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Mostrando postagens de Outubro, 2012

bem me quer, mas não me quer

Aprendemos a dizer coisas quando a gente não quer, mas quer, sabe? Ontem assisti a cena. Os atores principais eram adolescentes. Um casal bem bonitinho. Ela era expressiva, tinha cabelo preto, olhos pretos profundos, arredondados, cílios de leque e uma boca de coração. Ele loirinho, cabelos curtos, olhos verdes, sardas, magrinho,com a boca mais fina em cima, alguns tímidos sinais da barba que resolveu esperar um pouco mais para crescer. Ele falava, ela acompanhava a boca dele com os olhos, como se lesse as palavras. Ele estava com o corpo inteiramente virado pra ela. Ela só com a cabeça, às vezes nem isso. Apoiava na parede, olhando pra cima tentando impedir as lágrimas de vazarem dos olhos.
Adoro a adolescência, gostei da minha com todas as minhas mortes quase diárias. Morria do café da manhã até a janta muitas vezes. Morria por amores platônicos, romances seguros e inventados. Falecia por todas as minhas não tentativas. Sofri mais por estes do que pelo primeiro namorado.
O menino es…

tatuagem

Sexta-feira é dia de banquete de pessoas. Dia que vou de trem até o centro de Porto Alegre lá pelas cinco e meia, seis da tarde. Ou seja, independente do vagão, nem olho para a rua. Às vezes não dá mesmo por causa da lotação. Os meus olhos curiosos têm preferido investigar as pessoas a observar a paisagem.
Colei o olho em uma mulher de cabelo bem curtinho, camisa de caveira, bolsa de onça e tênis de listras azuis. Tanta tatuagem que parecia um gibi. Melhor, parecia um álbum de figurinha da Copa. E completo! Tinha uma flor roxa, uma caveira com rosa na boca, uma fada, pássaros, estrelas, a palavra paz perdida no pé. Fiquei pensando por que a paz foi parar ali. Depois vi que atrás da orelha ela tinha uma letrinha japonesa. Imaginei que, pelo lugar podia dizer “pulga”. Seria um atestado de desconfiança. A pessoa é tão suspeitosa que resolve tatuar uma pulga atrás da orelha. Fui surpreendida por ela enquanto eu ensaiava um riso solitário. Ela com as sobrancelhas quase juntas, segurei a ba…

companhia

Tem essa mania de andar no banco do carona sem usar o cinto de segurança. Por mais que eu insista, não usa, preciso eu afivelar. Não que tenha zelo pela sua integridade. Não tenho.  
Acorda junto com o meu despertador, suspira sobre os meus ombros, conta as minhas sardas enquanto me estico na cama. Emaranha de propósito meus cabelos para que eu perca mais tempo diante do espelho. Escolhe a minha roupa no armário, faz o desjejum comigo. Detesto quando tenta adoçar meu café. Abro a porta de casa, sai antes de mim. Depois persegue com fidelidade meu perfume pelos corredores.
Pega carona sem me pedir. Insiste em caminhos por onde eu me perco. Uma vez me deixou tão atrapalhada que eu precisava ir ao banco e fui parar na padaria. Eu tenho certeza que é quem esconde as minhas chaves quando estou com pressa. Me chama pelo apelido, força intimidade, me abraça na frente do espelho. Conhece meus gatos. 
Acompanha minha corrida mesmo que eu aumente o percurso. Não cansa com os quilômetros. Não perd…

café na cama

Cada vez que apareço com alguma teoria desatinada recebo franzidas de testa, sobrancelhas arqueadas, críticas quase caluniosas e rangidos de dentes. Mas, veja bem, esta teoria nova – novíssima – é pra lá de bem fundamentada, podendo ser testada sem dó nem piedade. Não. Não foi isso que eu quis dizer. Testada sem prática ou habilidade – assim é melhor – utilizando apenas a observação criteriosa do seu par ou futuro par. 

Minha irmã e meu cunhado se casaram em Americana, São Paulo, no último final de semana. A família inteira ficou hospedada no mesmo hotel. Era quase uma vila vertical. Isso exige cuidado com os comentários de corredor e confissões de elevador. Por outro lado, me poupou de comprar um hidratante, que esqueci em casa. Usei o tempo inteiro o da vizinha, minha mãe. 

Bom, no café da manhã, percebi coisas sobre parentes com quem convivo desde quando nasci. Conclusão: em um café da manhã você conhece muito mais uma pessoa do que num cinema, numa janta, num sushi, num almoço, numa…