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a vingança - capítulo três




De tanto ser chamada, resolvi chamar. Chego em casa carregada de sacolas por necessidade doméstica, mas finjo que é esporte. Subir três andares de escada carregando o triplo do peso dá muito preparo físico. Espalho tudo pela cozinha e clamo por atenção, chamo o gato, o filho, o marido. Preciso de plateia para organizar a casa. Eu vou guardando as coisas e atualizando a família sobre o meu dia, xingando o gingado da geladeira e procurando coisas pelas caixas da cozinha. Depois vou recolher a roupa. Quando pergunto o que querem de janta, o pelotão já dispersou. Um ligou a televisão, outro travou batalhas com heróis e o último desencavou uma bolinha barulhenta para jogar pelo parquet. 

Munch disse "Não devemos pintar interiores com pessoas lendo e mulheres tricotando, devemos pintar pessoas que vivem, respiram sofrem e amam." Imagino a minha pintura, carregada em cores, não gritando, mas dando gargalhadas. A vida de casada é melhor do que eu imaginei. 

Eu não surto, me divirto. E me vingo, óbvio. 

Chamo o filho para o banho. Eduardo não tem problema algum para fazer tema de casa ou guardar os brinquedos, mas banho... É aquela fase que se acha limpinho e cheiroso por mais imundo e melequento que esteja. Chamo o gato Tobias perto do pote de ração, ele jura que é janta. Errado, é lencinho umedecido pelas patinhas, pelo corpo, pelo rabo, para ficar asseado dentro do apartamento. 

E para finalizar, a mais doce vingancinha. A minha favorita incomodação: o marido. Espero começar a final do campeonato de tênis para conversar sobre amenidades. Espero começarem as notícias de New York, preferencialmente em inglês, para perguntar se ele prefere pintar a cama de branco ou deixar assim. Espero qualquer coisa que chame a atenção dele na televisão para perguntar se vai chover. Ainda aponto a janela para que olhe. 

Claro que as vinganças podem sofrer represálias. Às vezes sou convencida a sentar e relaxar, daí ele me abraça tão forte, tão forte querendo me convencer que é amor e saudade. Safado. É um bom para-te-quieta. Um mata-leão de sofá. Um nó cego, surdo e mudo em mim. 

Já me convenci que meus chamados podem não ser respondidos, mas a tentativa é sempre válida! 



E dentro dele fica o melhor abraço. 


Did you say I've got a lot to learn?
Well babe, don't think I'm trying not to learn
Since this is the perfect spot to learn
Go on, teach me tonight

Starting with the ABC of it
Right down to the XYZ of it
Help me solve the mystery of it
Go on, teach me tonight

The sky's a blackboard high above you
If a shooting star goes by
I'll use that star to write "I love you"
A thousand times across the sky

One thing isn't very clear, my love
Should the teacher stand so near, my love?
Graduation's almost here, my love
Teach me tonight

I'll use that star to write "I love you"
A thousand times across the sky

One thing isn't very clear, my love
Should the teacher stand so near, my love?
Graduation's almost here, my love
Oh oh teach me...
Oh oh
Teach me tonight


Comentários

Louise... adoro teus textos.. eu é que me divirto! hehehehe

Vou seguir as dicas práticas das vingancinhas sutis e cheias de amor!!!

Beijo grande,

Cris Lavratti
Gabi disse…
Ler teus textos me faz tao bem. Tu é linda d+ em todos os aspectos.

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