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centro


O centro é um lugar curioso, sempre igual, nunca igual. Pessoas gritam, esbarram, pisam, atravessam. Porto Alegre tem uma cidade dentro de outra cidade entre a Usina do Gasômetro e a Rodoviária. Quando viajo para outras cidades, além de escutar a rádio local, costumo gastar uma hora caminhando. Conheço algumas ruas, cumprimento as árvores, aprecio a brisa, identifico cheiros, furto sobras, fotografo janelas, analiso desconhecidos. Faço isso para criar intimidade com o local, não tem muita graça ser uma cigana passageira. Sou inquieta, porém carente. Minha vida de andarilho justifica a atenção que busco. Preciso me sentir abraçada, merecedora da chave da cidade. Confesso que pouco fiz isto na vida com o Centro de Porto Alegre. Prometo remir os dias de indiferença com duradouras caminhadas atentas. As pedras da Rua da Praia conhecerão o bater dos meus saltos.

Estou encantada com o Centro. Desligo o som porque preciso direcionar meus ouvidos para o que dizem as pessoas. Algumas atacam na rua perguntando se quero cortar o cabelo. Um outro perguntou se eu precisava de chip para celular. Respondi que não. Ele continuou:

- E um tênis Naquiem?
- Não, senhor.
- Ardidas?

Por cautela saí pela tangente antes que levasse para casa algum produto exclusivamente patenteado pelas marcas que os populares criam. De uma mesma pessoa você pode comprar uma coisa que pisca, uma coisa que grita e outra que se mexe. O cidadão que vende ioiô também vende cabo para carregar telefone no carro, meias felpudas e trufas de chocolate. Garante o saboroso recheio de morango com leite condensado. Sim, tudo eu pergunto.

Em uma portinha tem artigos religiosos, na outra filme adulto. Acredito que todos convivem bem. Tem churros, maçã do amor, cachorro quente convencional e outros tantos alternativos. Tendinha de cocada, rapadura, paçoca, marmelada, goiabada, figada e qualquer outra fruta que com açúcar possa ser digna de carregar o sufixo “ada”.
Ah, tem pombas. Mais educadas do que umas que me perseguiram numa calçada de Camaquã há um ano. As pombas do Centro são conscientes, fazem parte da paisagem. Olhando bem, elas fazem cara de paisagem. Não mendigam. Têm um ar aristocrático, caminham como se usassem sapato recém engraxado. Rebolam entre as cadeiras do Chalé da Praça XV. Elas não gritam entre si, cochicham zelando pela paz do almoço das pessoas.

E tem o Mercado Público. Lindo. Cada poeira é bonita. As antiguidades, os livros usados, as taças iguais às da minha avó, o bule esmaltado, a renda engomada, nem sabia o que eu olhava primeiro. Telefone de disco também tinha. Quase comprei uma máquina analógica para brincar com lomografia! Tem tudo. Tudo de tudo. Maçã seca, biscoito de polvilho, tâmaras e damascos. Banca só de linguiça e queijo. Até loja de peixinhos que pensei que nem existisse mais, tem. As pessoas que vão ao Mercado Público parecem mais vivas. Tem mocotó e tem sushi. O moço que empurrava o carrinho de lixo assoviava Roberto Carlos.

Durante um sorvete de maçã verde apenas analisei a cena. Quadro em movimento. Tudo se encontra, até promoção de ilusão na Banca 13. 




O moço do carrinho de lixo estava assoviando a música que postei abaixo. Da estação Mercado até a Canoas fiquei pensando em trezentos porquês possíveis. Criei mil histórias. Várias desilusões. 

Por isso as ilusões deviam estar em promoção. 

(PS.: Eu não desço na Canoas, apenas começo a prestar atenção na linha porque esses dias fiquei distraída, pensando se o tio da touca sentado no banco da frente era careca ou não. Quase parei em São Leopoldo.)

Falando Serio
Roberto Carlos

Falando sério
É bem melhor você parar com essas coisas
De olhar pra mim com olhos de promessas
Depois sorrir como quem nada quer

Você não sabe
Mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez
E tenho medo de fazer planos
De tentar e sofrer outra vez

Falando sério
Eu não queria ter você por um programa
E apenas ser mais um em sua cama
Por uma noite apenas e nada mais

Falando sério
Entre nós dois tinha que haver mais sentimento
Não quero seu amor por um momento
E ter a vida inteira pra me arrepender

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