quarta-feira, 10 de julho de 2013

mais furos

A história dos furos segue.

A máquina de furar que meu marido tem foi dada pelo meu pai. Era dele. Sabendo que está na herança genética das mulheres da família a paixão por furar paredes. Na minha casa a mão da filha vem acompanhada de uma furadeira. Quando marcam a data do casamento, o futuro marido já ganha a ferramenta.

Cresci acostumada com o barulho das brocas, reconheço o tamanho pelo zunido do giro. Fui criada assistindo a mãe escolhendo a parede, a altura, seguida do pai marcando o furo com alguma canetinha e depois do furo idealizado, furo feito. Precisamente feito.

Não sei como não pronunciei a palavra mandril antes de mamãe.

Quando Ico estava viajando a minha primeira aquisição para o apartamento foi um quadro. Pedi ao meu pai que furasse a parede. Minha mãe acompanhou como consultora. Deixei na parede as lembranças fotográficas de Nova York para quando ele voltasse.

Ele voltou, casamos e a furadeira ajudou a organização do apartamento.

Ganhamos dos meus tios uma secadora de roupas. Como sempre fui sacaneada pelo tio Neca – e porque escolhi uma parede perigosa para pendurar o eletrodoméstico – optamos por chamar um moço-instalador-de-secadoras-e-qualquer-outra-coisa-no-mundo. Acontece que o moço sumiu. Mas o frio e a umidade não. Nem a roupa suja!

Sou exímia lavadeira.

Cansada de esperar pelo moço que sumiu, resolvi eu mesma dar o meu jeito de ter instalada a secadora própria: marido. Ele alegou que a parede tinha canos e mais canos, que tem um tanque ali e mais uns registros, um verdadeiro campo minado! Resolvi apelar para a tecnologia. Tirei uma foto da parede com o celular, sinalizei onde eu pretendia furar e encaminhei para o meu pai: “se eu furar aqui, acerto um cano?”A resposta foi definitiva (e emocionante): “só tem como saber furando”.

Ainda não muito convencida, telefonei. Argumentei com meu pai, analisamos a parede por telefone, pedimos a sugestão da minha mãe que se absteve. Ela não gosta de inundações, detestaria se sentir responsável. Limitou-se a sugerir que eu usasse galochas e capa de chuva.

Cheia de coragem, estufei o peito, arranquei a aba da caixa. Medi a altura desejada e colei com fita isolante – não encontrei o durex! – exatamente onde a máquina de secar deveria ficar. Essas secadoras de hoje em dia são espertíssimas, como não querem ficar tortas, vêm com os furos marcados na aba superior da caixa. Tudo a prova de erros.

Ou quase.

Convenci o marido que poderíamos furar convictamente ali:

-      -  Meu pai disse que nós podemos furar aqui.

     Ele me olhou de cima da escada. Furadeira na mão. Ar questionador:

-       - Teu pai disse que aqui não passa cano?
-     - Mais ou menos, amor... Não foi beeem isso que ele disse. Disse que a gente podia furar!
      - Então aqui não passa cano...
-       - Fura, amor, fura!!!

Saltitei pela área de serviço com os olhos arregalados tentando esconder o guarda-chuvas e as galochas que já estavam de sobreaviso. O marido conferiu a broca. Seis. Certo. Broca seis. Posicionaou a furadeira e... Adivinhem o que aconteceu???

Uma viga. 

Sim. Acertamos uma viga e a broca não furou nada além do rejunte das pastilhas. Frustrante. Nos preocupamos tanto com os canos  e acabamos vencidos por uma viga marota no meio da parede. Lady Murphy me adora.

Vamos esperar que apareça o tal moço-que-sumiu.

Enquanto isso, que bom que tem feito sol!