sábado, 29 de junho de 2013

os furos

O tubo de pasta de dentes estava aberto em cima da pia. Coloquei a tampa. Certifiquei de empurrar o conteúdo no sentido cauda-boca. Pendurei a toalha no gancho novo que comprei enquanto ria me lembrando da instalação. Nós dois enfurnados no banheiro, socados entre a pia e a porta , afastando a balança digital com os pés. Medindo qual seria o lugar perfeito – nosso banheiro só tem lugar para a perfeição.

Eu abri a embalagem, separei os parafusos, o suporte e o gancho com precisão de instrumentadora cirúrgica. Deixei tudo pelo balcão. Ele, de furadeira em punho, mediu duas, três vezes. Marcou com a canetinha que furtamos do Eduardo. Ensaiou e não furou.

- O que foi? Por que não furou?
- E se tiver um cano?
- Amor, aqui não passa água...
- Tem certeza?
- Não... Mas, por que passaria? A pia fica ali, o sanitário ali e a banheira lá. Não deve passar um cano aqui!

Ele pareceu plenamente convencido dos meus argumentos. Daí eu vi onde ele ia furar.

- Amor, amor, amor! Espera! Não fura ainda a parede.
- O que foi? Passa cano?
- Não. Acho que não. Mas vamos furar no rejunte porque no azulejo pode rachar. Sei lá. Acho que racha.

Casei com um perfeccionista. Ele mediu cada milímetro do azulejo, analisou precisamente o rejunte. Permaneci imóvel. Segurei a respiração para que não alterasse em nada a marcação dos novos futuros furos. Ele passou os dedinhos no rejunte branco, eu segurei a pá para evitar a sujeira. Ele furou a parede.

Quase tudo perfeito, não fosse a bucha maior que o furo.
Buchas são objetos pequenos com duas utilidades: a primeira é sumir no momento que vamos colocar os parafusos. A segunda é enganar os furadores desavisados do seu tamanho exato.

Meu marido-herói tentou com empenho convencer o furo a aumentar o diâmetro. Em vão. Munimos a furadeira com uma broca maior. Um novo furo e uma lasca de azulejo voando sobre a pia. Cicatriz de cirurgia. A gente nunca consegue prever exatamente a reação epitelial.

Tudo bem, ganchinho instalado com muito sucesso! A moldura metálica escondeu o pedacinho lascado. O banheiro segue em sua perfeição.

Esta semana ganhamos do tio Neca e da tia Milca uma secadora de roupa. Medimos na parede, ensaiamos, cogitamos novamente todas as possibilidades de canos, fios, gás e petróleo na parede. Decidimos pelo mais seguro: chamar um especialista. Um faz-tudo, instalador profissional, pós-graduado em encanamentos, paredes e tubulações.

Não por dúvida da nossa capacidade instalatória, mas porque quando eu era criança o Tio Neca era especialista em me sacanear das mais diversas formas. Conto com a tia Milca,que além de nos contar as mais encantadoras histórias, sempre nos protegeu das tiranias. Certamente ela não nos enviaria um cavalo de Tróia. 




domingo, 16 de junho de 2013

armário

Descobri recentemente um livro português que falava sobre psicologia e puberdade. Meu filho ainda está longe dessa fase, mas li rapidinho a versão eletrônica por pura curiosidade com o nome “a idade do armário”. Os portugueses chamam assim a fase da puberdade. Uma das justificativas do livro é, que nessa idade, em que a criança não é mais criança, nem um adolescente, muito menos um adulto, é – sim – qualquer coisa parecida com um extraterrestre. Assim sendo, os pais sentem vontade de prender o pobre esquisitinho dentro de um armário até que passe. Confesso que na minha puberdade não acharia má ideia.

A explosão de hormônios que começa na puberdade só estabiliza quase no final da adolescência, quando o ser pode "sair do armário" e, com proporcional autonomia, decidir seus rumos. Assumir os riscos e as consequências das escolhas.

Na minha antiga casa tínhamos um armário embutido onde guardávamos toda a confusão da casa. Guardávamos também qualquer resto de qualquer coisa que se pudesse precisar a qualquer tempo, leia-se, tralha. Minha irmã e eu inventamos que lá dentro morava o monstrinho da família. De uma certa maneira, não era mentira. Toda a família deve ter um lugar para guardar a desorganização, apenas para tentar organizar. É saudável.

O armário é um lugar mágico. Há quem considere terapêutico organizar closets ou guarda-roupas. Desde quando me mudei, ainda não fiz essa terapia...

Preferi que as roupas e sapatos ficassem à vontade, ocupando o lugar que desejassem. Sem traumas. Volta e meia preciso de um cinto, encontro dentro de uma bolsa. Quero uma calcinha, ela está pendurada em um cabide. O meu armário não é badernado. É exótico. É alternativo. É lado B. 

Dentro do armário guardamos nossos segredos, nossos monstrinhos, nossos defeitos, aquelas confusões particulares, nem que seja numa caixinha dentro da gaveta das meias. Quando Van Gogh pintou “Quarto em Arles”, retratou nas suas vírgulas a ausência do armário. Algumas peças de roupa estavam em cabides na parte de trás da cama. Não me surpreende que tenha sido reincidente em suas internações psiquiátricas. Negar nosso espaço de desordem não significa não ter. 

