Pular para o conteúdo principal

cover da elba ramalho


O meu pai é o rei da pizza! Juro. Faz a melhor do mundo, ele mesmo faz a massa, enrola, aperta, observa, abre. Ganhou a receita da massa de uma amiga, Iolanda, que na verdade se chama Jussara. Ela furtou a receita de uma pizzaria uruguaia, escreveu de próprio punho em um papel de rascunho no trabalho. Assinou. O pergaminho foi emoldurado, fica pendurado em cima da churrasqueira no apartamento da praia. A tal pizza é feita só lá porque tem uma chapa de mármore que permite assar com a perfeição que exige. 


Lógico que já tentei fazer no forno de casa. Lógico que não deu certo. Também não deu errado, mas só o meu pai tem o dom. Já disse, ele é o rei da pizza.


Quando se faz um ano de namoro, o namorado já conhece os dotes culinários, então é hora de apresentar os benefícios de permanecer na família. A pizza que o meu pai faz é um benefício que conta muitos pontos e estrelinhas, ainda mais com o meu namorado que ama pizza. Pedi piscando os olhos, abusando da cara de Cocker, para o pai mexer sua bacia mágica, acender seu caldeirão vertical e fazer a poção da felicidade. Ele aceitou. Convidei o amor. Ele aceitou. 


Então perfeito! Meu pai se encarrega da janta, eu me encarrego do figurino. Tomei banho, sequei os cabelos, escolhi um vestido amarelo que comprei numa tenda em Garopaba. Peça exclusiva e esvoaçante. Ombros de fora, longo, racha lateral. Um aperitivo para os olhos. Comprei vinho, lógico. Passei rímel, ajeitei o filho. Esperei por ele. Ele chegou, fui saltitante recepcionar no elevador, esperando pelos beijos, sedenta pelos abraços. O corredor do quinto andar guarda entre as suas tintas e poeiras muitas linhas das nossas histórias.


Abriu-se a porta do elevador. Eu, toda exibida, joguei meus braços em volta do pescoço dele. Essa é a parte onde ele me cheira, depois elogia dizendo que tem a mulher mais linda do mundo, que quer ficar olhando. Daí ele passa uns cinco minutos me analisando, faz eu ir, voltar, girar. Sim, eu me presto a fazer tudo isso. Porém, desta vez, ele me olhou e disse: 


- Elba Ramalho!!! 


Fechei a cara. Dei as costas, fui andando pelo corredor com meus vestido esvoaçante, amarelo-vergonha-própria, que visivelmente não agradou. Ele atrás, com aquela cara de pato que perdeu as penas, sem saber se ria mais ou pedia desculpas. Fiz sinal com o dedo para subir as escadas de caracol até a churrasqueira porque a pizza já estava pronta. 


Jantamos, a pizza estava perfeita. Meu pai ficou com todos os elogios da noite, meu namorado satisfeito e eu quase cantando “de volta pro meu aconchego”. Não troquei o vestido para a janta. Errei o figurino. Ico ainda tentou me convencer que era brincadeira pelo estilo do vestido. Quase se desculpou por não ter gostado do vestido. 


Tudo bem... 
Mas, cover Elba Ramalho, é pra matar! 


Por sorte, não sou vingativa. Poderia ter colocado pimenta na pizza dele, veneno no vinho ou empurrado da escada, não sei... Fiz o que se deve fazer com os erros. Fui prática, depois da janta passei uma borracha no borrão têxtil  que envolvia meu corpo. Troquei a gafe do vestido pelo acerto de uma camisola macia. Ele me chamou para a cama: 


- Vem cá, Maria Bethânia! 






Este é o vestido, não me perguntem por que a foto está deitada, tentei deixar em pé. Acho que o blog também não curtiu o figurino! 



PS.: Acordar a pessoa às 7:30 da manhã de uma segunda-feira com beijo na orelha não é vingança, né? Ou é? 



