sábado, 27 de outubro de 2012

bem me quer, mas não me quer


Aprendemos a dizer coisas quando a gente não quer, mas quer, sabe? Ontem assisti a cena. Os atores principais eram adolescentes. Um casal bem bonitinho. Ela era expressiva, tinha cabelo preto, olhos pretos profundos, arredondados, cílios de leque e uma boca de coração. Ele loirinho, cabelos curtos, olhos verdes, sardas, magrinho,com a boca mais fina em cima, alguns tímidos sinais da barba que resolveu esperar um pouco mais para crescer. Ele falava, ela acompanhava a boca dele com os olhos, como se lesse as palavras. Ele estava com o corpo inteiramente virado pra ela. Ela só com a cabeça, às vezes nem isso. Apoiava na parede, olhando pra cima tentando impedir as lágrimas de vazarem dos olhos.

Adoro a adolescência, gostei da minha com todas as minhas mortes quase diárias. Morria do café da manhã até a janta muitas vezes. Morria por amores platônicos, romances seguros e inventados. Falecia por todas as minhas não tentativas. Sofri mais por estes do que pelo primeiro namorado.

O menino estava explicando que não queria namorar, mas de um jeito tão apaixonado por ela que uma hora tentou abraçar. Foi repelido pelos dedos longos dela que depois se dedicaram a secar as lágrimas fujonas. Namorados de dezesseis anos se levam a sério. Deveriam, pelo menos. Ouvi ele explicar para ela que o problema era ele, que não queria namorar, mesmo gostando dela. Ela retrucou dizendo que ele era um galinha, porque se gostava dela e não queria namorar, era para ficar soltando penas pela vida. Ele disse que não. Ela disse que então era porque ele não gostava dela. Ele ficou sem argumento. Omitia a verdade. Tentava se convencer da própria mentira. 

Ele gosta dela, esta é a minha sentença. Pelo jeito que tentou um abraço, pelos gestos que tentavam empurrar as palavras, pelo olho que não dava sossego ao contorno doce do rosto dela. Foi atencioso ao retirar um farelo da ponta do nariz dela e um fio de cabelo da boca, preocupado com o conforto das caretas de reprovação. 

Meu veredicto é que não se leva a sério, não leva a sério a experiência, não arrisca. Os amigos devem dizer que é bobagem namorar, os pais devem dizer que é muito cedo e ele preferiu não ir atrás do que quer: ela. Não quer estar ao lado de quem gosta. Ainda não aprendeu sobre felicidade. 

Impressiona a quantidade de pessoas que conheço dispostas a investirem mais esforço para se manterem afastados de quem gostam do que para permanecerem juntos. É mais fácil administrar as frustrações da distância do que as diferenças da proximidade. As desculpas são variadas: quer investir no trabalho, prometeu passar um tempo sozinho, não está num bom momento. Queria entender, meu Deus, no que a felicidade de estar com quem se ama atrapalha? Em que momento da humanidade instituíram essa bobagem generalizada. “Não é você, sou eu”. Calma. Não é assim. É você e esta ideia maluca que ficar longe do amor é melhor.

Por que admitir que o amor melhora é tão ruim? Por que não se admite mudar por amor? Por que o amor não deve trazer felicidade.

Aquele menino ali, tentando convencer a guria de que ele gostava dela, mas não era um bom momento para namorar. Como saber? Como escolher? Por que não tentar? Ele perderá os estudos para o vestibular na grama dos parques da cidade, os bilhetes no caderno, o cinema na tarde, as brigas por causa do futebol, as contas astronômicas dos telefonemas de boa noite. Não sabem mais viver a adolescência. Já são treinados para o desafeto. Sepultam o amor antes que ele tente nascer. Esquecem que o amor já começou. 

E tem gente grande, bem grande, fazendo isso!

Enquanto eu acabava meu café, ela resolveu levantar e ir embora. Ele perguntou alto se podia ligar para ela depois. Ela respondeu “claro que não, te liga”.

Fiquei sentida por um final que nem começou. 
Desligaram o amor. Nem negociaram a conta. 




