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zzzz zumbis

Não sei bem de quem foi a ideia, mas numa dessas tardes de folga resolvemos ir ao cinema. Adoramos cinema, mas sempre que sobra um tempinho nos enrolamos tanto que perdemos todos os horários dos filmes que queremos assistir.

Nossa impontualidade desafia a paixão pela sétima arte. Até as comédias românticas têm emoção: nós dois correndo de mãos dadas, esbaforidos, quase pulando as fitas que organizam as filas. Ainda bem que inventaram os trailers. Ainda bem que inventaram as animações sobre as saídas de incêndio, normas de segurança, normas de etiqueta e todo o bláblábá que atrasa o início da sessão.

Quando corremos o risco de chegar na hora certa, inventamos um suco pelo meio do caminho. Não vale aquele de apertar o botão para encher o copo. Tem que ser daqueles que se pode escolher trinta ingredientes, alguns vêm da Amazônia, com nomes estranhos. Depois ainda tem que responder a um questionário. Gelo? Açúcar? Coado? Canudo normal ou tubo de PVC? CPF na nota?

A vida com emoção é melhor. Cinema, então...

Depois de atrasar tudo que podemos – e conseguimos -, entrar na sala já escura, tentando focar a fileira “H” e os acentos vinte e três e vinte e quatro. Puxa o acento da cadeira, senta, abre a bolsa, procura o celular, silencioso. Pronto. Espera, óculos 3D. Agora sim, pronto. É que escolhemos um filme de zumbis. Dizem que é possível sentir o bafo dos zumbis quando se assiste em 3D.

Não gostamos de filmes de terror, nem de monstros, nem de zumbis, porém, era o que a casa oferecia naquele momento. E por que não?!

Fizemos constatações maravilhosas no cinema: sempre tem alguém que faz muito barulho com um saco gigante de pipoca por perto. A pessoa praticamente mergulha, faz salto ornamental e nada no pacotão. Outra coisa, a pessoa que senta no meio da fileira é a que mais sente vontade de ir ao banheiro. As estatísticas comprovam que em 40% das vezes isso acontecerá quando a mocinha estiver prestes a ser devorada pelo zumbi. As estatísticas também comprovam que em 50% das vezes esta pessoa que vai ao banheiro pisará no seu pé. Em outros 50% esta pessoa acertará os seus joelhos.

Também percebemos que os belos nunca morrem, nem que o avião exploda e caia. Nem que um pedaço da fuzelagem atravesse o bonito. Aprendemos que os zumbis são mortos, mas não são bobos e que mesmo com medo deles, o herói sempre pode beber uma latinha do refrigerante que investiu na película. E não era diet porque quem é herói toma refri sem engordar!

Lá pelo meio do filme, fizemos a melhor constatação. Olhamos um para o outro por cima dos óculos 3D, os dedinhos entrelaçados no braço da cadeira. Um suspiro, um bocejo. Dois cafés!

-       - Amor, o meu é sem açúcar!


Zumbis dão muito sono.



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