terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

ímpares em par


Jamais perguntei o nome dele. Imaginava ser um, torcia para não ser outro. Ele nunca me perguntou quem eu era, o que seria absurdo demais. Nada disso jamais interessou. Dispenso o nome porque chamo por apelidos, escrevo para ele por desenhos. Às vezes, nem isso precisa. Suspiro, ele vem. Levanto os olhos e ele invade a linha do horizonte, faz sombra na minha areia para violar a privacidade das minhas confissões. Ele não quer saber quem eu sou porque prefere descobrir, me inventar, me supor, me modificar e recriar conforme bem entende. Sou permissiva.

As pessoas são ímpares. Os casais são formados por dois ímpares. Ao nosso modo, somos únicos. Ao nosso modo, em especial, somos loucos um pelo outro. Digo loucos de uma maneira iluminada, como quem sai de casa e deixa a janela aberta para que as manhãs possam invadir o ambiente. Loucos como quem carrega nos bolsos as raízes, mas sai sem rumo, cruza estrada, país, continente. Trapaceamos com os relógios, as bússolas e os mapas. Encaramos um novo dia com fome de felicidade, peito aberto para o mundo, sede de cultura, novidade. Tagarelas, bobos, piadistas, desmedidos, insanos e incendiários. Malucos serenos.

Jung sugeriu que os loucos fossem simbolicamente representados por círculos, como discos voadores. Acredito que cada um de nós guarde naturalmente em si um círculo, porque assim é nosso fluxo sanguíneo. Porque assim funciona nosso sistema respiratório. Somos biologicamente compostos por círculos e ciclos. Toda a criação vem de círculos, do marco zero, do nada. O mundo é circular e por ele costumamos sair sem rumo certo. Marcamos apenas o dia de sair e o dia de voltar, mesmo assim, desobedecemos nosso trato. Nosso plano é não ter planos de viagens.

Quem sai sem destino não erra o caminho. Nós nunca erramos porque inventamos, do nosso jeito louco, a estrada. Apreciamos a paisagem, seguimos em frente, resolvemos dobrar ali, entrar aqui. Ficamos e partimos ao mesmo tempo que brindamos e rimos. E nessas viagens que fazemos, no meio do caminho tocou uma música romântica. Eu disse que queria dançar e o acostamento de um canto do Uruguai virou pista de dança. Carro parado, portas abertas, volume no máximo, rosto colado, vento de estrada, asfalto dividindo um pasto. Amar é a melhor loucura.

Em par nós somos ímpares. Descobri mais que o nome dele. Ele descobriu mais do que quem eu sou. Improvisamos nossas milhagens, nosso chão. Circulamos no nosso mundo. Os loucos podem não conhecer o caminho, mas sempre olham pra frente. Olhamos um para o outro porque este é o nosso melhor destino, nossa melhor viagem. 











APENAS UM PÊ ÉSSE: 
Sobre o amor ser uma loucura e os loucos serem representados por círculo - inclusive no tarot é o número zero - tem muito sentido que as pessoas busquem a metade da laranja. Porque o círculo é uma forma que só faz sentido inteira. Não é como o quadrado que recortado ao meio faz dois retângulos, ou triângulos que fazem dois triângulos. Círculos partidos são frações. Dois meio círculos. É louco, mas faz sentido. 


Crazy Little Thing Called Love
This thing called love I just can't handle it
This thing called love I must get round to it
I ain't ready
Crazy little thing called love
This thing (this thing) called love (called love)
It cries (like a baby)
In a cradle all night
It swings (woo woo)
It jives (woo woo)
It shakes all over like a jelly fish
I kinda like it
Crazy little thing called love
There goes my baby
She knows how to Rock'n'Roll
She drives me crazy
She gives me hot and cold fever
Then she leaves me in a cool cool sweat
I gotta be cool relax get hip!
Get on my track's
Take a back seat
Hitch hike
And take a long ride on my motor bike
Until I'm ready
Crazy little thing called love
I gotta be cool relax get hip!
Get on my track's
Take a back seat
Hitch hike
And take a long ride on my motor bike
Until I'm ready (ready Freddie)
Crazy little thing called love
This thing called love I just can't handle it
This thing called love I must get round to it
I ain't ready
Crazy little thing called love...


sábado, 9 de fevereiro de 2013

talvez seja o amor


Talvez seja o amor um beco pintado de amarelo. Talvez seja um poço vazio. Talvez seja o amor uma brisa em tarde de domingo ou um suspiro. Um retrato antigo da infância, um bolo de milho, o pó da estrada, a porta da frente.

Talvez seja o amor essa falta de senso, este excesso de zelo, a cumplicidade, o vapor da água fervendo. Talvez seja o amor a mesa posta, a carta escrita, o verbo dito. Talvez seja o amor uma janela aberta. Talvez seja o amor uma insanidade.

Talvez seja o amor essa combinação rara das cores e as conexões sem sentido. A facilidade para dizer o que o outro diria, para invadir ideias ou dividir a sobremesa e a lua. E a cama. E o dia. Bom dia.

Talvez seja o amor esses momentos, a fotografia da memória, a saudade madura, o segredo das horas, a esticada dos segundos. Talvez seja o amor um rolo de feno, uma pausa no acostamento para dançar de rosto colado, a gargalhada que fugiu. Talvez seja o amor uma rede para dois, o cheiro da chuva, a dedicatória no livro, o sol atrás do morro.

