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Mostrando postagens de Setembro, 2012

a defesa

Quando meu pai era criança falava alemão fluente. Quando adulto, aprendeu a falar inglês para morar fora do Brasil. Uma tarde, conversando com o meu bisavô – que só entendia alemão – percebeu que misturava as duas línguas. Hoje domina o inglês, quase não lembra do alemão. Por quê? Porque linguagem é uso. A nossa comunicação é baseada em símbolos de palavras ou gestos. Surgem consciente ou inconscientemente, mas sempre de acordo com o que usamos. Por isso é possível desaprender. Deseducar um hábito nos faz abandoná-lo. Às vezes ele escapa em um ato falho. 
A falta de insistência contribui para o abandono. 
Eu era fluente em inabilidades. Tanto em falar quanto em agir. Era omissa em ficar. Fugia. Nunca escondi, sempre falei a respeito, sempre alertava sobre a possibilidade de um sumiço. Muitas vezes terceirizava a culpa para não assumir a minha total falta de tato em relacionamentos. E a preguiça de ser diferente. O comodismo de não se envolver é tentador. 
Fugi porque eram os finais merec…

quer namorar comigo?

Meu filho pediu a coleguinha em casamento para o pai dela, mas não a pediu em namoro. Convencionou que são namorados. Ela não se opôs e eu quase morri. Contaram-me que ainda se pede em namoro. Eu não vi, mas me contaram que acontece. Há horas não tinha notícia de um pedido de namoro. Assim, formalmente perguntando: Você quer namorar comigo?
Outro dia um casal de amigos comentava que não tinha data para comemorar um ano de namoro, mas que devia ser por perto do carnaval. Passaram a se chamar namorados. A cláusula de exclusividade já tinha sido anteriormente convencionada. Lembro quando ele foi até a praia da Ferrugem. Destemido e decidido a voltar de lá com ela. Ofereci um tacape, um sonífero, um raio de amnésia. Ofereci cativeiro porque duvidei do sucesso, fiz planos de sequestro. Ofereci o ombro amigo caso voltasse despedaçado. Voltaram namorando sem pedido, sem aceite.
Desde sempre não se sabe quando o amor começa. Ou como. Existe um gatilho para amar? Uma bala certeira que nos faz …

desguardando

Limpar os armários não é uma terapia para mim. Já escutei alguém dizendo que sim, que relaxa. Eu não. Relaxo com banho de banheira, música, yoga, meditação, alongamento, cafuné. Arrumar armários, eu faço por obrigação. Passei as prateleiras em revista nas últimas semanas, o que resultou em caixas e mais caixas de artigos para a doação. Roupas, brinquedos, livros didáticos, material de informática. Tudo bom e funcionando, porém, sem uso. Apenas guardados. Sobraram gavetas vazias.
“Guardar, estraga”. Já disse Arnaldo Antunes. A frase rega minha boca para nascer um sorriso de quem concorda. Não sou de guardar o que está bom. O ruim é resto e resto vai para o lixo. Dou uso ao que é bom.
Há tempos tive um baú de guardados. Era pra onde varria algumas mágoas e cicatrizes. Aquilo que me dava preguiça de pensar, os nós da garganta que não desatei, novelos sem alinhavo. A vida melhorou depois que fui aprendendo a esvaziar o baú. É provável que aquilo que se varre volte. O que voltava me deixava…

bandeira branca, amor

Meu sonho de consumo era uma cozinha com trincheira. Com arames farpados em volta, parados e artilharia pesada ameaçando ataque de qualquer semovente que ousasse tentar ultrapassar a porta. Não, não sou uma neurótica da Primeira Guerra Mundial, nem uma estrategista francesa. De francesa só tenho a paixão por beber um bom Bordeaux! Sou apenas uma convicta pilota de fogão. Amo cozinha. De todas as funções de Amélia, cozinhar é a que eu mais sei, a que eu mais gosto.
Eu adoro modificar receitas antigas, inventar coisas diferentes, testar ingredientes novos. Estou mexendo uma panela, largo, vou na horta, busco uma coisinha e melhoro o sabor. Sou do improviso culinário. Admito minhas fraquezas: pudim e arroz solto, não sei fazer. Confesso sem medo a arte de transformar todos os restinhos de geladeira em banquete. Acontece que na minha casa todos são assim. Então, desde que alcancei pela primeira vez no fogão, com ajuda de um banquinho para esquentar leite para o meu próprio mingau de aveia…