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Mostrando postagens de Fevereiro, 2013

ímpares em par

Jamais perguntei o nome dele. Imaginava ser um, torcia para não ser outro. Ele nunca me perguntou quem eu era, o que seria absurdo demais. Nada disso jamais interessou. Dispenso o nome porque chamo por apelidos, escrevo para ele por desenhos. Às vezes, nem isso precisa. Suspiro, ele vem. Levanto os olhos e ele invade a linha do horizonte, faz sombra na minha areia para violar a privacidade das minhas confissões. Ele não quer saber quem eu sou porque prefere descobrir, me inventar, me supor, me modificar e recriar conforme bem entende. Sou permissiva.
As pessoas são ímpares. Os casais são formados por dois ímpares. Ao nosso modo, somos únicos. Ao nosso modo, em especial, somos loucos um pelo outro. Digo loucos de uma maneira iluminada, como quem sai de casa e deixa a janela aberta para que as manhãs possam invadir o ambiente. Loucos como quem carrega nos bolsos as raízes, mas sai sem rumo, cruza estrada, país, continente. Trapaceamos com os relógios, as bússolas e os mapas. Encaramos u…

talvez seja o amor

Talvez seja o amor um beco pintado de amarelo. Talvez seja um poço vazio. Talvez seja o amor uma brisa em tarde de domingo ou um suspiro. Um retrato antigo da infância, um bolo de milho, o pó da estrada, a porta da frente.
Talvez seja o amor essa falta de senso, este excesso de zelo, a cumplicidade, o vapor da água fervendo. Talvez seja o amor a mesa posta, a carta escrita, o verbo dito. Talvez seja o amor uma janela aberta. Talvez seja o amor uma insanidade.
Talvez seja o amor essa combinação rara das cores e as conexões sem sentido. A facilidade para dizer o que o outro diria, para invadir ideias ou dividir a sobremesa e a lua. E a cama. E o dia. Bom dia.
Talvez seja o amor esses momentos, a fotografia da memória, a saudade madura, o segredo das horas, a esticada dos segundos. Talvez seja o amor um rolo de feno, uma pausa no acostamento para dançar de rosto colado, a gargalhada que fugiu. Talvez seja o amor uma rede para dois, o cheiro da chuva, a dedicatória no livro, o sol atrás do…

cover da elba ramalho

O meu pai é o rei da pizza! Juro. Faz a melhor do mundo, ele mesmo faz a massa, enrola, aperta, observa, abre. Ganhou a receita da massa de uma amiga, Iolanda, que na verdade se chama Jussara. Ela furtou a receita de uma pizzaria uruguaia, escreveu de próprio punho em um papel de rascunho no trabalho. Assinou. O pergaminho foi emoldurado, fica pendurado em cima da churrasqueira no apartamento da praia. A tal pizza é feita só lá porque tem uma chapa de mármore que permite assar com a perfeição que exige. 

Lógico que já tentei fazer no forno de casa. Lógico que não deu certo. Também não deu errado, mas só o meu pai tem o dom. Já disse, ele é o rei da pizza.

Quando se faz um ano de namoro, o namorado já conhece os dotes culinários, então é hora de apresentar os benefícios de permanecer na família. A pizza que o meu pai faz é um benefício que conta muitos pontos e estrelinhas, ainda mais com o meu namorado que ama pizza. Pedi piscando os olhos, abusando da cara de Cocker, para o pai mexer s…