Mesmo que Mude
Bidê ou Balde

Ela vai mudar,
Vai gostar de coisas que ele nunca imaginou
Vai ficar feliz de ver que ele também mudou
Pelo jeito não descarta uma nova paixão
Mas espera que ele ligue a qualquer hora

Só pra conversar
E perguntar se é tarde pra ligar
Dizer que pensou nela
Estava com saudade
Mesmo sem ter esquecido que

É sempre amor, mesmo que acabe
Com ela aonde quer que esteja
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou

Ele vai mudar,
Escolher um jeito novo de dizer "alô"
Vai ter medo de que um dia ela vá mudar
Que aprenda a esquecer sua velha paixão
Mas evita ir até o telefone

Para conversar
Pois é muito tarde pra ligar
Tem pensado nela
Estava com saudade
Mesmo sem ter esquecido que

É sempre amor, mesmo que acabe
Com ele aonde quer que esteja
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou

Para conversar
Nunca é muito tarde pra ligar
Ele pensa nela
Ela tem saudade
Mesmo sem ter esquecido que

É sempre amor, mesmo que acabe
Com ele aonde quer que esteja
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou




sábado, 20 de outubro de 2012

tatuagem


Sexta-feira é dia de banquete de pessoas. Dia que vou de trem até o centro de Porto Alegre lá pelas cinco e meia, seis da tarde. Ou seja, independente do vagão, nem olho para a rua. Às vezes não dá mesmo por causa da lotação. Os meus olhos curiosos têm preferido investigar as pessoas a observar a paisagem.

Colei o olho em uma mulher de cabelo bem curtinho, camisa de caveira, bolsa de onça e tênis de listras azuis. Tanta tatuagem que parecia um gibi. Melhor, parecia um álbum de figurinha da Copa. E completo! Tinha uma flor roxa, uma caveira com rosa na boca, uma fada, pássaros, estrelas, a palavra paz perdida no pé. Fiquei pensando por que a paz foi parar ali. Depois vi que atrás da orelha ela tinha uma letrinha japonesa. Imaginei que, pelo lugar podia dizer “pulga”. Seria um atestado de desconfiança. A pessoa é tão suspeitosa que resolve tatuar uma pulga atrás da orelha. Fui surpreendida por ela enquanto eu ensaiava um riso solitário. Ela com as sobrancelhas quase juntas, segurei a barra do metrô com a mão esquerda para mostrar a minha tatuagem “olha, somos da mesma tribo!”. Sem amizade, ela me deu as costas e desceu duas estações depois.

Sim, eu fiz uma tatuagem e assim permaneço invicta nas minhas promessas de ano novo. Cem por cento de aproveitamento em contrariar todas as minhas resoluções. Cem por cento de desaproveitamento, no caso. A deste ano era apenas uma: continuar sem tatuagem. Já que todos os anos eu prometia fazer e acabava dezembro sem sinal opcional no corpo.

Este ano fiz. Ico e eu fizemos juntos em Nova Iorque. Foi um dos presentes de aniversário. Fizemos bem ao nosso estilo. Fomos para o Soho. Entramos no estúdio que achamos mais simpático e limpo com uma ideia. Desistimos antes de chegar ao balcão. Reviramos todos os livros do paciente tatuador, optamos por um desenho que não tinha. Certo! Precisamos esperar uns vinte minutos. Resolvemos beber uma taça de vinho em um boteco feito caquinhos. Digo isso porque nada era inteiro: bibelôs sem orelhas, vasos sem borda, sinos de vento desdentados, piano velho, janela com persiana caolha. A única coisa inteira era a dona. Inteiramente doida. Disse que não tinha um vinho. Que tinha dois, três, quatro, mil, quantos quiséssemos. “Um só, dona”.

Bebemos para afogar a desistência. Mentira, isso foi uma desculpa para beber uma taça de vinho às dez da manhã.

