segunda-feira, 26 de agosto de 2013

afinidade

Chove há cinco dias. Com pouca folga entre os pingos miúdos e os mais encorpados. Chove mesmo. Lamento por quem não aprecia a beleza da cor acinzentada das manhãs. Lamento por quem não consegue sorrir para o dia amoado diante da janela.

Eu amo a umidade que cola na pele. Adoro quando as gotas caem em mim, quando preciso correr de um canto até outro procurando por abrigo. Acho poético quando a água escorre no vidro, uma lágrima encontrando a outra, virando rio, corredeira, poça na canaleta da janela.

Ouço pouca música quando chove porque os pingos fazem sinfonia, inventam som, tocam de improviso. É melodia natural.

Gostar da chuva é uma arte. O tempo é trabalhoso. Favorece menos qualquer coisa que se faça fora da cama. Favorece mais qualquer coisa que se faça no fogão. As pessoas ficam mais sérias, menos falantes, austeras. Rabugentas.

O meu gato Tobias gosta. Se ajeita na frente das janelas do apartamento para admirar a cidade. Ele mia para a chuva. É de alegria.

Gostar da chuva é incomum.

Há fluidez nos atos de pessoas que têm afinidades. As atitudes acontecem sem combinações prévias, sem acertos, sem convites. Uma noite de gravar na memória se desenha sem querer. Tatuagem feita de retina e demais sentidos. O destino une as peças do quebra-cabeça.

Voltamos de uma festa munidos de uma garrafa de vinho para beber em casa. Ao entrarmos na garagem, todas as vagas estavam ocupadas. Chovia. Quase onze horas da noite. Não havia estrelas no céu, mas abrimos o teto do carro. As gotas da chuva não eram uniformes ou ritmadas. Eram displicentes como um domingo à noite.

Desligamos o motor, deitamos os bancos e ficamos olhando a chuva. Sentido vertical, fluxo nuvem-chão. Estatelando a água naquela porção de vidro em que nossos olhos estavam grudados enquanto dentro do carro havia apenas a nossa respiração e o toque das mãos se fazendo carinho.

Quando nos olhamos, começamos a rir. A naturalidade com que fizemos tudo, nosso momento de silêncio com o testemunho único da chuva.

Afinidade: essa mágica que a vida faz conspirando encaixes simétricos no universo.





(e é claro que quando vagou lugar, estacionamos o carro e bebemos nosso merecido vinho em casa!)


smack!
Vem, anda comigo pelo planeta
Vamos sumir!
Vem, nada nos prende, ombro no ombro
Vamos sumir!

Não importa que Deus
Jogue pesadas moedas do céu
Vire sacolas de lixo
Pelo caminho

Se na praça em Moscou
Lênin caminha e procura por ti
Sob o luar do oriente
Fica na tua

Não importam vitórias
Grandes derrotas, bilhões de fuzis
Aço e perfume dos mísseis
Nos teus sapatos

Os chineses e os negros
Lotam navios e decoram canções
Fumam haxixe na esquina
Fica na tua

Vem, anda comigo pelo planeta
Vamos sumir!
Vem, nada nos prende, ombro no ombro
Vamos sumir!

Não importa que Lennon
Arme no inferno a polícia civil
Mostre as orelhas de burro
Aos peruanos

Garibaldi delira
Puxa no campo um provável navio
Grita no mar farroupilha
Fica na tua

Não importa que os vikings
Queimem as fábricas do cone sul
Virem barris de bebidas
No rio da prata

Boitatá nos espera
Na encruzilhada da noite sem luz
Com sua fome encantada
Fica na tua

Poetas loucos de cara
Soldados loucos de cara
Malditos loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Parceiros loucos de cara
Ciganos loucos de cara
Inquietos loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Vem, anda comigo pelo planeta
Vamos sumir!
Vem, nada nos prende, ombro no ombro
Vamos sumir!

Se um dia qualquer
Tudo pulsar num imenso vazio
Coisas saindo do nada
Indo pro nada

Se mais nada existir
Mesmo o que sempre chamamos real
E isso pra ti for tão claro
Que nem percebas

Se um dia qualquer
Ter lucidez for o mesmo que andar
E não notares que andas
O tempo inteiro

É sinal que valeu!
Pega carona no carro que vem
Se ele não vem, não importa
Fica na tua

Videntes loucos de cara
Discrentes loucos de cara
Pirados loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Latinos, deuses, gênios, santos, podres
Ateus, imundos e limpos
Moleques loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Gigantes, tolos, monges, monstros, sábios
Bardos, anjos rudes, cheios do saco
Fantasmas loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Vem, anda comigo pelo planeta
Vamos sumir!
Vem, nada nos prende, ombro no ombro
Vamos sumir!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

zzzz zumbis

Não sei bem de quem foi a ideia, mas numa dessas tardes de folga resolvemos ir ao cinema. Adoramos cinema, mas sempre que sobra um tempinho nos enrolamos tanto que perdemos todos os horários dos filmes que queremos assistir.

