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Mostrando postagens de Junho, 2013

os furos

O tubo de pasta de dentes estava aberto em cima da pia. Coloquei a tampa. Certifiquei de empurrar o conteúdo no sentido cauda-boca. Pendurei a toalha no gancho novo que comprei enquanto ria me lembrando da instalação. Nós dois enfurnados no banheiro, socados entre a pia e a porta , afastando a balança digital com os pés. Medindo qual seria o lugar perfeito – nosso banheiro só tem lugar para a perfeição.
Eu abri a embalagem, separei os parafusos, o suporte e o gancho com precisão de instrumentadora cirúrgica. Deixei tudo pelo balcão. Ele, de furadeira em punho, mediu duas, três vezes. Marcou com a canetinha que furtamos do Eduardo. Ensaiou e não furou.
- O que foi? Por que não furou? - E se tiver um cano? - Amor, aqui não passa água... - Tem certeza? - Não... Mas, por que passaria? A pia fica ali, o sanitário ali e a banheira lá. Não deve passar um cano aqui!
Ele pareceu plenamente convencido dos meus argumentos. Daí eu vi onde ele ia furar.
- Amor, amor, amor! Espera! Não fura ainda a p…

armário

Descobri recentemente um livro português que falava sobre psicologia e puberdade. Meu filho ainda está longe dessa fase, mas li rapidinho a versão eletrônica por pura curiosidade com o nome “a idade do armário”. Os portugueses chamam assim a fase da puberdade. Uma das justificativas do livro é, que nessa idade, em que a criança não é mais criança, nem um adolescente, muito menos um adulto, é – sim – qualquer coisa parecida com um extraterrestre. Assim sendo, os pais sentem vontade de prender o pobre esquisitinho dentro de um armário até que passe. Confesso que na minha puberdade não acharia má ideia.

A explosão de hormônios que começa na puberdade só estabiliza quase no final da adolescência, quando o ser pode "sair do armário" e, com proporcional autonomia, decidir seus rumos. Assumir os riscos e as consequências das escolhas.
Na minha antiga casa tínhamos um armário embutido onde guardávamos toda a confusão da casa. Guardávamos também qualquer resto de qualquer coisa que se…

escolhi esperar

Nos finais das aulas costumo propor reflexões. Para uma delas usei Pope: “Feliz do homem que não espera nada, pois nunca terá desilusões”. Indaguei se seria digno viver sem esperança. Fui partidária das desilusões como excelentes professoras. Quis impor coragem para provar uma decepção em nome do doce sabor da ilusão, descrevi que era possível tirar bons frutos. Aprender. Optar por um novo erro.
O caráter não se molda apenas com os acertos. A vida precisa de cicatrizes no joelho e das histórias que cada uma guarda. A dor, o mercúrio, o band-aid, porém na proporção da alma. Nem todas levam pontos.
Expliquei que a espera é atividade de risco, mas nem sempre é insalubre porque o que vem depois pode não ser a decepção, pode ser uma surpresa. Pode ser melhor. Tentei panfletar a favor da expectativa para que a desilusão não fosse tão assustadora, para que não se abdicasse da vida com esperança e com experiências por causa de desilusões fantasmagóricas. Contei que durante a gravidez esperei …