Voltamos ao estúdio. Decididos, corajosos e tontos. Falando inglês fluente com o tatuador. Inclusive saímos falando inglês fluente calçada a fora, entre nós, depois de termos feito as tatuagens. E se não fosse Ico perguntar por que não estávamos conversando em português, não tenho ideia de quando pararíamos. Bebemos um vinho bilíngue! E que também fez alguns buracos na calçada que não estavam ali antes. Eu quase caí em todos.

Consegui esconder a tatuagem da minha mãe por um tempo enorme de quatro dias. Ela odeia. Agora simpatiza. Outra hora conto como foi o trauma.

Quem viu logo de cara foi a minha instrutora da Yoga. Mal girei a catraca ela comentou da tatuagem. Contei como fizemos, que era a minha primeira e que Ico já tinha aquelas que eu imagino o sentido dependendo do meu ânimo ou do comportamento dele. Atualmente as tatuagens dele querem dizer “te quero aqui” porque a nossa saudade está demais. Chata mesmo, doendo, incomodando, desrespeitando horários. Incômoda.

Esta semana a minha instrutora de Yoga estava me alongando quando apontou o marido. Ele é fisioterapeuta na mesma academia. “Está vendo ali, nas costas dele?” Eu respondi que sim com a cabeça. Vi. Tatuagem de letrinhas japonesas, como as que o Ico tem. Ela continuou: “Está escrito vou dormir no sofá”.

Não perguntei o que ele fez. Mas espero que logo se tatuem as pazes.

Tatuagem também é cicatriz. 


 A explicação da tatuagem está num post bem anterior. Somos infinitos um do outro.


TATUAGEM - CHICO BUARQUE 
(só perde para as declarações de amor que ele me faz ao pé do ouvido)


Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...

E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

companhia


Tem essa mania de andar no banco do carona sem usar o cinto de segurança. Por mais que eu insista, não usa, preciso eu afivelar. Não que tenha zelo pela sua integridade. Não tenho.  

Acorda junto com o meu despertador, suspira sobre os meus ombros, conta as minhas sardas enquanto me estico na cama. Emaranha de propósito meus cabelos para que eu perca mais tempo diante do espelho. Escolhe a minha roupa no armário, faz o desjejum comigo. Detesto quando tenta adoçar meu café. Abro a porta de casa, sai antes de mim. Depois persegue com fidelidade meu perfume pelos corredores.

Pega carona sem me pedir. Insiste em caminhos por onde eu me perco. Uma vez me deixou tão atrapalhada que eu precisava ir ao banco e fui parar na padaria. Eu tenho certeza que é quem esconde as minhas chaves quando estou com pressa. Me chama pelo apelido, força intimidade, me abraça na frente do espelho. Conhece meus gatos. 

Acompanha minha corrida mesmo que eu aumente o percurso. Não cansa com os quilômetros. Não perde o fôlego, não se assusta quando quero ir mais longe, nem quando ameaço perder o rumo. Bebe o chá na minha caneca, escuta as minhas músicas, perturba o meu banho. Não respeita sequer a alvura da espuma na qual mergulho em dias difíceis.

Espia meu peso na balança. Decorou as minhas manias. Debruça-se nas janelas que eu abro antes que a rua possa invadir a casa. Responde quando abano os meus cílios. Escuta meu riso e meu choro ainda que eu faça muda. Rega as minhas sementes. Morre e nasce comigo todas as vezes que eu morro e nasço. Não me estende a mão, busca a minha cintura para comprovar a intimidade. Coloca-se entre o vento e eu quando quero soltar palavras como pipas.

Acompanha os meus gritos, as vezes que eu canto alto, as danças de meia no quarto. Segue a linha dos meus rascunhos, amassa meus esboços, duvida das minhas dúvidas e assina com a minha letra. Mexe nas minhas panelas. Tenta ser gentil. Abraça a minha solidão.

Ausência, que um dia sejas lembrança. 



