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Mostrando postagens de Julho, 2012

centro

O centro é um lugar curioso, sempre igual, nunca igual. Pessoas gritam, esbarram, pisam, atravessam. Porto Alegre tem uma cidade dentro de outra cidade entre a Usina do Gasômetro e a Rodoviária. Quando viajo para outras cidades, além de escutar a rádio local, costumo gastar uma hora caminhando. Conheço algumas ruas, cumprimento as árvores, aprecio a brisa, identifico cheiros, furto sobras, fotografo janelas, analiso desconhecidos. Faço isso para criar intimidade com o local, não tem muita graça ser uma cigana passageira. Sou inquieta, porém carente. Minha vida de andarilho justifica a atenção que busco. Preciso me sentir abraçada, merecedora da chave da cidade. Confesso que pouco fiz isto na vida com o Centro de Porto Alegre. Prometo remir os dias de indiferença com duradouras caminhadas atentas. As pedras da Rua da Praia conhecerão o bater dos meus saltos.
Estou encantada com o Centro. Desligo o som porque preciso direcionar meus ouvidos para o que dizem as pessoas. Algumas atacam na…

perene

Infinito. Descobri nele o meu infinito. Soube encontrar o início, os milhares de caminhos, rotas alternativas, jamais o fim. Quanto mais encaro, mais me perco para que ele me encontre mais e mais e mais. A busca dele por mim também é infinita. Conhecer tantos dele quanto se apresentem e amar todos. Querer cada um deles, mil vezes ser apresentada aos mesmos que ele é. Mil vezes beijar todos, todas as manhãs.
Beber do vapor que os cabelos deixam espalhar depois do banho, enquanto ele desarruma os fios. Desalinha o figurino porque eu gosto assim, desalinha a minha vida porque sabe que eu nunca tive meio termo. Não preciso de centro certo ou limite. Preciso do pouso que tenho nele. E sei meu lugar seguro desde as primeiras horas, desde o primeiro carinho de pétala recente antes da pupila acordar abrindo a janela para a luz. E ele me distrai pelo caminho, me atrai pelo contorno e pela curva desenhada enquanto se estica na cama. E eu esguia, lânguida, terna, amena de brisa, madrugando mais t…

tangerina lírica antipoética ou apenas como tudo começou (sem prólogo)

“Qual tua hora favorita do dia?” perguntou o pastor durante a prédica. Eu não saberia responder. Meus dias não são fracionados em horas, eu vivo de momentos. Já expliquei mil vezes a dificuldade que tenho em me adaptar com o tempo cronológico, nossos ponteiros tic-tacam descompassados. Seleciono momentos como favoritos. Sou capaz de reviver alguns fechando os olhos e rindo sozinha. Escrevo muitos deles, cozidos ou crus, temperados ou não. Tenho essa liberdade de inventar a realidade que se esqueceu de acontecer. Escrevo para confessar. Não quero desabafar, nem me libertar, quero mesmo é me prender. Minhas histórias são a minha vida, em qualquer hora, em qualquer tempo. 

Confesso a intimidade sem maquiagem das minhas ideias. Meus pensamentos têm pouco pudor. Estão sempre fugindo, exibidos, pelados. Pedem exílio nesses parágrafos. Algumas lembranças não se contentam em morar apenas dentro de mim. É tempo de saudade, estação em que se muda o endereço. 

Como acontece no verão, nas férias, e…

demasia

Durante o inverno consumo mais café. Não porque é mais difícil ficar acordada, mas porque adoro ser acompanhada por uma caneca quentinha em tudo que faço. Em casa ou no escritório, uso o calor da porcelana como luvas. Antes de dormir, um chá. Também como mais chocolate. Percebi que quase triplico a quantidade. Por sorte sou ruim de engorde. Sou fuzilada por olhares. Detesto a pergunta “pra onde vai tudo isso?” Mais respeito com meu chocolate, ele não é um “isso”. Meu organismo já está acostumado com meus exageros. 

Nasci superlativa. 

Sempre ouvi a minha mãe dizendo que sou a rainha do exagero. Gosto muito, quero mais, mil vezes, incontáveis coisas, nada pra mim é um ou dois. Chego perto de ser teatral. Às vezes sou. Às vezes até apelo para o drama. Prometo nunca mais. Não me contento em morrer vez que outra, morro todos os dias. Agora, de saudade, ando morrendo todas as horas. Umas mil vezes. Ou mais. 

Tenho muitas pressas. Tenho muitas manias. Muito tudo. Sou curiosa. Agitada. Escrevo …