada de olho.

Todos os dias pela manhã, eu mando mensagem de bom dia. Sempre acordo antes. Quando dormimos juntos, dou bom dia sussurrado, abafado entre as cobertas, convido pra acordar junto. Ele sempre responde que sim, mas faz ao contrário. Eu sei. E permito a enganação matinal pra poder incomodar. Permito para poder organizar o café da manhã, comprar o jornal e abrir as janelas. Fazer tranças no cabelo. Escrevo bilhetes pela casa, penduro uns na geladeira.

Este é um clichê que eu amo. Geladeira é mural. Quadro de anúncios da cozinha, classificados, outdoor! Na infância, a geladeira era galeria de arte, pendurava todos os desenhos, picotes e montagens. Na adolescência era boletim da escola, eu pendurava as notas boas para me exibir. Meu pai pendurava as minhas provas de química para eu estudar mais. Conheço gente que faz da geladeira álbum de fotografia!

Eu deixo bilhetes.

Meu bom dia por mensagem é um bilhete. Na ausência de uma geladeira, o celular. Esses dias choraminguei:
- Amor, como vou te dar bom dia a partir da semana que vem?
- Good morning, amor! Assim...

O bom humor dele soluciona meus problemas. Agora só me resta calcular o fuso. 




Disfarça E Chora
Cartola

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outra
Oh! triste senhora
Disfarça e chora
Todo o pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E o seu pranto oh! Triste senhora
Vai molhar o deserto
Disfarça e chora

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