Eu estava dentro do meu carro, fazendo o celular de microfone, embalando as mãos pra cima, parada numa sinaleira, cantando. A tia do carro ao lado chocada com a minha ~desenvoltura~ artística, me pegou na tampinha. A música? Esta:  



La Solitudine
Laura Pausini

Marco se n'è andato e non ritorna più
E il treno delle 7:30 senza lui
È un cuore di metallo senza l'anima
Nel freddo del mattino grigio di città
A scuola il banco è vuoto, marco è dentro me
È dolce il suo respiro fra i pensiere miei
Distanze enormi sembrano dividerci
Ma il cuore batte forte dentro me

Chissà se tu mi penserai
Se con i tuoi non parli mai
Se ti nascondi come me
Sfuggi gli sguardi e te ne stai
Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare
Stringi forte a te il cuscino
Piangi e non lo sai quanto altro male ti farà la solitudine

Marco nel mio diario ho una fotografia
Hai gli occhi di bambino un poco timido
La stringo forte al cuore e sento che ci sei
Fra i compiti d'inglese e matematica
Tuo padre e i suoi consigli che monotonia
Lui con il suo lavoro ti ha portato via
Di certo il tuo parere non l'ha chiesto mai
Ha detto "un giorno tu mi capirai"

Chissà se tu mi penserai
Se con gli amici parlerai
Per non soffrire più per me
Ma non è facile lo sai

A scuola non ne posso più
E i pomeriggi senza te
Studiare è inutile tutte le idee si affollano su te
Non è possibile dividere la vita di noi due
Ti prego aspettami amore mio...
Ma illuderti non so!
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquietudine di vivere la vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere la storia di noi due

La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquietudine di vivere la vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere la storia di noi due la solitudine

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

café na cama


Cada vez que apareço com alguma teoria desatinada recebo franzidas de testa, sobrancelhas arqueadas, críticas quase caluniosas e rangidos de dentes. Mas, veja bem, esta teoria nova – novíssima – é pra lá de bem fundamentada, podendo ser testada sem dó nem piedade. Não. Não foi isso que eu quis dizer. Testada sem prática ou habilidade – assim é melhor – utilizando apenas a observação criteriosa do seu par ou futuro par. 


Minha irmã e meu cunhado se casaram em Americana, São Paulo, no último final de semana. A família inteira ficou hospedada no mesmo hotel. Era quase uma vila vertical. Isso exige cuidado com os comentários de corredor e confissões de elevador. Por outro lado, me poupou de comprar um hidratante, que esqueci em casa. Usei o tempo inteiro o da vizinha, minha mãe. 


Bom, no café da manhã, percebi coisas sobre parentes com quem convivo desde quando nasci. Conclusão: em um café da manhã você conhece muito mais uma pessoa do que num cinema, numa janta, num sushi, num almoço, numa festa, na casa da mãe ou no-raio-que-o-parta! Se você tem ou pode ter interesse em alguém, convide-o para tomar café da manhã. De preferência em um hotel, o que me remeteu a uma experiência vivida em primeira pessoa, que depois eu conto. (Queria colocar uma nota de rodapé aqui!) 


A teoria é basicamente esta. Conhecer alguém de verdade é o diferencial para saber se a pessoa será ou não importante na vida. Se no outro dia atenderemos ao telefone ou se será mais um “não atender nem que a vaca tussa” na agenda do celular. O café da manhã deve ser desses de hotel, com uma mesa farta para escolher o que se quer. 


Se ele escolher o café com leite e o pão com manteiga de todos os dias, é um clássico. Dificilmente aceitará mudar a rotina, improvisar ou sair daquilo que planejaram. Provavelmente ele segue rituais. Provavelmente ele vai calcular o ângulo de inclinação da cabeça para cada beijo e cronometrar o tempo médio. Ele sempre guardará as meias em bolinhas no canto esquerdo da gaveta e as cuecas separadas por cor no lado direito. Há chances também dele ser um etiquetador compulsivo. Nem pense em levar esta pessoa para assistir a um show de tango numa garagem de Buenos Aires, onde as pessoas tomam vinho no gargalo e os gatos pulam em cima da mesa. Ah, sem esquecer a porta do banheiro que é uma cortina de veludo preto! 


