domingo, 5 de agosto de 2012

click


A escada da minha casa representa uma armadilha. Sou vítima constante devido à minha pressa e às minhas meias. Escadas e meias costumam fazer travessuras. Já caí mil vezes. A maioria de bunda. Hoje quase caí. Não fosse o quase seria a queda. Eu estava no quintal quando percebi que havia um gavião pousado em um galho seco de uma árvore. Um gavião grande, descansado, aproveitando a folga.

Corri para o meu quarto, procurando a máquina fotográfica, quando aconteceu minha quase queda. Ao chegar na sacada, ele já se arrumava para o voo, escolhendo a melhor rota. Deu tempo para suspirar, captar o momento com as lentes da memória.

Desde muito tenho por hábito fotografar janelas. Quando criança o fascínio já existia, fotografava, desenhava, recortava nas caixas que seriam as casas de verão das bonecas. Janelas têm ímãs para os meus olhares. Acredito que o amor entre pelas janelas, não pelas portas. O amor pratica travessuras.

Pássaros que as lentes não registraram, janelas, paisagens, flores, árvores que guardo em mim. Fotografar com a emoção revela a imagem além da imagem. O álbum tem cheiro, as exposições têm gostos, sensações.

Ele acorda pela manhã, depois de mim e cola os olhos nos botões da minha camisa. Admira com amor o jeito que me visto. Fotografo a sensação de timidez que me dá, o jeito que me sinto pequena diante de olhos apertados de sono e com tão gigante admiração. Retrato o hálito de quando diz que me ama enquanto adoça minha barriga com as mãos.

Fotografo o som da risada dele para usar quando me lembro das nossas piadas. Quando os objetos das nossas brincadeiras são pessoalizados. Fecho os olhos e posso escutar aquelas pausas que ele faz entre uma e outra partitura de notas abertas. Escuto o jeito que ele funga o ar pelo nariz, depois vem me cheirar. Retrato o áspero da barba por fazer passeando pelos meus ombros e a voz que sussurra decretando que sou dele. Retrato a altura da sombra que ele faz na parede quando bate a claridade do final de tarde. E os dedos tatuando nossos nomes no espelho embaçado do banheiro. 

Antes que ele saísse do meu lado suspirei durante o abraço de despedida. Dentro dos braços dele, enlaçada,  olhos fechados, fotografei o cheiro que ele guarda entre a orelha e a nuca, por baixo das últimas curvas dos caracóis. Usei esta lembrança ontem, na hora de dormir, depois que falamos e juramos tudo que podemos jurar. Depois de planos, derramamento de palavras, sentimentos nus em cima do sofá.

Usei este cheiro para borrifar na fronha do travesseiro que emprestei para a saudade passar a noite. Ao meu lado, a saudade tem ocupado o lugar do corpo dele. 




In My Place - coldplay


In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah
I was lost, I was lost
Crossed lines I shouldn't have crossed
I was lost, oh yeah

Yeah, how long must you wait for it?
Yeah, how long must you pay for it?
Yeah, how long must you wait for it?
For it

I was scared, I was scared
Tired and underprepared
But I waited for it
If you go, if you go
Then Leave me down here on my own
Then I'll wait for you, yeah

Yeah, how long must you wait for it?
Yeah, how long must you pay for it?
Yeah, how long must you wait for it?
For it, yeah

Sing it please, please, please
Come back and sing to me
To me, me
Come on and sing it out, now, now
Come on and sing it out, to me, me
Come back and sing it.

In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah

4 comentários:

Marcela disse...

Quase senti inveja. Escreves bem.

Cármen Silvia Quadros disse...

Muito lindo. Admiro a maneira como retratas na escrita teus sentimentos e percepções.Parabéns!

BETO disse...

BETO
Bocuda, quando viaja? Dia desses me peguei pensando em todas as nossas conversas e na nossa vida de amor,relacionamento, pessoas q vc deixou, q eu deixei, pessoas q nós amamos, amor é agora. Eu estou amando a Laura. Vc está amando o Ico. Agora estamos bem, melhores q nunca. Nesses 29 anos de amizade, nunca nos vimos tão bem.
BJ

Kelly disse...

Vejo teus desenhos, twitter, blog e acho que tu é superdotada. Para ajudar ainda é linda de morrer.
Sou fã.
Beijos, Kelly Cristina