Ignorar os grilos não faz com que sumam.
(cri cri cri)

Meu marido costuma me repreender porque deixo as portas dos armários abertas. Diz que é meu único defeito. Encaro diferente. Minha teimosia em não fechar as portas é minha falta de talento para esconder meus grilos, defeitos e monstrinhos. Veja pelo lado bom, meu bem, de ti não guardo segredos! Meu armário é minha vida de portas abertas. A mulher que deixa as portas dos armários abertas, escancara a sua história. No meio das roupas bagunçadas, se mostra nua de qualquer pudor. 

Não recebemos visitas dentro do armário, nem no quarto. Recebemos na sala, lugar de trânsito, de festa, da fala alta, da divisão. É a rede social do lar. Dividimos a casa com os amigos até a porta do quarto. Daquela maçaneta em diante, a dobradiça apresenta a intimidade. O armário é a profundeza do inconsciente. 

Tento explicar ao marido, mas o convencimento é quase impossível. Soa a desculpa mal lavada. E mal passada.


O lado engraçado é que dia desses ele fechou todas as portas. Um protesto velado! Quando abri, não encontrei lá dentro meus monstros, grilos ou segredos. 
Encontrei o gato Tobias sonolento no meio da baderna! 



(a vida de casados é divertida demais!!!)





sexta-feira, 7 de junho de 2013

escolhi esperar


Nos finais das aulas costumo propor reflexões. Para uma delas usei Pope: “Feliz do homem que não espera nada, pois nunca terá desilusões”. Indaguei se seria digno viver sem esperança. Fui partidária das desilusões como excelentes professoras. Quis impor coragem para provar uma decepção em nome do doce sabor da ilusão, descrevi que era possível tirar bons frutos. Aprender. Optar por um novo erro.

O caráter não se molda apenas com os acertos. A vida precisa de cicatrizes no joelho e das histórias que cada uma guarda. A dor, o mercúrio, o band-aid, porém na proporção da alma. Nem todas levam pontos.

Expliquei que a espera é atividade de risco, mas nem sempre é insalubre porque o que vem depois pode não ser a decepção, pode ser uma surpresa. Pode ser melhor. Tentei panfletar a favor da expectativa para que a desilusão não fosse tão assustadora, para que não se abdicasse da vida com esperança e com experiências por causa de desilusões fantasmagóricas. Contei que durante a gravidez esperei nove meses para conhecer meu filho. Não tive desilusão. O momento foi incrivelmente melhor do que qualquer coisa que consegui imaginar.

Uma aluna me contraditou dizendo que talvez isso não se aplique ao amor. Que prefere não esperar nada quando o assunto é do coração. Nem das pessoas. Nem do amor. Ela disse que não poderia descrever o que espera do amor porque prefere não esperar nada dele.

Eu juro que tentei me posicionar no lugar dela, mas não consegui. Tenho mais do que esperança no amor. Tenho fé, convicção, devoção. Espero que o amor jamais me espere porque não pretendo andar atrás dele. Espero andar de mãos dadas, dançar de rosto colado pela casa, usando trajes menores como se fosse gala enquanto Elvis canta. Espero do amor que ele me sorria iluminando os dias de chuva.

Espero do amor o companheirismo, o bom humor das piadas sem graça e das piadas repetidas na hora da janta. Espero a criatividade dos jargões, a imaginação das viagens, a clausura egoísta das noites de sexta-feira, a surpresa da taça de vinho deixada na borda da banheira. Não espero que o amor arrume a cama, mas que bagunce comigo. Não espero que o amor lave a louça ou faça o jantar, prefiro que ele seja limpo, honesto e que saiba me devorar inteira quando eu sinalizar que estou servida. Com ou sem pimenta.

Não espero que o amor me espere na janela, mas adoro quando ele abre a porta e me puxa se demoro para entrar. Espero que o amor me veja todos os dias, me enxergue, mesmo naquela hora da manhã que ele diz que eu estou linda sem sequer abrir o olho. Ser bonita para ele eu faço de cor e salteado.


Não tenho medo da desilusão, prefiro arriscar a surpresa. Espero do amor nosso de cada dia as melhores escolhas, a nossa família, o nosso jeito, o vaso de flores na entrada da casa. Espero saber reconhecer sempre quando isso acontece. Espero do amor o olhar de espuma do mar, a pele lisa e as noites em claro, as estrelas que chamam o sol, o cheiro que ele deixa no meu cabelo depois do abraço. Espero do amor que ele continue ao meu lado. Convicto. Devoto. Feliz.  





It's Now Or Never - ELVIS 

It's now or never,
come hold me tight
Kiss me my darling,
be mine tonight
Tomorrow will be too late,
it's now or never
My love won't wait.

When I first saw you
with your smile so tender
My heart was captured,
my soul surrendered
I'd spend a lifetime
waiting for the right time
Now that your near
the time is here at last.

It's now or never,
come hold me tight
Kiss me my darling,
be mine tonight
Tomorrow will be too late,
it's now or never
My love won't wait.

Just like a willow,
we would cry an ocean
If we lost true love
and sweet devotion
Your lips excite me,
let your arms invite me
For who knows when
we'll meet again this way

It's now or never,
come hold me tight
Kiss me my darling,
be mine tonight
Tomorrow will be too late,
it's now or never
My love won't wait