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companhia


Tem essa mania de andar no banco do carona sem usar o cinto de segurança. Por mais que eu insista, não usa, preciso eu afivelar. Não que tenha zelo pela sua integridade. Não tenho.  

Acorda junto com o meu despertador, suspira sobre os meus ombros, conta as minhas sardas enquanto me estico na cama. Emaranha de propósito meus cabelos para que eu perca mais tempo diante do espelho. Escolhe a minha roupa no armário, faz o desjejum comigo. Detesto quando tenta adoçar meu café. Abro a porta de casa, sai antes de mim. Depois persegue com fidelidade meu perfume pelos corredores.

Pega carona sem me pedir. Insiste em caminhos por onde eu me perco. Uma vez me deixou tão atrapalhada que eu precisava ir ao banco e fui parar na padaria. Eu tenho certeza que é quem esconde as minhas chaves quando estou com pressa. Me chama pelo apelido, força intimidade, me abraça na frente do espelho. Conhece meus gatos. 

Acompanha minha corrida mesmo que eu aumente o percurso. Não cansa com os quilômetros. Não perde o fôlego, não se assusta quando quero ir mais longe, nem quando ameaço perder o rumo. Bebe o chá na minha caneca, escuta as minhas músicas, perturba o meu banho. Não respeita sequer a alvura da espuma na qual mergulho em dias difíceis.

Espia meu peso na balança. Decorou as minhas manias. Debruça-se nas janelas que eu abro antes que a rua possa invadir a casa. Responde quando abano os meus cílios. Escuta meu riso e meu choro ainda que eu faça muda. Rega as minhas sementes. Morre e nasce comigo todas as vezes que eu morro e nasço. Não me estende a mão, busca a minha cintura para comprovar a intimidade. Coloca-se entre o vento e eu quando quero soltar palavras como pipas.

Acompanha os meus gritos, as vezes que eu canto alto, as danças de meia no quarto. Segue a linha dos meus rascunhos, amassa meus esboços, duvida das minhas dúvidas e assina com a minha letra. Mexe nas minhas panelas. Tenta ser gentil. Abraça a minha solidão.

Ausência, que um dia sejas lembrança. 



Eu estava dentro do meu carro, fazendo o celular de microfone, embalando as mãos pra cima, parada numa sinaleira, cantando. A tia do carro ao lado chocada com a minha ~desenvoltura~ artística, me pegou na tampinha. A música? Esta:  



La Solitudine
Laura Pausini

Marco se n'è andato e non ritorna più
E il treno delle 7:30 senza lui
È un cuore di metallo senza l'anima
Nel freddo del mattino grigio di città
A scuola il banco è vuoto, marco è dentro me
È dolce il suo respiro fra i pensiere miei
Distanze enormi sembrano dividerci
Ma il cuore batte forte dentro me

Chissà se tu mi penserai
Se con i tuoi non parli mai
Se ti nascondi come me
Sfuggi gli sguardi e te ne stai
Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare
Stringi forte a te il cuscino
Piangi e non lo sai quanto altro male ti farà la solitudine

Marco nel mio diario ho una fotografia
Hai gli occhi di bambino un poco timido
La stringo forte al cuore e sento che ci sei
Fra i compiti d'inglese e matematica
Tuo padre e i suoi consigli che monotonia
Lui con il suo lavoro ti ha portato via
Di certo il tuo parere non l'ha chiesto mai
Ha detto "un giorno tu mi capirai"

Chissà se tu mi penserai
Se con gli amici parlerai
Per non soffrire più per me
Ma non è facile lo sai

A scuola non ne posso più
E i pomeriggi senza te
Studiare è inutile tutte le idee si affollano su te
Non è possibile dividere la vita di noi due
Ti prego aspettami amore mio...
Ma illuderti non so!
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquietudine di vivere la vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere la storia di noi due

La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquietudine di vivere la vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere la storia di noi due la solitudine

Comentários

Keila disse…
Fantástico! Como adoro a forma como escreves.
E essa música é digna de cantar fazendo um show, mesmo que parada no trânsito.

Beijos Kuky.
Lisiane disse…
Adoro isso que você faz. Escreve bem em todos os aspectos, pode ser cômica, séria, sentimental. Ultimamente a tua tristeza tem me preocupado. Oh jardineira porque estas tao triste?

Beijo, saudade. Lisi
Anônimo disse…
A gata anda sem brilho nos olhos?
Anônimo disse…
Ele nunca vai voltar.
Z. disse…
Que lindo texto, amiga! Sensacional! E o anônimo vidente da deprê? Tem que rir... Bjsss, Z.

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