De volta pro meu aconchego - Elba Ramalho 


Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo 
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade 
Que bom, 
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando 
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim




O Ministério do Relacionamento informa: casais que sabem se divertir unidos, permanecem unidos. 

Comentários

Tainá disse…
Eu empurrava da escada! kkkk
Silvana disse…
Nem comentemos sobre o vestido! rs
Paula disse…
Vocês são demais!
Carlos disse…
Pô! Mas ta LINDA de Amarelo!!!!

Postagens mais visitadas deste blog

simpatia para parar de chover

Só para seguir a tradição, chove. Nos primeiros dias das minhas férias na praia é sempre o que acontece. O primeiro dia geralmente tem um sol sedutor, um calor de matar, mar lindo. Depois chove. Eu gosto de chuva. Mesmo na praia, mesmo de férias. Mas também gosto de aproveitar o mar, a areia, gosto de caminhar, de tostar no sol e ficar enfarofada junto com o meu filho, usar chinelos em vez de galochas.
Por isso aprendi várias simpatias!
Sueli, que trabalha na minha casa desde a pedra fundamental, disse que se deve jogar um punhado de sabão em pó no telhado. Pedir para Santa Luzia limpar o tempo. Já fiz isso. Considerando o preço do sabão em pó, gostaria de saber se a santa poderia limpar o tempo com sabão em barra. Sem falar que no ano passado sofri um pequeno acidente Bem na horinha que fui jogar o sabão, bateu um vento que trouxe todo o pozinho azul direto para o meu rosto. Nunca tive olhos e boca mais brancos! Sem manchas desde a primeira lavagem.
A avó do meu amigo Felipe, Dona Sa…

a noiva do vento

Peça para uma criança definir o vento. Eu apenas acreditava na existência real do ar quando ele virava vento. Quando era tomado de força, ganhava forma, movimento, atiçava a minha curiosidade. A observação do vento ainda atrai os pequenos. Na pracinha aqui perto havia uma menina sentada à sombra com a mãe. Olhava com atenção as folhas secas que trocavam de lugar no chão. Nem balanço, nem gangorra, a garota estava descobrindo o vento.
O vento tem intimidade com a paixão.
Oskar Kokoschka pintou A NOIVA DO VENTO com pinceladas desesperadas, cores nervosas, num quadro que emoldura a própria enxaqueca do abandono. Na obra, uma mulher adormecida sobre um corpo masculino, cujos olhos não passam de órbita vazia – tradução da ausência de vida. A mulher não o deixa, mesmo que ele já a tenha deixado. Mesmo que ele já esteja morto. A ausência de qualquer conotação sexual pela ausência de cores quentes (vermelho, laranja) e o excesso de tudo aquilo que pode faltar, que remete ao gelo e à solidão pe…

joelho

Coisa bem feia é joelho. Não me afeiçoa a palavra, nem a parte do corpo, em que pese reconheça a importância. Tanto reconheço, que se eu jurar algo pelos meus joelhos, será verdade. Justifico: me falta a memória para lembrar quando a expressão surgiu, talvez, nos idos de 2010. Acho. Eu fui muito dramática em 2010.
Pode ser que, embalada por um café passado, quase frio e sem açúcar, não menos amargo que a pauta da conversa com um amigo, tenha surgido a dúvida sobre algum sentimento que profetizei.
“Jura" - ele deve ter perguntado. “Pelos meus joelhos, juro pelos meus joelhos!” - lembro de ter respondido.
Os joelhos são feios e úteis. São complicados e importantes. Entre o fêmur, a tíbia e a fíbula; colaterais, cruzados e meniscos. É como o amor. Entre o eu te amo, a entrega e a vida; medos, expectativas, preservação.
Por que as crianças estão sempre com os joelhos ralados? Porque são destemidas. Até que se abra o primeiro corte, que se faça a primeira cicatriz. Até que o pai advirta.E…