quarta-feira, 21 de novembro de 2012

mil anos


A insônia me rende longos períodos de silêncio. Finjo que estou dormindo. Tento convencer o sono a voltar. Não adianta. Acordei às três da manhã. Três horas e meia antes do horário que programei o despertador.

Depois de ter a certeza que não voltaria a dormir, revirei as gavetas da cabeça atrás de alguma coisa que ocupasse o pensamento. Bélgica. Foi nisso que eu pensei. Porque quero comer chocolate belga direto da fonte. Não direto do mercado. De preferência sentada na frente do Leão de Waterloo, depois de subir os duzentos e tantos degraus, teorizando sobre por que Napoleão perdeu a guerra. É uma coisa que eu queria fazer antes de morrer. Assim como também queria comer de novo as maçãs de Fraiburgo, em Santa Catarina. Direto do pé.

Por falar em pé, queria andar a pé por toda Paris. E queria usar chapéu. Fazer careta para todos os doces com manteiga. Também queria perder o medo de montar. Na verdade, não é medo, tenho um pouco de dó do bicho. Queria que o cavalo me convencesse que eu podia subir. Ah, queria andar de camelo, de elefante e de lhama. Mas não no mesmo dia.

Quero ver o amor ficar velho. Quero amar ainda assim e dar bom dia todas as manhãs.

Antes de morrer também quero acordar um dia e dizer: hoje eu vou ser feliz. Ter de verdade vinte e quatro horas de alegria por decisão. Sempre que eu sou feliz é sem querer. Nunca é planejado. Queria coisa de marcar na agenda, de fazer lembrete no celular: hoje é dia da felicidade.

Antes de morrer também queria nadar sem roupa no mar. De noite. Quero adotar mais alguns gatos. Quero ensinar o Eduardo a empinar pipa e contar pra ele coisas que eu descobri sozinha para economizar tempo e gastar surpresas em coisas mais interessantes. Quero morar com a minha família em Nova Iorque, descobrir onde fica a casa do Paul Auster e plantar uma horta de tempero. Quero ter gerânios nas janelas e gérberas na mesa de jantar. Quero fazer um montão de coisas simples que sejam boas.

Antes de morrer quero falar muitas vezes do amor que eu sinto para quem eu amo. Quero aprender a surfar e acender a lareira. Fazer pudim e arroz solto não. Mas acender a lareira seria útil. Também queria plantar um pé de pitanga mais pela palavra do que pela planta. Também quero fazer boneco de neve daqueles de colocar nariz de cenoura. 

Preciso fotografar mais escadas. Mais janelas. 

Já pensei em ir para o Tibet, mas tenho medo de não voltar mais. Desisti. 

Fiquei pensando em tanta coisa pra fazer antes de morrer que vou ter que viver muito. Vou ter que viver mais e melhor. Depois pensei em tanta coisa que eu já fiz. Tanta gente que veio e foi. Tanta gente que veio e ficou. Pensei em todos os muros que eu já pulei, todas as vezes que viajei só com uma mochila, quando contei até as moedas da minha mesada. Pensei nas árvores que escalei, nas longas caminhadas, nas conversas jogadas fora, naquelas que eu guardei. Nas artes que eu já fiz, pessoas pra quem dei orgulho, pessoas pra quem dei decepção.

Pensei na primeira vez que o Eduardo sorriu e na primeira vez que a minha irmã disse o meu nome, em todos os sorrisos dos meus pais dançando juntos na sala.

Eu já dei muito trabalho.
Já carreguei nas costas o peso do mundo.

Lembrei de quando eu dormi abraçada. De quando caminhei de mãos dadas, de quando disse eu te amo sendo verdade e olhando nos olhos. Lembrei de quando escutei no meio da noite, com sussurro no ouvido depois de ajeitar meu travesseiro e arrumar minhas cobertas. Lembrei do banho de banheira para afogar as minhas mágoas, da geladeira com água e mostarda velha, de procurar perfume na roupa usada e conhecer o lugar favorito.

Já vivi mil anos.
Viverei outros mil. Ou mais. 





Se alguém
Já lhe deu a mão
E não pediu mais nada em troca
Pense bem, pois é um dia especial
Eu sei
Que não é sempre
Que a gente encontra alguém
Que faça bem
E nos leve desse temporal
O amor é maior que tudo
Do que todos até a dor
Se vai
Quando o olhar é natural
Sonhei que as pessoas eram boas
Em um mundo de amor
Acordei nesse mundo marginal

Mas te vejo e sinto
O brilho desse olhar
Que me acalma
Me traz força pra encarar tudo
Mas te vejo e sinto
O brilho desse olhar
Que me acalma
Me traz força pra encarar tudo
O amor é maior que tudo
Do que todos, até a dor
Se vai quando o olhar é natural
Sonhei que as pessoas eram boas
Em um mundo de amor
E acordei, na terceira Guerra Mundial.

Mas te vejo e sinto
O brilho desse olhar
Que me acalma
Me traz força pra encarar tudo
Mas te vejo e sinto
O brilho desse olhar
Que me acalma
Me traz força pra encarar tudo...

Mas te vejo e sinto
O brilho desse olhar
Que me acalma
Me traz força pra encarar tudo
Mas te vejo e sinto
O brilho desse olhar
Que me acalma
Me traz força pra encarar tudo!


2 comentários:

Keila disse...

Teus textos são cada um melhor que o outro. Me vi em um monte de coisas que eu ainda quero fazer e nas outras tantas que fiz.
Adoro essa música!

Dani Ferreira disse...

Lembro quando te convidaram para ser modelo e tu respondestes que não queria mostrar a casca. Leio o teu blo g e penso que o recheio é mil vezes melhor e o melhor de tudo, tu nao mudastes em simpatia e em simplicidade.
Beijos da amiga que te admira, Dani.