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desguardando


Limpar os armários não é uma terapia para mim. Já escutei alguém dizendo que sim, que relaxa. Eu não. Relaxo com banho de banheira, música, yoga, meditação, alongamento, cafuné. Arrumar armários, eu faço por obrigação. Passei as prateleiras em revista nas últimas semanas, o que resultou em caixas e mais caixas de artigos para a doação. Roupas, brinquedos, livros didáticos, material de informática. Tudo bom e funcionando, porém, sem uso. Apenas guardados. Sobraram gavetas vazias.

“Guardar, estraga”. Já disse Arnaldo Antunes. A frase rega minha boca para nascer um sorriso de quem concorda. Não sou de guardar o que está bom. O ruim é resto e resto vai para o lixo. Dou uso ao que é bom.

Há tempos tive um baú de guardados. Era pra onde varria algumas mágoas e cicatrizes. Aquilo que me dava preguiça de pensar, os nós da garganta que não desatei, novelos sem alinhavo. A vida melhorou depois que fui aprendendo a esvaziar o baú. É provável que aquilo que se varre volte. O que voltava me deixava em desagrado. Ciscos das cicatrizes, pó de mágoa. Manchas de lágrima em alguma página virada. A palavra solta ao vento com peso de pedra na vidraça. Hoje não guardo as mágoas nem na caixa de entrada dos e-mails. Lixo. Não gostei, não preciso. Fora.

Mas o que é bom não se guarda, pra não estragar. O que é sincero, verdadeiro e forte merece ver o sol. Merece deixar o vento levar além, ganhar o mundo. É voz de veludo levada, multiplicando a sensação de coração quente. É romance lido no pé da árvore no início da primavera. É o cheiro do jasmim na noite. O cheiro do amor na ponta dos dedos para levar o dia inteiro junto.

Confio nisto, acredito que esta seja a pedra fundamental da bondade, ensinada desde os tempos bíblicos. Multiplica a palavra boa. Não guarda o bom exemplo, transmita o bem. Demonstrar afeto e amor causa epidemia. Dá nova dimensão. Amor se pendura no varal para que possa ir além. Amor leva de brinde a felicidade onde nem se imagina.

Sou fã da felicidade alheia. Gosto das pessoas sorrindo. Acho bonito quando me contam sobre a paixão, quando as mãos ficam inquietas porque estão simulando o momento. Lembrar é viver de novo.

Hoje estava lembrando do quanto é bom ficar de bobeira com quem eu amo. Pensando na maneira como os assuntos fluem e variam. Iniciamos conversando sobre música, acabamos em piadas de pontinhos, sendo que antes falamos de política e guerra. Trocamos confissões ao pé da boca, entre um e outro beijo.

Nosso amor é explícito. Já fomos descobertos pela família na maneira como nos olhamos durante o jantar. Espalhamos nosso amor para ele ir além. É a conquista do território. Mesmo nosso silêncio entre suspiros espalha amor. Assina a certeza: é amor.

Não guardamos o que é bom.

Nos doamos o que temos de melhor. Somos cúmplices, inclusive nessa dor da saudade. Descobrimos que entre nós há honestidade de sentimentos e verdade de paixão. Que isso multiplique e vá além. Jamais conseguiremos guardar, é muito grande, não cabe no nosso lar. 

Por isso ganhamos o mundo, semeando os grãos de todos esses sentimentos por onde passamos, passaremos e passarinhos. 





Fomos feitos um pro outro, podiscrê. 





Pequeno pê ésse: a frase do Arnaldo Antunes faz parte de um livro dele que é só cartazes de frases. Ele organizou as frases com as palavras em posições que podem ser lidas de qualquer maneira. O nome é PALAVRA DESORDEM. E tem uma outra frase que eu adoro: VIVER NÃO TEM VOLTA.  Já agradeci a Deus por isso! 

Música que eu aaaaaaaaaaaamo:

Pedido De Casamento
Arnaldo Antunes

Eu sei que a gente ia ser feliz juntinho
Pra todo dia dividir carinho
Tenho certeza de que daria certo
Eu e você, você e eu por perto

Eu só queria ter o nosso cantinho
Meu corpo junto ao seu mais um pouquinho 
Tenho certeza de que daria certo
Nós dois sozinhos num lugar deserto

Se você não quiser
Me viro como der
Mas se quiser me diga, por favor
Pois se você quiser
Me viro como for
Para que seja bom como já é

Eu sei que eu ia te fazer feliz
Dos pés até a ponta do nariz
Da beira da orelha ao fim do mundo
Sugando o sangue de cada segundo

Te dou um filho, te componho um hino
O que você quiser saber eu ensino
Te dou amor enquanto eu te amar
Prometo te deixar quando acabar

Se você não quiser
Me viro como der
Mas se quiser me diga, meu amor
Pois se você quiser
Me viro como for
Para que seja bom como já é


Comentários

Existem gavetinhas que nunca serão mexidas, abertas ou compartilhadas. Roupas que não poderão ser empilhadas...entendem? Como casal esta é a essência! Sorte casal! Amor sempre!
Fabi disse…
Só sei que vou neste casório.
Daniel disse…
É um sentimento raro este amor. Acompanho o blog a tempos e nunca comentei, parabéns ao casal. Ver o que vocês vivem faz acreditar que ainda é possível amar, confiar e dividir.
Carlos disse…
Kukynha... Como diria uma amiga minha: MERECE!

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