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os furos

O tubo de pasta de dentes estava aberto em cima da pia. Coloquei a tampa. Certifiquei de empurrar o conteúdo no sentido cauda-boca. Pendurei a toalha no gancho novo que comprei enquanto ria me lembrando da instalação. Nós dois enfurnados no banheiro, socados entre a pia e a porta , afastando a balança digital com os pés. Medindo qual seria o lugar perfeito – nosso banheiro só tem lugar para a perfeição.

Eu abri a embalagem, separei os parafusos, o suporte e o gancho com precisão de instrumentadora cirúrgica. Deixei tudo pelo balcão. Ele, de furadeira em punho, mediu duas, três vezes. Marcou com a canetinha que furtamos do Eduardo. Ensaiou e não furou.

- O que foi? Por que não furou?
- E se tiver um cano?
- Amor, aqui não passa água...
- Tem certeza?
- Não... Mas, por que passaria? A pia fica ali, o sanitário ali e a banheira lá. Não deve passar um cano aqui!

Ele pareceu plenamente convencido dos meus argumentos. Daí eu vi onde ele ia furar.

- Amor, amor, amor! Espera! Não fura ainda a parede.
- O que foi? Passa cano?
- Não. Acho que não. Mas vamos furar no rejunte porque no azulejo pode rachar. Sei lá. Acho que racha.

Casei com um perfeccionista. Ele mediu cada milímetro do azulejo, analisou precisamente o rejunte. Permaneci imóvel. Segurei a respiração para que não alterasse em nada a marcação dos novos futuros furos. Ele passou os dedinhos no rejunte branco, eu segurei a pá para evitar a sujeira. Ele furou a parede.

Quase tudo perfeito, não fosse a bucha maior que o furo.
Buchas são objetos pequenos com duas utilidades: a primeira é sumir no momento que vamos colocar os parafusos. A segunda é enganar os furadores desavisados do seu tamanho exato.

Meu marido-herói tentou com empenho convencer o furo a aumentar o diâmetro. Em vão. Munimos a furadeira com uma broca maior. Um novo furo e uma lasca de azulejo voando sobre a pia. Cicatriz de cirurgia. A gente nunca consegue prever exatamente a reação epitelial.

Tudo bem, ganchinho instalado com muito sucesso! A moldura metálica escondeu o pedacinho lascado. O banheiro segue em sua perfeição.

Esta semana ganhamos do tio Neca e da tia Milca uma secadora de roupa. Medimos na parede, ensaiamos, cogitamos novamente todas as possibilidades de canos, fios, gás e petróleo na parede. Decidimos pelo mais seguro: chamar um especialista. Um faz-tudo, instalador profissional, pós-graduado em encanamentos, paredes e tubulações.

Não por dúvida da nossa capacidade instalatória, mas porque quando eu era criança o Tio Neca era especialista em me sacanear das mais diversas formas. Conto com a tia Milca,que além de nos contar as mais encantadoras histórias, sempre nos protegeu das tiranias. Certamente ela não nos enviaria um cavalo de Tróia. 




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