Se ele esperar que você se sirva para depois fazer tudo igual, fuja! Ele não tem personalidade. Fará todas as coisas do mundo apenas para agradar e na primeira discussão jogará isso na sua cara. Lembrará inclusive que neste café da manhã comeu aveia. E ele odeia aveia! Fuja. É sério. Ele nunca dirá verdades que te desagradam. Nunca criticará a sua roupa, o seu cabelo, nunca implicará com a tua magreza ou manias de não comer isso, não comer aquilo. Ele jamais vai querer aborrecer você para depois executar o repertório de palhaçadas em busca de um sorriso. Aliás, ele nem deve ter esse repertório! Nunca vai pintar carinhas nos dedinhos dos pés para que você tenha síncopes, faniquitos e chiliques de tantas gargalhadas. 


Se ele começar pelas frutas e comer pouco, estará preocupado com a sua opinião sobre ele. Vai querer parecer comedido, ponderado, educado. Está tentando conter os exageros. Jamais atravessará uma avenida movimentada pulando num pé só para alcançar o casaco que você esqueceu. Nunca gritará que te ama no meio de uma multidão de desconhecidos. Nunca te acompanhará nas risadas compulsivas, nem tomará um pileque ou partilhará daquele humor ácido que faz brotar todo o sarcasmo do mundo quando estiverem famintos. Ele jamais se assumirá faminto porque isso é mais que fome. E será isso o que ele sempre sentirá: uma fominha. Inclusive por você. 


Você pode, ainda, forçar o teste. 

Experimente se servir antes, mas de uma coisa bem horrenda. Faça por exemplo um sanduíche com omelete, banana e sucrilhos. Peça mostarda ao garçom. Sorria para ele com o pão nas mãos, ofereça um pedaço. Se ele recusar com cara de nojo, é um fresco. Se recusar educadamente e disser que acordou sem fome, é um mentiroso deslavado com tendência cafajeste. Se for sentar em outra mesa, é do tipo que desiste fácil. Se aceitar morder seu pão com nhaca e disser que não gostou é sincero demais, direto demais: pondere. Se fingir que não ouviu e for se servir do que bem entender, irá fazer o mesmo quando quiser assistir ao filme do Rambo e você quiser assistir ao último do Darín. Comprará os ingressos do cinema para o filme que ele bem entender sem sequer argumentar. Rambo! Pronto! 


A primeira vez que tomei café com meu namorado foi num hotel em Santa Cruz do Sul. Tínhamos ido a um casamento, era janeiro, um calor daqueles! Um café da manhã juntos é mesmo revelador! 


Chegamos ao salão do café, eu com muita sede me servi logo um suco de laranja enquanto ele permaneceu sentado, me olhando. Pedi desculpa pela pressa e argumentei que eu estava morrendo de seca. Ele sorriu. Para compensar a deselegância matinal, me ofereci para servi-lo. “Me diz o que você quer de café da manhã, meu amor”. O riso abriu mais, os olhos de espuma de mar inundaram a mesa. 


Voltamos para o quarto. 




Quem vê os dois assim, tão alinhados, nem imagina que às quatro da manhã foram dar um UPA no Fritz e na Frida GIGAAAAAANTES na entrada da cidade! 



Trilha sonora mais que clichê, porque eu quero! 
Roberto Carlos - Café da 

Amanhã de manhã
Vou pedir o café pra nós dois
Te fazer um carinho e depois
Te envolver em meus braços

E em meus abraços
Na desordem do quarto esperar
Lentamente você despertar
E te amar na manhã

Amanhã de manhã
Nossa chama outra vez tão acesa
E o café esfriando na mesa
Esquecemos de tudo

Sem me importar
Com o tempo correndo lá fora
Amanhã nosso amor não tem hora
Vou ficar por aqui

Pensando bem
Amanhã eu nem vou trabalhar
E além do mais
Temos tantas razões pra ficar

Amanhã de manhã
Eu não quero nenhum compromisso
Tanto tempo esperamos por isso
Desfrutemos de tudo

Quando mais tarde
Nos lembrarmos de abrir a cortina
Já é noite e o dia termina
Vou pedir o jantar