Nossa impontualidade desafia a paixão pela sétima arte. Até as comédias românticas têm emoção: nós dois correndo de mãos dadas, esbaforidos, quase pulando as fitas que organizam as filas. Ainda bem que inventaram os trailers. Ainda bem que inventaram as animações sobre as saídas de incêndio, normas de segurança, normas de etiqueta e todo o bláblábá que atrasa o início da sessão.

Quando corremos o risco de chegar na hora certa, inventamos um suco pelo meio do caminho. Não vale aquele de apertar o botão para encher o copo. Tem que ser daqueles que se pode escolher trinta ingredientes, alguns vêm da Amazônia, com nomes estranhos. Depois ainda tem que responder a um questionário. Gelo? Açúcar? Coado? Canudo normal ou tubo de PVC? CPF na nota?

A vida com emoção é melhor. Cinema, então...

Depois de atrasar tudo que podemos – e conseguimos -, entrar na sala já escura, tentando focar a fileira “H” e os acentos vinte e três e vinte e quatro. Puxa o acento da cadeira, senta, abre a bolsa, procura o celular, silencioso. Pronto. Espera, óculos 3D. Agora sim, pronto. É que escolhemos um filme de zumbis. Dizem que é possível sentir o bafo dos zumbis quando se assiste em 3D.

Não gostamos de filmes de terror, nem de monstros, nem de zumbis, porém, era o que a casa oferecia naquele momento. E por que não?!

Fizemos constatações maravilhosas no cinema: sempre tem alguém que faz muito barulho com um saco gigante de pipoca por perto. A pessoa praticamente mergulha, faz salto ornamental e nada no pacotão. Outra coisa, a pessoa que senta no meio da fileira é a que mais sente vontade de ir ao banheiro. As estatísticas comprovam que em 40% das vezes isso acontecerá quando a mocinha estiver prestes a ser devorada pelo zumbi. As estatísticas também comprovam que em 50% das vezes esta pessoa que vai ao banheiro pisará no seu pé. Em outros 50% esta pessoa acertará os seus joelhos.

Também percebemos que os belos nunca morrem, nem que o avião exploda e caia. Nem que um pedaço da fuzelagem atravesse o bonito. Aprendemos que os zumbis são mortos, mas não são bobos e que mesmo com medo deles, o herói sempre pode beber uma latinha do refrigerante que investiu na película. E não era diet porque quem é herói toma refri sem engordar!

Lá pelo meio do filme, fizemos a melhor constatação. Olhamos um para o outro por cima dos óculos 3D, os dedinhos entrelaçados no braço da cadeira. Um suspiro, um bocejo. Dois cafés!

-       - Amor, o meu é sem açúcar!


Zumbis dão muito sono.



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

a roupa dele



Fui sócia da minha irmã na adolescência. Ela cresceu rápido, éramos magrelas. Mesmo com cinco anos de diferença, igualávamos em tamanhos e proporções. Nossa sociedade dividia roupas e sapatos. Não precisávamos comprar dois vestidos iguais. Nem arriscar sair de gêmeas que só mudam a cor da vestimenta. O armário era coletivo. Nossos casamentos foram um divórcio. Inventariamos as roupas, dividimos os bens. Nossos armários - tão amigos – ficaram distantes.

Adorava as manhãs que ela invadia meu quarto procurando um casaco preto ou uma camisa, atrasada para os plantões. Era quando me acordava antes da hora, porém era como nos víamos uns minutinhos por dia. Às vezes a gente mora com a pessoa e as horas insistem em separar os encontros.

Hoje não tenho mais o armário de irmã para dividir.

Hoje o meu armário é gêmeo siamês do armário do meu marido. Acordo antes, vou me vestir e quase não resisto à tentação de usar as suas roupas. Se vou ficar muito tempo longe, dou um jeito de incorporar uma peça dele ao meu figurino. Uma camisa, uma manta, uma bota de inverno que calço com duas meias. Qualquer tecidinho dele já me agrada.

O closet é a nossa conta conjunta.

Comecei como começam os alcóolatras: uma dose, uma meia. Depois fui aumentando, uma vez por semana saía de casa com alguma camisa, um casaco. Hoje em dia, não se passam vinte e quatro horas sem que eu substitua o corpo dele dentro de alguma roupa. E mais! Já estou abrindo as portas do lado dele antes das minhas para ver o que eu quero usar.

É meu jeito de morar nele. Unir a vida, unir o corpo, unir as roupas. Já não diferencio mais onde eu começo e ele acaba. Muito menos o contrário. Quando percebemos a nossa unidade, tão natural, ficamos sorrindo com os olhos um para o outro.

E eu amo quando ele meio dormindo me diz que estou linda pela manhã, vestida dele.


Não existe intimidade maior do que usar as roupas do marido. A camisa dele em mim é o abraço do corpo ausente.





De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha

Você esconde a mão, diz que é Napoleão
Boa parte de mim, acredita que sim
Se eu converso com ar, no meio do jantar
Você espera a vez dele de falar
Você fala chinês, pela primeira vez
Eu dou opinião, num perfeito alemão
Se eu emito um som que você acha bom
A gente faz um dueto fora do tom

De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha

Você fala chinês, pela primeira vez
Eu dou opinião, num perfeito alemão
Se eu emito um som que você acha bom
A gente faz um dueto fora do tom

De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha