Pular para o conteúdo principal

mais furos

A história dos furos segue.

A máquina de furar que meu marido tem foi dada pelo meu pai. Era dele. Sabendo que está na herança genética das mulheres da família a paixão por furar paredes. Na minha casa a mão da filha vem acompanhada de uma furadeira. Quando marcam a data do casamento, o futuro marido já ganha a ferramenta.

Cresci acostumada com o barulho das brocas, reconheço o tamanho pelo zunido do giro. Fui criada assistindo a mãe escolhendo a parede, a altura, seguida do pai marcando o furo com alguma canetinha e depois do furo idealizado, furo feito. Precisamente feito.

Não sei como não pronunciei a palavra mandril antes de mamãe.

Quando Ico estava viajando a minha primeira aquisição para o apartamento foi um quadro. Pedi ao meu pai que furasse a parede. Minha mãe acompanhou como consultora. Deixei na parede as lembranças fotográficas de Nova York para quando ele voltasse.

Ele voltou, casamos e a furadeira ajudou a organização do apartamento.

Ganhamos dos meus tios uma secadora de roupas. Como sempre fui sacaneada pelo tio Neca – e porque escolhi uma parede perigosa para pendurar o eletrodoméstico – optamos por chamar um moço-instalador-de-secadoras-e-qualquer-outra-coisa-no-mundo. Acontece que o moço sumiu. Mas o frio e a umidade não. Nem a roupa suja!

Sou exímia lavadeira.

Cansada de esperar pelo moço que sumiu, resolvi eu mesma dar o meu jeito de ter instalada a secadora própria: marido. Ele alegou que a parede tinha canos e mais canos, que tem um tanque ali e mais uns registros, um verdadeiro campo minado! Resolvi apelar para a tecnologia. Tirei uma foto da parede com o celular, sinalizei onde eu pretendia furar e encaminhei para o meu pai: “se eu furar aqui, acerto um cano?”A resposta foi definitiva (e emocionante): “só tem como saber furando”.

Ainda não muito convencida, telefonei. Argumentei com meu pai, analisamos a parede por telefone, pedimos a sugestão da minha mãe que se absteve. Ela não gosta de inundações, detestaria se sentir responsável. Limitou-se a sugerir que eu usasse galochas e capa de chuva.

Cheia de coragem, estufei o peito, arranquei a aba da caixa. Medi a altura desejada e colei com fita isolante – não encontrei o durex! – exatamente onde a máquina de secar deveria ficar. Essas secadoras de hoje em dia são espertíssimas, como não querem ficar tortas, vêm com os furos marcados na aba superior da caixa. Tudo a prova de erros.

Ou quase.

Convenci o marido que poderíamos furar convictamente ali:

-      -  Meu pai disse que nós podemos furar aqui.

     Ele me olhou de cima da escada. Furadeira na mão. Ar questionador:

-       - Teu pai disse que aqui não passa cano?
-     - Mais ou menos, amor... Não foi beeem isso que ele disse. Disse que a gente podia furar!
      - Então aqui não passa cano...
-       - Fura, amor, fura!!!

Saltitei pela área de serviço com os olhos arregalados tentando esconder o guarda-chuvas e as galochas que já estavam de sobreaviso. O marido conferiu a broca. Seis. Certo. Broca seis. Posicionaou a furadeira e... Adivinhem o que aconteceu???

Uma viga. 

Sim. Acertamos uma viga e a broca não furou nada além do rejunte das pastilhas. Frustrante. Nos preocupamos tanto com os canos  e acabamos vencidos por uma viga marota no meio da parede. Lady Murphy me adora.

Vamos esperar que apareça o tal moço-que-sumiu.

Enquanto isso, que bom que tem feito sol! 







Comentários

Carlos disse…
Já acertei o cano 2 vezes...
Da próxima, vou ligar para o teu Pai!!!!!
Uma furadeira de impacto fura uma viga... Boa Sorte!!!
Carlos disse…
PS. posso fazer um Poster da foto da capa??

Postagens mais visitadas deste blog

simpatia para parar de chover

Só para seguir a tradição, chove. Nos primeiros dias das minhas férias na praia é sempre o que acontece. O primeiro dia geralmente tem um sol sedutor, um calor de matar, mar lindo. Depois chove. Eu gosto de chuva. Mesmo na praia, mesmo de férias. Mas também gosto de aproveitar o mar, a areia, gosto de caminhar, de tostar no sol e ficar enfarofada junto com o meu filho, usar chinelos em vez de galochas.
Por isso aprendi várias simpatias!
Sueli, que trabalha na minha casa desde a pedra fundamental, disse que se deve jogar um punhado de sabão em pó no telhado. Pedir para Santa Luzia limpar o tempo. Já fiz isso. Considerando o preço do sabão em pó, gostaria de saber se a santa poderia limpar o tempo com sabão em barra. Sem falar que no ano passado sofri um pequeno acidente Bem na horinha que fui jogar o sabão, bateu um vento que trouxe todo o pozinho azul direto para o meu rosto. Nunca tive olhos e boca mais brancos! Sem manchas desde a primeira lavagem.
A avó do meu amigo Felipe, Dona Sa…

a noiva do vento

Peça para uma criança definir o vento. Eu apenas acreditava na existência real do ar quando ele virava vento. Quando era tomado de força, ganhava forma, movimento, atiçava a minha curiosidade. A observação do vento ainda atrai os pequenos. Na pracinha aqui perto havia uma menina sentada à sombra com a mãe. Olhava com atenção as folhas secas que trocavam de lugar no chão. Nem balanço, nem gangorra, a garota estava descobrindo o vento.
O vento tem intimidade com a paixão.
Oskar Kokoschka pintou A NOIVA DO VENTO com pinceladas desesperadas, cores nervosas, num quadro que emoldura a própria enxaqueca do abandono. Na obra, uma mulher adormecida sobre um corpo masculino, cujos olhos não passam de órbita vazia – tradução da ausência de vida. A mulher não o deixa, mesmo que ele já a tenha deixado. Mesmo que ele já esteja morto. A ausência de qualquer conotação sexual pela ausência de cores quentes (vermelho, laranja) e o excesso de tudo aquilo que pode faltar, que remete ao gelo e à solidão pe…

joelho

Coisa bem feia é joelho. Não me afeiçoa a palavra, nem a parte do corpo, em que pese reconheça a importância. Tanto reconheço, que se eu jurar algo pelos meus joelhos, será verdade. Justifico: me falta a memória para lembrar quando a expressão surgiu, talvez, nos idos de 2010. Acho. Eu fui muito dramática em 2010.
Pode ser que, embalada por um café passado, quase frio e sem açúcar, não menos amargo que a pauta da conversa com um amigo, tenha surgido a dúvida sobre algum sentimento que profetizei.
“Jura" - ele deve ter perguntado. “Pelos meus joelhos, juro pelos meus joelhos!” - lembro de ter respondido.
Os joelhos são feios e úteis. São complicados e importantes. Entre o fêmur, a tíbia e a fíbula; colaterais, cruzados e meniscos. É como o amor. Entre o eu te amo, a entrega e a vida; medos, expectativas, preservação.
Por que as crianças estão sempre com os joelhos ralados? Porque são destemidas. Até que se abra o primeiro corte, que se faça a primeira cicatriz. Até que o pai advirta.E…