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tangerina lírica antipoética ou apenas como tudo começou (sem prólogo)





“Qual tua hora favorita do dia?” perguntou o pastor durante a prédica. Eu não saberia responder. Meus dias não são fracionados em horas, eu vivo de momentos. Já expliquei mil vezes a dificuldade que tenho em me adaptar com o tempo cronológico, nossos ponteiros tic-tacam descompassados. Seleciono momentos como favoritos. Sou capaz de reviver alguns fechando os olhos e rindo sozinha. Escrevo muitos deles, cozidos ou crus, temperados ou não. Tenho essa liberdade de inventar a realidade que se esqueceu de acontecer. Escrevo para confessar. Não quero desabafar, nem me libertar, quero mesmo é me prender. Minhas histórias são a minha vida, em qualquer hora, em qualquer tempo. 


Confesso a intimidade sem maquiagem das minhas ideias. Meus pensamentos têm pouco pudor. Estão sempre fugindo, exibidos, pelados. Pedem exílio nesses parágrafos. Algumas lembranças não se contentam em morar apenas dentro de mim. É tempo de saudade, estação em que se muda o endereço. 


Como acontece no verão, nas férias, eu me mudo para o nível do mar. Funciono melhor com a maresia. E foi assim que ele resolveu atravessar a rua, do lado dos números pares para o lado dos números ímpares. Encantado. Encantador. Verão com noite de chuvisco gelado, ele chegou meio úmido. Não se importou que eu abri o vinho e rachei a rolha. Nem com o meu jeito afobado, fugindo pelos cantos dos olhares. Conversa emaranhada, mais do que o meu cabelo. Brinquei que precisava usar xampu para cabelos excêntricos. Reclamei que o sol faz meu ruivo virar tangerina. Ele me chamou de linda, pegando na minha mão. Fez um carinho discreto, quase tímido. Disse que ruivo é a cor mais bonita. Nem disfarcei que fiquei sem jeito. Passou rápido porque comecei a explicar que na faculdade fazíamos uma simpatia para a chuva parar quando precisávamos de sol: colocar um ovo no muro. Falei rápido, quase sem puxar o ar. 


Ele quis saber se eu havia feito isso. Apontei para o muro do terraço, onde estava o ovo, desde às três da tarde. Três da tarde não é a minha hora favorita do dia, mas foi uma boa hora para ir até o muro e largar cuidadosamente um ovo de galinha. Tive o zelo de encontrar uma posição que o vento não derrubasse. Em segundos estávamos na frente do muro, às gargalhadas porque ele havia colocado também um ovo. Agora tínhamos dois ovos no muro - dois ovos e muitas piadas até hoje. Quem diria que a primeira coisa que tivemos como nossa foi isso. Eu juro que no outro dia não choveu e fez um sol lindo. Mas antes disso, no meio do chuvisco, no terraço, na frente do muro, na frente dos ovos, mudou o tempo entre nós. Ele pegou de novo a minha mão com a dele, depois a minha boca. Com a dele. 


E eu só permiti porque nunca na vida alguém preferiu me beijar em vez de questionar minhas bobagens personalizadas. 


Dois perdidos se encontrando. 


Eu que sou mais de observar, que prefiro impor meu olhar lírico sobre tudo, mais do que apenas assistir os fatos, duvidei que era o que é. E se é. Porque depois do beijo, de mais outro e mais uns tantos, ele falava comigo e eu fui viajar. Ele nem imagina, mas peguei uma estrada de curva nos caracóis dos cabelos dele, segui com os olhos o contorno da boca e do maxilar, desenhando com a ponta dos dedos no granito. Depois desenhei de verdade no papel. Em um dos braços, perto da dobra, uns pelos crescem na contramão dos outros. O lábio inferior do lado direito tem uma parte mais carnudinha, que é onde encaixa melhor quando ele beija o meu ombro. Não poderia resumir essa noite, romance não tem prólogo. Aliás, amor só tem prólogo depois que acaba. 


Demorei em ceder e voltar a cabeça para dentro do apartamento. Precisei entender qual era o assunto no sofá. Sobre o que falávamos mesmo? Sobre o que ele falava? Mudei de rumo a conversa e perguntei o que era a tatuagem no braço. Ele disse. Eu ainda não sei. Não sei, porque eu prefiro imaginar. Quando ele me irrita diz: desculpa, vem aqui e me abraça. Quando vamos dormir diz: boa noite, eu te amo. Quando estou meio infantil imagino desenhos: um coelho de cabeça para baixo, uma cadeira e uns arbustos, como uma tela do Miró. Eu decidi que ele era mais simpático do que eu pensava. Mais intrigante. Mas não foi aí ainda que eu comecei a me apaixonar. Mesmo com as ameaças de que nós iríamos viver um amor. Mesmo quando ele me disse que eu iria amá-lo. Mesmo com ele dominando o território da sala e ditando a velocidade do ventilador de teto. 


Ele seguiu falando. Contou histórias, me convenceu de absurdos, discordou de mim, apresentou teorias. 


Daí ele contava qualquer coisa sobre a ida do home à lua. Eu abanava meus cílios encarando os olhos de espuma do mar que ele tem. Bêbada de hálito, enlaçada entre abraços, gracejos e sorrisinhos. Pensando se Ico é nome ou apelido, porque ele tem muita cara de Ico independente do nome. Não estava na lua dele, no homem dele. Eu estava na dele. Se foi ou não foi, se foram os russos, os americanos, se não foi ninguém... Só confesso meu lapso de atenção. Saí um pouco do mundo porque tenho este meu jeito poeticamente incorreto de ser. 


Nesse momento que eu guardo entre a segunda ou terceira curva do silêncio que ele fazia ao terminar as palavras, eu pensei: “vai ser um pecado se ele se chamar Frederico.” 


(PS.: notaram o tamanho do título? não foi pra fazer drama, é que não consegui decidir qual expressão usar sozinha...) 







Tangerine
Frank Sinatra

Tangerine, she is all they claim
With her eyes of night and lips as bright as flame
Tangerine, when she dances by, senoritas stare and caballeros sigh
And I've seen toasts to Tangerine
Raised in every bar across the Argentine
Yes, she has them all on the run, but her heart belongs to just one
Her heart belongs to Tangerine
Tangerine, she is all they say
With mascara'd eye and chapeaux by Dache.
Tangerine, with her lips of flame
If the color keeps, Louis Philippe's to blame.
And I've seen clothes on Tangerine
Where the label says "From Macy's Mezzanine".
Yes, she's got the guys in a whirl, but she's only fooling one girl
She's only fooling Tangerine!




Comentários

Aline disse…
Linda! Que maravilha essas tuas palavras, não é apenas paixão, é talento. Queremos livro!
Anônimo disse…
Kuky, que delícia de ler esse. Dia desses eu li uns 4 um atras do outro, nao dava de parar.

Beijo grande e te cuida com a grandalhona, daqui a pouco ela ta ruiva e criando um blog para imitar mais voce. hehe

Laurinha
BETO disse…
Bocuda, livro já. MAGRICELA DEVORADORA DE DOCE, fez falta domingo. Minha mãe fez pudim, contei q vc nao sabe fazer e ela nao acreditou.
BETO disse…
Olha!!!!!Minha futura esposa já comentou. Ela sabe fazer pudim. huahuahua

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