sexta-feira, 2 de agosto de 2013

a roupa dele



Fui sócia da minha irmã na adolescência. Ela cresceu rápido, éramos magrelas. Mesmo com cinco anos de diferença, igualávamos em tamanhos e proporções. Nossa sociedade dividia roupas e sapatos. Não precisávamos comprar dois vestidos iguais. Nem arriscar sair de gêmeas que só mudam a cor da vestimenta. O armário era coletivo. Nossos casamentos foram um divórcio. Inventariamos as roupas, dividimos os bens. Nossos armários - tão amigos – ficaram distantes.

Adorava as manhãs que ela invadia meu quarto procurando um casaco preto ou uma camisa, atrasada para os plantões. Era quando me acordava antes da hora, porém era como nos víamos uns minutinhos por dia. Às vezes a gente mora com a pessoa e as horas insistem em separar os encontros.

Hoje não tenho mais o armário de irmã para dividir.

Hoje o meu armário é gêmeo siamês do armário do meu marido. Acordo antes, vou me vestir e quase não resisto à tentação de usar as suas roupas. Se vou ficar muito tempo longe, dou um jeito de incorporar uma peça dele ao meu figurino. Uma camisa, uma manta, uma bota de inverno que calço com duas meias. Qualquer tecidinho dele já me agrada.

O closet é a nossa conta conjunta.

Comecei como começam os alcóolatras: uma dose, uma meia. Depois fui aumentando, uma vez por semana saía de casa com alguma camisa, um casaco. Hoje em dia, não se passam vinte e quatro horas sem que eu substitua o corpo dele dentro de alguma roupa. E mais! Já estou abrindo as portas do lado dele antes das minhas para ver o que eu quero usar.

É meu jeito de morar nele. Unir a vida, unir o corpo, unir as roupas. Já não diferencio mais onde eu começo e ele acaba. Muito menos o contrário. Quando percebemos a nossa unidade, tão natural, ficamos sorrindo com os olhos um para o outro.

E eu amo quando ele meio dormindo me diz que estou linda pela manhã, vestida dele.


Não existe intimidade maior do que usar as roupas do marido. A camisa dele em mim é o abraço do corpo ausente.





De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha

Você esconde a mão, diz que é Napoleão
Boa parte de mim, acredita que sim
Se eu converso com ar, no meio do jantar
Você espera a vez dele de falar
Você fala chinês, pela primeira vez
Eu dou opinião, num perfeito alemão
Se eu emito um som que você acha bom
A gente faz um dueto fora do tom

De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha

Você fala chinês, pela primeira vez
Eu dou opinião, num perfeito alemão
Se eu emito um som que você acha bom
A gente faz um dueto fora do tom

De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha

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