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tatuagem


Sexta-feira é dia de banquete de pessoas. Dia que vou de trem até o centro de Porto Alegre lá pelas cinco e meia, seis da tarde. Ou seja, independente do vagão, nem olho para a rua. Às vezes não dá mesmo por causa da lotação. Os meus olhos curiosos têm preferido investigar as pessoas a observar a paisagem.

Colei o olho em uma mulher de cabelo bem curtinho, camisa de caveira, bolsa de onça e tênis de listras azuis. Tanta tatuagem que parecia um gibi. Melhor, parecia um álbum de figurinha da Copa. E completo! Tinha uma flor roxa, uma caveira com rosa na boca, uma fada, pássaros, estrelas, a palavra paz perdida no pé. Fiquei pensando por que a paz foi parar ali. Depois vi que atrás da orelha ela tinha uma letrinha japonesa. Imaginei que, pelo lugar podia dizer “pulga”. Seria um atestado de desconfiança. A pessoa é tão suspeitosa que resolve tatuar uma pulga atrás da orelha. Fui surpreendida por ela enquanto eu ensaiava um riso solitário. Ela com as sobrancelhas quase juntas, segurei a barra do metrô com a mão esquerda para mostrar a minha tatuagem “olha, somos da mesma tribo!”. Sem amizade, ela me deu as costas e desceu duas estações depois.

Sim, eu fiz uma tatuagem e assim permaneço invicta nas minhas promessas de ano novo. Cem por cento de aproveitamento em contrariar todas as minhas resoluções. Cem por cento de desaproveitamento, no caso. A deste ano era apenas uma: continuar sem tatuagem. Já que todos os anos eu prometia fazer e acabava dezembro sem sinal opcional no corpo.

Este ano fiz. Ico e eu fizemos juntos em Nova Iorque. Foi um dos presentes de aniversário. Fizemos bem ao nosso estilo. Fomos para o Soho. Entramos no estúdio que achamos mais simpático e limpo com uma ideia. Desistimos antes de chegar ao balcão. Reviramos todos os livros do paciente tatuador, optamos por um desenho que não tinha. Certo! Precisamos esperar uns vinte minutos. Resolvemos beber uma taça de vinho em um boteco feito caquinhos. Digo isso porque nada era inteiro: bibelôs sem orelhas, vasos sem borda, sinos de vento desdentados, piano velho, janela com persiana caolha. A única coisa inteira era a dona. Inteiramente doida. Disse que não tinha um vinho. Que tinha dois, três, quatro, mil, quantos quiséssemos. “Um só, dona”.

Bebemos para afogar a desistência. Mentira, isso foi uma desculpa para beber uma taça de vinho às dez da manhã.

Voltamos ao estúdio. Decididos, corajosos e tontos. Falando inglês fluente com o tatuador. Inclusive saímos falando inglês fluente calçada a fora, entre nós, depois de termos feito as tatuagens. E se não fosse Ico perguntar por que não estávamos conversando em português, não tenho ideia de quando pararíamos. Bebemos um vinho bilíngue! E que também fez alguns buracos na calçada que não estavam ali antes. Eu quase caí em todos.

Consegui esconder a tatuagem da minha mãe por um tempo enorme de quatro dias. Ela odeia. Agora simpatiza. Outra hora conto como foi o trauma.

Quem viu logo de cara foi a minha instrutora da Yoga. Mal girei a catraca ela comentou da tatuagem. Contei como fizemos, que era a minha primeira e que Ico já tinha aquelas que eu imagino o sentido dependendo do meu ânimo ou do comportamento dele. Atualmente as tatuagens dele querem dizer “te quero aqui” porque a nossa saudade está demais. Chata mesmo, doendo, incomodando, desrespeitando horários. Incômoda.

Esta semana a minha instrutora de Yoga estava me alongando quando apontou o marido. Ele é fisioterapeuta na mesma academia. “Está vendo ali, nas costas dele?” Eu respondi que sim com a cabeça. Vi. Tatuagem de letrinhas japonesas, como as que o Ico tem. Ela continuou: “Está escrito vou dormir no sofá”.

Não perguntei o que ele fez. Mas espero que logo se tatuem as pazes.

Tatuagem também é cicatriz. 


 A explicação da tatuagem está num post bem anterior. Somos infinitos um do outro.


TATUAGEM - CHICO BUARQUE 
(só perde para as declarações de amor que ele me faz ao pé do ouvido)


Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...

E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes...

Comentários

Como sempre, muito bem escrito.Tradução da vida.Gostei da tua tatuagem,delicada, sem agredir a estética.Bjs carinhosos.
Anna disse…
Cada vez mais linda. O post está ótimo.
Beijos
Keila disse…
É tão bom ler o que escreves. Sempre lindo!
Adorei a tatoo.
Beijos!
Anônimo disse…
DUAS PALAVRAS: MULHER PERFEITA.

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