domingo, 8 de setembro de 2013

aprendi na cozinha

Das coisas que aprendi na cozinha – com e sem ajuda. Primeiro: prefiro não ter ajuda. Mas nem penso em dizer isso quando meu marido resolve abrir as tampas. Muito menos quando ele coloca uma mostarda vencida de origem desconhecida no meu molho. A cumplicidade não tem marca. E não sabe cozinhar. Confie no resultado.

Também aprendi que qualquer coisa feita no almoço pode ser transformada em janta das seguintes formas: acrescentando arroz, acrescentando massa ou acrescentando ovo. No último caso ainda se pode optar pela frigideira ou pelo forno. Da mesma maneira os casais que se aborrecem com a rotina podem ousar para requentar a relação. Acrescente mais carinho, acrescente cuidado. Proponha um banho em dupla, uma massagem nos pés ao acordar. Sirva um vinho às três da tarde de domingo, abra a janela e deixe a cidade entrar. Brindem quando os olhares se cruzarem.

Gelo. Comprar um sacão de gelo ocupa lugar demais. As forminhas são uma invenção genial. Porém, a tarefa que eu acho mais complicada e tento o máximo prorrogar é encher aqueles quadradinhos com água na medida certa, caminhar equilibradamente até a geladeira, abrir a porta de cima – sem que caia um pingo no chão – e guardar a forminha. Na infância pensava que o gelo vinha da água por mágica do frio. Depois me explicaram que era um fenômeno da física. O que é importante, porque não há lei da física que mantenha um bom relacionamento sem o exercício do equilíbrio. Não permita que caiam pingos de discórdia no chão do seu relacionamento. Evite os tombos. Mantenha os passos firmes e os olhos na forminha. Não coloque mais água do que o necessário. Saiba a hora de parar. Reconheça que não há necessidade de transbordar em tudo. Se dedique a aprender os limites. Os seus. Os dele.

Aprendi que prazo de validade é uma coisa relativa. Já comi iogurte do mês passado e sobrevivi sem uma cólica. Aquilo que valia até ontem não ficará podre hoje, na virada do relógio. Seja flexível. Não estipule prazos radicais para mudanças radicais. Não peça milagres instantâneos, até o macarrão precisa de pelo menos três minutos para ficar pronto.

Experimentar é um verbo importante para quem cozinha. Prove o sal. Prove o açúcar. Prove a temperatura. Experimente coisas que nunca usou – isso inclui as roupas dele. Experimente a temperatura dele com a própria pele, o sabor. Uma pessoa tem cheiros, cores e sabores que podem render um cardápio digno de banquete.


Ah, mais uma coisa: nunca esqueça de desligar a cafeteira. Não é a cozinha que deve pegar fogo...




Quando eu chego em casa nada me consola
Você está sempre aflita
Lágrimas nos olhos, de cortar cebola
Você é tão bonita
Você traz a coca-cola eu tomo
Você bota a mesa, eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como
Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não aguento
Você está tão curtida
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Você não acredita
Traz meu café com suita eu tomo
Bota a sobremesa eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como
Você tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero é ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo

domingo, 1 de setembro de 2013

a noiva do vento



Peça para uma criança definir o vento. Eu apenas acreditava na existência real do ar quando ele virava vento. Quando era tomado de força, ganhava forma, movimento, atiçava a minha curiosidade. A observação do vento ainda atrai os pequenos. Na pracinha aqui perto havia uma menina sentada à sombra com a mãe. Olhava com atenção as folhas secas que trocavam de lugar no chão. Nem balanço, nem gangorra, a garota estava descobrindo o vento.

O vento tem intimidade com a paixão.

 Oskar Kokoschka pintou A NOIVA DO VENTO com pinceladas desesperadas, cores nervosas, num quadro que emoldura a própria enxaqueca do abandono. Na obra, uma mulher adormecida sobre um corpo masculino, cujos olhos não passam de órbita vazia – tradução da ausência de vida. A mulher não o deixa, mesmo que ele já a tenha deixado. Mesmo que ele já esteja morto. A ausência de qualquer conotação sexual pela ausência de cores quentes (vermelho, laranja) e o excesso de tudo aquilo que pode faltar, que remete ao gelo e à solidão pelo uso dos diversos tons de azul, verde e cinza que não permitem identificar qualquer paisagem coerente.

O quadro pede ajuda. É uma obra de ser vista em silêncio, porque ela grita. Chora. Sofre pela harmonia que existe entre a presença e a ausência. A paixão fugiu do corpo.

Kokoschka pintou a mulher. Alma e ele tinham uma relação tumultuada, o amor e a paixão eram alimentados pela intranquilidade. Ela reconheceu que o relacionamento entre os dois era inviável. Não aprendeu a se dedicar a Oskar. Não foi dele. Alma, que era viúva, jamais esqueceu o falecido marido, Gustav Mahler. Era a noiva do vento. Oskar tirou dela a inspiração para sangrar em tintas. Expressou seu sofrimento em forma de arte. 

Noiva de uma força que a tomava de paixão, mas que nunca poderia ter. 

Quantas paixões são despertadas pelo vento? Quantas pessoas investem o amor numa flutuante e leve rufada de ar, que vai levar as folhas, que pode se transformar em furacão, mas que vai passar porque não há forma de existir.

O amor. A angústia. Cavalos que correm como favoritos nas apostas sentimentais. Um dá ao outro a motivação para chegar na frente, um tira do outro a força de cruzar antes a linha de chegada.

A NOIVA DO VENTO representa o abandono do artista. É o reconhecimento da utopia, da fragilidade do seu devaneio, o fracasso pela ilusão de ser amado por uma mulher que não se livrará do passado.

Esta noite acordei com um suspiro forte do meu marido. Ele fez o meu cabelo mexer com o vento da respiração enquanto me abraçava. Não sou a noiva do vento. Amo um homem que me faz vento para que eu saiba que o amor existe, ainda que eu esteja dormindo. Ainda que eu não enxergue, me sinto amada. Ele é a minha realidade.


Eu fico toda brisa...



No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

(Quintana)