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Mostrando postagens de Abril, 2013

os chamados - capítulo dois

II – socorro
Somos três pessoas morando em um apartamento. Três pessoas e um gato. Ninguém é muito bagunceiro, mas depois de semanas de mudanças, caixas, sacos e sacolas, era fácil praticar corrida de obstáculo pelos cômodos. Tratei logo de liberara o percurso até o banheiro, por motivo de logística – e segurança noturna. A verdade é que banheiro & lavabo eram as únicas peças da casa com real habitabilidade, se é que o termo existe. Todavia, porém, contudo e outras conjunções do tipo, não tenho verdadeiros amores pelo banheiro. Gosto mesmo é da cozinha. Uma outra hora escrevo só sobre a cozinha, se é que já não fiz. 
É que a esta hora da noite, depois da segunda taça de vinho branco – por motivos de clareamento, por motivos de dentes brancos e reluzentes nas fotografias -, apenas não me lembro. Mas lembro-me que a cozinha está um belíssimo caos. Digo belíssimo porque é divertido. Ainda não temos armários. Então todas as coisas de cozinha, do garfo até a massa, do liquidificador até …

os chamados - minissérie em três capítulos

CAPÍTULO I 
amor

“Amor”é a palavra que mais escuto. Meu marido me chama por mania, me chama por chamar, me chama para não perder o costume. Se estou na sala e ele no quarto, me grita “amor”. E mesmo que eu responda “o quê”, ele reitera o pedido. Precisa que eu apareça. É um teste de mágica na vida do casal. Abracadabra faz aparecer coelho na cartola. “Amor”me faz aparecer pela casa.
Quem inventou isso foi Jeannie é um gênio. Ela ficava lá na sua lâmpada mágica, vivendo a vida de gênio, com os afazeres de gênio, até que seu amo, Major Nelson, precisasse das suas trapalhadas. Bom, isso foi na década de sessenta. Hoje as aparições geniais evoluíram. 
Meu amo não me chama apenas quando precisa de mim. Não me prende num frasco de perfume, não me convoca quando precisa de algum feitiço ou quando está todo atrapalhado, precisando de soluções em um passo de mágica. Não. 
A maioria dos meus chamados não se resolvem com um plim!
Sou chamada para ser vista. Ele me chama de “amor”pela casa porque pre…

técnica

Dizem que nos cursinhos aprendemos macetes infalíveis. Quer passar no vestibular? Não esqueça que Deus Vê Tudo é a fórmula do movimento retilíneo uniforme. Nem que Sepultura Para Defunto Fresco é a ordem da Tabela de Linus Pauling. E para decorar algumas regras da crase, você ainda pode cantarolar uma musiquinha no ritmo de o cravo brigou com a rosa. 
Há quem ensine macetes infalíveis pra tudo, inclusive, ou principalmente, para a conquista. Ah... o vestibular do amor. Não marque o xis, marque uma flechada no peito, atravesse sem piedade o coração. Esqueça as múltiplas escolhas, a grade de respostas, o tema da redação. Decore apenas o telefone dela!
O flerte, a corte, o xalalá já contam com uma verdadeira equipe técnica. A seleção brasileira está perdendo excelentes treinadores. Amigos trocam figurinhas, desenham organogramas, fluxogramas e treinam jogadas ensaiadas. 
Uma noite dessas fomos a um aniversário, meu marido e eu, sentamos com os amigos da aniversariante. Conversa vai, convers…

você

Não existe no mundo um olhar como o teu. Quando o teu olho gruda em mim, é espuma de mar. É a cócega que faz na pele e deixa dúvida se a sensação foi só toque ou suspiro. É leve, mexe comigo pela delicadeza. A mesma delicadeza com que os teus cabelos enroscam nos meus quando dividimos o travesseiro para dormir mais juntos. Não precisamos ter cama de casal. Dormimos nas estrelas. Nosso sonho é ficar acordado. Deixamos a noite nua até virar dia entre nossos assuntos infinitos, gargalhadas e teorias. Você me diz que eu não acredito. Eu retruco que acredito sim. 
Depois que comecei a acreditar em amor à primeira vista, tua existência não me faz duvidar de mais nada. Toda a dedicação que eu vejo, todo o empenho, todo o cuidado se traduz em amor, escrito em mim pelas tuas mão. 

E aquela hora do dia que a gente se abraça na frente do espelho para acreditar que é real? E aquela hora da noite que levantamos as persianas para que a cidade morra de inveja? E todas as horas que não tiramos do pen…