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Mostrando postagens de Novembro, 2012

lado errado

É sabido por toda a população mundial que eu tenho problema com comandos de direita e esquerda. Já inventei as maiores desculpas do mundo: não me ensinaram na escola, sou canhota, sou ambidestra, tanto faz, no meu mundo a direita é pra cá, o quê? Tudo. Meu namorado percebeu da primeira vez que dirigi com ele do lado. Adotou a tática de falar em inglês, turn left, turn right. Por algum motivo, funciona.
Chegamos na nossa rua em Nova Iorque pela Segunda Avenida. Pegamos um táxi no aeroporto porque estávamos com pressa. Milhas ou quilômetros demoram demais quando precisamos matar a saudade. Dividimos o banco de trás, os fones e os abraços. O apartamento ficava na Rua 84. Ou seja, chegamos pela esquerda do prédio. Porém, a vida em Nova Iorque abria as portas para nós pela direita.
Já explico.
Saindo do nosso prédio, dobrando à direita, a rua acabava no Central Park, passando pela Lexton, onde tem a estação do metrô na esquina da 86. Daí a gente ganhava a cidade. Eu sempre saía do prédio e…

mil anos

A insônia me rende longos períodos de silêncio. Finjo que estou dormindo. Tento convencer o sono a voltar. Não adianta. Acordei às três da manhã. Três horas e meia antes do horário que programei o despertador.
Depois de ter a certeza que não voltaria a dormir, revirei as gavetas da cabeça atrás de alguma coisa que ocupasse o pensamento. Bélgica. Foi nisso que eu pensei. Porque quero comer chocolate belga direto da fonte. Não direto do mercado. De preferência sentada na frente do Leão de Waterloo, depois de subir os duzentos e tantos degraus, teorizando sobre por que Napoleão perdeu a guerra. É uma coisa que eu queria fazer antes de morrer. Assim como também queria comer de novo as maçãs de Fraiburgo, em Santa Catarina. Direto do pé.
Por falar em pé, queria andar a pé por toda Paris. E queria usar chapéu. Fazer careta para todos os doces com manteiga. Também queria perder o medo de montar. Na verdade, não é medo, tenho um pouco de dó do bicho. Queria que o cavalo me convencesse que eu …

estequiometria

Prova de química. Nem barata, nem abismo, nem escuro, fantasma, zumbi, homem do saco ou ambrosia. Eu tenho medo de prova de química. É meu pior pesadelo. Ainda acordo apavorada no meio da noite porque não sei cálculo estequiométrico. Era o meu pânico na adolescência. Fazia-me pensar que se Lavoisier e Proust não tiveram uma péssima morte, mereciam ter. Lenta e dolorosa, como eram os meus domingos antes das provas. Aliás, deve haver uma explicação sobre por que as aulas de química sempre eram nos primeiros períodos de segunda-feira.

Cálculo estequiométrico foi a experiência mais próxima de tortura que eu já tive. No segundo grau uma adolescente tem um mundo para explorar. Vive a experiência de poder voltar para casa depois da meia-noite, de comer sorvete, chocolate e paçoca misturados sem contar as treze mil e quinhentas calorias que têm no pote. Uma adolescente de quinze anos descobre que moletom e tênis é traje adequado para qualquer ocasião, que meninos não são inimigos mortais, que…

escada

O impulso de viver traz junto o medo da morte. Nossas evoluções acontecem assim, através do desejo e do medo. São as duas faces da mesma moeda. Um desejo realizado, um medo de perder. Um medo concretizado, um desejo de salvação. Esta é a ideia freudiana do jogo de Eros e Tânatos, impulsos de vida e morte, que leva as pessoas à evolução, que seria uma espécie de subida de escada em busca de uma perfeição, geralmente atribuída a Deus.
Talvez essa ideia tenha sido gerada pela passagem bíblica do antigo testamento, onde Jacó sonha com uma escada ligando a terra e o céu. Lá em cima, Deus. Nos degraus, subindo e descendo, os anjos mensageiros. A escada se transforma, assim, em um canal direto entre o humano e o divino. Subir a escadaria, evoluir, desejar, vencer o medo, tudo para que o ser humano esteja mais perto de Deus.
Este ano, quando fui para Buenos Aires, fotografei várias janelas interessantes. Lindas. Sempre tive adoração, já comentei isso outras vezes. Tenho uma coleção bem gordin…

para onde vão os guarda-chuvas?

Ele sempre soube. Acredito em amores imediatos, acredito em quem ama antes mesmo de perceber que ama. Ele conta que sabia antes que eu soubesse. Na primeira vez que pôde, me apontou equívocos. Corrigiu a direção para onde apontava o meu nariz, me beijou sem permissão. Eu gostei. Concordou que ser livre é diferente de não ter alguém, mas que é escolher ao lado de quem estar. Então eu soube de verdade. 
Jura que já sabia do nosso destino quando me viu em uma foto. Eu juro que acredito. Às vezes ele é mago, vidente, adivinho.
Ele me disse que queria estar comigo. Eu sorri da cozinha até a sala, em todos os degraus da escada. Havia muita luz na noite. A chuva espiava pela janela, curiosa com os assuntos que ocupavam o sofá inteiro. A mão dele grampeou a minha. Nasceram hábitos ali. Ele me cheira ainda igual. Percorre do meu braço ao pescoço com fungadas e suspiros, murmurando palavras que eu nunca entendo o que são. Mas são de amor.
O amor não precisa falar claro, faz assim de propósito pa…