quinta-feira, 4 de outubro de 2012

café na cama


Cada vez que apareço com alguma teoria desatinada recebo franzidas de testa, sobrancelhas arqueadas, críticas quase caluniosas e rangidos de dentes. Mas, veja bem, esta teoria nova – novíssima – é pra lá de bem fundamentada, podendo ser testada sem dó nem piedade. Não. Não foi isso que eu quis dizer. Testada sem prática ou habilidade – assim é melhor – utilizando apenas a observação criteriosa do seu par ou futuro par. 


Minha irmã e meu cunhado se casaram em Americana, São Paulo, no último final de semana. A família inteira ficou hospedada no mesmo hotel. Era quase uma vila vertical. Isso exige cuidado com os comentários de corredor e confissões de elevador. Por outro lado, me poupou de comprar um hidratante, que esqueci em casa. Usei o tempo inteiro o da vizinha, minha mãe. 


Bom, no café da manhã, percebi coisas sobre parentes com quem convivo desde quando nasci. Conclusão: em um café da manhã você conhece muito mais uma pessoa do que num cinema, numa janta, num sushi, num almoço, numa festa, na casa da mãe ou no-raio-que-o-parta! Se você tem ou pode ter interesse em alguém, convide-o para tomar café da manhã. De preferência em um hotel, o que me remeteu a uma experiência vivida em primeira pessoa, que depois eu conto. (Queria colocar uma nota de rodapé aqui!) 


A teoria é basicamente esta. Conhecer alguém de verdade é o diferencial para saber se a pessoa será ou não importante na vida. Se no outro dia atenderemos ao telefone ou se será mais um “não atender nem que a vaca tussa” na agenda do celular. O café da manhã deve ser desses de hotel, com uma mesa farta para escolher o que se quer. 


Se ele escolher o café com leite e o pão com manteiga de todos os dias, é um clássico. Dificilmente aceitará mudar a rotina, improvisar ou sair daquilo que planejaram. Provavelmente ele segue rituais. Provavelmente ele vai calcular o ângulo de inclinação da cabeça para cada beijo e cronometrar o tempo médio. Ele sempre guardará as meias em bolinhas no canto esquerdo da gaveta e as cuecas separadas por cor no lado direito. Há chances também dele ser um etiquetador compulsivo. Nem pense em levar esta pessoa para assistir a um show de tango numa garagem de Buenos Aires, onde as pessoas tomam vinho no gargalo e os gatos pulam em cima da mesa. Ah, sem esquecer a porta do banheiro que é uma cortina de veludo preto! 


Se ele esperar que você se sirva para depois fazer tudo igual, fuja! Ele não tem personalidade. Fará todas as coisas do mundo apenas para agradar e na primeira discussão jogará isso na sua cara. Lembrará inclusive que neste café da manhã comeu aveia. E ele odeia aveia! Fuja. É sério. Ele nunca dirá verdades que te desagradam. Nunca criticará a sua roupa, o seu cabelo, nunca implicará com a tua magreza ou manias de não comer isso, não comer aquilo. Ele jamais vai querer aborrecer você para depois executar o repertório de palhaçadas em busca de um sorriso. Aliás, ele nem deve ter esse repertório! Nunca vai pintar carinhas nos dedinhos dos pés para que você tenha síncopes, faniquitos e chiliques de tantas gargalhadas. 


Se ele começar pelas frutas e comer pouco, estará preocupado com a sua opinião sobre ele. Vai querer parecer comedido, ponderado, educado. Está tentando conter os exageros. Jamais atravessará uma avenida movimentada pulando num pé só para alcançar o casaco que você esqueceu. Nunca gritará que te ama no meio de uma multidão de desconhecidos. Nunca te acompanhará nas risadas compulsivas, nem tomará um pileque ou partilhará daquele humor ácido que faz brotar todo o sarcasmo do mundo quando estiverem famintos. Ele jamais se assumirá faminto porque isso é mais que fome. E será isso o que ele sempre sentirá: uma fominha. Inclusive por você. 


Você pode, ainda, forçar o teste. 

Experimente se servir antes, mas de uma coisa bem horrenda. Faça por exemplo um sanduíche com omelete, banana e sucrilhos. Peça mostarda ao garçom. Sorria para ele com o pão nas mãos, ofereça um pedaço. Se ele recusar com cara de nojo, é um fresco. Se recusar educadamente e disser que acordou sem fome, é um mentiroso deslavado com tendência cafajeste. Se for sentar em outra mesa, é do tipo que desiste fácil. Se aceitar morder seu pão com nhaca e disser que não gostou é sincero demais, direto demais: pondere. Se fingir que não ouviu e for se servir do que bem entender, irá fazer o mesmo quando quiser assistir ao filme do Rambo e você quiser assistir ao último do Darín. Comprará os ingressos do cinema para o filme que ele bem entender sem sequer argumentar. Rambo! Pronto! 


A primeira vez que tomei café com meu namorado foi num hotel em Santa Cruz do Sul. Tínhamos ido a um casamento, era janeiro, um calor daqueles! Um café da manhã juntos é mesmo revelador! 


Chegamos ao salão do café, eu com muita sede me servi logo um suco de laranja enquanto ele permaneceu sentado, me olhando. Pedi desculpa pela pressa e argumentei que eu estava morrendo de seca. Ele sorriu. Para compensar a deselegância matinal, me ofereci para servi-lo. “Me diz o que você quer de café da manhã, meu amor”. O riso abriu mais, os olhos de espuma de mar inundaram a mesa. 


Voltamos para o quarto. 




Quem vê os dois assim, tão alinhados, nem imagina que às quatro da manhã foram dar um UPA no Fritz e na Frida GIGAAAAAANTES na entrada da cidade! 



Trilha sonora mais que clichê, porque eu quero! 
Roberto Carlos - Café da 

Amanhã de manhã
Vou pedir o café pra nós dois
Te fazer um carinho e depois
Te envolver em meus braços

E em meus abraços
Na desordem do quarto esperar
Lentamente você despertar
E te amar na manhã

Amanhã de manhã
Nossa chama outra vez tão acesa
E o café esfriando na mesa
Esquecemos de tudo

Sem me importar
Com o tempo correndo lá fora
Amanhã nosso amor não tem hora
Vou ficar por aqui

Pensando bem
Amanhã eu nem vou trabalhar
E além do mais
Temos tantas razões pra ficar

Amanhã de manhã
Eu não quero nenhum compromisso
Tanto tempo esperamos por isso
Desfrutemos de tudo

Quando mais tarde
Nos lembrarmos de abrir a cortina
Já é noite e o dia termina
Vou pedir o jantar

5 comentários:

Re Gouveia disse...

Simplesmente demais, tu desfila em todos os estilos de escrita com perfeição.

Parabéns pelo talento.

Anônimo disse...

Deliro com os teus posts.

Laura disse...

Bocão, vc escreve bem para fazer rir e chorar. As vezes leio os teus textos e fico toda arrepiada. Neste imaginei vc contando a história.

VOCE É UMA PESSOA DE MUITA LUZ! RARIDADE ENTRE OS SERES.

Te adoro e admiro, Laura.
Amei esse anonimo q chamou vc de bocão também!

bjs

PAULA disse...

Louise, vim ler o teu link e acabei lendo 15 textos. Melhor que bis! Quem lê um pede bis.

Mari disse...

Kuki, neste eu consegui comentar vivaaaaaaaaaaa. Te amo, te adoro, te admiro, tu é tuuudo de bom!

Beijos, maninha!