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bandeira branca, amor


Meu sonho de consumo era uma cozinha com trincheira. Com arames farpados em volta, parados e artilharia pesada ameaçando ataque de qualquer semovente que ousasse tentar ultrapassar a porta. Não, não sou uma neurótica da Primeira Guerra Mundial, nem uma estrategista francesa. De francesa só tenho a paixão por beber um bom Bordeaux! Sou apenas uma convicta pilota de fogão. Amo cozinha. De todas as funções de Amélia, cozinhar é a que eu mais sei, a que eu mais gosto.

Eu adoro modificar receitas antigas, inventar coisas diferentes, testar ingredientes novos. Estou mexendo uma panela, largo, vou na horta, busco uma coisinha e melhoro o sabor. Sou do improviso culinário. Admito minhas fraquezas: pudim e arroz solto, não sei fazer. Confesso sem medo a arte de transformar todos os restinhos de geladeira em banquete. Acontece que na minha casa todos são assim. Então, desde que alcancei pela primeira vez no fogão, com ajuda de um banquinho para esquentar leite para o meu próprio mingau de aveia – com canela - alguém se intromete. Mãe, pai, irmã, gatos. Nunca existiu privacidade na minha vida culinária. “Vai empelotar”, dizia minha mãe.

Esses dias fui fazer couve: “corta mais fino, tira o talo”. Outra hora fui fazer cobertura para o bolo: “mexe em sentido horário para não atrasar a vida”. Sem falar no meu pai que sempre diz que carreguei na pimenta quando eu nem olhei para o moedor. “Ah, então foi gengibre”. Outra coisa: não posso virar as costas que escuto as tampas das panelas. Minhas panelas não são Big Brother, não quero espiadinhas!

Estudei na faculdade de psicologia que a cozinha é a representação da família dentro da casa. Acredito. A minha é minúscula e todos se aglomeram ali pra conversar. Mas nem mesmo essa apelação psicológica e sentimental me fez desistir do meu sonho de consumo. Talvez um segurança na porta já fosse suficiente... Porém, a apelação bélica me parece mais lírica. Em vez de avental, panóplia, escudo, elmo!

Eu gosto de paz e sossego quando cozinho. Prefiro a companhia de uma taça de vinho, uma musiquinha para dançar entre um e outro ingrediente. Por isso no meu aniversário, em janeiro deste ano, resolvi cozinhar na cozinha da parte dos fundos. Não fazia um mês que eu estava namorando e ele viria para o jantar. Inventei um filé no forno, com cogumelos, espinafre. Fiz um arroz levemente picante, uma salada. Fiz sobremesa. Servi vinho devidamente harmonizado. Ele amou. Comeu e repetiu. Depois repetiu mais uma vez. Até hoje se derrama em elogios.

A segunda vez que fui cozinhar para ele, não foi na minha casa. Foi no apartamento dele – não vou comentar sobre a completa ausência de utensílios básicos e necessários. Ele queria filé com molho de mostarda, me propus a fazer. Saímos, compramos os ingredientes, voltamos, abrimos um vinho. Eu, convicta da confiança culinária que ele depositara em mim, nunca pensei que ele fosse palpitar na cozinha. Pois foi eu começar o molho, ele saltou: “vamos colocar essas mostardas aqui também”. E borrifou dentro da minha panela dois restos de mostarda indigentes que moravam há anos a porta da geladeira. Mostardas indigentes na MI-NHA – a separação das sílabas socorre o drama – panela de molho.

Quase confessei que era vegetariana! Não por desaforo, mas por intimidade mesmo. Eu camuflava meu vegetarianismo porque acho que isso sempre assusta as pessoas. Isso é uma informação que só dou depois de um tempo de convívio. É como dormir de meias, ninguém dorme de meias na primeira vez que passa a noite juntos. Hoje em dia, meu namorado coloca as meinhas nos meus pés geladinhos à noite.

Essa dedicação amorosa vem com a intimidade.

É a intimidade que permite certas ousadias dentro dos relacionamentos. Como, por exemplo, se transformar no monstro da espuma durante o banho, admitir que usa sempre o mesmo tipo de cuecas ou jogar dois tipos de mostardas esquecidas dentro da minha panela. Agora a pior parte: ficou ótimo. Ficou tão bom que eu repeti!

Depois disso, levantei a bandeira branca para ele. Na cozinha, é minha tropa aliada. Pode fazer festa nas minhas panelas, mexer, borrifar o que bem entender. Sou conivente. Quando cozinhamos juntos, tudo fica melhor. Somos ótimos juntos!

E quer saber? Assim também é na minha vida. O tempero dele deixa tudo com mais sabor. 


Delícia da vida! 

Delícias do Grand Central Market





Janta
Marcelo Camelo

Eu quis te conhecer, mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade

Eu quis te convencer, mas chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir
Pode ser a eternidade má
Eu ando em frente pra sentir saudade

Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks that I am sad
I'll take a ride in melodies and bees and birds
Will hear my words
Will be both us and you and them together

'Cause I can forget about myself
Trying to be everybody else
I feel alright that we can go away
And please my day
I'll let you stay with me if you surrender

Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
(I can forget about myself
Trying to be everybody else)
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
(I feel all right that we can go away)
Pode ser a eternidade má
(And please my day)
Eu ando sempre pra sentir vontade.
(I'll let you stay with me if you surrender)


Comentários

Aline disse…
Você é incrível!
BETO disse…
MAGRELA, BOCUDA, APAIXONADA! ADORO VOCÊ FIAPA. TEXTO DIVERTIDO SEM SER BOBO, MTO INTELIGENTE. SUA INTELIGENCIA É MAIOR QUE A BELEZA OU SEJA É IMENSA. QUE NEM A BOCA DE GAMELA.

BJS COM SAUDADE BETO E LAURA

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