Talvez seja o amor a falta, a incompletude, a ausência. A curva do corpo que se molda à mão. A boca que encontra na outra o seu encaixe. Talvez seja o amor um abraço. Talvez o amor seja o vício. Ou o brilho que ele tem no olho. Ou o sorriso que eu carrego no rosto. Talvez seja o amor o infinito. 



Loving You Is Sweeter Than Ever - Eric Clapton


I remember yet before we met
When every night and day
I had to live the life of a lonely one.
And I remember meeting you,
Discovering love could be so true
When shared by two, 'stead of only one.

When you said you loved me
We could not be parted.
Said, I built my world around you
And I'm truly glad I found you

Because loving you has made my life sweeter than ever.
I never felt so good before.
Loving you has made my life sweeter than ever.
Yes it has, you know it has.

Each night I pray we'll never part
Because the love within my heart
Grows stronger from day to day.
Best I try, hard I try
To reassure and satisfy.
You know I'd be lost if you went away.

Bridge

Because loving you has made my life sweeter than ever.
Yes it has, I know it has.
Loving you has made my life sweeter than ever.

Bridge

Because loving you has made my life sweeter than ever.
I never felt so good before.
Loving you has made my life sweeter than ever.
Yes it has, you know it has.
Loving you has made my life sweeter than ever.
Don't you know my baby there.
Loving you has made my life sweeter than ever


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

cover da elba ramalho


O meu pai é o rei da pizza! Juro. Faz a melhor do mundo, ele mesmo faz a massa, enrola, aperta, observa, abre. Ganhou a receita da massa de uma amiga, Iolanda, que na verdade se chama Jussara. Ela furtou a receita de uma pizzaria uruguaia, escreveu de próprio punho em um papel de rascunho no trabalho. Assinou. O pergaminho foi emoldurado, fica pendurado em cima da churrasqueira no apartamento da praia. A tal pizza é feita só lá porque tem uma chapa de mármore que permite assar com a perfeição que exige. 


Lógico que já tentei fazer no forno de casa. Lógico que não deu certo. Também não deu errado, mas só o meu pai tem o dom. Já disse, ele é o rei da pizza.


Quando se faz um ano de namoro, o namorado já conhece os dotes culinários, então é hora de apresentar os benefícios de permanecer na família. A pizza que o meu pai faz é um benefício que conta muitos pontos e estrelinhas, ainda mais com o meu namorado que ama pizza. Pedi piscando os olhos, abusando da cara de Cocker, para o pai mexer sua bacia mágica, acender seu caldeirão vertical e fazer a poção da felicidade. Ele aceitou. Convidei o amor. Ele aceitou. 


Então perfeito! Meu pai se encarrega da janta, eu me encarrego do figurino. Tomei banho, sequei os cabelos, escolhi um vestido amarelo que comprei numa tenda em Garopaba. Peça exclusiva e esvoaçante. Ombros de fora, longo, racha lateral. Um aperitivo para os olhos. Comprei vinho, lógico. Passei rímel, ajeitei o filho. Esperei por ele. Ele chegou, fui saltitante recepcionar no elevador, esperando pelos beijos, sedenta pelos abraços. O corredor do quinto andar guarda entre as suas tintas e poeiras muitas linhas das nossas histórias.


Abriu-se a porta do elevador. Eu, toda exibida, joguei meus braços em volta do pescoço dele. Essa é a parte onde ele me cheira, depois elogia dizendo que tem a mulher mais linda do mundo, que quer ficar olhando. Daí ele passa uns cinco minutos me analisando, faz eu ir, voltar, girar. Sim, eu me presto a fazer tudo isso. Porém, desta vez, ele me olhou e disse: 


- Elba Ramalho!!! 


Fechei a cara. Dei as costas, fui andando pelo corredor com meus vestido esvoaçante, amarelo-vergonha-própria, que visivelmente não agradou. Ele atrás, com aquela cara de pato que perdeu as penas, sem saber se ria mais ou pedia desculpas. Fiz sinal com o dedo para subir as escadas de caracol até a churrasqueira porque a pizza já estava pronta. 


Jantamos, a pizza estava perfeita. Meu pai ficou com todos os elogios da noite, meu namorado satisfeito e eu quase cantando “de volta pro meu aconchego”. Não troquei o vestido para a janta. Errei o figurino. Ico ainda tentou me convencer que era brincadeira pelo estilo do vestido. Quase se desculpou por não ter gostado do vestido. 


Tudo bem... 
Mas, cover Elba Ramalho, é pra matar! 


Por sorte, não sou vingativa. Poderia ter colocado pimenta na pizza dele, veneno no vinho ou empurrado da escada, não sei... Fiz o que se deve fazer com os erros. Fui prática, depois da janta passei uma borracha no borrão têxtil  que envolvia meu corpo. Troquei a gafe do vestido pelo acerto de uma camisola macia. Ele me chamou para a cama: 


- Vem cá, Maria Bethânia! 






Este é o vestido, não me perguntem por que a foto está deitada, tentei deixar em pé. Acho que o blog também não curtiu o figurino! 



PS.: Acordar a pessoa às 7:30 da manhã de uma segunda-feira com beijo na orelha não é vingança, né? Ou é? 



De volta pro meu aconchego - Elba Ramalho 


Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo 
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade 
Que bom, 
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando 
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim




O Ministério do Relacionamento informa: casais que sabem se divertir unidos, permanecem unidos.